MasukLilian não sabia dizer se era impressão dela, mas aquele não parecia ser o tom sempre displicente do homem à sua frente.Ela não conseguia explicar o que, exatamente, estava diferente.Talvez fosse só porque aquela pergunta tinha cutucado o único ponto realmente frágil e sensível dentro dela. Antes que ela pensasse melhor, ela rebateu no automático, com a voz gelada:— E o que isso tem a ver com você? Pegou gosto em ficar ouvindo conversa dos outros escondido?Lilian não queria que Luiza soubesse demais sobre a família dela. Mas, se tivesse que existir alguém no mundo que conhecesse aquela sujeira toda, ela preferia que fosse Luiza.Pelo menos Luiza era a única pessoa, naquele mundo inteiro, que ela sabia que nunca riria dela, não importava o quê.A Cidade A era muito grande e, desde que ninguém fosse atrás de ninguém de propósito, eles praticamente não tinham chance de se cruzar.Nos mais de cinco anos depois do término, a mulher que estava diante dele tinha simplesmente dado meia‑vol
Aquele tipo de cena já era rotina pra ela. Lilian tinha visto aquilo tantas vezes que já nem se chocava mais. E, de qualquer forma, ela não tinha como mudar nada.No começo, ela ainda corria pra frente de Karina, sem pensar em mais nada, só pra proteger a mãe.Ela nem sabia dizer em que momento tinha ficado assim, tão fria.Talvez fosse porque, lá no fundo, ela sabia muito bem: as brigas daquele casal nunca foram por causa dela. Sempre giraram em torno do filhinho de ouro deles.Yago não suportou ouvir o que Karina tinha acabado de dizer. Ele avançou com a mão erguida, pronto pra dar na cara dela, e cuspiu as palavras, descontrolado:— Sabe por que o Severino chegou nesse ponto? Porque foi você que estragou ele! Karina, casar com você foi o maior erro da minha vida! Uma grana desse tamanho, você diz que enfiou em dívida dele e pronto, acabou? Sua vagabunda inútil, eu nem o direito de saber o que tá acontecendo eu tenho!!!No final, já não tinha mais filtro nenhum. Mesmo Lilian, acostum
Severino ouviu aquilo e, na mesma hora, começou a chorar sem o menor pudor, se enfiando na frente de Lilian pra barrar a saída dela.— É isso mesmo, o pai tá certo. — Severino falou, cheio de razão. — Mana, você não pode ser tão egoísta assim.Pai e filho tinham exatamente a mesma cara de pau. Lilian quase riu de tanta indignação.Mas o riso não saía, porque aqueles dois homens sem vergonha eram, um, o pai dela; o outro, o irmão caçula dela.Por um instante, até respirar pareceu mais difícil.Ela não conseguia entender que tipo de pecado ela tinha cometido em outra vida pra acabar ligada, pelo sangue, a esse tipo de gente.Ela puxou o ar com força, bem fundo, e desistiu de ir embora naquele momento. Ela se virou e encarou Yago de frente:— Depois de tantos anos eu trabalhando, você não sabe dizer se eu tenho dinheiro ou não, se eu sou mão de vaca com a família ou não?Enquanto falava, ela virou o rosto pra Karina:— Ele pode até fingir que não sabe. Mas você sabe direitinho, não sabe?
O Sr. Callum ficou um bom tempo em silêncio, atônito, e a raiva foi murchando aos poucos junto com aquela pausa.Quando Nina percebeu que a explosão que ela tinha imaginado não veio, ela deixou o tom mais leve e disse:— Vô, a Jennifer não é só filha da minha mãe. Ela é nossa irmã. E ela também é sua neta.Ao ouvir aquilo, o Sr. Callum lançou um olhar de lado pra ela:— Eu preciso mesmo que você me lembre disso?Talvez porque ele não tivesse como rebater tudo o que Nina tinha acabado de dizer, o Sr. Callum ficou visivelmente sem graça. Depois de uma breve hesitação, ele fez um gesto com a mão, como se quisesse encerrar o assunto de vez:— Já chega, já chega. Aqui eu tenho gente pra cuidar de mim. Vão fazer o que vocês têm pra fazer.Nina entendeu que o avô tinha cedido, ainda que não admitisse em voz alta, e resolveu não insistir:— Cauã, vai cuidar das suas coisas. Eu fico aqui. Mais tarde eu acompanho o vô na alta.O quadro não era grave. Logo cedo, na visita médica, o médico tinha e
Uma frase bastou para deixar o ar do quarto completamente denso.Aos olhos de todo mundo, o Sr. Callum sempre tinha sido o exemplo máximo de justiça e rigor. Ele tinha passado décadas no topo sem dar um único motivo pra alguém dizer que ele tinha sido parcial em qualquer decisão.Mas, naquele instante, foi justamente a neta em quem ele mais confiava que o encarou e disse, sem rodeios, que aquilo não estava sendo “justo”.O Sr. Callum ficou um segundo imóvel. A expressão dele não chegou a mudar muito, mas a autoridade natural que ele carregava ganhou um peso diferente, um tipo de pressão silenciosa:— Então, no fim, você ainda tá querendo dizer que eu errei, não é?Quanto mais calmo o avô parecia, mais ficava claro que ele estava segurando a própria raiva.Por mais impecável que o currículo de Nina fosse, ela ainda não tinha chegado ao ponto de poder bater de frente com o avô.Cauã entendia perfeitamente onde estavam os limites. Ele deu alguns passos pro lado, levantou o braço e já ia p
Embora ele tivesse falado daquele jeito, Cauã mesmo assim teve paciência de ficar esperando um bom tempo do lado de fora do quarto. No meio disso, Edson atendeu um celular e precisou ir correndo pra empresa, deixando ele ali sozinho.Ele só entrou, com toda calma do mundo, depois que os parentes e amigos que tinham ido visitar o doente já tinham ido embora.Nina estava sentada ao lado da cama, descascando uma maçã. O Sr. Callum estava deitado, com a expressão longe de ser boa. Mesmo quando ele viu entrar o neto de quem ele mais gostava, o rosto dele não chegou a se iluminar.Cauã lançou um olhar significativo pra Nina, mas Nina simplesmente fingiu que não tinha visto. Ela segurava firme a faca de fruta, e a casca da maçã caía em tiras grossas e finas, ora mais rápidas, ora mais lentas, dentro da lixeira. Ficava claro que ela não estava de bom humor.Cauã se aproximou da cama, abriu um sorriso pro avô e brincou:— Vô, o que foi isso aí? Quem é que teve a brilhante ideia de te irritar de
Ao ouvir aquilo, Gustavo, imperturbável, serviu para ela uma coxa de frango assada.— Aqui já tem item de higiene e roupa pra trocar, tudo novinho. Daqui a pouco você sobe, dá uma olhada no que tá faltando e eu mando o pessoal providenciar.Luiza ficou um instante sem reação.— Já tem… Tudo?Ela sab
Os que estavam dentro do quarto tinham entendido tudo na mesma hora. Não era só eles que tinham medo de Gustavo; lá no fundo, a própria velha também tinha. Ela já tinha recobrado a consciência fazia tempo e continuava ali encenando um desmaio.Ninguém queria comprar briga com Gustavo, então todo mun
— Você tá enganado. — Lilian comentou, como quem pensava em voz alta. — Eles têm dinheiro. Têm bem mais dinheiro do que eu.Sob o olhar confuso do careca, ela apontou outra vez para a casa.— Esse imóvel dos meus pais pode não ser enorme, mas é mais do que suficiente pra pagar a dívida.Afinal, aqui
Ele só ficava brincando com a tampinha metálica do isqueiro, abrindo e fechando sem ritmo. A chama azul aparecia e sumia no claro-escuro do luar.Na manhã seguinte, ele saiu de casa quase cronometrado. Ele atravessou o corredor e apertou a campainha do apartamento da frente.— Veio atrás da Luiza? —







