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Missão de Família

Author: Pah
last update publish date: 2026-09-14 13:27:11

(POV: Jasmim)

A luz da manhã entrava pelas grandes janelas de vidro da sala de jantar quando desci as escadas da casa dos Carvalho Lemes. Eu usava uma calça de alfaiataria cinza-chumbo corte alfaiate, uma camisa branca de seda impecável e carregava o iPad sob o braço, pronta para o meu primeiro dia oficial de expediente na sede da Costa & Lemes.

Conceição já tinha organizado a mesa do café da manhã com pães de queijo frescos, suco natural e a garrafa térmica de café. Meu pai estava sentado na ponta da mesa, com óculos de leitura na ponta do nariz, dividindo a atenção entre o iPad e uma xícara fumegante.

— Bênção, pai! — disse, me aproximando.

— Deus te abençoe, querida! — ele respondeu com um sorriso caloroso, ajeitando os óculos.

Passei pela cozinha, abracei Conceição com carinho e me juntei ao meu pai na mesa de madeira.

Eu recém tinha puxado a cadeira pesada de estofado cru quando a porta de vidro que dava para o jardim do miolo integrado se abriu.

Nikolas entrou sem pedir licença — com aquela familiaridade de quem crescera cruzando o gramado entre as duas casas desde que se entedia por gente. Ele vestia uma camisa social azul-marinho com as mangas dobradas até a metade do antebraço, revelando a pele bronzeada dos braços fortes, e trazia na mão uma pasta de couro escura com pranchas de projeto. O cheiro de sabonete cítrico e vento do jardim entrou na cozinha junto com ele, preenchendo o ar de imediato.

— Bom dia, tio Pietro. Bom dia, Conceição — ele cumprimentou, dando um beijo carinhoso na bochecha dela e apertando o ombro do meu pai com firmeza. — Bênção, tio!

— Deus te abençoe, meu filho! — meu pai respondeu, apontando para a cadeira ao lado.

A voz de Nikolas estava mais grave por ser de manhã. Antes de me cumprimentar, ele lançou um olhar lento, calculado, que passeou pelo meu conjunto de alfaiataria antes de parar fixamente nos meus óculos.

— Bom dia, diretora.

— Bom dia, engenheiro — respondi sem alterar o tom, servindo um pouco de café preto na minha xícara. — Perdeu o caminho da sua cozinha ou a geladeira da casa leste pifou?

— A Conceição faz o pão de queijo melhor que a Lourdes, você sabe disso — ele provocou, pegando um da bandeja sem a menor cerimônia e encostando-se na bancada de granito de frente para mim.

Antes que eu pudesse retrucar, o celular do meu pai tocou na mesa. O nome no visor fez o olhar dele mudar na hora: Pai. Meu pai atendeu no viva-voz, encostando o aparelho perto da xícara.

— Bênção, pai. Aconteceu alguma coisa? — meu pai perguntou.

— Deus te abençoe, meu filho. Nada grave, mas preciso do seu socorro técnico imediato — a voz firme e carinhosa do vô Saulo ecoou pela cozinha, acompanhada pelo som característico da vó Elizabeth falando ao fundo. — A unidade três da escola começou a apresentar uma infiltração séria no teto do auditório principal e uma trinca na estrutura do ginásio. A Elizabeth tá louca achando que vai ter que cancelar as aulas da semana que vem. Você consegue mandar alguém da empresa aqui hoje para avaliar o estrago e me dar um orçamento de emergência?

Meu pai sorriu, olhando de canto de olho para mim e depois para Nikolas.

— O senhor tá com sorte, pai. Eu estou aqui tomando café exatamente com o nosso Engenheiro Civil responsável pelas obras e com a nossa nova Diretora Financeira e de Custos. Vou mandar os dois aí agora mesmo. O Nikolas faz a vistoria técnica no ginásio e a Jasmim já aprova a alocação de verba da Costa & Lemes sem burocracia.

Nikolas e eu nos olhamos no mesmo segundo. A faísca foi instantânea.

— Perfeito! — a voz da Vó Elizabeth assumiu a chamada, entusiasmada do outro lado da linha. — Avisem aos meus netos que estou esperando os dois com bolo de fubá e café recém-passado. E não demorem!

— Pode deixar, vó Elizabeth. Em vinte minutos estamos aí — Nikolas respondeu direto para o aparelho, dando um sorriso largo para o viva-voz que me fez franzir a testa com o charme manipulador dele.

Meu pai desligou a chamada, tomou o último gole do café e se levantou, batendo de leve no ombro largo de Nikolas.

— Problema resolvido. Vocês dois vão no mesmo carro para adiantar o laudo preliminar no caminho. Quero esse relatório e essa estimativa na minha mesa até o almoço.

Quinze minutos depois, estávamos na garagem, Nikolas destravou o SUV preto dele e abriu a porta do passageiro para mim, num gesto de cavalheirismo que parecia mais uma provocação velada.

— A senhora aceita uma carona, diretora, ou vai querer ir no seu carro por medo de ficar no mesmo espaço fechado comigo? — ele provocou, segurando a porta aberta e me encarando com a cabeça levemente inclinada.

— Eu não tenho medo de espaço fechado, Costa Marques. Tenho medo da sua falta de foco e da sua direção imprudente — retruquei, subindo no veículo com elegância e ajeitando o cinto de segurança.

Ele fechou a porta com um baque firme, deu a volta pelo capô com passos decididos e assumiu o volante. O motor V6 roncou baixo enquanto saíamos pelo portão principal do condomínio em direção à avenida central.

Nos primeiros três quilômetros, o silêncio dentro do carro foi tenso, denso, quebrado apenas pelo sopro suave do ar-condicionado. Eu mantinha meus olhos fixos na tela do iPad, fingindo checar o histórico de reformas da escola dos meus avós.

— Você não vai conseguir fingir que eu não existo o trajeto inteiro, Jasmim — Nikolas quebrou o silêncio, a voz baixa e rouca, mantendo as duas mãos firmes no volante de couro enquanto acelerava pela pista.

— Não estou fingindo nada, Nikolas. Estou adiantando a análise dos custos da escola no iPad. Coisa que você também deveria estar fazendo mentalmente, em vez de usar nosso deslocamento de trabalho para caçar conversa — respondi sem tirar os olhos da tela.

Ele deu uma risada curta, rouca, balando a cabeça.

— Análise mental de custos? Fala sério, Carvalho Lemes. Eu conheço aquela estrutura de cabeça. Sei exatamente onde está a trinca do ginásio antes mesmo de pisar lá. Você só precisa da tela para ter uma desculpa para não olhar na minha cara. Você continua exatamente a mesma. Usa essa postura profissional rígida como uma armadura para não ter que encarar o que aconteceu naquela adega no sábado à noite.

Desliguei a tela do iPad com um toque firme e me virei para ele no banco, o sangue esquentando no peito.

— O que aconteceu na adega, Nikolas, foi você tentando usar o mesmo charme barato e a mesma postura dominadora de sempre para ver se me desestabilizava. Mas adivinha? Não funcionou. Eu não tenho mais quinze anos para me impressionar com o seu tom de voz grave ou com o seu toque na minha nuca.

Nikolas reduziu a velocidade no sinal vermelho que fechou à nossa frente, virando o rosto lentamente para me encarar. Os olhos azuis dele estavam escuros, perigosos, sem qualquer vestígio do garoto brincalhão do condomínio.

— Charme barato? — ele murmurou, inclinando o corpo ligeiramente para o meu lado no espaço reduzido da cabine, a voz caindo numa frequência tão baixa que fez minha pele arrepiar inteira. — Se fosse charme barato, o seu pulso não estaria acelerado agora, pirralha. E você não estaria travada nesse banco, sem conseguir respirar direito desde que pisou dentro desse carro.

— O meu pulso acelera de raiva da sua arrogância! — esbravejei, apontando o indicador para o peito dele. — Você acha que pode passar quatro anos agindo como um possessivo, cobrando satisfação da minha vida acadêmica a cada quinze dias, e agora agir como se fosse o dono do meu tempo só porque voltamos a morar no mesmo terreno?!

— Eu não quero ser o dono do seu tempo, porra! — ele aumentou o tom de voz, a frustração represada transbordando enquanto o sinal abria e ele arrancava com o SUV. — Eu só cansei de ver você agir como se a gente não tivesse uma história não resolvida entalada na garganta! Você fugiu para a capital, se entupiu de diplomas e voltou achando que pode mandar na empresa e me tratar como um funcionário qualquer que você descarta com uma assinatura!

— Eu não fugi! Eu fui crescer e construir a minha carreira! — retruquei, a voz subindo na mesma proporção, faiscando de fúria. — Coisa que você só começou a fazer de verdade quando o seu pai te jogou de cabeça no canteiro de obra! Se você quer que eu te trate como profissional, aja como um profissional de verdade e dirija essa droga de carro até a escola dos meus avós sem surtar!

— Eu sou o profissional mais focado daquela empresa, Carvalho Lemes! — ele disparou, travando o maxilar com tanta força que os músculos da mandíbula saltaram, olhando para o retrovisor com a respiração pesada. — Mas quando se trata de você, não tem porra de profissionalismo no mundo que segure!

O silêncio que caiu depois dessa frase foi esmagador.

A verdade crua, sem filtros e sem armaduras corporativas, ficou suspensa no ar do carro até Nikolas dar a seta e encostar o SUV com precisão em frente ao portão imponente da escola dos meus avós.

Ele desligou o motor, mas não tirou as mãos grandes do volante. Respirou fundo duas vezes, tentando recuperar o controle da raiva e do desejo que nos consumiam, e se virou para mim com a expressão rígida, o peito subindo e descendo descontrolado.

— Chegamos — ele disse, a voz seca, mas os olhos castanhos queimando de uma tensão que nem o bolo de fubá da Vó Elizabeth conseguiria apagar.

— Ótimo — respondi, pegando minha bolsa e o iPad com as mãos levemente trêmulas. — Vamos resolver a infiltração do Vô Saulo. E lá dentro, você é o engenheiro e eu sou a diretora.

Abri a porta do carro e pisei no asfalto, sentindo o peito descompassado enquanto ele saía pelo outro lado, batendo a porta com força.

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