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O vento frio entrava pelas frestas das janelas da propriedade dos Valcourt, um lembrete constante de que o dinheiro para os reparos havia acabado muito antes do inverno chegar.
Amália esfregou as mãos, tentando aquecer os dedos dormentes. Ela usava um vestido de lã cinza, puído nas bordas, muito diferente das sedas que sua madrasta, Eleanor, insistia em encomendar mesmo com a família à beira da ruína. O som de passos pesados ecoou no corredor, e a porta de seu quarto foi aberta sem qualquer aviso.
Era o mordomo, um dos poucos criados que ainda restavam. Ele não a olhou nos olhos.
— Seu pai exige sua presença no escritório, senhora. Imediatamente.
Amália assentiu, alisou a saia e seguiu o homem pelos corredores escuros da casa. Havia quadros faltando nas paredes, vendidos para pagar dívidas de jogo. O cheiro de mofo e abandono impregnava as cortinas velhas.
Quando ela entrou no escritório, o ambiente estava abafado, aquecido por uma lareira que queimava lenha de boa qualidade. Seu pai, Lorde Arthur, estava sentado atrás de uma pesada mesa de carvalho. Ele parecia dez anos mais velho, com o rosto afundado nas mãos, a pele pálida e os ombros curvados.
Ao lado dele, de pé, estava Eleanor. A madrasta de Amália usava um vestido verde-esmeralda impecável. Ela exibia um sorriso fino e calculado, os braços cruzados sobre o peito.
— Feche a porta, Amália — Arthur ordenou, a voz rouca, sem levantar o olhar.
Amália obedeceu. Ela caminhou até o centro da sala e parou, sentindo um nó se formar na garganta. Aquela reunião não era sobre economia doméstica. O olhar de Eleanor carregava uma satisfação que só aparecia quando alguém estava prestes a sofrer.
— Você nos chamou, pai.
Arthur finalmente ergueu a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos. Ele pigarreou, tentando encontrar alguma autoridade em sua postura derrotada, mas falhou.
— Nossa situação financeira, como você bem sabe, chegou ao limite — ele começou, escolhendo as palavras com lentidão. — Os credores estiveram aqui novamente esta manhã. Eles ameaçaram confiscar a propriedade. Não temos mais para onde correr, Amália. As dívidas são impagáveis.
— Eu sei, pai. Tenho tentado reduzir os custos da casa, dispensei a cozinheira e…
— Reduzir custos não vai salvar esta família da prisão! — Eleanor cortou, impaciente. Ela descruzou os braços e deu um passo à frente. — Nós precisamos de dinheiro de verdade. Dinheiro que o seu pai não tem mais capacidade de conseguir. Mas, por sorte, eu encontrei uma solução.
Amália olhou da madrasta para o pai. Arthur desviou o rosto, encarando o fogo na lareira. O silêncio no escritório de repente pareceu pesado demais.
— Que solução? — Amália perguntou, a voz um pouco mais baixa.
— Um casamento — Eleanor respondeu prontamente, os olhos brilhando de triunfo. — Um acordo extremamente vantajoso. O noivo concordou em assumir todas as dívidas da família Valcourt e ainda depositar uma quantia generosa nos cofres do seu pai. Em troca, você será a esposa dele.
Amália sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela piscou, tentando processar a informação. Casamento. Ela sabia que filhas de nobres eram moedas de troca, mas nunca imaginou que seu pai a venderia daquela maneira, sem sequer um aviso prévio.
— Quem é o homem? — ela perguntou, esforçando-se para manter o tom de voz estável.
Arthur apertou a borda da mesa.
— É o Alpha Herdeiro. O Alpha Kael.
O sangue de Amália gelou. O nome ecoou em sua mente como uma sentença de morte. Kael. O Alpha do Norte. O lobo conhecido em todas as alcateias por sua crueldade implacável. As histórias sobre ele eram contadas para assustar crianças. Diziam que ele governava com garras sujas de sangue, que não tinha misericórdia por inimigos e que suas duas noivas anteriores haviam morrido em circunstâncias misteriosas e terríveis antes mesmo de chegarem ao altar. Ele não era apenas um tirano; ele era considerado um monstro lupino.
— Não — Amália sussurrou, dando um passo para trás. — Pai, não. Você não pode estar falando sério.
— O contrato já foi assinado — Eleanor declarou, com um tom de quem encerra um assunto trivial. — O selo real chegou esta manhã.
— Ele é um assassino! — Amália gritou, a compostura finalmente quebrando. Ela avançou até a mesa e bateu as mãos na madeira. — Pai, olhe para mim! Você está me vendendo para um homem que tortura pessoas por diversão. As pessoas o chamam de O Açougueiro. Você sabe o que ele faz com quem cruza o caminho dele!
— Chega, Amália! — Arthur levantou a voz, batendo o punho na mesa. Ele se ergueu, a expressão distorcida por uma mistura de raiva e vergonha. — Você acha que eu tive escolha? Se não aceitássemos, estaríamos todos na rua amanhã. Eu seria jogado em uma masmorra de devedores. Você iria acabar trabalhando como lavadeira ou coisa pior. Eu fiz o que precisava ser feito para salvar o nosso nome.
— Salvar o seu nome — ela corrigiu, a voz embargada, as lágrimas finalmente queimando nos olhos. — Você salvou a si mesmo e a ela.
Eleanor suspirou, revirando os olhos.
— Poupe-nos do drama, Amália. Você vai se casar com a realeza. Terá um castelo, joias, criados. Muitas mulheres matariam por essa oportunidade.
— Então case-se com ele você — Amália cuspiu, encarando a madrasta com ódio puro.
O rosto de Eleanor endureceu. Ela caminhou até Amália e, com um movimento rápido e impiedoso, desferiu um tapa no rosto da garota. O estalo foi alto. O rosto de Amália virou para o lado, a bochecha ardendo intensamente. Arthur apenas fechou os olhos, incapaz de intervir.
— Você vai aprender a ter respeito — Eleanor sibilou, o rosto a centímetros do de Amália. — Sua carruagem parte em três dias. O Alpha Kael não é um lobo que gosta de esperar. Você vai entrar naquela carruagem e vai ser a fêmea submissa que ele pagou para ter. Se você tentar fugir ou arruinar este acordo, eu mesma garanto que os batedores da guarda lupina a encontrem.
Amália tocou o próprio rosto, sentindo a pele quente. Ela olhou para o pai uma última vez. Arthur não abriu os olhos. Ele havia se rendido. Ele a havia sacrificado.
Não havia amor ali. Não havia proteção. A casa em que ela cresceu havia se transformado em uma cela, e a porta estava prestes a se fechar.
— Três dias — Amália repetiu, a voz perigosamente calma. A tristeza estava rapidamente sendo substituída por um instinto primitivo. Sobrevivência.
Ela deu as costas para o pai e para a madrasta, caminhando em direção à porta do escritório. Antes de sair, ela parou e olhou por cima do ombro.
— Eu espero que o dinheiro valha a pena, pai. Porque você acaba de perder a sua única filha.
Ela abriu a porta e saiu, caminhando rápido pelos corredores escuros. O som de seus passos abafava o barulho da tempestade lá fora. Amália não iria chorar mais. Enquanto entrava em seu quarto frio e trancava a porta, uma única certeza se formava em sua mente.
Ela entraria na carruagem em três dias.
O ar gélido da Floresta Negra carregava o cheiro de pinheiro fresco, terra úmida e promessas de um inverno rigoroso. Anos atrás, aquele mesmo vento cortante havia sido o cenário do maior terror da vida de Amália. Havia sido o lugar onde ela se atirara de uma carruagem na escuridão, fugindo de um destino que considerava pior do que a morte.Mas o tempo, a magia e o perdão haviam reescrito a história daquele pedaço do mundo. O que antes era uma prisão de gelo, agora era o quintal sagrado da sua família.Um ganido agudo e eufórico rompeu o silêncio da floresta.Pela neve profunda e intocada, uma pequena bola de pelos cinza-chumbo corria o mais rápido que as suas patas curtas e desajeitadas permitiam. O pequeno lobo tropeçava a cada três saltos, afundando o focinho na neve fofa, espirrando e chacoalhando a cabeça antes de voltar a correr com uma determinação feroz.Logo atrás dele, movendo-se com uma lentidão calculada e uma graça predatória que contrastava absurdamente com o seu tamanho,
O amanhecer despontou sobre a capital do Norte não com a ferocidade de uma tempestade, mas com a clareza cristalina de um milagre de inverno. O céu, livre de nuvens, exibia um azul pálido e imaculado, e o sol frio fazia a neve recém-caída brilhar como um mar de diamantes esmagados.No pátio principal do castelo, o cenário era de tirar o fôlego. Durante a noite, os artesãos e os lobos de gelo da alcateia haviam trabalhado incansavelmente para transformar a arena de pedras — o mesmo lugar que outrora abrigara o terror de um patíbulo — em um altar de beleza indescritível. Grandes arcos de gelo cristalino foram erguidos, entrelaçados com rosas brancas de inverno e ramos de pinheiro.A alcateia inteira estava reunida. Milhares de lobos, desde os lordes recém-subjugados até os aldeões das fronteiras, preenchiam o pátio em um silêncio reverencial. Não havia sussurros venenosos. Não havia intrigas. Havia apenas uma expectativa densa e uma submissão absoluta que pairava no ar gélido.Dentro do
A véspera do casamento real havia transformado a capital do Norte em um formigueiro caótico. No castelo, centenas de servos corriam pelos corredores carregando sedas, tapeçarias e baús de ouro. Lordes e emissários de alcateias distantes chegavam a cada hora, ansiosos para testemunhar a união que selaria o destino do império. O mundo lá embaixo estava ensurdecedor.Mas, muito acima das muralhas do palácio, o silêncio era absoluto.Alpha Kael havia roubado a sua noiva no meio da noite. Longe dos olhos da guarda, dos sussurros da corte e das exigências dos Anciãos, ele a levou cavalgando montanha acima.Eles pararam em um platô escondido, no pico mais alto da cordilheira que abraçava a capital. Ali, esculpido na própria rocha ancestral, ficava o Santuário da Primeira Neve — um templo rústico, sem teto, delimitado apenas por grandes pilares de pedra escura que se erguiam em direção ao céu. O cenário era de tirar o fôlego. Não havia tochas, nem lareiras de carvão. O lugar estava iluminado
O clima no castelo do Norte havia sofrido uma metamorfose palpável. O terror sufocante que antes rastejava pelos corredores de pedra fria — o medo constante dos rompantes d'O Açougueiro do Norte e das intrigas venenosas da corte — havia sido substituído por uma espécie de fascínio hipnótico. A matilha inteira, dos servos aos lordes recém-perdoados, não conseguia desviar os olhos da nova dinâmica que dominava o palácio.A química entre Alpha Kael e Amália era impossível de ignorar. Era uma força gravitacional, um incêndio silencioso que aquecia as sombras do castelo.Faltavam poucos minutos para o início de uma reunião diplomática crucial com as alcateias do Leste, mas, em um corredor isolado com vista para os jardins congelados, o Príncipe Herdeiro estava longe de pensar em tratados de fronteira.Kael havia puxado Amália para trás de uma pesada tapeçaria, prensando-a suavemente contra a parede de pedra. As mãos imensas do guerreiro seguravam a cintura fina dela, enquanto os lábios del
O amanhecer no castelo do Norte cheirava a gelo, fumaça de tochas e justiça implacável. O expurgo final havia começado.No grande pátio de pedra, o som que antes aterrorizava Amália — o tinir metálico de correntes pesadas — agora servia a um propósito muito diferente. Lordes, barões e comandantes de patrulha que haviam jurado lealdade à Casa Valerius e à conspiração de Lady Vespera estavam sendo arrastados pelos soldados da guarda de elite.No topo da escadaria principal, Alpha Kael observava o abate político. Ele não vestia mais os trapos rasgados e ensanguentados da noite anterior, mas a sua túnica militar escura e a postura ereta exalavam um domínio que sufocava qualquer tentativa de motim. O Açougueiro do Norte estava limpando a própria casa.— O Lorde Baelor e os seus dois filhos confessaram ter financiado a escolta de mercenários na fronteira, Majestade — o Beta Rolan relatou, parando ao lado de Kael com um pergaminho em mãos. — Eles pedem clemência em nome do Sangue da Lua e ap
O ar no Grande Salão do Trono estava tão espesso que mal se podia respirar. A tensão entre as colunas de mármore negro era um barril de pólvora prestes a explodir. Dezenas de lordes, matriarcas das Casas Antigas e generais da guarda lupina andavam de um lado para o outro, os nervos à flor da pele. O castelo havia sido atacado na noite anterior, a futura Luna estava apodrecendo nas masmorras por forjar um crime de alta traição, e o exército estava dividido. A alcateia do Norte, que por séculos se orgulhava de sua estabilidade letal, tremia diante da ameaça de uma guerra civil.No alto do estrado, o Alpha Supremo mantinha-se sentado em seu trono de ferro, o rosto esculpido em uma máscara de fúria contida. A Luna Suprema, pálida e visivelmente abalada pela ruína de sua protegida, Lady Vespera, evitava o olhar dos nobres. O murmúrio de descontentamento crescia a cada segundo. Eles exigiam respostas. Exigiam o herdeiro.Foi então que o estrondo ensurdecedor engoliu o salão.BUUUUM!As imen







