LOGINTrês dias haviam se passado desde a condenação no escritório. A manhã da partida amanheceu cinzenta, acompanhando o clima fúnebre que pairava sobre a propriedade dos Valcourt.
No silêncio gélido do seu quarto, Amália terminava de amarrar os cordões do traje de viagem. A roupa, escolhida a dedo pela madrasta, era de um tecido grosso, áspero e de um tom marrom sem vida. O objetivo de Eleanor era claro: apagar qualquer traço de dignidade que a enteada possuísse. Mas o vestido grosseiro falhava miseravelmente em esconder quem Amália era.
Aos vinte anos, ela exibia uma beleza marcante e intensa. Seus cabelos eram espessos e negros como a noite, caindo em ondas pesadas pelas costas. Ela media exatos 1,70m de altura, e seus 65 quilos eram bem distribuídos, conferindo-lhe uma silhueta feminina, firme e uma postura naturalmente altiva. Ela não possuía a magreza frágil e doentia que as damas da corte costumavam ostentar. Havia força em seus ombros e em seu queixo erguido. Seus olhos, escuros e profundos, encaravam o próprio reflexo no espelho rachado com uma frieza calculada.
A porta do quarto abriu sem que ninguém batesse. Eleanor parou no batente. A madrasta usava um vestido de seda azul-marinho que contrastava com seus cabelos castanhos perfeitamente alinhados em um coque rígido. Ela deu um passo para dentro, os olhos escuros varrendo Amália de cima a baixo com um desgosto indisfarçável. O olhar de Eleanor era o mesmo de um comerciante avaliando um cavalo prestes a ser entregue ao abatedouro.
— Você está pronta — Eleanor constatou, o tom seco. — E espero que o seu comportamento durante a viagem seja mais adequado do que foi naquele escritório.
Amália virou-se devagar, cruzando as mãos à frente do corpo.
— Meu comportamento será exatamente o que esta situação exige, Eleanor.
A madrasta estalou a língua, impaciente. Ela caminhou até a cama e apontou para um baú minúsculo de madeira barata que um dos criados havia deixado ali mais cedo.
— Aí dentro estão algumas mudas de roupa simples. O Alpha Kael pagou pelas suas dívidas, não por um enxoval de luxo humano. Ele que a vista como achar melhor quando chegarem ao Norte. Pegue o baú. A guarda lupina já está lá fora.
Amália olhou para o baú. Era o resumo de toda a sua vida, reduzido a uma caixa inexpressiva. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até a cama e ergueu a alça de couro. Pesava quase nada.
— Lembre-se, Amália — Eleanor disse, baixando o tom de voz para um sussurro ameaçador enquanto a enteada passava em direção à porta. — Se você fizer qualquer gracinha, se tentar envergonhar o seu pai ou arruinar este acordo...
— Você me caçará, eu sei — Amália a cortou, sem olhá-la nos olhos, a voz monocórdica. — Você já deixou suas ameaças bem claras. Com licença.
O trajeto pelos corredores da casa pareceu mais longo do que o normal. Cada passo de Amália ecoava no assoalho de madeira velha. Quando ela cruzou as portas duplas da entrada principal e pisou no cascalho do pátio externo, o vento frio da manhã bateu contra seu rosto.
A carruagem que a aguardava não tinha brasões luxuosos, cortinas de veludo ou adornos dourados. Era um veículo escuro, robusto, feito para cruzar terrenos difíceis e passar despercebido, blindado com madeira maciça. Ao redor do veículo, doze guardas fortemente armados montavam cavalos impacientes.
Perto dos degraus da casa, seu pai estava parado. Arthur Valcourt mantinha a cabeça baixa. Seus cabelos grisalhos balançavam com o vento, e a pele de seu rosto estava enrugada pela preocupação. Amália parou por um segundo, esperando que ele dissesse algo. Uma palavra de conforto. Um pedido de perdão. Qualquer coisa. Mas Arthur não teve coragem sequer de levantar os olhos para encarar a filha que acabara de vender.
Um lobo alto e de ombros largos separou-se da guarda lupina e caminhou na direção de Amália. O Beta da alcateia usava uma armadura de couro escuro e trazia uma cicatriz profunda que cruzava seu rosto moreno. Ele não fez reverência. Não houve cortesia alguma em sua aproximação.
— Você é a senhora Valcourt? — a voz do homem era áspera, como pedras sendo trituradas.
— Sou Amália.
O capitão não se importou com a correção. Ele apenas agarrou o pequeno baú da mão dela com força desnecessária e o atirou sem cuidado no compartimento traseiro da carruagem. Em seguida, ele se virou para ela, abriu a pesada porta do veículo e fez um gesto impaciente com a cabeça.
— Entre. Temos muitos quilômetros até a fronteira e o Alpha não tolera atrasos.
Amália levantou a saia do vestido grosseiro para subir o degrau da carruagem, mas não foi rápida o suficiente para o gosto do capitão. O homem colocou uma das mãos espalmadas no meio das costas dela e a empurrou para dentro com brutalidade.
Amália tropeçou, caindo de joelhos no chão duro do interior da carruagem. Ela mordeu o lábio inferior para não soltar um xingamento, virando o rosto bruscamente para fuzilar o capitão com o olhar.
O homem apenas a encarou de volta, impassível.
— Sente-se e fique quieta. A viagem será longa.
A porta da carruagem foi fechada com um estrondo. Segundos depois, Amália ouviu o som de correntes pesadas e o clique metálico inconfundível de uma fechadura sendo trancada por fora. Ela estava em uma gaiola sobre rodas.
O capitão gritou ordens do lado de fora, chicotes estalaram no ar e os cavalos relincharam. Com um solavanco brusco, a carruagem começou a se mover.
Amália levantou-se com dificuldade, espanou a sujeira da saia e sentou-se no banco de couro duro e rachado. Havia apenas uma pequena janela no veículo, coberta por uma grade de ferro e uma fresta de vidro empoeirado. Ela se inclinou, apoiando as mãos no aro gelado da janela.
Através da fresta, ela observou os grandes portões de ferro enferrujado da propriedade dos Valcourt ficarem para trás. A visão de sua casa, do lugar onde nasceu, desapareceu rapidamente quando a comitiva virou na estrada principal.
Em questão de minutos, as árvores ralas e secas das propriedades vizinhas deram lugar aos troncos massivos e à folhagem escura e impenetrável da temida Floresta Negra. As sombras das árvores engoliram a carruagem, bloqueando quase toda a luz do sol da manhã.
O pânico que estava esmagando o seu peito, o medo paralisante de conhecer o lobo sanguinário que seria seu marido, começou a mudar. A respiração ofegante de Amália desacelerou. O frio em seu estômago deu lugar a uma determinação afiada e perigosa.
Ela encostou a cabeça na parede da carruagem, os olhos escuros fixos na mata. Kael podia ser o Alpha Cruel. Ele podia ter pago as dívidas de seu pai humano.
Mas, Amália não chegaria ao fim daquele trajeto.
O ar gélido da Floresta Negra carregava o cheiro de pinheiro fresco, terra úmida e promessas de um inverno rigoroso. Anos atrás, aquele mesmo vento cortante havia sido o cenário do maior terror da vida de Amália. Havia sido o lugar onde ela se atirara de uma carruagem na escuridão, fugindo de um destino que considerava pior do que a morte.Mas o tempo, a magia e o perdão haviam reescrito a história daquele pedaço do mundo. O que antes era uma prisão de gelo, agora era o quintal sagrado da sua família.Um ganido agudo e eufórico rompeu o silêncio da floresta.Pela neve profunda e intocada, uma pequena bola de pelos cinza-chumbo corria o mais rápido que as suas patas curtas e desajeitadas permitiam. O pequeno lobo tropeçava a cada três saltos, afundando o focinho na neve fofa, espirrando e chacoalhando a cabeça antes de voltar a correr com uma determinação feroz.Logo atrás dele, movendo-se com uma lentidão calculada e uma graça predatória que contrastava absurdamente com o seu tamanho,
O amanhecer despontou sobre a capital do Norte não com a ferocidade de uma tempestade, mas com a clareza cristalina de um milagre de inverno. O céu, livre de nuvens, exibia um azul pálido e imaculado, e o sol frio fazia a neve recém-caída brilhar como um mar de diamantes esmagados.No pátio principal do castelo, o cenário era de tirar o fôlego. Durante a noite, os artesãos e os lobos de gelo da alcateia haviam trabalhado incansavelmente para transformar a arena de pedras — o mesmo lugar que outrora abrigara o terror de um patíbulo — em um altar de beleza indescritível. Grandes arcos de gelo cristalino foram erguidos, entrelaçados com rosas brancas de inverno e ramos de pinheiro.A alcateia inteira estava reunida. Milhares de lobos, desde os lordes recém-subjugados até os aldeões das fronteiras, preenchiam o pátio em um silêncio reverencial. Não havia sussurros venenosos. Não havia intrigas. Havia apenas uma expectativa densa e uma submissão absoluta que pairava no ar gélido.Dentro do
A véspera do casamento real havia transformado a capital do Norte em um formigueiro caótico. No castelo, centenas de servos corriam pelos corredores carregando sedas, tapeçarias e baús de ouro. Lordes e emissários de alcateias distantes chegavam a cada hora, ansiosos para testemunhar a união que selaria o destino do império. O mundo lá embaixo estava ensurdecedor.Mas, muito acima das muralhas do palácio, o silêncio era absoluto.Alpha Kael havia roubado a sua noiva no meio da noite. Longe dos olhos da guarda, dos sussurros da corte e das exigências dos Anciãos, ele a levou cavalgando montanha acima.Eles pararam em um platô escondido, no pico mais alto da cordilheira que abraçava a capital. Ali, esculpido na própria rocha ancestral, ficava o Santuário da Primeira Neve — um templo rústico, sem teto, delimitado apenas por grandes pilares de pedra escura que se erguiam em direção ao céu. O cenário era de tirar o fôlego. Não havia tochas, nem lareiras de carvão. O lugar estava iluminado
O clima no castelo do Norte havia sofrido uma metamorfose palpável. O terror sufocante que antes rastejava pelos corredores de pedra fria — o medo constante dos rompantes d'O Açougueiro do Norte e das intrigas venenosas da corte — havia sido substituído por uma espécie de fascínio hipnótico. A matilha inteira, dos servos aos lordes recém-perdoados, não conseguia desviar os olhos da nova dinâmica que dominava o palácio.A química entre Alpha Kael e Amália era impossível de ignorar. Era uma força gravitacional, um incêndio silencioso que aquecia as sombras do castelo.Faltavam poucos minutos para o início de uma reunião diplomática crucial com as alcateias do Leste, mas, em um corredor isolado com vista para os jardins congelados, o Príncipe Herdeiro estava longe de pensar em tratados de fronteira.Kael havia puxado Amália para trás de uma pesada tapeçaria, prensando-a suavemente contra a parede de pedra. As mãos imensas do guerreiro seguravam a cintura fina dela, enquanto os lábios del
O amanhecer no castelo do Norte cheirava a gelo, fumaça de tochas e justiça implacável. O expurgo final havia começado.No grande pátio de pedra, o som que antes aterrorizava Amália — o tinir metálico de correntes pesadas — agora servia a um propósito muito diferente. Lordes, barões e comandantes de patrulha que haviam jurado lealdade à Casa Valerius e à conspiração de Lady Vespera estavam sendo arrastados pelos soldados da guarda de elite.No topo da escadaria principal, Alpha Kael observava o abate político. Ele não vestia mais os trapos rasgados e ensanguentados da noite anterior, mas a sua túnica militar escura e a postura ereta exalavam um domínio que sufocava qualquer tentativa de motim. O Açougueiro do Norte estava limpando a própria casa.— O Lorde Baelor e os seus dois filhos confessaram ter financiado a escolta de mercenários na fronteira, Majestade — o Beta Rolan relatou, parando ao lado de Kael com um pergaminho em mãos. — Eles pedem clemência em nome do Sangue da Lua e ap
O ar no Grande Salão do Trono estava tão espesso que mal se podia respirar. A tensão entre as colunas de mármore negro era um barril de pólvora prestes a explodir. Dezenas de lordes, matriarcas das Casas Antigas e generais da guarda lupina andavam de um lado para o outro, os nervos à flor da pele. O castelo havia sido atacado na noite anterior, a futura Luna estava apodrecendo nas masmorras por forjar um crime de alta traição, e o exército estava dividido. A alcateia do Norte, que por séculos se orgulhava de sua estabilidade letal, tremia diante da ameaça de uma guerra civil.No alto do estrado, o Alpha Supremo mantinha-se sentado em seu trono de ferro, o rosto esculpido em uma máscara de fúria contida. A Luna Suprema, pálida e visivelmente abalada pela ruína de sua protegida, Lady Vespera, evitava o olhar dos nobres. O murmúrio de descontentamento crescia a cada segundo. Eles exigiam respostas. Exigiam o herdeiro.Foi então que o estrondo ensurdecedor engoliu o salão.BUUUUM!As imen







