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Capítulo 4

Author: Calendário
— Não!

Sob o meu olhar apavorado, Theo arrancou o meu casaco de uma vez.

Daniel e Heitor ficaram com expressão de incômodo e correram para me defender, mas Theo lançou um olhar feroz para os dois.

Num único cruzar de olhares, os três homens chegaram a um acordo mudo.

Naquele ponto, eles só podiam continuar encenando aquela "reencarnação". Se eles parassem ali, eles nunca mais iam conseguir sustentar a farsa.

Por mais que eu chorasse e me debatesse, os três não hesitaram nem por um segundo. Eles arrancaram a minha roupa até deixarem só a minha lingerie no corpo.

Eu só consegui cruzar os braços na frente do peito e me encolher no chão, feita um bolinho. Cada centímetro da minha pele exposta ao ar tremia.

Theo ficou à frente dos três, todos segurando o meu vestido e o resto da minha roupa, olhando para mim de cima para baixo:

— Solange, ou você pede desculpa para a Ivana, ou você some daqui.

Em um instante, todas as lembranças passaram pela minha cabeça como se fossem um filme acelerado. Desde que eu tinha memória, nós éramos o quarteto inseparável.

Aos seis anos, quando Daniel apanhou de um garoto de dez, eu fiquei na frente dele para protegê‑lo.

Aos doze, quando Heitor cabulou aula para ficar jogando no fliperama, eu fiquei de olheira para ele.

Aos dezesseis, quando Theo dizia que detestava a noiva arranjada para ele, eu fui implorar ao meu avô e fiz com que a noiva de fachada dele passasse a ser eu.

Aos dezoito, nós fomos esquiar e caímos no meio de uma avalanche. Nós nos apoiamos um no outro e ninguém abandonou ninguém.

As imagens foram se quebrando uma a uma diante dos meus olhos, até virarem pó.

Eu puxei um sorriso fraco, quase invisível, e não falei nada. Eu simplesmente saí dali daquele jeito, só de lingerie.

Atrás de mim, eu ainda ouvi de longe o som de uma discussão. Parecia que Heitor não tinha aguentado ver aquela cena e tinha avisado Theo de que ele ia se arrepender.

Será que ele ia se arrepender? Já não importava mais.

No fim, Heitor correu atrás de mim. Ele me envolveu com o casaco e falou num tom de nojo:

— Você enlouqueceu de vez? Quer sair assim para todo mundo rir da família Ferreira?

Eu soltei uma risada de deboche de mim mesma. Então era isso: ele só tinha medo de eu manchar o nome da família Ferreira.

Heitor se ofereceu para me levar para casa, e eu não recusei.

Quando eu cheguei em casa, eu me tranquei no quarto. Eu estava tão exausta, por dentro e por fora, que peguei no sono rápido.

Mas eu não dormi em paz. Nos meus sonhos, eu só via as cenas de quando nós quatro éramos grudados, como irmãos, e as lágrimas escorriam sozinhas pelo meu rosto.

De repente, alguém me arrancou da cama com um puxão forte. Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, um saco de pano foi enfiado na minha cabeça. Tirando a dor do tombo, eu recuperei a calma depressa.

Ali era um condomínio de mansões com segurança pesada. Eu logo percebi que provavelmente era mais uma das ideias de Theo.

Eles me jogaram dentro de uma fábrica abandonada. Mesmo com o tecido grosso do saco, eu sentia os golpes de cassetetes caírem um atrás do outro no meu corpo.

Eu senti como se as minhas costelas tivessem quebrado, mas eu mordi os lábios com força e me recusei a gritar. Os caras foi que começaram a ficar nervosos:

— Ela não morreu, não, né? O Sr. Theo falou para não machucar ela demais. O que a gente faz, chefe?

— Está com medo do quê? A Srta. Ivana que mandou. A gente só bateu nela um pouco, a culpa vai ser de quem?

Depois de passos apressados, o silêncio tomou conta do lugar.

Eu não sabia quanto tempo eu fiquei indo e voltando entre a consciência e o desmaio. Quando tiraram o saco da minha cabeça, eu já estava quase apagando.

Theo estava na minha frente, cercado por vários seguranças, com a expressão carregada:

— Você não se arrepende de nada e ainda mandou gente tentar sujar a honra da Ivana. Você é venenosa demais.

De repente, eu entendi para que aqueles seguranças estavam ali. Eu arregalei os olhos, tomada pelo pânico:

— Eu não fiz isso! Theo, você não pode fazer isso comigo!

Alguns homens vieram e me imobilizaram. A voz de Theo veio leve, distante:

— Solange, quem faz coisa errada paga o preço. Considera isso uma lição. Depois é só se comportar direitinho. Não precisa ter medo, você só vai dormir um pouco, depois passa.

Dessa vez, ele não ia mais usar a morte de alguém que eu amava como castigo. Ele ia me destruir primeiro e, depois, me fazer "reencarnar".

Enquanto a cicatriz ficasse funda o bastante, eu ia ficar cada vez mais dócil.

Eu encarei Theo, e os meus olhos ficaram completamente vermelhos:

— Se vocês me dessem mais uma chance, mesmo que vocês morressem na minha frente, eu juro que eu não ia olhar nem uma vez.

Theo se virou, chocado, e deu de cara com o meu olhar tomado de ódio. A mão dele, caída ao lado do corpo, começou a tremer sem controle. Um pensamento atravessou a mente dele de ponta a ponta; ele teve certeza de que eu já sabia de toda a verdade.

"Não tem problema, não tem problema. Desta vez, se a gente aumentar a dose dos remédios e usar a hipnose junto, ela vai acreditar de novo. Nas outras noventa e nove vezes, ela acreditou em tudo, não acreditou?"

Theo tentou se convencer com todas as forças, mas, no segundo seguinte, ele viu um homem se aproximar, com o rosto tomado pela aflição.

O homem me chamou:

— Solange!

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