Masuk17
"Todos os seres humanos experimentaram vidas anteriores... Quem sabe quantas formas físicas o herdeiro do céu ocupa, antes que ele possa compreender o valor daquele silêncio e solidão, cujas planícies estreladas são apenas a antecâmara dos mundos espirituais?"
Honoré de Balzac - Escritor Francês (1.799 - 1.850 d.C.)
Dois dias depois na calada da madrugada, Sophie foi acordada por Verona, agitada e trêmula.
─O que aconteceu?
─Vânia... - ela soluçou baixinho. ─Foi estuprada...
─O quê? - ela já estava em pé, enfiando a roupa de qualquer jeito. ─Quem fez essa monstruosidade?
─Um dos homens de Dario... esse sujeito a vinha perseguindo desde que chegou aqui...Ela estava com medo dele...
Ela sentia um ódio tão intenso no peito que lhe causava dor. Ouvira coisas demais no tempo de estrada. Não ia permitir que aquelas barbaridades acontecessem dentro de sua casa. Sim, por aquela era sua casa, suas terras! Mesmo que não fosse filha legítima de Everaldo, ainda assim, fazia parte da família. E aquela estância era tão sua como de qualquer outro membro de sua família.
─Como ela está?
─Em choque... Afroline está cuidando dela... - a outra sussurrou chorando.
─Me mostre quem é esse animal. Mas antes, pegue a minha pistola ali no meu armário.
Verona a obedeceu, sem tirar os olhos do rosto dela. Havia uma luz diferente em Sophie, além da maturidade, e principalmente uma fúria visível no olhar parado no vazio. Um sentimento jamais visto naquele rosto sempre tão meigo e cheio de energia. Algo de assustar! Uma força dominadora e segura.
Sophie examinou a pistola e pronta, vestida como um homem, mas com uma elegância de dar inveja a uma dama da corte, ela saiu do quarto ao lado da prima.
Sophie entrou no galpão. Pelo cheiro, sabia que havia dois homens ali, e estavam deitados em cima de algumas sacas displicentemente, conversando e rindo baixinho, enquanto fumavam palheiro. O sol despontava lá fora com certa timidez. Sophie podia sentir o calor. Eles pararam de conversar quando a viram. O estuprador, de voz grave e rouca, sentou-se rapidamente.
─O que quer? Aqui não é lugar da mulher do patrão estar.
─O lugar é meu, tudo isto aqui é meu, e não sou nada do teu patrão. E aqui neste lugar quem manda sou eu! E aqui, nas minhas terras, assassino e estuprador não tem vez. - ela levantou a pistola e com uma bela pontaria, acertou o tiro na testa do sujeito que não teve tempo nem de raciocinar. O outro fez menção de se mover, mas Verona e Afroline entraram também armadas.
─Isso é um aviso para todos os capangas do teu patrão. Quem tocar num fio de cabelo das mulheres da estância... não vai ver o anoitecer, muito menos o amanhecer, como teu amigo aí!
Na casa de sua tia Yolanda, que chorava desesperada pelo que acontecera a filha, Sophie foi direto ao quarto da prima. Ela estava encolhida na cama. Os olhos fixos no nada. Sophie podia sentir a sua dor. Devagar se sentou na beira da cama. Pegou a mão dela e apertou.
─Tu... o mataste...?
─Sim.
─Queria ter a tua coragem...
─Isso não é coragem... é o medo e a necessidade...E começo a ficar mais apavorada com essa facilidade que estou sentindo para matar.
─É para se defender! Nos proteger. Tu é cega prima, e tem muito mais visão do que todas nós.
Sophie segurou o pranto preso na garganta.
─Acha que isso me consola? Acha que gosto de viver na escuridão e não poder ver o bem e o mal a minha volta? Ter que conviver com esses dois extremos sem saber de que lado vou ser atacada? Um dia, lá atrás Vânia; eu aceitei minha cegueira. Hoje não. – ela suspirou sentindo o aperto da mão da outra. ─ Não posso ver o homem que amo, e não vou poder ver meu filho...
Vânia se sentou na cama, e apesar das dores, abraçou-a com força e carinho.
─Eu nunca disse que te amo prima?
─Creio que não... - Sophie riu sem graça. ─Falamos pouco em amor por aqui, não é? Em tempos de guerra, quem quer saber de amor? O motivo de tantas guerras... a falta de amor ao próximo.
─Eu sinto muito, Sophie.
─Use o que te aconteceu para te fortalecer e se defender. Tu enxerga! Ande de olhos abertos, e veja a maldade nos olhos do outro. Te proteja e ajude a proteger as outras mulheres da estância. O amanhã a Deus pertence, precisamos nos preocupar com cada dia passado aqui com esses animais que meu... que teu tio Everaldo colocou aqui dentro!
E Sophie convocou todas as mulheres na casa da tia, que ainda chorava inconformada.
─Aquiete o coração tia. - disse Sophie de maneira rude. ─Ninguém morreu! De hoje em diante uma protege a outra. Temos inimigos aqui dentro, convivendo conosco, e lá fora, que podem ultrapassar aqueles muros e cercas como já aconteceu. Estamos à deriva, somos mulheres, por tanto consideradas delicadas e indefesas. Isso é mentira! Nós sangramos. Nós parimos. Nós trabalhamos na roça, em casa, em qualquer lugar e profissão do mundo! Nós vamos à guerra! Nós podemos! Não se curvem. Não se amedrontem. E não andem a sós. Sempre em grupo. Uma cuidando da outra. Tempos difíceis, medidas drásticas. Superar o medo. Essa é nossa causa neste momento. Superar o medo do medo e não deixar o abutre do Dario fazer o que quer, e muito menos os capachos que ele trouxe para cá, ou qualquer outro homem que se aproxime com a ideia de nos subjugar, entenderam?
Emília foi até ela, com as duas irmãs do lado.
─Tu mudaste tanto filha! Tão corajosa e tão destemida...
─Não mãe, como todas aqui, tentando sobreviver a guerra, e ao carrasco que Everaldo nos presenteou. -ela ironizou.
Vera que ouvia a tudo calada se aproximou surpreendendo a todos com o que disse:
─Não julgue de maneira tão dura aquele que te criou como sangue dele. Da maneira dele, Everaldo te ama.
─Se me amasse não teria me negociado com esse monstro! E não se fala de um sentimento tão sublime como o amor, quando não se conhece de fato. - ela disse duramente encerrando a conversa.
Afroline a pegou na porta pelo braço. Mais uma vez, ela viu coisas que só conseguia com aquele poder magnífico de Afroline. Viu a imagem dela no front, o caramuru pronto para atirar em suas costas, Everaldo o matando com um tiro certeiro, e ele sentado num canto afastado, sozinho, chorando sua dor.
─O que quer me provar com isso, Afroline?
─Que ele também sofre por tudo que está acontecendo.
─Os sentimentos dele sobre mim não me interessam mais. Agora eu sei de toda a verdade. Meu pai está morto! Aquele que se preocupou comigo a vida inteira!
─Não se deixe endurecer Sophie. O que tu tinha de mais bonito era a pureza e a generosidade no teu coração.
─Em tempos de guerra, se tu for puro e generoso, é morto!
Ao entrar na casa principal, Dario a esperava na sala. E assim que ela avançou, ele a segurou pelo braço exibindo toda sua força e poder.
─Escute aqui, até agora fui tolerante com vosmecê. Mas a partir deste momento, não conte mais com minha bondade. Se me desafiar como fez, matando um dos meus homens, eu tomarei as devidas providências.
─Elas por elas! Tu mataste uma pessoa que vivia dentro desta casa muito antes de eu nascer. Comprovadamente, porque há suspeitas de tuas ordens em todas as outras mortes! Matei um dos teus homens. Troca justa! E se algum deles tocar na minha família, morrerá também! Sou cega, mas tu já percebeste que não sou uma incapaz!
─Vosmecê é muito valente para quem vive na escuridão. Mas não esqueça de que está grávida. Precisa de cuidados. Ou quer colocar a vida de seu filho em risco?
Uma sineta tocou na cabeça dela. Um aviso de que estava indo pelo caminho errado. Uma ameaça velada de que tudo poderia acontecer e que todo cuidado seria pouco, a partir daquele instante. Ela se soltou e foi para o seu quarto.
Dario subiu para o dele com passos vagarosos. Desfilando pela casa como o real dono. Era elegante, uma figura interessante e bonita, mas a maldade em suas entranhas era tão intensa que saía pelos poros. Entrou no quarto e pegou o quadro em cima da cama. Encontrou-o depois de uma busca no quarto dela. E se já estava interessado, agora estava perdidamente apaixonado por aquela beleza infinita pintada pelo tal Diogo.
─Vosmecê é minha, Sophie! Vai voltar a ser esta garota do quadro, vai amar e obedecer somente a mim, me dará filhos varões, e vamos ser uma linda e perfeita família feliz!
Diogo voltou da regressão cansado, e muito assustado. Procurou em volta e não a viu. Fitou Eloy.
─Onde ela está?
─Sumiu. Ela não conseguiu ficar mais tempo. Creio que todas essas lembranças a fazem sofrer. Por isso ela ainda está presa neste lugar.
─Ele é um monstro! Se tivesse como mudar tudo isso... e eu sinto, que vem coisa pior!
─O que aconteceu não tem como ser mudado, Diogo. E tenha deixado marcas, a única coisa que se pode fazer, é tentar curar.
─E o que acha que estou fazendo? Quero tirá-la daqui. Se ela tem um lugar melhor para ficar, eu vou até o fim. Se não fosse por ela, eu já teria partido. Tudo isso é loucura! Preciso de ar! - ele foi em direção a porta.
─Diogo, por favor, não beba.
Ele fitou-o nos olhos com raiva.
─Se eu pudesse juro que entraria em coma alcoólico. Tenho certeza de que seria a melhor coisa para esquecer que a mulher que eu amo é um fantasma! Gostaria muito que tivéssemos tido um final feliz, mas pelo que sinto... Sei também que beber agora, seria mais uma decepção para ela.
Quando Vilma abriu a porta se assustou. Não esperava vê-lo novamente.
─Posso entrar? - Diogo levantou as mãos. ─Estou sóbrio, e não tenho intenção de magoá-la.
─Eu nem deixaria. Estou vacinada contra certo escritor. - ela saiu do caminho. ─E se veio achando que vai ter uma trepada de brinde...
Ele riu divertido.
─Tudo que eu preciso é a companhia e o calor de uma mulher real.
─Hã?
─Nada, eu só quero conversar. Saber como você está.
─E tu te importas?
─Claro que sim. - nem ele acreditava no que acabava de dizer, mas era verdade. ─Me importo muito! Você é uma guria tri legal!
Ela sorriu embevecida, e beijou-o na face.
─Tá a fim de comer um churrasco?
─Onde?
─Na casa do meu irmão.
─Reunião de família? - ele coçou a cabeça preocupado.
─Quase isso, mas não se preocupe, não vou te obrigar a casar comigo. - eles riram. ─Só cuidado com o que tu fores fazer, ou dizer, meu irmão é delegado.
─Sério? Por que nunca me contou?
Eles foram em direção da porta, enquanto ela ia apagando as luzes.
─Porque eu sabia que tu fugirias de mim. Quem tem o rabo preso...
─Estou fodido!
Sophie estava à janela do seu quarto, quando sentiu a presença de alguém. Voltou-se e viu irmão Hazael e o anjo Luigi. Os dois brilhavam tanto que pareciam estrelas dentro do quarto dela.
─Vieram tentar me convencer?
─Não, Sophie. - disse irmão Hazael com sua expressão bondosa e tranquila. ─Viemos saber como está.
Ela se voltou para a janela observando o horizonte escuro.
─Triste, ansiosa, pois sei que precisam de mim e eu não posso fazer nada!
─Você escolheu ficar. Você escolheu passar por tudo isso, quando podia ter partido e deixado que o tempo de Deus resolvesse tudo. Você se deixou contaminar pelo ódio, Sophie. Pela semente da vingança.
Ela deixou uma lágrima rolar. Sentia muita dor. Uma dor insuportável que a levava a amargura e ao sofrimento.
─Você precisa perdoar, minha irmã. - disse o anjo Luigi. ─Perdoe e vamos para casa.
─Não, enquanto eu não resolver o que me prendeu aqui tanto tempo.
─Sabe o trabalho que terá quando voltar, não é? - ele a viu assentir em silêncio. ─Se mudar de ideia... Sabe o que fazer. Fique na paz do Senhor. - disse Hazael. ─E que isso se acabe logo. E lembre-se, qualquer erro, agora, poderá ser fatal tanto para você quanto para Diogo.
Ela os encarou com imensa ternura.
─Não vou errar. Vou fazer tudo certo. Quero ajudar a todos nós, os envolvidos. Foi para isso que fiquei aqui. Rezem por mim.
─Sempre! Que a luz do Senhor sempre esteja contigo, Sophie.
─Se eu gostei do churrasco? - repetiu Diogo para Daniel, irmão de Vilma. ─Era tudo que eu precisava no dia de hoje. ─ De repente ele parou com uma estranha sensação de que já tinha visto aquela cena, ou dito algo parecido.
Vilma sorriu feliz com a expressão de satisfação dele, e do fato do irmão não ter hostilizado aquele homem polêmico com um histórico tão pesado. Daniel ia continuar a conversa, mas seu celular tocou e ele se levantou para atender.
─Gostou de Dan?
─Muito! Gostei de conhecer sua família. Espero que eles tenham... gostado de mim.
Ela o olhou sem entender. Diogo estava muito estranho, calmo, sem a ironia peculiar e o sorrisinho desdenhoso. O mais interessante era o olhar azulado sereno.
─E isso importa? As pessoas gostarem de ti?
Diogo ficou em silêncio refletindo sobre a pergunta.
─Nunca me importei com que as pessoas pensavam sobre mim. Creio que por isso cheguei ao topo, e pelo mesmo motivo, despenquei lá de cima.
─E mudou?
─Acho que sim... contínuo não me importando com o que elas pensam, mas passei a me importar com o que elas veem em mim. Quero me sentir melhor, e só vou conseguir, quando eu for melhor para os outros. Sempre fui muito egoísta. Hoje eu vejo o quanto fui perverso por conta do meu egoísmo. Não posso ficar me lamentando “se”, tivesse feito as coisas de maneira diferente. O que está feito, está feito. Mas creio ter tempo de fazer muita coisa boa por mim e pelos outros.
Vilma estava com os olhos brilhantes de lágrimas e ele percebeu. Pegou a mão dela por sobre a mesa, onde estavam sentados um de frente para outro e apertou gentilmente.
─Você tem me ajudado muito. Espero que me perdoe quando fui tão filho da puta com você, Vilma.
─Eu te perdoei desde o primeiro beijo. Hoje em dia é tão difícil encontrar um cara que beije bem e que saiba fazer sexo como tu.
Ele riu indulgente e com certa surpresa.
─Finalmente um ponto para meus atributos sexuais e nada para minha inteligência!
Riram divertidos. Daniel interrompeu a conversa.
─Preciso ir. Desculpem-me...
─O que houve mano?
─A mãe daquelas crianças tentou se matar na cela.
Diogo estremeceu. Lembranças de seu irmão vieram a sua mente.
─Deus! E as crianças?
─Estavam na casa de um vizinho. Eu os encontrei em seguida que falei contigo, mas parece que sumiram, novamente. Acho que vou ter que colocá-los numa instituição infantil, assim que encontrá-los.
Rapidamente, ele se despediu e Vilma se viu contando a história deles para Diogo que pareceu muito interessado.
─Se tivesse uma maneira de ajudar... - disse Vilma.
─Acho que um bom advogado poderá cuidar disso.
─Essa moça não tem dinheiro. Tá com um advogado do estado.
─Talvez eu possa fazer alguma coisa. Tenho um amigo advogado em Sampa que conhece muita gente aqui no sul. - ele sacudiu os ombros e Vilma percebeu o quanto aquele homem estava mais bonito. ─ Creio que tirar essa garota da cadeia é o primeiro passo para consertar tudo isso, não é? Já que você disse que seu irmão parece muito envolvido.
─Até demais! Cheguei a pensar que estivesse apaixonado por ela.
─Quem está apaixonado? - perguntou aquela voz melodiosa ao lado deles.
A esposa de Daniel, Aline, uma loira muito bonita que passara a noite lançando olhares para Diogo, aproveitou que o marido saíra e se aproximou. Diogo sabia reconhecer quando uma mulher queria “dar” para ele. E aquela ali, era só ele fazer um pequeno sinal, e a pegaria facilmente. Numa outra época, estaria nem aí em transar até na casa deles, mas agora... Decididamente, não era mais o mesmo. Então o melhor a fazer, era fingir que não percebeu.
─Diogo. - disse Vilma sorrindo, disfarçadamente. ─Está apaixonado por mim.
A loira deu um sorriso sem graça e o fitou com olhar malicioso apertando os seios de leve ao cruzar os braços. Uma provocação velada.
─É mesmo Diogo? Vilma é uma garota e tanto.
─É sim, tenho certeza de que o homem que ficar com ela, terá a sorte de ter uma mulher dedicada, honesta e fiel ao seu lado.
E sem mais, pegou o braço de Vilma, deu um adeus com um aceno e foram embora no mais absoluto silêncio. Em frente ao prédio, Vilma o fitou com atenção.
─Verdade o que falou para minha cunhada?
─E você, não é assim?
Ela assentiu com um sorriso tímido. Beijou-o de leve nos lábios.
─Obrigada.
─Obrigado você, por me fazer ver coisas que antes eu não podia ver. Foi uma noite maravilhosa. E sem álcool!
Riram alegremente.
─Um passo de cada vez. - disse ela.
─Na vida de um alcoólatra: um dia de cada vez. É assim que tem que ser.
─Tu vai conseguir. Tenho certeza! Eu acredito em ti, Diogo.
Ele ficou observando-a entrar no prédio e antes de ligar o carro disse:
─A pergunta é: Até que ponto eu acredito em mim?
Quando Diogo encostou o carro em frente à casa na estância, olhou para cima e lá estava ela na janela. Era uma visão magnífica! Desceu do carro rapidamente e levou poucos segundos para estar com ela. Sophie sorriu ao se voltar para ele.
─A noite parece que foi boa.
─Foi ótima!
─Vejo um brilho intenso em teus olhos. Sinto uma grande leveza vinda de ti.
─Eu também estou me sentindo diferente e sei que você é a responsável. A única! - ele sorriu tristemente. ─Gostaria muito de poder... abraçá-la, beijá-la, fazer amor com você, Sophie.
Ela fechou os olhos por um momento. Sentia muito pela angústia dele.
─Não vamos tornar isso mais doloroso pelas necessidades físicas. Amor é muito mais do que isto. - ela pediu carinhosamente.
─Tem razão. - ele passou a mão nos cabelos num gesto nervoso. ─O irônico é que nunca lidei muito bem com a palavra não, sabe? E com você, eu não posso nada mesmo!
─Aceite, Diogo. Será melhor para nós dois.
─Eu sei. - ele suspirou. ─Vou fazer uma ligação. Não vai embora, não é?
─Não, estou contigo. - ela sorriu com ternura.
Depois de ligar, falar com o advogado e contar tudo que sabia sobre a moça e seus filhos, ele voltou para o quarto, e contou num breve resumo o que estava acontecendo.
─E tu quer ajudá-los?
─É... senti uma necessidade. Espantei-me quando me disseram essa noite que a moça tentou se matar.
─Lembrou do teu irmão.
─Sim. Voltei ao momento em que o vi sem vida pela ingestão de remédios. Depressão é muito sério. Se eu não estivesse tão ou mais doente que Dirceu na época...
Ela se aproximou dele e parou a sua frente. O que era aquela beleza excepcional?, ele se perguntou.
─Não se culpe mais. Eu e tu precisamos nos curar.
─Gosto deste teu sotaque gaúcho. - ele sorriu de maneira charmosa.
─Não o perdi nem depois da morte. - ela riu. ─Ainda os resquícios de minha última vida.
─Se eu perguntar como você morreu...
─Não posso contar. Tu terá que ver Diogo.
Ele assentiu desanimado. Queria as respostas de uma vez, mas sabia que não poderia acelerar nada em se tratando daquela situação. Nada daquilo dependia de sua vontade. Estava à mercê de coisas que ele não entendia, e dela, bem à sua frente, linda, sensual, e impossível para ele em qualquer estágio.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,