Mag-log in6
Em terras brasileiras, a força de trabalho dos negros foi sistematicamente empregada pela lógica do abuso e da violência. As longas jornadas de trabalho estabeleciam uma condição de vida extrema, capaz de encurtar radicalmente os anos vividos pelos escravos. Ao mesmo tempo, a força das armas e da violência transformava os castigos físicos em um elemento eficaz na dominação.
Na senzala, Sophie conversava com alguns escravos em tom conspiratório.
─Tu acredita que foi meu pai?
─Sim, sinhá. - disse Rodezio, um escravo de idade avançada responsável pelo trato dos animais da estância. ─Eu ouvi o sinhô conversando com dois capitães do mato no dia da fuga de sinhazinha Ticiana. Um deles chegou a dizer que a surra tinha sido feia. De quebrar ossos... Deus Pai nos livre se o sinhô souber que te contei isso sinhá...
─Ele não vai saber. Jamais te colocaria em risco. A ninguém desta senzala.
Eles sabiam, quantas vezes ela os protegera e os livrara do tronco, algumas vezes chegando a desafiar o pai que acabava por ceder. Certa vez ela chegara a se colocar na frente do corpo de Liberio, amarrado ao tronco por desacatar o capataz para que ele não recebesse as chicotadas, e ela tinha apenas dez anos.
─Tu acha que consegue descobrir? Preciso saber a verdade, se meu pai mandou matar André e onde está o corpo dele.
Liberio tinha a característica silenciosa, uma defesa para esconder o ódio daquela família. Suas ações domesticadas eram sempre bem pensadas. Sentia gratidão por Sophie tê-lo defendido. Ele disse a contragosto, mas com certo prazer nos olhos que ela não pôde ver, mas sentiu em suas palavras.
─Não perca tempo sinhá. Esse moço está a sete palmos da terra.
─Como sabe?
─Eu cavei a cova dele e o joguei na vala. Posso até mostrar o lugar. Mas aviso, não fale ao teu pai, ou eu vou desmentir, e depois... vai sobrar para nós dois.
Sophie estava desconsertada com a maldade do seu pai. Ele tivera a coragem de matar o rapaz para evitar a fuga da irmã causando assim o suicídio de Ticiana!
Que tipo de homem era ele? Um assassino que não sujava as mãos. Mandava os seus homens matar! Agora... Tinha certeza de que seu pai era uma pessoa capaz de qualquer coisa. Esta certeza a deixou desesperada. Precisava proteger Diogo. Ele estava correndo sérios riscos!
Na tarde do encontro, Sophie usava um lindo vestido vermelho cereja com corpete, mangas de sinos que comprara na corte no Rio de Janeiro. Ela não podia ver, mas tinha o auxílio de Luzia que conhecia seu estilo e a ajudava a mantê-lo sempre dando boas ideias e cores que combinassem com ela. Confiava no bom gosto da amiga. Diogo a esperava na beira do rio embaixo da sombra de uma árvore com ansiedade. Ficara encantado com toda aquela beleza. Ajudou-a a descer do cavalo, e beijou-a, ardentemente.
─Está linda, minha prenda! Sinto tanto a tua falta!
─E eu a tua. - ela o abraçou com mais força. ─Tão difícil ficar distante...
─Vou pensar numa maneira de ficarmos juntos em definitivo.
Sophie se afastou um pouco com o semblante carregado de preocupação. Não queria falar sobre sua decisão. Não naquele instante.
─Que surpresa tu tem para mim? Estou tão curiosa que quase nem dormi direito.
Ele sorriu percebendo a tática dela em mudar de assunto. Algo estava errado, mas não queria estragar aquele momento depois do tormento de ficar afastado dela por aqueles dias. Acomodou-a sobre uma pedra com o rio ao fundo.
─Quero te pintar Sophie.
Ela entreabriu os lábios surpresa.
─Me pintar? Sei do teu talento. Ouço o que falam e Luzia me disse que já viu teus desenhos, mas... nunca imaginei que...
─Quero eternizar a mulher que eu amo como um louco numa tela! Porque no meu coração, tu já está gravada desde que eu nasci. Agora tenho certeza disto.
Mais um longo beijo. Diogo precisou se controlar, sua vontade era amá-la o tempo inteiro. Ajeitou seu cavalete começando a pintar rapidamente como era o seu estilo. Um dom que lhe sustentava, gerava ganhos, e começava a lhe dar notoriedade entre as pessoas. Os conhecidos sabiam da existência de um bloco de desenhos e que por onde ele passasse, ia registrando tudo com sua arte. Diogo contava a história de sua época com suas pinturas, charges, e algumas ele vendia para um jornalista. Mas poucas pessoas tinham o privilégio de ver o seu trabalho mostrado por ele mesmo. Com os dedos ágeis ele criou o esboço e aos poucos os contornos daquele rosto que começava a ganhar vida e cor na tela branca. Num certo momento ele parou para registrar em sua memória aquela cena. Jamais vira um rosto tão perfeito!
─Me sinto sozinha com todo esse silêncio. - ela reclamou fazendo certo charme.
Ele riu.
─Se é para chamar minha atenção não se canse. Ela está toda em ti. Tanto que preciso me controlar para não ceder.
Riram felizes. Sophie ficou séria.
─Ouvi dizer que... tu não tem um bom relacionamento com teu pai...
Ele demorou um pouco para responder.
─Pensamos de maneira diferente. Não gosto da opinião dele sobre os escravos, como trata a minha mãe. Ele quer uma vida pacata, de dia no trabalho, a noite em casa. Todos os dias a mesma rotina.
─E rotina, não é bom? Acho que é um sinal de que as coisas seguem um curso natural. - ela foi cuidadosa para não se mover muito, e acabar sendo repreendida por ele.
─Tu falando em rotina como uma coisa boa, minha guria? Tu é o próprio caos! - ele riu. ─Quero lutar pelas coisas que acredito. E não se luta trabalhando numa charqueada ou numa lavoura preso diariamente como um escravo.
─Então.... se realmente houver uma guerra, tu irá?
─Se for uma guerra pela libertação dos escravos, então sim, estarei pronto para ela. Não creio que derramamento de sangue vá resolver os problemas maiores, mas a própria história mostra que foi preciso muitas guerras pela libertação de vidas sacrificadas, oprimidas. Enquanto o homem achar que o poder vale mais do que qualquer outro valor, haverá guerras! E muitas! Eu vou estar nessa guerra, mas não pelos mesmos motivos da minoria majoritária, mas, da grande maioria minoritária
Ela sorriu emocionada. Diogo era um sonhador idealista que queria liberdade para todos.
─E... na vida pessoal? O que deseja?
Ele sorriu, em seguida ela também.
─Não esqueça que eu consigo ouvir os gestos e os atos.
─Eu sei. Eu não pensava muito em um futuro. Minha preocupação era com o hoje. Mas depois que te conheci, mudei a esse respeito. – ele suspirou. ─ Quero um amanhã sem riqueza, mas com o necessário para poder viver bem. Dinheiro demais nos deixa prisioneiros, entende? Hoje, eu preciso de ti no meu futuro, e faço qualquer coisa para realizar nossos sonhos juntos.
Ele reparou na lágrima escorrendo pela face dela. Foi até ela com poucos passos e levantou-a, carinhosamente, abraçando-a.
─Não te quero triste, minha guria! Minha vida é tentar te fazer feliz!
Ela se afastou, chorando muito e segurou o rosto dele com as duas mãos.
─Tu acha que temos um futuro juntos, com um pai tirano como o meu capaz de m****r matar o homem pelo qual uma de suas filhas estava apaixonada? Eu, cega, podendo me transformar num estorvo? Com a iminência de uma guerra que poderá mudar nossas vidas de uma hora para outra e para sempre?
─Não tenho medo do teu pai. Não me importa o fato de tu não ter a visão, pois tu tem muito mais do que um simples olhar. Tu tem a visão da alma! E a guerra? Podemos fugir antes, se for o caso. Não sou homem de fugir de nada, mas por tua causa, faço qualquer coisa Sophie! Até mesmo desistir do que acredito e luto!
─Jamais o faria desistir das tuas lutas. Nosso amor é muito maior, mas teu sonho de liberdade e igualdade para todos, sem importar quem seja, vale qualquer sacrifício, meu amor!
E foi então que a tênue ideia ficou mais forte na cabeça dela. Trocaram mais um beijo. Diogo terminou o esboço principal do quadro para a seguir partirem numa viagem corpo a corpo do inferno ao paraíso. Entre sussurros, afagos e promessas, eles foram interrompidos com a chegada de intrusos. Como sempre, a percepção auditiva de Sophie os avisou antes de serem pegos. Muita sorte já estarem vestidos.
─Te esconda Diogo...
─Não, eu vou ficar contigo e...
─Eu não estou pedindo, eu estou mandando! Direitos iguais, lembra?
Diogo riu e tratou de se esconder atrás dos arvoredos. Três homens em seus cavalos pararam em frente a ela, todos empregados da estância.
─Teu pai está furioso com teu sumiço, prenda Sophie!
─Os sentimentos de meu pai em relação a mim não interessam aos empregados.
O homem se contorceu de fúria com aquela arrogância. Sophie geralmente era simpática e bondosa com todos os empregados, mas os que maltratavam os escravos recebiam tratamento diferenciado e hostil, e ele era um deles.
─Ele pediu que a encontrássemos e a levássemos de volta.
─Não é preciso. Conheço o caminho de volta melhor do que ninguém. Podem ir!
Sem esperar por reposta, ela foi até o seu cavalo Tosca, montou e partiu a galope.
Diogo que não perdeu uma palavra, um gesto a distância, se preocupou. Sophie era corajosa demais, e embora sentisse medo, ela afrontava sem pensar nas consequências. Ele pôde ver os olhares de cobiças e de raiva sobre ela. Precisava protegê-la. Só de pensar nela correndo perigo, doía-lhe a alma.
─Onde esteve à tarde inteira? - perguntou Emília num tom baixo antes que ela passasse pela porta da sala. ─Não me diga que ainda se encontra com aquele pé rapado, Sophie? Agora, tu é minha única filha. Quero que tenha um comportamento de moça direita. Desejo que se case e...
─Seja feliz como a senhora? Um casamento que papai manda e a senhora obedece? Não, obrigada mamãe, mas eu dispenso este teu desejo descabido. - e ela passou pela porta e parou ao sentir o cheiro do pai.
─Então é isso o que pensa a respeito do meu casamento com tua mãe?
Sophie respirou fundo. Sabia que uma hora teria que enfrentá-lo. O pior de tudo era ter a certeza de que o pai mandara matar um homem porque amava uma de suas filhas.
Recordou-se há uma semana quando ela, com mais dois escravos e Luzia foram até o local onde Liberio disse ter feito a cova de André. Após aberta, Luzia confirmou a identidade do rapaz fazendo ânsias.
─É sim, sinhá.
─Eu ainda tinha esperanças de que meu pai não tivesse nada com isso.
Seu coração doía de tristeza. André não deixaria Ticiana esperando-a. Ele fora assassinado! E o pior, era não poder contar a verdade a família do rapaz. Incriminaria seu próprio pai, que não responderia pelo seu crime, mas àqueles a quem ele dera a ordem de assassinar e esconder o corpo sim; poderiam ser executados. Principalmente os escravos.
─O que penso ou não pouco importa para o senhor. - voltou Sophie a conversa tentando parecer o mais natural possível. ─Gostaria de fazer uma viagem. Posso?
Ele a perscrutou com desconfiança.
─Viagem agora? Estamos perto de uma guerra.
─Justamente. Antes que essa tal guerra aconteça, gostaria de voltar ao Rio de Janeiro com Luzia.
─E por que essa decisão, justo nesse momento, quando não faz muito tempo que retornou do Rio? - Everaldo estava cada vez mais desconfiado daquele estranho pedido.
─Passear! Fazer algumas compras. Se o senhor me permitir é claro, meu pai.
O tom resignado era proposital. Queria parecer obediente para que ele não desconfiasse de nada. Everaldo pensou um instante, talvez fosse melhor mesmo tirá-la de circulação por um tempo. Talvez ela não estivesse tão envolvida com aquele abolicionista desocupado. Tanto oportuno. Afastada do mau caráter do Diogo, Everaldo poderia colocar seu plano em prática. Antes prevenir do que remediar. Já dera um jeito no pai de Diogo. Agora, era pensar no que fazer com o rapaz para não ter mais problemas no futuro. O destino de Sophie já estava selado. Dera sua palavra e seu nome num documento que logo seria cobrado.
─Está certo. Pode ir. Parta o mais rápido possível, antes que exploda essa rebelião aqui no sul.
Sophie ficou aliviada. Agora era rezar para o seu esforço valer a pena.
Naquela noite, Everaldo recebeu alguns amigos para o jantar. A conversa estava toda concentrada nos altos impostos, nos desmandos da corte, na insatisfação com o governo, e na guerra já anunciada aos sussurros por todo estado. De vez em quando baixavam o tom entre eles para não serem ouvidos. A mesa era farta, com pratos variados e deliciosos.
Luzia prestava a atenção em cada um dos seis homens presentes e discretamente falava suas características para Sophie. Dois eram de Pelotas, um de Camaquã e os outros três homens eram de Porto Alegre, e um deles falava, animadamente.
─Todos os estancieiros estão indignados com as taxas dos impostos territoriais elevados, além das altas taxas da exportação do charque, couros e sebos. Não conseguimos mais negociar. E o pior, a grande maioria estão comprando os produtos de fora! Ora, se tem cabimento uma coisa dessas! A intenção do império é nos levar a falência!
─O que me parece, politicamente falando, é a insatisfação geral da centralização do poder decisório na Corte e, também, o medo de perderem suas fortunas, não é? - um risinho irônico. ─Afinal, qual estancieiro aqui quer ficar pobre?
Houve um pesado silêncio e todos se voltaram para fitar Sophie que acabara de falar. Os talheres foram postos nos pratos. Rostos de descontentamento e um de fúria, Everaldo.
─Então a guria entende de política e de economia também? - perguntou um deles com tom sardônico.
─O suficiente. Sou cega senhor, mas eu escuto. Não são somente os altos impostos que preocupam e indignam a todos os donos de estâncias. Há também uma disputa pelo poder, de quem é que manda! E o medo de ficarem pobres, talvez? Não esqueçam que custear uma guerra... pode sair muito caro. E a promessa de liberdade aos escravos? Nem criança acredita que isso acontecerá.
─Cale-se, agora, Sophie! Ou retire-se da mesa!
─Por que, papai? Uma mulher não pode dizer o que pensa? Oh, não, mulheres não falam! Elas não têm esse direito! - ela zombou recebendo um beliscão de Luzia por de baixo da mesa.
─As mulheres que frequentam a igreja, não deveriam falar em voz alta e comportar-se de maneira repreensível, como fazem nos templos pagãos, mas permanecer em silêncio e prestar atenção, como a lei ordena, de modo a não ofender os crentes judeus. Se vossas mulheres não conseguem entender o que está sendo ensinado, não deveriam interromper o pregador, mas esperar até chegarem em casa e perguntarem a seus maridos. “Embora as mulheres pagãs falem em voz alta e interrompam os outros nos lugares de culto, é desonroso a uma mulher cristã comportar-se dessa maneira.” O conselho de Paulo em 1 Coríntios 14:34 e 35. - disse Procópio, um dos homens em tom de deboche. ─ Deveria seguir os conselhos de Paulo, menina Sophie. Esposas e filhas devem ficar, as mais caladas possíveis, pois mulher só abre a boca para falar barbaridades como essa. Tu não ensinaste isto para tua filha, Everaldo?
Todos riram divertidos fazendo troça. Everaldo espumava de raiva e de vergonha. Estava sendo desrespeitado e humilhado por uma mulher em frente aos amigos, sendo exposto a um papel ridículo. Sophie levantou jogando o guardanapo na mesa como sinal de afronta.
─Bravo! O senhor parece ler muito a bíblia! Mas não estamos numa igreja e nem o senhor é um pregador. Pouco me importa o que Paulo disse neste discurso machista que ataca até mesmo a santa da senhora mãe dele, e a sua! Não esqueça que se forem todos a guerra, quem ficará à frente de suas casas tomando conta de tudo seremos nós! As mudas, caladas e servis esposas e filhas! Já viram uma escrava trabalhando na lavoura, senhores? Viram a força delas? Eu não! Sou cega, mas eu sei! Suas mulheres estão preparadas para tomarem conta de suas estâncias e tudo que há dentro delas? Abastecer à mesa com tantas pessoas dependentes numa estância? Tenho certeza de que os senhores poderão contar com elas no aperto da situação. As mesmas mulheres que não tem o merecido respeito dos maridos. – ela respirou fundo para ganhar fôlego. Seu coração batia descompassado. ─Desdenham das mulheres, mas precisarão das mesmas, como por exemplo, das vivandeiras na guerra. Elas são muito valiosas no front, não é? Mesa, cama e banho, além de profanar os corpos do inimigo. Ou seja, o trabalho sujo todo é delas. E ainda dizem que as mulheres não prestam para nada? Os homens desta terra podem perder a guerra sem o apoio de suas mulheres. Todos nós seremos testados quando essa guerra explodir. E sabem quem eu acho que vai resistir a tudo isso? As mulheres sejam elas brancas, amarelas, negras, índias, direitas ou vivandeiras! E senhor Procópio, leve a Bíblia para o front, o senhor com certeza vai precisar dela na hora de sua morte!
Todos em silêncio a observavam abismados. Como ela, uma garota cega poderia saber tanto assim? Em que meio ela vivia? Com quem ela se relacionava? Era a pergunta que todos se faziam. E que audácia era aquela para falar sobre tantas coisas com tanta propriedade? Afrontar o pai na frente dos amigos?
─Basta Sophie! Para o teu quarto agora!
Ela suspirou de um jeito dramático.
─Certo papai. O senhor é quem manda, mas só até partir para guerra.
Deitada em sua cama, Sophie pensava no seu comportamento à mesa. Passara dos limites, mas era tarde demais para se lamentar. Seus ouvidos se aguçaram. Sentou-se, prestou a atenção no som dos ruídos vindo de fora. Podia ouvir dedos arranhando a parede. Pulou da cama e foi até a janela.
─Diogo? O que está fazendo aqui?
Ele riu, escalando entre a árvore e a parede.
─Tua percepção auditiva me fascina!
Em pouco tempo pulou a janela e abraçou-a sofregamente,
─Tu é louco! - ela exclamou emocionada.
─Sim, louco por ti. - beijou-a longamente. ─Achou que eu não viria saber de ti depois dessa tarde?
─Oh Diogo... eu te amo tanto!
─Não mais do que eu te amo!
Em poucos segundos estavam despidos, passeando pelo inferno até chegarem ao paraíso entre preces e juras de amor.
Mais tarde, relaxados na banheira abraçados, ora se beijando, ora se tocando, conversavam sussurrantes.
─Nunca pensei em ter você assim... tão minha!
Ela acariciou o rosto dele com delicadeza. O perfume de magnólias misturadas a água era inebriante.
─Nunca me imaginei sendo amada assim...
─Tu é maravilhosa! Qualquer homem ficaria honrado com teu amor. Minha sorte este homem ser eu, um João Ninguém, pobre e...
Ela segurou o rosto dele com as duas mãos. Seu olhar azul parecia perscrutá-lo esquadrinhando cada detalhe daquele rosto jovem e bonito.
─Pare! Tu é o homem mais rico em sentimentos e ideais nobres que já conheci. O mais maravilhoso e terno de todos eles! O homem que vim pronta a este mundo para amar!
Um beijo sedento e mais uma viagem de ida e volta entre o inferno e o paraíso.
Assim que saíram do banho, ela lhe passou a toalha rosa perfumada que ele observou as letras. Ela o surpreendeu ao dizer;
─Sim, fui eu que bordei. Sophie Maria W. Rodrigues. Apenas o S.R, mas foi o suficiente para me sentir vitoriosa. Afinal, toda boa mulher deve saber bordar! - ela riu divertida com a brincadeira machista.
─Às vezes custo a acreditar que tu não pode ver.
─Eu também, pois gostaria muito de ver o rosto do homem que eu amo!
Diogo pensava em tomar posse daqueles lábios, quando ouviram as batidas forte na porta.
─Abra a porta Sophie!
Assustada, mas tentando manter a calma, ela o alertou num sussurro.
─Se vista e saia agora, antes que ele o encontre aqui... Por favor! Um instante papai! Estou me vestindo!
─Tem dois minutos!
Ela se ajeitou o mais rápido que pôde, aliviada por Diogo tê-la ajudado a arrumar a cama. Assim que abriu a porta foi logo falando.
─Estava me ajeitando para dormir e...
─Que demonstração de superioridade e vulgaridade foi aquela na hora do jantar na frente dos meus amigos? Me envergonhaste, rapariga!
─É mesmo, papai? - ela se lamentou com um falso tom de lástima. ─Muito ou pouco? Porque se foi muito eu ficarei muito feliz por ter conseguido o meu...
Ela não terminou. Ele a esbofeteou jogando-a na cama. Ela deu um grito entre surpresa e furiosa. Foram poucas às vezes em que ele batera nela. E nunca com tanta força. Diogo já estava na parte de baixo da árvore e teve tempo de ouvir. Pensou em voltar, mas sabia que pioraria as coisas.
─O senhor não deveria ter feito isso!
─Vou fazer muito pior se me afrontar novamente! Primeiro some a tarde inteira, depois me faz passar esta vergonha na frente de amigos importantes. Por acaso tu anda te relacionando com algumas das chinocas de Deusa? Como sabe tanto sobre as vivandeiras? Como sabe tanto sobre tanta coisa que não deveria nem sonhar?
Para desviar o assunto, pois as reuniões dos abolicionistas na casa de Deusa eram segredo absoluto e jamais os estancieiros poderiam descobrir, ela disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça;
─Vai m****r me matar e jogar numa cova em algum lugar das suas terras?
Everaldo a observou se levantar altiva o encarando como se o olhasse direto em seus olhos. Eram parecidos fisicamente. Mas as semelhanças paravam aí.
─Do que está falando?
─De nada papai... - ela baixou a cabeça. Não poderia colocar tudo a perder ou Diogo estaria correndo sério perigo. ─Me desculpe... não irá mais acontecer.
─A vergonha que eu passei não tem desculpas. Não haverá uma próxima vez! Vou ajeitar tua viagem com Luzia. Quanto mais rápido tirá-la daqui melhor. E quando tu voltar, se as coisas estiverem calmas, arranjarei teu futuro. Aliás, eu já tenho um pretendente para ti. É só uma questão de tempo.
Ele deu meia volta e saiu do quarto. Sophie sentou-se na beira da cama e chorou, pela humilhação daquele tapa e por ter que colocar seu plano em prática o mais rápido possível.
─Meu futuro a mim pertence. Nem o senhor, nem homem algum me dirão o que fazer!
Diogo acordou com dor de cabeça e confuso com tudo que vira naquele sonho. Parecia um replay de coisas vividas. Era ele de fato? Era sim, pois ele sentia todas as emoções do Diogo daquela época. Era loucura de sua cabeça insana? Não podia se levar muito a sério, era um escritor, tinha uma mente criativa, mas nunca tivera sonhos assim... Uma imagem e uma recordação vieram em sua mente.
─Mãe, eu juro que vi! Tinha uma mulher lá me olhando. Ela tinha um olhar... estranho...parado...
─Diogo, por favor! Deve ser sua amiguinha imaginária. Você sempre teve uma amiga imaginária. - e ela rira. ─Acho que é a pressa de ter uma namorada. Você é muito precoce! Tudo em seu tempo. Tem apenas seis anos.
Ele se sentou na cama. Ele sempre tivera problemas, ele nunca fora normal. Tinha que reconhecer. E ainda tinha a questão do álcool. Mas Sophie... só de lembrar do corpo e do toque dela, era muito real! Levantou o rosto ao ver Vilma saindo do banheiro como por encanto. Por um momento esquecera-se dela, completamente.
─Vejo que está sóbrio. - ela sorriu.
─Que horas são? - ele fitou a escuridão através da janela. ─Parece que dormi uma vida inteira...
─Quase três da manhã. Já que está bem, vou para casa.
Diogo saltou da cama e foi até ela com poucos passos. Seu olhar dizia tudo, fome de sexo. Desejava aquela mulher naquele instante, mais do que seu uísque predileto e mais caro.
─Não vá! Eu quero você! - e despiu-a rapidamente, jogou-a na cama e se deitou sobre ela em busca das mesmas sensações que sentira em seu sonho com aquela garota. Imitou cada gesto, cada ato dos momentos íntimos com ela, mas faltava o principal.
─Você é como uma flor, Sophie...
Vilma que estava em êxtase com aquela busca maravilhosa que ele fazia em seu corpo, parou estática com os olhos arregalados. Ele também; levantou o rosto devagar parando o olhar no dela. Havia incredulidade e mágoa.
─Como é? Do que tu... me chamou?
─Desculpe... - deu um pulo da cama. ─Ainda estou sob o efeito do álcool.
Ela se levantou furiosa.
─Tu estás são e me chamou de... Sophie! Seu desgraçado! Quem é essa?
─Eu já disse, estou zonzo, foi um mal-entendido...
─Que absurdo! Eu me dando a um homem que me confunde com outra mulher. - ela tinha uma expressão de nojo. ─Tudo de ruim que falam sobre ti é verdade!
Irritado e no limite ele vestiu a calça jeans.
─Pare de histeria! Isso é normal, sabia? Para um homem é muito normal confundir nome de mulheres, assim como brochar na hora H!
─Seu filho da puta! Pra vocês homens é normal transar com uma desejando outra!
─Ora, dane-se você! Detesto ataque de histeria! - e ele saiu do quarto batendo a porta com força.
Vilma pegou a roupa e se vestiu de qualquer jeito com lágrimas de humilhação pelas faces. Como pudera se iludir com aquele insensível que todos falavam mal? Arrogante, metido, presunçoso, alcoólatra!
Saiu do quarto, apressada, mas parou ao sentir algo estranho em suas costas. Alguém a observava de maneira tão intensa que ela se arrepiou da cabeça aos pés.
─Diogo? É você? - indagou trêmula. Ela não queria olhar para trás, o longo corredor estava totalmente escuro. ─Quem está aí?
Vilma ouviu passos atrás de si, lentos e marcantes. Toda a extensão de sua pele estava com os poros dilatados. Era uma sensação tão ruim que ela tinha vontade de evaporar. O corredor ficou gelado e ela pôde ver na escuridão uma estranha névoa.
─Pare com essa brincadeira de mau gosto Diogo!
Ela girou nos calcanhares lentamente, e arregalou os olhos ao se deparar com aquele vulto marcado pela luz vinda da janela daquele quarto, ou seria.... do além? Aquilo era... era uma assombração! A luz ficou mais forte e Vilma pôde ver o rosto, translúcido, olheiras roxas, olhar parado, boca branca. E a aquela visão começou a vir em sua direção como se fosse passar por cima dela. No olhar agora não havia mais o nada, mas o ódio, a luz do mal. Vilma gritou tão alto quando teve a sensação de que estava flutuando no espaço com aquela.... coisa, que perdeu a voz, os sentidos e desmaiou com um baque seco no assoalho de madeira. Mas antes de apagar completamente, ouviu um sussurro, aterrorizante. “Suma!”
Do lado de fora da casa, ele ouviu o grito, correu para dentro e subiu as escadas de dois em dois degraus. Encontrou-a caída no corredor sem sentidos.
─Vilma! Acorde! O que houve?
Ela demorou, mas quando abriu os olhos, foi aos poucos e começou a soluçar, desesperadamente.
─Me tira daqui... por favor...
─Calma, está tudo bem!
─Não, não está! Me tira daqui Diogo! - de repente ela parou e arregalou mais os olhos com uma expressão de louca. ─Eu vi a mulher que morreu aqui... eu a vi bem ali...- balbuciou.
Diogo olhou para a porta no fim do corredor e voltou-se para ela.
─Não há nada ali, Vilma. Ei! Eu que bebo e você que vê coisas? - tentou brincar, mas percebeu que seria inútil. Ela tremia, convulsivamente, sua boca estava branca e ela balbuciava trêmula. ─Se tivessem fantasmas nessa casa eu seria o primeiro a saber, Vilma. Eu já teria visto!
─Eu vi sim! Eu juro! Ela tinha um olhar... cheio de ódio...ela me ergueu do chão...ela fez isso...- e voltou a chorar.
Ele a pegou nos braços rapidamente.
─Calma, por favor... - Diogo ia pegar a direção de seu quarto quando a porta bateu num estrondo.
─Eu não disse? - ela sussurrou no ouvido dele com o olhar arregalado cheio de pavor. ─Há quem diga que ela aparece quando se sente invadida... Tem alguém aqui além de nós dois... e posso garantir, não é humana!
Diogo berrou.
─Seja o quê, e quem for, pare com essas brincadeiras, agora!
Como uma afronta, a casa criou vida própria. Portas e janelas abrindo e batendo, ventania cruzando pelo corredor os arrepiando, enquanto Diogo corria em direção a parte de baixo com Vilma gritando em seu colo. E para lacrar a cena horripilante, luzes acendiam e apagavam e uma música alta tocava no piano com fúria invadindo todos os ambientes.
Ele correu até a rua, jogou-a dentro de seu carro e entrou dando a partida. Deu mais uma olhada na casa, jamais vira nada igual. Somente em filmes de terror. Continuava sem sentir medo. Sabia que tinha uma explicação lógica para aquele fenômeno.
Mas não pôde evitar o arrepio ao olhar para a janela de seu quarto e ver um vulto a olhá-lo com intensa força o fazendo querer sumir para bem longe. E foi o que ele fez, saiu em disparada.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,