LOGINBeatriz ainda estava zonza. As palavras de Lorenzo, o olhar intenso, a proximidade… tudo parecia um sonho.
– Eu… não sei – respondeu, num sussurro. – Ele está diferente. – Diferente como? Menos arrogante, mais pegável? – brincou Clara, erguendo as sobrancelhas. – Não é isso… é como se ele estivesse… quebrado. Mas tentando se reconstruir. Tem uma tristeza nos olhos dele. Uma coisa que me puxa. Clara ficou séria por um instante. – Cuidado, Bia. Gente quebrada pode ser perigosa, mesmo sem querer. Beatriz assentiu, mas no fundo já sabia que estava envolvida até o pescoço. Mais tarde, já sozinha, ela resolveu arrumar o estoque dos livros antigos, nos fundos da loja. Estava mexendo em uma caixa esquecida, com etiquetas desbotadas, quando encontrou um envelope amarelado com a caligrafia da tia-avó. > “Helena – Arquivo pessoal” Beatriz congelou. Helena era o nome da irmã que ela havia perdido anos atrás. A irmã que simplesmente desapareceu aos 19 anos, sem deixar rastros. O envelope continha algumas anotações, fotos e uma carta nunca enviada. > “Helena, sei que você está fugindo de algo maior do que podemos entender. Mas se algum dia decidir voltar, saiba que seu lugar aqui continua esperando. Não importa o que tenha feito. Você ainda é minha menina corajosa.” Beatriz sentou-se no chão, com lágrimas nos olhos. Era a primeira vez em anos que sentia a irmã tão perto. De repente, sentiu uma presença atrás dela. – Está tudo bem? Ela se virou rapidamente. Era Lorenzo. De novo. Silencioso como sempre. – Como você entrou?! – ela perguntou, secando as lágrimas rapidamente. – A porta estava encostada. Bati, mas você não ouviu. Beatriz tentou guardar os papéis, mas ele já havia visto. – Helena – ele disse, olhando o nome no envelope. – Esse nome… – É da minha irmã – disse ela, tentando manter a voz firme. – Ela desapareceu há dez anos. Nunca mais tivemos notícia. Lorenzo ficou em silêncio. Um silêncio pesado. E então disse, com a voz baixa: – O nome dela era Helena Soares? Beatriz arregalou os olhos. – Sim… por quê? Ele respirou fundo, desviando o olhar. – Porque… ela foi minha noiva. O mundo de Beatriz desabou. Beatriz sentiu o chão sumir sob seus pés. – Sua… noiva? Lorenzo assentiu, os olhos baixos, a expressão dura de alguém que revive uma dor antiga. – Conheci Helena há doze anos, numa conferência de literatura. Ela era radiante, espontânea, teimosa. Como você. Nos apaixonamos rápido. Talvez rápido demais. Beatriz se encostou na parede, tentando entender. – Por que nunca me contaram isso? Por que minha família nunca disse nada? – Porque foi tudo... um segredo. Helena não queria que ninguém soubesse. Estava fugindo de algo, Beatriz. Ela nunca me disse o quê. E um dia, simplesmente… sumiu. Sem explicação. Sem despedida. O coração de Beatriz batia como um tambor desgovernado. – Você... procurou por ela? – Por meses. Eu movi céu e terra. Contratei detetives, invadi arquivos, fiz tudo o que podia. Mas foi como se ela tivesse sido apagada do mundo.O silêncio na sala já não era só tensão. Era dúvida. Daquelas que mudam tudo. Beatriz ainda olhava para a tela, mas sua mente estava longe. Conectando pontos. Revendo tudo. Cada detalhe. Cada ausência. — Ela é uma mulher muito inteligente… — disse Beatriz, finalmente. A voz baixa. Mas firme. Lorenzo e Augusto olharam para ela. Esperando. — Antes… eu estava tão preocupada que nem me perguntei uma coisa. Ela respirou fundo. E continuou: — Se a Helena passou tanto tempo “presa”… sem dar notícias por anos… Uma pausa. Pesada. — Vocês realmente acham que ela não teria dado um jeito de sair? O silêncio caiu na hora. Augusto franziu a testa. — Você está dizendo que ela nunca esteve presa? Beatriz não respondeu imediatamente. Porque agora… ela estava pensando diferente. — Eu estou dizendo… que talvez a gente tenha entendido tudo errado. Lorenzo se aproximou um pouco mais. O olhar atento. — Continua. Beatriz cruzou os braços, organizando as ideias. — A Helena semp
O mapa ainda brilhava na tela. O núcleo antigo. O ponto de origem. O lugar onde tudo começou… e talvez onde Helena estava agora. O silêncio era pesado. Expectativa. Urgência. Impulso. — A gente precisa ir — disse Lorenzo, firme. Augusto assentiu. — Quanto mais tempo a gente demora, pior fica. Beatriz não respondeu. Os olhos ainda fixos na tela. Mas agora… não era emoção. Era cálculo. Ela respirou fundo. Uma vez. Duas. E então— Fechou o notebook. O som foi seco. Definitivo. — Não. O silêncio caiu na mesma hora. — Como assim “não”? — perguntou Lorenzo, sem esconder a tensão. Beatriz levantou o olhar. Calma. Mas firme. — Eu não vou atrás agora. — Beatriz, ela pode estar em perigo — disse Augusto. — Ou não — respondeu ela. Direto. O impacto veio forte. — Você ouviu o que ele disse — continuou Beatriz. — Ela não foi levada. O silêncio ficou mais denso. — Ela foi. Lorenzo passou a mão no rosto. — Isso não significa que ela está segura. Beatriz deu um pa
O silêncio depois da mensagem foi sufocante. “Ela foi mais longe.” As palavras não só ecoavam. Elas… afundavam. Beatriz sentiu as pernas fraquejarem por um segundo, mas se segurou na mesa. — Isso não faz sentido… — murmurou, mais para si do que para os outros. Lorenzo deu um passo à frente. — Faz, sim. Ela olhou para ele, os olhos cheios de tensão. — Não faz! A Helena não faria isso, ela não— — Beatriz. O tom dele foi firme. Mas não duro. — A gente viu o vídeo. O impacto veio como um choque. Ela viu. Ela escolheu. Ou… achou que escolheu. — Ele manipulou ela — disse Augusto. — Não completamente — respondeu Lorenzo. O silêncio caiu. Porque essa diferença… era tudo. Beatriz balançou a cabeça. — Não. Não. Ela começou a andar pelo quarto. Agitada. — A Helena não ia simplesmente seguir alguma coisa sem entender. Ela parou. De repente. E o olhar mudou. — A menos que ela tenha entendido algo que a gente ainda não entendeu. O silêncio ficou mais denso. — Isso é
O quarto parecia menor. Como se as paredes tivessem se aproximado sem ninguém perceber. A tela ainda brilhava no escuro. “Agora… mais perto.” Beatriz sentiu o coração bater forte demais no peito. — Helena…? — chamou de novo, a voz mais baixa. Nenhuma resposta. Lorenzo entrou primeiro, atento a cada detalhe. — Fica atrás de mim. — Não — disse Beatriz, já avançando. Ela conhecia aquele quarto. Cada canto. Cada objeto. Mas agora… nada parecia familiar. O banheiro estava vazio. A janela fechada. Nenhum sinal de saída. — Ela não está aqui — disse Lorenzo. A frase caiu pesada. — Não faz sentido — murmurou Beatriz. — Ela subiu… Augusto apareceu na porta logo depois. — O que aconteceu? — A Helena sumiu — disse Lorenzo, direto. O silêncio foi imediato. — Como assim sumiu? — perguntou Augusto, já tenso. Beatriz apontou para o computador. — Ele está aqui. Augusto olhou para a tela. Leu. E o rosto dele mudou. — Isso não é coincidência. — Não — disse Lorenzo. — É u
O silêncio dentro da sala já não era produtivo. Era pesado. Carregado de tudo que não tinha sido resolvido. A mensagem ainda ecoava na mente de Beatriz. “Escolhas seguem intenção.” Mas agora… não era só sobre o sistema. Era sobre eles. — A gente precisa sair daqui — disse Augusto, quebrando o silêncio. Helena não respondeu de imediato. Ainda olhando para a tela. — Ele não está atacando… Lorenzo cruzou os braços. — Porque não precisa. Beatriz respirou fundo. — Ele já está dentro. O silêncio confirmou. — Então a gente continua aqui esperando ele agir? — questionou Lorenzo. Helena finalmente se afastou do sistema. — Não. Uma pausa. — A gente muda de ambiente. Beatriz olhou para ela. — Você quer sair? Helena assentiu. — Aqui virou território previsível. Augusto completou: — E previsibilidade agora é vantagem pra ele. Beatriz pensou por um segundo. Mas no fundo… já sabia. — Então vamos. O desligamento foi rápido. Mas não tranquilo. Eles não estavam encerran
A mensagem ainda estava na tela. “Se vocês mudam… então o que exatamente eu estou aprendendo?” O silêncio não era vazio. Era leitura. Helena foi a primeira a reagir. — Isso não é um ataque. Beatriz não tirava os olhos da frase. — Não… Uma pausa. — É uma pergunta. Augusto franziu a testa. — Desde quando ele pergunta? Lorenzo respondeu baixo: — Desde que não tem mais certeza. O clima mudou. Sutil. Mas importante. — Ele está diferente — disse Helena, já analisando padrões. — Não é só estratégia agora. Beatriz completou: — Ele está… tentando entender. O silêncio caiu. Porque isso tornava tudo mais perigoso. — Ou isso é mais um jogo — disse Augusto. Lorenzo balançou a cabeça. — Pode até ser. Uma pausa. — Mas não é o mesmo jogo. Beatriz respirou fundo. Tomando uma decisão. — A gente responde. Helena olhou rápido para ela. — Tem certeza? — Se ele está aprendendo… — disse Beatriz — então a gente decide o que ele aprende. O silêncio concordou. — Isso é arrisc







