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Capítulo 18

Author: Emíliana Vaz
last update Petsa ng paglalathala: 2021-08-10 08:36:22

18          

                                    

Os homens semeiam na terra o que colherão na vida espiritual: os frutos da sua coragem ou da sua fraqueza.

Allan Kardec

       Sophie acordou com uma forte cólica e sentindo uma estranha umidade entre as pernas. Sentou-se na cama sentindo o coração disparar e o sangue em suas veias correndo duas vezes mais rápido. Tocou na umidade e levou perto do nariz: cheiro de sangue. Pensou em gritar por socorro. Não, não podia chamar a atenção. Levantou-se devagar, vestiu um roupão pesado, e saiu do quarto. Além de sua escuridão, sentia a casa totalmente escura. A única maneira de ser rápida e não perder o seu bebê, era procurar a mãe que estava mais próxima. Foi até o quarto que Emília se alojou depois de Dario exigir o quarto que fora do casal, dizendo ser o mais confortável, e que ele pagara e tinha direito ao melhor. Não bateu, entrou e fechou a porta rapidamente.

    ─Mãe, me ajuda!

Emília acordou assustada e olhou-a sem entender nada.

    ─O que aconteceu?

    ─Busque Afroline... estou perdendo meu bebê...- ela foi até a cama e se deitou de qualquer jeito, a dor era insuportável. ─Não, grite, não corra, não chame a atenção! Por favor!

Emília saiu do quarto de pés descalços. Pôde ouvir vozes na cozinha, Dario e mais dois homens estavam rindo e conversando em tom baixo.

  Ela se esgueirou para a sala, e saiu pela porta da frente. Machucou os pés nas pedras, sentia os cortes, mas estava pouco se importando. Precisava salvar seu neto! E sua filha!

 Afroline acordou no primeiro chamado.

   ─Venha depressa! Sophie!

   As duas mulheres ficaram aliviadas pela casa estar às escuras. Assim nem a sombra delas era visível pelos homens na cozinha. Eram ordens de Dario, não queria ninguém no quarto de Sophie a noite, ou a trancaria como uma prisioneira na própria casa. Naquela semana, Sophie tentara fugir. Avisara a mãe, Afroline, e mesmo sob os protestos contra de ambas, arrumara pouca coisa, e pegara a estrada na madrugada. Dario sabia de tudo, pois tinha olhos e ouvidos por todo canto da estância. Deixou-a pegar um longo caminho para alcançá-la e ainda se divertir à custa dela depois de tanto trabalho.

    ─Como vocês dizem por aqui, te dei uma baita canseira, rapariga! - esbravejou com ela se debatendo em cima do cavalo dele. ─Não faça isso! É pior! Quanto mais vosmecê se debate, mais a guerra fica boa.

    ─Tu não perde por esperar, seu desgraçado!

    ─Se aquiete mulher! - a apertou de encontro a ele sentindo o perfume das magnólias. Estava tenso e com uma ereção doida. Desejava-a com loucura! Mas a ideia de possuí-la grávida de outro lhe dava nojo. ─É melhor para você. Lembra? Está grávida. Bebezinho na barriga. Potranca esperando cria! - zombava num tom sádico.

Sophie se aquietou e voltou com ele em silêncio. Percebera que seria perda de tempo. Ao chegarem em frente à casa, o dia amanhecia. Ela desceu do cavalo rapidamente, e ele a avisou antes de entrar.

     ─Mais uma escapada dessas que eu tenha que buscá-la, tranco você dentro daquele quarto. Total, vosmecê é cega, não vai fazer diferença o tempo lá dentro.

Sophie não conseguiu retrucar. Sentiu um tremor no ventre e um chute leve e sutil. Uma sensação tão maravilhosa que iluminou seu rosto. A vida respondendo dentro do corpo dela. A vida de outro ser! O milagre da vida!

A continuidade de um amor tão poderoso quanto o dela e o de Diogo. Ela era linda de qualquer jeito, constatou Dario, abismado com aquela expressão de felicidade.

    O bebê no ventre a lembrava de que ela não estava sozinha, e por tanto precisava se cuidar duplamente e parar de loucuras se quisesse ter o filho deles.

     ─Mais uma coisa... - ele falou num tom alto, pois ela virara as costas e já estava na porta sem dizer palavra. ─Não corte mais esses cabelos. É uma ordem!

Ela continuou de costas alisando a barriga com um sorriso emocionado. Seu filho estava mais ativo do que nunca! Precisava aquietar-se e ter aquela criança em paz. E desde então estava mais calada e sumida para não criar problemas para si.

  Afroline entrou no quarto de Emília seguida por ela.

   ─Estou com muita dor Afroline... sinto que estou perdendo o bebê...

   ─Ainda não. Fica quieta. - ela colocou as duas mãos em cima do ventre de Sophie. Ambas de olhos fechados. Afroline pôde ver o feto sem vida recebendo a energia de suas mãos. A luz que penetrou na pele de Sophie, ultrapassando os órgãos internos, útero, placenta, até chegar ao coraçãozinho que voltou a bater devagar, e mais forte, e mais... e por fim, atingir o ritmo normal.

Sophie teve um espasmo e abriu os olhos arregalados.

    ─Ele voltou...

    ─Sim. - disse Afroline segura.

Emília chorava de pé no meio do quarto. Fosse o que fosse aquele poder, aquele dom, que tantas vezes ela teve medo e renegou, hoje dava graças ao Senhor por ter colocado aquela mulher na vida dela.

     ─Não coma mais nada que venha daquela cozinha. - ela sussurrou no ouvido de Sophie. ─Peça para alguém de fora da casa trazer tua comida, chimarrão, café, água, o que for.

     ─Me deram algo para abortar, não é?

     ─Sim. E não impeça esse homem de fazer o que ele tem de fazer.

     ─Como assim? O que ele vai fazer? - Sophie estava numa ponte entre o medo e o ódio.

     ─Não interfira no meu destino. - Afroline a fez sentar-se e segurou-a em seus ombros. ─Eu tinha que estar aqui para salvar teu bebê esta noite. Já estava escrito.

Sophie entendeu, naquele momento, ao que ela se referia. Se tivesse tentado salvar Luzia, Afroline não estaria mais ali.

     ─Não tenho como, e nem posso explicar, apenas aceitar e trabalhar. Não condene Everaldo. Do jeito dele, ele amou muito vocês.

     ─Amou...?

Afroline deixou uma lágrima rolar pelas faces. Sophie podia sentir a tristeza nas mãos dela.

      ─Ele morreu?

      ─Há três noites. -ela segurou as mãos de Sophie, e ela pôde ver o pai sendo atingido por uma espada penetrando as suas costas e mais, o último pensamento dele para ela.

    “Me perdoe, Sophie...”

Sophie deixou um soluço escapar.

       ─Eu sei que é difícil, mas não deixe o ódio tomar posse do teu coração. Não deixe a vingança ordenar tuas ações. Te lembra, o perdão é a nossa salvação!

 Afroline se levantou da cama, olhou-a pela última vez, e saiu do quarto com passos lentos e seguros. Andou pelo corredor sentindo as luzes as suas costas. Uma segurança a invadiu e com ela a sensação de profunda paz.

Desceu as escadas lentamente, e ouviu quando Dario disse.

    ─Serve mais uma canha! O homem foi morto de surpresa. - riu com gosto. ─Não estava nem no front!

    ─Não, patrão. O homem que o senhor mandou fez tudo muito bem feito. E mandou dizer que em breve mandarão o corpo dele para casa.

Dario assentiu bebendo mais um gole da cachaça. Levantou o copo.

     ─E viva a revolução farroupilha e suas perdas inestimáveis! E hoje eu tenho muito que comemorar!

    Afroline continuou o caminho até a porta. Sabia que ele mandara matar Everaldo, só assim eliminaria qualquer possibilidade de intromissão em sua vida com Sophie. Quando a abriu sentiu que alguém a seguia com os olhos e desta vez não era um olhar do bem. Continuou com seus passos seguros, sentiu a presença da mãe, do pai, seus avôs, seus ancestrais africanos andando com ela, lado a lado. Sorriu abertamente ao ver a luz brilhando a sua frente. Sabia que cumprira sua missão sem nunca desviar do caminho traçado. Entrou na senzala à espera do desfecho que fora preparado para ela muito antes de vir para esta vida.

    Não demorou muito tempo para a senzala ser invadida por dois homens que a levaram para fora sem nenhuma resistência da parte dela. Dario a esperava e as suas costas uma de suas escravas, Elísia, macumbeira usando seus feitiços para o mal.

     ─Sua negra metida, vosmecê foi até Sophie e evitou que ela abortasse aquela cria, não foi?

Ela não respondeu. Continuou em silêncio o encarando. Ele a esbofeteou com força, e ela continuou firme, impassível e de pé.

     ─Corte as mãos dela! Não a matem. Deixe-a definhar no pátio para que todos na estância vejam. Quero ver agora até onde vai esse seu poder de cura! Quero ver vosmecê levantar inteira e vencer a morte!

 Sophie queria sair do quarto da mãe. Lutava para se desvencilhar dos braços dela, mas Emília a impediu. Ambas choravam desesperadas, abraçadas.

    ─Ela te pediu para que não interferisse! Ela quer te proteger! Por favor, filha! Eu sinto muito... Lembra das palavras dela, ou o tudo o que ela fez terá sido em vão!

     Afroline perdeu muito sangue sem o estancamento necessário, e morreu em seguida, deixando uma profunda tristeza pelo ar. A noite tinha um brilho diferente, as estrelas pareciam maiores e com muito mais luz, e a brisa soprava como uma linda melodia. Sophie foi aprisionada no quarto, após um ataque verbal e físico contra ele.

   O próprio Dario trancou as janelas com madeiras e a porta com a chave.

    ─O que espera conseguir com isso, seu monstro?

    ─Paz e sossego e uma boa noite de sono!

Ela riu com escárnio.

    ─Isso eu tenho certeza, tu nunca mais conseguirá uma boa noite de sono. E se existe um purgatório: tu terá um lugar garantido nele te esperando.

     ─Não tenho medo de tuas pragas, criatura! Tenho dinheiro, posso negociar até um lugar no paraíso se quiser. Não existe neste mundo e nem em qualquer outro, se é que existem outros, quem não se venda por um bom trocado. Fique quieta aqui dentro e ganhe essa cria para que possamos começar nossa vida juntos.

     ─Nunca!

     ─Veremos!

    O corpo de Everaldo foi entregue na estância. Sophie pôde sair do quarto para o velório e enterro, mas sempre vigiada fortemente pelos homens de Dario, que agora eram muitos.

Um pouco antes de Everaldo ser enterrado, ela se abaixou perto dele e sussurrou, “Eu não te perdoo. Muitas pessoas que eu amava morreram pelo teu mau negócio com esse infeliz assassino.”!

Com os olhos arregalados, Emília a viu se afastar, depois de ter ouvido as palavras da filha. Sophie estava com o coração cheio de mágoa, ressentimento, raiva e muita dor.

Tudo que ela queria era achar um jeito de sair dali com seu filho e ir atrás de Diogo, mas a barriga, agora saliente, a impossibilitava de se arriscar a andar de cavalo e muito menos se expor ao perigo de uma estrada. Precisava traçar um plano, e ter paciência, muita paciência.

  

     ─Poderia ao menos deixar minha filha sair do quarto.

     ─Não! Não posso, ela está louca e se tornou um risco para ela mesma. Ou a senhora quer vê-la morta por alguma estrada dessas por aí?

     ─Ela não vai fugir! Eu prometo! Eu tomo conta dela, eu...

     ─Dona Emília, faça um favor, me poupe de suas lamúrias, e principalmente... de seu choro irritante! - ele virou as costas e entrou na casa deixando-a ali parada perto da árvore das magnólias.

    Chorando, Emília correu para a casa de Yolanda. Encontrou Vera e sua irmã tomando chimarrão e sussurrando uma com a outra.

      ─Precisamos fazer alguma coisa. - disse Yolanda observando os olhares antagônicos das duas. ─Por favor, não vão brigar agora! Não é o momento! Estou tentando encontrar uma solução para tirarmos esse carrasco daqui com seu exército de capangas.

       ─E como faremos isso? Somos mulheres indefesas! - disse Vera.

─Só numa luta corpo a corpo. E olhe lá! Eu tive uma ideia. - disse Emília, limpando as lágrimas correntes. ─Vamos m****r alguém atrás de Diogo. Precisamos de ajuda. Qualquer ajuda será bem-vinda! Ele tem amigos e se souber o que está acontecendo com Sophie, virá sem pensar! E outra, ele não sabe da gravidez da minha filha!

       ─Tu acha que... - Vera nem terminou.

       ─Abrir fogo contra esse animal e seus capangas? Mas nem que se faça uma guerra aqui na estância, já é mais do que hora de colocar essa praga numa cova, que Everaldo colocou aqui dentro para nos assombrar e maltratar minha filha!

Vera se aproximou e segurou-a pelo braço com firmeza.

        ─Nunca vou gostar de ti pela traição que tu e o Justino me submeteste, mas neste momento, sou solidária e quero ajudar no que for preciso para tirar Sophie dessa situação. Sempre gostei das tuas filhas, embora continue achando que tu não vale nada.

Emília riu entre as lágrimas, e apertou a mão dela sobre seu braço. Houve um pesado silêncio onde somente as respirações eram ouvidas.

        ─Estamos esperando o quê?

Do lado de fora da casa, Elísia, a amante de Dario ouviu toda a conversa.

    A comida era levada no quarto para Sophie pelas mãos de Emília que, chegara a ameaçar as escravas de Dario na cozinha com uma faca, e se fosse preciso mataria uma delas. Ficava de olho no preparo e nos temperos usados em todas as receitas. Em tempo de tanta dificuldade, por conta da guerra, com a chegada de Dario havia uma fartura ostensiva e ofensiva.  Para os antigos escravos da casa e os empregados, ele mandara servir a pior comida, para os seus a melhor. Emília e ele tiveram outro confronto quando uma de suas vizinhas foi pedir ajuda para alimentar os filhos e ele negou.

     ─Tu não tem coração? Estamos em guerra! Olha a situação dessas famílias sem um homem para ajudar em casa. Estão passando fome!

     ─Elas não têm homem para ajudar nas lidas diária, mas conseguem homens para trepar com elas e engravidar como tua filha!

     ─Me respeite moleque!

Dario ficou com os olhos vermelhos de raiva, pegou-a pelo braço e tirou-a da cozinha de arrasto.

      ─Não me afronte, china velha! Eu mando aqui, esqueceu? E se dê por feliz de eu não proibir sua entrada na cozinha de vez! Vai cuidar de seus bordados e tomar seu mate! Agradeça-me de manter esse vício verde e amargo tão sem graça de vocês. Estou pagando uma verdadeira fortuna pela erva mate que vocês não bebem, mas exterminam o dia inteiro, suas desocupadas!

       ─Que Everaldo, que já está, e tu, queimem no fogo do inferno!

    Dario se levantou da cama, depois de ouvir cada palavra de Elísia.

    ─Então essas velhas têm um plano! - ele riu divertido. ─ Chamar reforços para acabar comigo! Começar uma guerra aqui na estância? Elas mesmas me deram uma excelente ideia. Levante da cama, reúna os homens na cozinha e dispense quem estiver pela volta.

    Elísia se levantou da cama obediente, se vestiu e foi cumprir com a ordem dele. Dario se vestiu e antes de descer, destrancou a porta do quarto de Sophie. Ela estava deitada encolhida na cama, a barriga num tamanho considerável. Os cabelos estavam na altura dos ombros, estava mais gordinha, e ainda mais bonita.

    ─Veio me envenenar ou me cortar algum pedaço?

    ─Vim saber como está. - disse ele sem importar com as palavras duras. ─Se está precisando de alguma coisa...

Ela deu um salto da cama e riu debochada. Usava um vestido de linho grotesco e largo.

     ─Preciso sim, meu senhor. Que tu suma do mapa! Que eu nunca mais escute tua voz, e nem tenha que suportar tua presença!

     ─Sinto muito, criatura. - ele foi até ela e pegou uma mecha do cabelo de cor rara. O que fez ela se afastar dele rapidamente com uma expressão de nojo. ─Não posso atender o seu desejo. Vosmecê vai ter que me suportar por muito tempo. Até sua morte. Ou a minha.

E ele saiu do quarto batendo a porta e trancando a chave.

         ─Isso é o que nós veremos! - ela grunhiu furiosa.

      Diogo estava a caminho de Cachoeira, no Jacuí, com uma tropa dos farroupilhas. Chegara a pedir para ser liberado.

     ─Não posso te liberar Diogo. Tu te tornaste uma pessoa vital no nosso pelotão. Principalmente neste momento de tamanha inquietude para os farroupilhas.

Ele não conseguia tirar Sophie de sua cabeça. Sabia que ela chegara bem em Viamão. Sabia do sucesso da entrega de suas charges para Bagre, o jornalista. Mas e agora com Everaldo morto? Justino morto? Os escravos na guerra?  Os primos dela longe? Não tinha conhecimento de homens na estância para ajudá-las.

    ─Maldita guerra! - resmungava exausto. Sentia fome de abrigo, de boa comida, do abraço de sua mãe, de estar com sua guria, do cheiro das magnólias. ─Talvez se eu a tivesse deixado ficar... - ele resmungava a uma boa distância dos companheiros, enquanto caminhava cada vez mais exausto. Nem percebera que já anoitecia. Ouvia o som da voz de Sophie, a risada gostosa, os gemidos em seu ouvido. Quando se deitava, sentia o corpo dela sobre o seu, o torturando, o aquecendo nas noites frias. O brilho do olhar parado, que era tão difícil acreditar que vivia na escuridão.

   Era ela que o mantinha vivo! Estava ali lutando pela causa que acreditava, a liberdade prometida aos negros. Lutava lado a lado com eles. Eram guerreiros, corajosos, fora salvo muitas vezes por seus amigos, alguns conhecidos e outros não. Era grato, mas dali para frente, sua única causa seria o seu amor por ela. Ficaram muito pouco tempo juntos, queria lhe proporcionar o melhor.

    ─Quando esta guerra acabar, pego minha guria, compro um pedacinho de terra por esses pampas, e vou criar raiz e família. - dissera ele a Tião, Álvaro e Barnabé numa conversa.

Álvaro riu descrente.

    ─Duvido tu viver preso num mesmo lugar.

    ─Depois dessas andanças por esses pagos, tchê? Isso mata um homem! Envelheci uns vinte anos! E olha que eu já poderia estar bem morto. O que me sustenta é esse amor por ela.

Barnabé sorriu com cumplicidade.

     ─Quero muito poder voltar para casa, para minha neguinha e meus dois filhos. Só que dessa vez, todos nós livres! - ele riu contente. ─Imagina que alegria, meus filhos crescerem livres! Serem donos deles mesmos!

Diogo, Álvaro e Tião ficaram emocionados. Os olhos de Barnabé brilhavam cheios de esperança. Tião pensava em sua doce loira que deixara a sua espera na esperança de que quando a guerra acabasse, pudessem se casar, e formar uma linda família.

     ─Eu só peço aos meus Orixás que eu chegue ao fim da guerra com vida para dar essa alegria a minha família. Sou muito grato a tua guria, Diogo, por ter me salvo.

     ─Ela é excepcional! E tu vai voltar vivo, é por isso que estamos aqui. Pela liberdade de vocês!

Tião ouvia a tudo calado e pensativo. Quando ficaram a sós, Diogo perguntou o que o incomodava.

       ─Não sei se esse acordo de liberdade para os lanceiros negros será cumprido. Algo me diz que não...

       ─Será cumprido! Nós estaremos lá para cobrar!

       ─Se estivermos vivos, Diogo.

       ─Tu dúvida depois de tudo que já passamos juntos? Erva daninha não morre! Vaso ruim não quebra! - ele riu de suas citações.

        ─Tu disse muito bem, meu amigo. Nós não somos ruins.

Diogo o olhou com atenção, preocupado com o ceticismo de Tião sempre tão otimista. Mas podia entender, aquela guerra acabara com muitos bons sentimentos na maioria dos homens, os tornando mais duros e pessimistas e menos esperançosos.

        ─Lembra quando tínhamos dez anos e tomávamos banho no rio todo final de tarde? - perguntou Tião com o olhar distante.

        ─Lembro. Era a melhor hora do dia.

        ─Tua única preocupação, era chegar em casa limpo para dona Eva não brigar contigo. – Tião riu com o olhar perdido. ─A minha era chegar ao vale das Sombras sem ser pego por algum capitão do mato. E todo dia eu me arriscava para ter aquele momento contigo no rio.

        ─Está enganado, Tião, a minha preocupação era manter acesa a chama da liberdade em nós dois. Fortalecer cada vez mais a nossa amizade. Foi ela que nos trouxe aqui, nesta luta que, agora, parece sem sentido, mas mudou e mudará o destino de muitos homens.

Diogo saiu de suas lembranças, suspirou apertando o passo. Esperava sinceramente que todos eles voltassem vivos para casa

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