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Capítulo 3

Author: Rúbia
Lavínia teve um sonho.

Sonhou que havia perdido completamente a vergonha e se agarrava a um homem bonito, recusando-se a soltá-lo por nada.

No sonho, fizera coisas que jamais teria coragem sequer de imaginar acordada.

Tudo parecia tão real que, em algum momento, Lavínia já não soube mais dizer onde terminava o sonho e começava a realidade.

Ela se mexeu devagar.

Além da dor de cabeça, sentia o corpo inteiro dolorido, pesado de um jeito estranho.

Com esforço, abriu os olhos.

A claridade forte a fez franzir o rosto. Lavínia ergueu o braço para se proteger do sol, ainda atordoada.

Então percebeu que havia algo errado.

O apartamento velho que alugava só recebia sol à tarde.

Era impossível aquela luz toda entrar logo de manhã.

Aquilo não era sua casa.

Lavínia despertou de vez.

Sua cabeça começou a trabalhar freneticamente, tentando reconstruir a noite anterior.

As lembranças vieram aos poucos, uma atrás da outra.

Até que tudo convergiu para um único nome.

Dante.

Outros fragmentos surgiram logo depois, cada vez mais nítidos.

Lavínia virou o rosto de repente.

O homem ao seu lado estava tão perto que seu belo rosto ocupou todo o campo de visão dela.

Sua respiração parou.

Não tinha sido um sonho.

A ficha mal havia caído e Lavínia ainda nem sabia o que fazer quando seu corpo decidiu por ela.

Saiu da cama num salto, juntou as roupas espalhadas pelo chão e, cobrindo o peito com uma das mãos, correu descalça para fora do quarto.

Seu maior medo era ouvir Dante mandá-la parar.

Do lado de fora, vestiu-se às pressas junto à porta.

Lavínia retomou sua rotina no Lume Bar.

Durante os três dias seguintes, não viu Dante nenhuma vez.

Imaginou que um homem como ele não tivesse motivo para aparecer todos os dias num lugar daqueles.

Melhor assim.

Por alguns momentos, chegou até a acreditar que sua vida havia voltado ao normal, como se Dante Vasconcelos jamais tivesse cruzado seu caminho.

Depois de terminar uma apresentação naquela noite, Lavínia deixou o palco para descansar antes da próxima.

Não chegou muito longe.

Um homem bloqueou sua passagem.

Ela nunca o tinha visto antes.

— Você dança bem. Vem comigo para a sala reservada e dança só para mim.

Pouco depois, assim que os funcionários viram Lavínia ser levada, começaram a ficar inquietos.

— Rafa, e agora? O que a gente faz?

Gabriel Silva também não era qualquer um em Santa Bruma. Tinha familiares ocupando cargos públicos e influência suficiente para tornar a vida de uma pessoa comum um inferno.

Rafael ficou sério e pegou o celular.

— Fiquem de olho na porta. Eu vou fazer uma ligação.

Ele não tinha como comprar briga com Gabriel.

Mas também não podia permitir que Gabriel fizesse alguma coisa com a mulher de Dante dentro do próprio estabelecimento.

Se isso acontecesse, o Lume Bar provavelmente não sobreviveria às consequências.

Dentro da sala reservada, Gabriel já estava perdendo a paciência.

— Tira.

Naquela noite, Lavínia usava um vestido preto curto, justo ao corpo e preso por alças finas, além de saltos altos.

A roupa realçava sua silhueta esguia, e a pele exposta parecia ainda mais clara sob a iluminação baixa do ambiente.

Os homens espalhados pela sala mal escondiam a expectativa.

Lavínia ergueu a mão e prendeu um dedo na alça sobre o ombro.

Os olhos de Gabriel acompanharam o movimento imediatamente.

Sem mudar a expressão, ela lançou um olhar rápido para a porta.

Até o homem que estava mais próximo da saída havia avançado alguns passos, distraído com o que ela fazia.

Era a chance.

Lavínia puxou a alça do vestido para baixo e, no mesmo instante, virou-se e disparou em direção à porta.

Não chegou até lá.

Gabriel estava preparado.

Agarrou seu braço e a lançou de volta contra o sofá.

Lavínia reagiu no mesmo segundo.

Pegou o cinzeiro sobre a mesa e o ergueu, pronta para acertá-lo assim que ele se aproximasse.

Gabriel segurou seu pulso no ar.

— Eu sabia que você não ia facilitar.

Arrancou o cinzeiro de sua mão e lhe deu um tapa no rosto.

A cabeça de Lavínia virou com a força do golpe.

Um zumbido preencheu seus ouvidos.

Seus olhos arderam.

A raiva de não querer ceder e a impotência de perceber que talvez não conseguisse escapar se chocaram dentro dela.

— Se ficar quietinha e colaborar, sofre menos.

Gabriel estendeu a mão em direção ao peito dela.

Antes que conseguisse tocá-la, a porta foi aberta com um chute tão forte que bateu contra a parede.

O ar frio do corredor invadiu a sala.

— Quem é?

Gabriel se virou, irritado.

Lavínia também olhou.

Quando viu Dante entrando, entendeu pela primeira vez o que significava enxergar uma saída no momento em que já não restava nenhuma.

Dante não disse nada.

Entrou com a expressão fechada, pegou uma garrafa sobre a mesa e agarrou Gabriel pela gola, puxando-o para trás.

Então acertou a garrafa em sua cabeça.

"CRASH!"

O vidro se estilhaçou.

A bebida escorreu pelo rosto de Gabriel.

Dante não parou.

Havia várias garrafas sobre a mesa.

Ele pegou outra.

E outra.

Uma após a outra, as garrafas se quebraram contra a cabeça de Gabriel, cada golpe mais pesado que o anterior.

Quando já não restava nenhuma inteira, o líquido que escorria pelo rosto dele estava misturado a sangue.

Ninguém ousava se mexer.

Tudo acontecera rápido demais.

Lavínia levou alguns segundos para voltar a respirar normalmente.

Assim que conseguiu reagir, levantou-se e foi para trás de Dante.

Estava pálida.

O coração batia tão forte que parecia prestes a romper seu peito.

Dante nem sequer olhou novamente para Gabriel, que havia desabado no sofá e gemia enquanto segurava a cabeça.

Voltou-se para Lavínia, segurou sua mão e a levou para fora.

Nenhum dos homens de Gabriel tentou impedi-lo.

Assim que os dois desapareceram pelo corredor, Rafael entrou e tratou de dar ordens.

— Levem o Gabriel para o hospital.

A porta se fechou atrás de Dante e Lavínia.

Só então ele soltou a mão dela.

Seu olhar passou lentamente pelo rosto de Lavínia e desceu até o peito, que subia e descia depressa com sua respiração ainda ofegante.

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