Mag-log in7
"Ó tu, moço ou jovem que te julgas abandonado pelos deuses, saiba que, se te tornares pior, irá ter com as piores almas, ou se melhor, irá se juntar as melhores almas, e em toda sucessão de vida e morte farás e sofrerás o que igual pode merecidamente sofrer nas mãos de iguais. É esta a justiça dos céus."
"Aprender é recordar"
Platão (427 - 347 a.C.)
Eram seis horas da manhã, quando Diogo saiu da clínica particular para onde levara Vilma, depois do colapso nervoso que a abateu. Depois de medicada e mais tranquila, levou-a para casa, colocou-a na cama e ligou para a mãe dela explicando a situação. Voltou para a estância sem saber o que iria encontrar. O que acontecera ali fora muito estranho, e bizarro, mas deveria ter uma explicação.
Estacionou o carro, saltou e correu para checar o que já desconfiava. Cadeiras quebradas, sofás virados, louças pelo chão. O quadro de Sophie estava caído e quebrado na ponta. Furioso ele o juntou e fitou o rosto dela.
─Sinto que tem muito a ver com isso. Seja você humana ou assombração, não permitirei que me faça de louco!
Apertava o quadro querendo exterminá-lo, jogou-o no chão e subiu as escadas correndo. Entrou no quarto tendo certeza do que suspeitava, estava um verdadeiro caos.
─Quero que dê um jeito nessa bagunça toda! Não sou seu empregado e muito menos seu escravo como aquele pintor de merda!
Saiu batendo a porta e foi para o extenso terreno caminhar um pouco. Não sabia o que pensar, o que fazer, que decisão tomar.
─Esse pintor era eu? Eu conheci essa garota? O que aconteceu essa noite foi real?
Forçou a mente para se lembrar de alguma coisa. Nada! Balançou a cabeça desconcertado com essa ideia. Como seria possível alguém se lembrar de uma vida passada? Se é que existiam outras vidas. Ele não acreditava em Deus, força maior, não tinha religião, então como ainda era capaz de se questionar a respeito do que estava acontecendo? Era fruto de uma mente doentia. Estava doente! Pronto, era isso! Precisava de ajuda. Depois de um tempo caminhando a esmo, fumando, e pensando, voltou para casa e ao entrar, parou estático. Estava tudo no lugar como num passe de mágica. Sentiu-se como num filme, onde tudo era resolvido passando de um set de filmagens para o outro. Subiu para o quarto, na mais perfeita ordem. Teve dúvidas se vivera aqueles momentos. O cheiro de comida entrou em suas narinas. Desceu para a cozinha. A mesa estava posta, e no velho fogão o arroz de carreteiro fumegando.
─Isso não tá acontecendo... - sacudiu a cabeça. ─... e caso, realmente esteja, você não vai me convencer dessa loucura, maldita! Você não vai me enlouquecer!
Saiu da cozinha, pegou seu laptop e foi para rua. Sentou-se embaixo da frondosa figueira ao lado da entrada da estância.
Tomara uma decisão. Mais tarde ligaria para um amigo. Tinha que procurar entender, ou ter a ajuda de alguém que o fizesse, sobre o que estava acontecendo naquele lugar. Entretido nas linhas que escrevia, não percebeu na mulher na janela chorando, silenciosamente.
Quando ele se deu conta, a noite chegou, fechou o laptop e entrou. Estava faminto. Foi para a cozinha e se serviu, contra vontade, mas precisava comer. Fosse quem fosse que cozinhou, estava uma delícia! Depois subiu para o quarto, tomou um banho, se recusando a se secar naquela toalha, arrancou a colcha de retalhos da cama e se deitou de barriga para cima, completamente nu. Cruzou as mãos atrás da nuca e fixou os olhos no teto. Quando sentiu sono, disse num tom bravo:
─Não quero sonhar com você! Entendeu? Suma de vez!
Ele caiu no sono profundo. Ao lado da cama estava ela, flutuante, perfumada.
─Durma bem, meu querido.
─Então, uma pessoa pode fazer regressão enquanto dorme...
─Não é bem uma regressão. Durante o sono, os laços que o prendem ao corpo se afrouxam e o espírito entra em relação mais direta com outros mundos e outros espíritos. - respondeu Eloy, profissional indicado pelo seu médico, Junior, ao telefone. ─Enquanto dormimos podemos viajar ao passado, ou visitar o futuro.
─Eu não consigo entender.
─Me deixa tentar explicar. Se você estiver num local que o ajude a relembrar momentos vividos numa outra vida, pode acontecer. É raro, mas não impossível.
─Eu não acredito nem nessa vida, imagina em outras.
─Mas existe uma dúvida em você, já que me ligou.
Diogo respirou fundo. Estava um lindo dia, e muito quente. Dormira bem sem sonhar com nada.
─Eu não posso negar que existe algo errado. Sonhar numa sequência assim, não é natural. Sempre gostei de dúvidas e incertezas, pois elas me fazem correr atrás de respostas práticas. Quero entender o que está acontecendo.
─Posso tentar ajudá-lo a entender.
─Como?
─Indo até você. Se esse lugar estiver impregnado de uma vida sua, será melhor ainda para desvendar esse mistério. Mas só posso na semana que vem.
─Tudo bem. Eu posso esperar.
Assim que desligou, olhou em volta. Silêncio total. Um aroma de magnólias preenchia o ambiente. Estava enjoado daquele cheiro. Tratou de sair. Ia visitar Vilma.
E quando ela o viu se agarrou a ele e chorou muito.
─Está tudo bem. Calma!
Estava impressionado com a aparência abatida dela.
─Saia daquela casa maldita!
Ele levantou o rosto e viu a mãe dela entrando na sala do pequeno apartamento. Uma senhora distinta, bem vestida, e de rosto simpático. Era bom ver rostos reais, pessoas vivas!
─Vou pensar nisso. Agora me conte o que você viu exatamente.
Balbuciando, ela relembrou todos os detalhes. Ele brincou para desanuviar a tensão.
─E como era essa... assombração?
─Cabelos prateados, quase brancos... mas, ela era muito jovem... os cabelos estavam azulados, efeito da luz da noite...os olhos eram tão azuis que pareciam luzes...com olheiras escuras e profundas. Rosto muito pálido...
─Você viu o quadro pendurado em cima da lareira?
─Não... - ela limpou as lágrimas. ─Por quê?
─Nada. Bobagem minha.
Ele a beijou na face e disse em seu ouvido.
─Desculpe pela troca de nomes. Você não merecia esse deslize de minha parte.
─Já esqueci... com tudo que aconteceu, isso nem tem mais importância.
Ele foi embora com mais dúvidas. Estava naquela casa há alguns dias. Tinha tido aqueles sonhos reveladores e se era mesmo Sophie que Vilma viu, por que ela não aparecia para ele? O que estaria acontecendo? E piorou a situação ao chegar à casa e se recusar a olhar para o quadro. Havia mágoa e ressentimento estufando em seu peito. O fato dela não aparecer para ele, estava lhe corroendo as entranhas.
─Devo estar louco mesmo. Magoado com uma morta há mais de cento e sessenta anos.
Precisava beber. E era isso que ele faria naquela noite. Ia encher a cara!
Diogo estava zonzo com aquela conversa generalizada a sua volta. Entrara num barzinho qualquer, sozinho, e ficara por uma hora no balcão com seus pensamentos, seu cigarro, quando foi abordado por uma turma de cinco jovens que o reconheceram e o convidaram a sentar-se na mesa com eles.
Agora olhando em volta deveria ter umas vinte pessoas. Todos lhe fazendo perguntas sobre seu trabalho como jornalista, seus livros, e sua moradia.
─Pra mim não tem cena mais engraçada do que tu sendo esbofeteado por Elza. - a garota de rosto miúdo e sardento relembrou a cantora funkeira famosa.
─Eu acho que a melhor foi a tua matéria sobre a manifestação convocada para o dia 17 de junho de 2014 em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Diogo voltou àqueles fatos e a cobertura de sua matéria.
─Nesse dia, uma multidão de mais de 100 mil pessoas saiu às ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de várias outras cidades. O protesto foi além do aumento nas passagens e as ruas fizeram eco às mais variadas manifestações. Havia desde cartazes contra PEC-37 (projeto de lei que limitava o poder de investigação do Ministério Público) até a favor do Estado laico.
Os protestos pegaram o país de surpresa. A classe política se viu acuada e os dirigentes viram sua popularidade diluir rapidamente. Em Brasília, manifestantes chegaram a ocupar o teto do Congresso Nacional.
Outro jovem mencionou o livro dele:
─O teu livro Entre o Amor e Ódio Algumas Cruzadas me ajudou muito no trabalho final na minha faculdade de jornalismo no ano passado. Esse livro deixa muito claro que tu não acreditas no amor.
─Eu penso que... - ele começou meio confuso. ─... existem pessoas que não são feitas para o amor. Eu sou uma dessas pessoas. Uma vez ouvi uma frase, que quando um homem é um homem de verdade, jamais fará uma mulher chorar de tristeza. Não sou capaz de tal façanha... Não sei o que quer dizer esse: “Homem de verdade.” - houve certo silêncio para reflexão, quebrado por outro jovem que perguntou sobre a casa:
─Tu já viste algum fantasma naquela casa? Dizem que a mulher que assombra aquilo lá é mais horrível do que à Samara do filme O Chamado.
Todos riram. Ele ia respondendo um a um, tentando manter os olhos focados, pois estava para lá de Bagdá de tanto beber.
Não era isso que eu queria? Encher a cara? Pois eu consegui! Pensou ele.
Estava bêbado, mas pôde perceber os olhares de cobiça e interesse sobre ele, de uma ruiva deliciosa, sentada de frente para ele. Ela se insinuava, descaradamente.
Quem sabe...?
─Você gosta de ser polêmico? Mal-humorado brigão?
Diogo levantou os olhos e viu o rosto de uma garota de vinte anos mais ou menos, esperando por sua resposta. Ele bebeu um grande gole de seu uísque e segurou um arroto. Estava bêbado, mas não a ponto de bancar o porco na frente daqueles jovens.
─ O que eu posso dizer? Sou assim. É minha natureza. Não fico satisfeito com qualquer resposta. Aliás, eu nem sei quando me senti satisfeito a última vez em minha vida... Gosto de esmiuçar as palavras, lugares, objetos, as atitudes, as pessoas... Como um triturador vendo os pedaços saindo ali em frente aos meus olhos. Quero entender profundamente o porquê da questão de tudo! Mas isso é muito difícil em um mundo onde as pessoas estão mais superficiais, mais mentirosas do que nunca. - ele parou um pouco e observou o rosto deles, abismados, confusos, e sem entender muito bem sobre o que ele falava. Sorriu cansado e bebeu mais um gole de seu uísque. ─ Estou falando hebraico para um bando de chipanzés... - sussurrou para si mesmo.
Naquela noite, Diogo apagou completamente. Acordou no meio da tarde do outro dia. Pulou da cama, voou para a sala e parou em frente ao quadro.
─Pelo que vejo também está aborrecida comigo, já que não sonho com você há dois dias! O que há? Desistiu? Agora eu quero saber o que aconteceu conosco! Merda! Eu que estou muito, mas muito furioso! Desde que cheguei aqui você só faz brincar comigo! Que porra é essa? Aparece para alguém que nada tem a ver com a nossa história, e para mim não! Por quê? Eu exijo que você me mostre o que eu quero saber! - berrou ensandecido.
Sentou-se no sofá e colocou as mãos na cabeça.
─O que está acontecendo comigo? Por que essa aflição? Por que essa insatisfação?
Ele suspirou fundo e tentou se acalmar. Atravessou a porta da sala. Respirou o ar puro. Sua cabeça latejava. Era a ressaca. Foi até a árvore em frente à entrada, e se sentou no chão encostando as costas ao tronco. Acendeu um cigarro. Ficou ali olhando para o horizonte verde, esforçando sua mente para que lhe contasse coisas que ele não lembrava. Quem sabe teria mais sorte do que enquanto dormia. Nada! Um vazio profundo. Fechou os olhos.
Da janela ela o olhava com uma expressão indecifrável.
─O que? - Diogo perguntou com uma expressão arrasada. ─Não pode ser verdade...
─Ela viajou para o Rio de Janeiro, Diogo. - disse Aloísio. ─Parece que sem previsão de volta.
─Não! Nós... íamos embora daqui há uma semana! Era o combinado...
─Eu sinto muito meu amigo. Mas ao que parece, ela desistiu. - reiterou Tião penalizado com o olhar dele.
Diogo andava de um lado a outro na sala onde se realizavam as reuniões na casa de Deusa. Alguma coisa estava errada naquela história. Sophie não o deixaria assim sem uma explicação, uma carta. Não depois de eles calcularem, minuciosamente a fuga, há dois dias. Ou ela tivera a coragem de enganá-lo? Ou o pai descobrira alguma coisa e interceptara o plano do casal? Algumas pessoas davam como certo a união dela com o tal Barão. Quem sabe ela foi conhecê-lo? Eram tantas perguntas sem respostas... A entrada de Antônio o fez se virar desnorteado.
─Vamos! A reunião vai começar.
Diogo os acompanhou sentindo uma pressão no peito. Estava sufocado. Seu coração batia descompassado e num ritmo acelerado.
Olhou em volta, repleto de homens, todos abolicionistas ferrenhos, como ele. Tião sorria, como sempre, feliz com sua liberdade. Procurou prestar a atenção no que diziam. Mais tarde daria um jeito de descobrir o que aconteceu com Sophie, realmente.
─Abolição começou a ser decretada em Portugal em 1767, proibindo que fossem enviados para o reino, mais cativos vindos da África, e em 1773 foi decretada uma Lei do Ventre Livre naquele país. Na Dinamarca, isso se deu em 1792. Na França, em 1794 (ainda que Napoleão tenha tentado restabelecer a escravidão no Haiti em 1802). No México, uma primeira tentativa de Abolição foi feita em 1810, mas foi finalmente vitoriosa em 1829. Bolívar libertou cativos em 1816, durante suas lutas por independência, e finalmente aboliu a escravatura em 1821, quando começou a vertente abolicionista no Brasil. Onde encontramos tantos companheiros com os mesmos ideias, o mesmo desejo de liberdade para os nossos irmãos...
O cavalo de Diogo corria velozmente em direção a Estância das Magnólias, quando foi abordado com violência por quatro homens em cima de seus animais. Um deles, ele reconheceu, Antunes capitão do mato. Tentou lutar. Foi em vão. Era um só, pego desprevenido, desarmado. Deram-lhe uma surra de quebrar ossos, e não precisaram nem dizer o motivo. Ele sabia quem fora o mandante. Quando o encontraram, duas horas mais tarde, ele estava quase morto. O levaram para casa de Deusa e chamaram o melhor médico da região. E um padre também.
Afroline observou-o se levantar da cama dela e se vestir. Cobriu seu corpo com o lençol. Era uma visão extasiante sua cor morena em contraste com o lençol branco. Uma imagem para não ser esquecida.
─Por que deixou que elas partissem? Ouvi dizer que há muitas epidemias na corte. O império está agitado com a eminência dessa guerra...
─Sophie quis assim, e eu achei melhor. Só assim a afastava de vez daquele pintorzinho abolicionista que virou uma praga ajudando nossos escravos a fugir nos causando grandes prejuízos! E depois tenho planos para ela.
─Tu não tem medo de perder tua única filha?
Ele se virou e olhou-a zangado.
─Não se meta no que não te diz respeito! Tu já te mete demais nos assuntos da estância, principalmente cuidando dos negros saladeiros.
─Tudo em relação a ti e a minha filha me dizem respeito. E do que te queixas? Cuido dos meus irmãos, eles custam a morrer e tu economiza na compra de novos escravos. Eu ainda nem sei se estou certa em abreviar a vida deles neste mundo.
Ela o encarou corajosamente. Everaldo riu e se sentou na beira da cama.
─Quando a escolhi para ser minha, eu sabia que estava fazendo a escolha certa. Tu não tem medo de nada! Nem do teu dono! E ainda por sorte me ajuda muito!
─Sou tua na condição dono-escravo, nesse mundo terreno. Por mais que tu ache que sim, o mundo não gira em torno de ti. E tenho medo sim. De muitas coisas, e uma delas é de não conseguir cumprir com a minha missão. Sei por que estou aqui, e preciso seguir até o fim, combatendo qualquer intromissão, seja tua ou de qualquer outra pessoa, por mais que eu possa amá-la. Cada um tem um propósito neste mundo. De nada vale tu ganhar o mundo se perder tua alma. O mal que te faz mal, não é o mal que te fazem, mas, sim, o mal que tu acalenta em teu coração. E tudo o que eu tenho feito, é transformar o teu mal em bem!
Ele ficou em silêncio tentando descobrir de onde ela tirava aquelas coisas. O que ela estava querendo dizer com aquelas palavras que pareciam profecias, e até aonde ele deveria se preocupar com aquele poder que Afroline tinha em suas mãos.
─Tu vive dizendo isso. Um propósito. Tu nasceste para ser minha, para estar aqui comigo, me amar e servir. E chega desta conversa descabida! Preste atenção no que vou te dizer. A guerra está muito próxima, e vou precisar de ti. Tu sabe tudo sobre a estância e como ela funciona melhor do que todos que vivem aqui há anos. Quando eu sair em batalha, tu ficará responsável por tudo.
Ela o olhou serenamente, já esperava. Sentou-se na cama deixando o lençol escorregar por sua pele, e ele desceu os olhos para os seios magníficos de sua bela amante.
─Quem irá obedecer a uma escrava? E se tu pretende levar todos os homens e os escravos, como será? E tua mulher?
─Emília? - ele riu. ─Acha que conto com ela para qualquer tipo de apuro? É uma fraca covarde. A filha cega é muito mais corajosa do que a mãe. Terá que te virar com as escravas. Elas farão os trabalhos das charqueadas. Não sabemos como será essa guerra, quanto tempo vai durar. Precisamos nos preparar para o pior. Um tempo, quem saberá; de muita escassez.
─Tu fala de Sophie como se ela fosse um encargo em tuas costas. Ela é totalmente independente. Ela é um bem em tua vida.
─Sim, é. Eu reconheço. Por isso se tornou um problema. Ela deveria ter nascido varão. Daí sim teria um filho à altura para tomar conta de tudo. Filha mulher, só traz problema! Nós conversaremos mais sobre este assunto. Preciso te preparar para tocar tudo por aqui, enquanto eu estiver fora.
Ela o viu se levantar e sair do seu quarto. Aquele homem era louco de confiar uma fazenda a uma escrava. Ela poderia colocar fogo em tudo. Organizar uma fuga em massa. Mas ele sabia que ela não faria uma coisa dessas. Ele conhecia a natureza dela. Uma batida na porta fê-la levantar e se arrumar, rapidamente. Ao abrir, se deparou com Tonico, o escravo da cozinha.
─Sinhô mandou bater no moço pintor.
─O que?
─Ele descobriu que o moço pintor dormiu aqui uma noite com a sinhá Sophie, e mandou dar uma surra nele de quebrar osso. Lá no Quilombo... o povo tá muito triste...
─Como ele está?
─Quase morto no prostíbulo de dona Deusa. Mandaram te chamar.
─Peça para o Liberio selar um cavalo. Vou à cidade.
Quando Deusa abriu a porta e viu Afroline, foi logo dizendo.
─Não quero problemas com Everaldo.
─Não terá. Deixe-me ver o moço.
─Ele está muito mal...
─Por isso estou aqui.
Deusa a guiou pela imensa casa até o fim de um corredor. Abriu a porta do pequeno quarto e fitou as duas mulheres que cuidavam dele. Uma delas era apaixonada por ele, Jandira. Fez sinal para que saíssem e os deixassem a sós.
Afroline se condoeu com estado do rapaz, rosto deformado, ossos quebrados. Uma surra para lhe dar o derradeiro fim. Antes tivessem lhe dado um tiro. Mas não era a hora dele. Ela se sentou na beira da cama, pegou a mão dele, e fechou os olhos por alguns momentos.
Imagens confusas vinham à mente dos dois. Diogo, inerte, estremecia e gemia, sacudindo levemente a cabeça. Ele se via sobre montanhas, desertos, pirâmides, matas, água, inferno e paraíso... “Sou mestre de nada e discípulo de coisa alguma.”
Afroline abriu os olhos e chegou pertinho do ouvido dele.
─Tu tem uma missão. Sabe qual é. Ela partiu para te proteger. Ela voltará. Um sempre volta para o outro. Nem o tempo, nem o vento, nem a guerra, muito menos a morte separa o que Deus uniu.
Devagar ela levantou o rosto, passou as mãos pelo corpo dele como um passe. Fechou os olhos novamente, fez uma prece. Ao sair do quarto, esbarrou nas mulheres que esperavam curiosas. Muita gente lá fora queria notícias de Diogo. Houve uma comoção, assim que souberam do atentado contra ele.
Afroline era chamada de feiticeira, macumbeira, curandeira, e todos a respeitavam não só pela beleza, mas por esse dom que ninguém entendia e que usufruíam quando precisavam. Ela curava as pessoas em seu leito de morte. Era uma das escravas mais valiosas do estado. Não tinha preço para Everaldo. E ele já havia recebido ofertas tentadoras por ela, e recusara todas. Ela se enrolou no xale deixando um cheiro diferente no local. Lá fora, em frente à casa de Deusa, Afroline passou em meio ao povo silencioso a observando, à espera de notícias dele, e de outro milagre promovido por ela.
Diogo sobressaltou-se e acordou do que parecia ser um cochilo. Mas seu corpo inteiro doía como se tivesse levado aquela surra de quebrar os ossos. Sentia um estranho formigamento que vinha da alma, depois das imagens que viu com aquela mulher. Acordou de vez e viu-se sentado no chão encostado a árvore. A noite se aproximava e com ela os mosquitos. Levantou irritado se coçando.
─Quem sou eu? O Diogo de 1835 ou o Diogo de 2016? O que estou vivendo na verdade? Em que tempo estou?
Deu alguns passos e percebeu que estava fraco, zonzo. Precisava escrever antes que esquecesse tudo que vira, entrou na casa. Na janela, dois vultos o observavam.
Depois daquela tarde, Diogo dormiu por quase três dias seguido. Não se alimentava. Acordava, ia até a cozinha, bebia água, fumava um cigarro, e dormia de novo. Nada, sonho algum. Imagem alguma. Perdera três quilos e meio. Estava fraco, e na sexta à noite resolvera beber e fumar. Quem sabe o álcool o ajudasse a sonhar. Ele precisava sonhar. Desesperadamente! Se fosse o caso, apelaria para as drogas.
─Sinhá, precisamos tomar cuidado, há um surto de febre amarela. -disse Luzia. Elas estavam no quarto da pequena casa alugada no Rio de Janeiro, especialmente para elas.
Sophie ajeitou o xale em volta dos ombros. Ainda estava cansada da longa viagem de barco. Lembrou-se de ter esbarrado com alguém no porto. Ele a segurou para não cair.
─Scusa ragazza. Sono un goffo. Guiseppe Garibaldi Al vostro servizio. (Desculpa moça, sou um desastrado. Guiseppe Garibaldi ao seu dispor.)
─ Non era niente. (Não foi nada) Sophie Rodrigues.
─Parlare italiano? (Fala italiano)
─ Sì, di origini italiane. (Sim, descendente de italiano.)
Foram interrompidos pela chegada de um amigo dele. Sophie estava gostando de treinar seu italiano ensinado pela avó materna Julieta. Voltou a prestar a atenção na conversa de Luzia.
─Eu sei, Luzia. Lembre-se, o medo nos traz má sorte.
─Ditados de dona Afroline.
─Tua mãe é muito sábia, Luzia. Sempre soube que ela era especial.
─Às vezes minha mãe me dá medo. -Luzia se arrepiou. ─ Aquele poder de cura que ela tem... não é normal.
─Ela é uma feiticeira do bem. -Sophie suspirou tristemente.
─Está arrependida, sinhá?
─Não. Muito infeliz por ter tomado esta decisão. Mas preciso proteger meu amor. Diogo é necessário nesta vida, Luzia. O que ele faz, são poucas pessoas, entende? O mundo está repleto de pessoas egoístas e mesquinhas, desprovidas de sentimentos bons como os dele.
─Eu sei. Todos nós somos necessários. Antes de sairmos de viagem para cá, lá no Quilombo vale das Sombras, teve uma reunião com nossos irmãos. Havia muitas pessoas e todos com alguma história para contar desse moço.
─E eu perdi isso? - ela sorriu entre as lágrimas.
─Não, melhor! Tu estava com o próprio! Lembra que sou teus olhos e, às vezes, teus ouvidos? Então vou te contar tudo.
Sophie sorriu saudosa e orgulhosa, enquanto ouvia atentamente. Sua lembrança voou até o dia em que Diogo falou com mais de trezentas pessoas numa reunião na casa de Deusa.
─Quando tu deixas de viver para sobreviver, não existem mais as palavras comunidade, sociedade ou nós. O nós, existe, quando um ouve o pedido de socorro do outro. Quando uma mão é estendida ao outro. Quando um se importa, realmente, com o outro. A palavra nós, só existirá, quando houver igualdade social e racial para todos nós. Inclusive dentro das próprias raças. Para quem não sabe, a negros escravizando seus irmãos, como os brancos também fazem com os seus. Agora, neste momento, aqui neste local, nós, negros e brancos, jesuítas, índios, homens e mulheres, estamos unidos por uma ideia, um ideal: a luta pela liberdade e o fim da escravidão. E eu vou mais longe, quero continuar a minha luta pela liberdade de qualquer ser humano que viva no modo sobrevivência. Quero ter certeza de que a minha vida não foi em vão. Quero ter certeza de que todos vivem, realmente. Pode ser utopia... pode ser um sonho bizarro, mas são nos pequenos e grandes sonhos, que conseguimos encontrar força para lutar e vencer, tornando-os realidade. E quem sabe nessa realidade um mundo melhor para outras pessoas. O dia que eu nasci não era feriado e nem quando eu morrer será. - risos da plateia. ─Mas quero que alguém lembre que eu passei por esta vida, lutando, pelo meu bem, pelo bem do próximo, até o final!
Sophie sabia que fizera o bem em deixá-lo. Diogo era uma figura importante, um lutador, um homem capaz de liderar e ajudar outros homens a aprenderem a sair do modo sobrevivência, e se tornarem nós.
Dois dias depois da visita de Afroline, Diogo estava sentado na cama. Jandira, Gerusa, Bernadete e Deusa o olhavam, ainda sob espanto. As pessoas queriam vê-lo, saber se estava bem. Fora um custo m****r a todos embora, pensou Deusa.
─Então, eu tive a honra, e a graça de receber a visita da curandeira Afroline, já que estou aqui, vivo!
─É incrível o poder dessa mulher! - exclamou Gerusa.
─Ela é de outro mundo! Tenho medo dela. – sussurrou Jandira.
─Se ela usasse o poder dela para o mal, com certeza teria matado Everaldo aquele filho do cão. Ela o usa para o bem. E vamos trabalhar! A casa está cheia de homens sedentos por uma boa chinoca. - ordenou Deusa batendo palmas.
Elas saíram do quarto e Deusa se sentou na cadeira ao lado da cama.
─Não sei como te agradecer.
─Sabe sim, continue vivo e lutando por nós.
Diogo abaixou os olhos. Era um rapaz bonito, analisou Deusa, atraente, e embora nunca fosse para cama com ele, sabia por suas chinocas o quanto ele era bom na arte do prazer. Elas o adoravam! Era o tipo de amante que se preocupava com o prazer de sua parceira. Algo raro em rapazes da idade dele.
─Eu soube que ela partiu para a corte.
─E partiu meu coração. - ele a fitou com um suspiro. ─Eu achei que poderia ter uma guria como ela. Deveria estar louco!
─Diogo, ela não o deixou por diferença social. Tenho certeza de que foi para te proteger. Mas não tem ideia de que o pai mandou fazer contigo.
Uma dúvida apareceu nos olhos dele.
─Tu acha isso? Eu não creio. Estávamos com a fuga marcada e...
Deusa levantou e passou a andar pelo pequeno quarto com pouca iluminação.
─Por favor, guri, preste a atenção nos sinais. A guria viu a tua importância na luta abolicionista aqui nestas bandas. Sendo ela como é, tu acha que ela iria te tirar de um lugar onde tu é necessário?
─Tu está me fazendo mal, me enchendo de esperanças.
─O que vocês sentem um pelo outro é amor! Tu pensaste em abandonar tudo pelo que luta para ficar com ela. Ela te abandonou primeiro para que continue a tua luta. Isto é amor! Amor puro e verdadeiro, daquele que renuncia a si próprio pelo bem dos outros! Amores assim existem muito poucos pelo mundo, Diogo. Tu e essa guria são especiais!
Ele sorriu suavemente sentindo seu coração arfar de alegria.
Não importa o que aconteça, um sempre voltará para o outro.
─Eu só não te bato...
─Porque sabe que eu entorto tuas mãos. - disse Afroline o encarando nos olhos.
─Negra maldita com esse poder de cura! Era para deixar que aquele desgraçado morresse! Eu não entendo... - Everaldo sacudiu a cabeça desnorteado. ─Com este poder todo, por que não impediu a morte de Ticiana?
─Era isso que tu queria? Que eu impedisse? Não poderia mesmo que esta fosse a minha vontade. Era hora dela. Ela escolheu se matar. Não posso interferir na hora derradeira de quem está por partir e muito menos nos teus pecados.
Ele ficou em silêncio. Sentiu um arrepio nas costas. Ela fitou-o com atenção. Era escrava de um dos homens mais poderosos de Viamão. Ele era por vezes tão mal, que chegava a doer, mas ela o amava! Ele recebeu aquele pensamento.
Foi até ela e abraçou-a com força.
─Às vezes me pergunto por que tu me ama sendo eu quem sou.
─Justamente por tu ser quem é, que eu o amo. O mal também é amado. Sem amor ninguém segue. Sem amor ninguém evolui. Sem amor, o coração morre seco. Tu precisa do meu amor, como eu preciso do teu.
Eles trocaram um beijo ardente. Afroline era um problema em sua estância. O dom que ela carregava de curar as pessoas, não eram para todas, mas na maioria dificultava as lições nos escravos. Ele mandava chicoteá-los, ela os curava. Em tempo recorde. Dois dias. A primeira vez que ela fizera isso, logo que chegara à estância, deixou a todos assustados. Ninguém queria olhá-la nos olhos. Inclusive Emília, ordenando pela primeira vez.
─Prendam esta negra na senzala e não a deixem sair de lá!
Um escravo havia sido chicoteado muitas vezes, estava à beira da morte, e totalmente cego pelo trabalho na charqueada. Na senzala, ela mandou que todos saíssem, fez suas preces, seus passes, e em dois dias ele estava de pé. Não enxergava mais, mas estava são.
Everaldo deu uma surra de cinta nela, querendo tirar o tal poder a laço. As mãos dele entortaram para fora. Sentia dores terríveis. Ficou assim por uma semana. Quando finalmente ela entrou no quarto dele e o curou, ela adoeceu. Esteve por um mês entre a vida e a morte. Everaldo mandou que a colocassem num dos quartos da casa, causando um tremendo mal-estar entre a mulher, a sogra Julieta, uma italiana de sangue quente, que na época ainda era viva, e parentes de Emilia e dele, que também residiam na estância. Foi então que ele teve certeza, de que Afroline o amava, e que ela passara por cima de coisas que ele não entendia para curá-lo.
─Como tu permite algo assim, Emília? Mande-o tirar essa negra da casa!
─Eu não posso Lucia! Eu não tenho esse poder! - respondera para a irmã mais nova.
─De onde ele foi tirar esta negra macumbeira ainda por cima? -perguntou Yolanda, a irmã mais velha de Emília.
─ Se fosse così potente, non sarei così malato. (Se ela fosse tão poderosa, não estaria tão doente.) - dissera Julieta a mãe das três com tom exasperado.
E, realmente, Afroline estava muito doente. Ela desobedeceu às regras quando usou os seus poderes de cura para o mal.
─Aprendera a lição? Os guias espirituais não são babás extra físicos, são amigos de fé e trabalho.
Afroline assentiu envergonhada ao seu superior.
─Nunca mais use seu dom de cura para o mal. Você tem a cor da luz, irmã. Não se deixe levar por sentimentos ruins. Entendeu?
Depois desta visita do irmão José de outro plano físico, que poderia ser chamada de delírio, mas era real, ela começou a melhorar e em poucos dias saiu daquele quarto. Ganhou desafeto assim como respeito por sua força e o seu poder. Dali em diante Emília descobriu que Afroline viera para ficar e Everaldo, precisou mudar a tática que usava com os escravos, pois agora tinha alguém com muito mais poder do que ele ao lado dos fracos e oprimidos. E um poder da qual ele não tinha conhecimento e não saberia como lutar.
Luzia entrou no quarto de Sophie. Ela se arrumava para um encontro com alguns abolicionistas conhecidos. Não estava disposta. Queria dormir, ficar quieta em seu canto. Estava triste, deprimida e não queria fazer nada para mudar seu estado de espírito. A saudade era maior do que sua vontade. Mas precisava reagir. O amor que sentia por ele era maior do que tudo! Não era um amor de opressão, de depressão, muito menos um amor que fizesse um ou o outro sentir-se mal, mesmo quando não estivessem juntos. Porque por mais distantes que pudessem estar, esse amor era indestrutível! Esse pensamento a fez sorrir.
─Sinhá, chegou carta da minha mãe.
Sophie se sentou na beira da cama com os olhos fixos no nada. Brilhavam de expectativa, pois se lembrou das palavras dela.
─Se eu m****r uma carta, preste atenção nas minhas palavras.
─Leia Luzia.
“A guerra vai acontecer logo. Venham para casa, pois teremos muito a fazer. Seu esforço para poupar a vida do moço pintor foi em vão. Teu pai tentou matá-lo, mas ele está bem e forte esperando por ti. Voltem logo, antes que fique impossível navegar por esses mares.”
Sophie chorou num misto de raiva e alívio. Alegria e desespero.
─Vamos arrumar nossas coisas Luzia. Quero chegar de surpresa!
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,