Share

Capítulo 2

Author: Calendário
À noite, Heitor dirigia o carro, levando-nos quatro ladeira abaixo, saindo em alta velocidade da mansão na metade do morro.

Ele dirigia rápido demais, e eu sentia o meu estômago virar ao avesso, quase vomitando. Eu não aguentei e reclamei:

— Dirige mais devagar, eu fico enjoada.

Do banco do motorista veio uma risadinha de deboche:

— Para de fingir, antes você não era a que mais gostava de correr de carro?

Ele tinha razão.

No nosso grupo de quatro, eu e Heitor adorávamos corrida. Nós sempre marcávamos de disputar quem era melhor nas estradas da montanha. Até o meu primeiro carro esportivo foi um presente dele.

Mas isso tinha ficado no passado.

Noventa e nove doses de remédio e sessões de hipnose já tinham destruído o meu sistema nervoso, que tinha ficado frágil ao extremo.

Eu mal conseguia manter o equilíbrio no dia a dia, eu vivia cheia de roxos pelo corpo. Até aquele instante de quase queda livre dentro do elevador me deixava mal, quanto mais um racha de carro.

A voz cheia de admiração de Ivana soou baixinho:

— Mano, que adrenalina... Você não tem noção do quanto eu invejava a minha irmã quando eu tinha acabado de voltar.

Assim que Ivana terminou de falar, eu senti uma pressão forte me empurrar contra o banco. A velocidade do carro aumentou de novo.

Eu só consegui cravar os dentes por dentro da bochecha. Mesmo sentindo o gosto de sangue, eu não ousei relaxar.

Só quando o carro finalmente parou, eu não aguentei mais e vomitei com tudo, sem conseguir segurar.

— Solange, você está de sacanagem, né? Que nojo, porra!

— Caramba! Você interpreta bem assim por quê? Vai ser atriz, então.

— Que nojo...

Os xingamentos deles e os olhares de desprezo dos passantes dilaceravam a minha dignidade, enquanto a náusea remexendo o meu estômago me paralisava, e eu já nem conseguia me justificar.

Através do véu das minhas lágrimas, eu olhei para Theo, cheia de esperança, esperando que ele me defendesse. Ele era psicólogo, ele sabia melhor do que ninguém quais eram os efeitos colaterais daqueles remédios.

Eu não queria enojar ninguém, eu não estava fingindo nada. Eu só não conseguia controlar a reação do meu próprio corpo.

Mas Theo continuou me encarando com um olhar distante, até o momento em que Ivana chegou perto dele, franziu as sobrancelhas e cochichou alguma coisa.

Diante de todo mundo, Theo se agachou. Ele tirou um lenço do bolso, segurou o sapato de couro de Ivana e começou a limpar um "sujo" que nem existia.

O meu coração se contraiu na mesma hora, porque aquele lenço tinha sido um presente meu para ele. Não era nada muito caro, mas eu mesma tinha bordado uma flor no canto.

Eu tinha costurado ponto por ponto, o dia inteiro, e tinha enchido os meus dedos de furinhos de agulha.

Eu ainda lembrava do olhar cheio de emoção dele quando ele recebeu o lenço e perguntou:

— Isso é tipo aqueles presentes de compromisso que as moças da nobreza na França davam para o homem de quem gostavam?

Eu tinha ficado corada na hora e tentei pegar o lenço de volta. Ele, porém, tinha guardado o lenço no bolso interno do terno, bem em cima do coração:

— Eu vou guardar isso para o resto da minha vida!

Mas, agora, aquele mesmo lenço tinha descido do lugar mais perto do coração dele para os pés de Ivana.

Quando eu finalmente consegui controlar o mal-estar, eles já tinham entrado.

Eu pedi desculpas ao funcionário do local, perguntei o número do reservado e fui atrás, apressada. Só que, assim que eu empurrei a porta, um balde de água gelada caiu inteiro na minha cabeça.

Eu fiquei completamente paralisada, tremendo sem parar enquanto eu apertava a barra do vestido.

Quando viram o meu estado deplorável, as pessoas dentro do reservado caíram na gargalhada. Até Theo levou o punho à boca, tentando segurar o riso.

Naquele instante, as emoções que eu vinha empurrando para baixo despencaram de vez. Eu engoli o choro e gritei para eles:

— Está divertido, né? Era para isso que vocês me chamaram para vir hoje à noite?

O barulho foi sumindo. Todo mundo começou a perceber que tinha passado dos limites.

Daniel coçou o nariz, ainda teimando na pose:

— Você vomitou daquele jeito, o fedor estava insuportável. A gente só quis ajudar, dar um banho em você...

— Falso! — Eu o cortei na hora e desabei de vez. — Eu já tinha falado que eu fico enjoada no carro, por que vocês não acreditaram em mim? Se alguém conseguisse fingir um vômito daquele jeito, aí sim eu mereceria ganhar um Oscar!

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 8

    Antes de deixar Londa, eu finalmente senti medo. Eu tive medo de que o meu pai e a minha mãe não gostassem de mim, tive medo de… eles já tivessem outra filha.Orlando pareceu perceber o que eu estava pensando e me mostrou uma foto. Era a foto de uma garotinha que se parecia muito comigo.O meu sorriso congelou no canto dos lábios num arco ridículo, que logo ficou amargo. Eu ouvi o meu irmão dizer:— Essa é uma menininha que o papai e a mamãe encontraram em um evento de caridade, da sua idade. Na época, até eu achei que, quando o evento acabasse, eles fossem levar ela para casa, mas não levaram. Eles disseram que nunca pensaram em criar outra menina, porque o carinho que pertence à princesinha deles não podia ser dividido com ninguém, nem um pouco. Mesmo assim, eles arrumaram uma família ótima para ela e disseram que só de pensar nesse rostinho sofrendo o coração deles já doía. Então, agora você entendeu? A gente já estava esperando por você, nossa princesa, há muitos anos. Não precisa

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 7

    — Lá no começo, a Ivana veio falar comigo dizendo que a Solange era mandona, que vivia humilhando-a e que queria expulsá‑la da família Ferreira. Eu sabia que a Solange tinha um gênio difícil, porque fui eu que estraguei ela de tanto mimo. Eu pensei que, já que as duas eram filhas do senhor, eu podia cuidar um pouco mais da Ivana. Quem diria que, depois de uma, duas vezes, ela ia ficar cada vez pior, a ponto de inventar calúnias para prejudicar a Solange? Eu também acabei sendo enganado por ela. — Theo continuou.Theo fez um sinal e chamou uma das empregadas da casa. A empregada veio trêmula e contou, de uma vez só, como Ivana tinha mandado ela esconder coisas no meu quarto e todo o resto. No fim, ela falou:— Eu não queria fazer isso, de verdade. Mas a Ivana disse que ela é a verdadeira filha desta casa e que, se eu não ajudasse, ela ia me mandar embora.Ivana balançou a cabeça, negando desesperada, mas Hugo levantou a mão e deu um tapa forte no rosto dela:— Ingrata. Nós trouxemos voc

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 6

    No dia seguinte, Orlando me levou até a família Ferreira.Hugo Ferreira e Helena Ferreira, meus pais adotivos, que estavam em viagem de negócios no exterior, também tinham voltado às pressas. Junto com eles, os chefes das famílias Garcia, Soares se reuniram para um banquete.Eu vi, com os meus próprios olhos, os chefes dessas famílias se comportarem de forma bajuladora diante de Orlando, que para eles não passava de um jovem vindo de longe.— A Solange é uma menina de muita sorte. Mesmo tendo se perdido, ela não foi parar no interior para sofrer. Ainda bem que ela veio para a nossa casa. Nós a tratamos como um tesouro.— É isso mesmo. Entre tantas mocinhas, o meu filho, desde pequeno, só seguia a Solange para todo lado. Esses dois parecem mesmo feitos um para o outro.…Orlando não deu muita bola para aqueles elogios. Ele apenas foi servindo comida no meu prato com toda a delicadeza do mundo.Eu percebi que havia um olhar queimando nas minhas costas o tempo todo. Quando eu ergui os olh

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 5

    Eu só tinha visto Orlando Maia uma vez. A impressão que eu tinha dele era a de um homem de uma elegância absoluta, inigualável.Mas, naquele momento, ele não ligou nem um pouco para a própria imagem. Ele correu até mim e deu chutes nos seguranças que estavam ao meu redor, derrubando todos. Depois, ele se ajoelhou com um dos joelhos no chão e me puxou para os braços dele.Quando eu vi o jeito aflito com que Orlando me olhava, eu senti o nariz arder de repente. Eu enfiei o rosto no peito dele, como um passarinho perdido que finalmente tinha voltado para o ninho, e eu desabei a chorar.Depois que eu comecei a chorar, eu não consegui mais parar, como se quisesse despejar ali, de uma vez, todas as minhas mágoas.Orlando, o meu irmão mais velho de sangue, o primeiro na linha de sucessão da família Maia, na cidade de Malanje, usou toda a doçura que ele tinha para me acalmar:— Já passou, já passou. Eu cheguei. Eu vou levar você para casa.Antes que eu conseguisse responder, Theo soltou uma ri

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 4

    — Não!Sob o meu olhar apavorado, Theo arrancou o meu casaco de uma vez.Daniel e Heitor ficaram com expressão de incômodo e correram para me defender, mas Theo lançou um olhar feroz para os dois.Num único cruzar de olhares, os três homens chegaram a um acordo mudo.Naquele ponto, eles só podiam continuar encenando aquela "reencarnação". Se eles parassem ali, eles nunca mais iam conseguir sustentar a farsa.Por mais que eu chorasse e me debatesse, os três não hesitaram nem por um segundo. Eles arrancaram a minha roupa até deixarem só a minha lingerie no corpo.Eu só consegui cruzar os braços na frente do peito e me encolher no chão, feita um bolinho. Cada centímetro da minha pele exposta ao ar tremia.Theo ficou à frente dos três, todos segurando o meu vestido e o resto da minha roupa, olhando para mim de cima para baixo:— Solange, ou você pede desculpa para a Ivana, ou você some daqui.Em um instante, todas as lembranças passaram pela minha cabeça como se fossem um filme acelerado.

  • Falsa Herdeira, Sangue Nobre   Capítulo 3

    Todos ficaram com expressão de espanto. Eles não tinham imaginado que a minha reação seria tão forte, afinal, eles já estavam acostumados com a Solange mansa e frágil.Mas eles tinham esquecido que, um dia, eu também tinha sido a pessoa que eles carregavam no coração e protegiam com todo cuidado. Como eu poderia não ter gênio nenhum? Eu só tinha guardado todos os meus espinhos e engolido tudo porque eu me importava com eles.Reencarnação, morte, segunda chance… tudo aquilo tinha sido um teatro armado por eles por causa de Ivana. Só de pensar nisso, o meu peito doía ainda mais. Eu me virei para ir embora.Ivana correu atrás de mim, querendo me segurar. Assim que ela encostou no meu braço, eu me desvencilhei com força, e ela soltou um grito e caiu no chão.Theo, que estava sentado num canto, se levantou de supetão. Ele veio depressa, ajudou Ivana a se levantar e conferiu, cheio de preocupação, se ela tinha se machucado.A diferença de atitude dele me fez arder os olhos de dor. Eu não qui

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status