Masuk
A primeira coisa que Lívia Monteiro ouviu foi o choro. Forte. Agudo. Inconfundível. Seu coração disparou.
— É uma menina.
As palavras da médica chegaram até ela como se viessem de muito longe.
Lívia estava exausta, os olhos marejados e o corpo ainda tremendo depois de horas de trabalho de parto. Mas nada disso importava. Ela virou o rosto na direção do pequeno embrulho nos braços da enfermeira. Sua filha.
Durante nove meses, imaginara aquele momento. Imaginara o primeiro choro. O primeiro olhar. O instante em que finalmente seguraria nos braços a criança que havia desejado por tanto tempo.
Mas havia algo estranho. Muito estranho. A enfermeira não se aproximou imediatamente. Permaneceu parada ao lado da médica, olhando para o bebê com uma expressão que Lívia não conseguiu compreender.
— O que aconteceu?
Ninguém respondeu.
Lívia tentou se levantar.
— Quero vê-la.
— Senhora Monteiro, por favor, fique deitada.
— Eu quero minha filha.
A médica trocou um olhar rápido com a enfermeira. Então caminhou até Lívia.
— Sua filha está bem.
— Então por que estão olhando para ela desse jeito?
A médica respirou fundo.
— Porque há algumas características que precisamos investigar.
Lívia sentiu o coração apertar.
— Ela está doente?
— Não sabemos.
A resposta foi suficiente para fazê-la entrar em pânico.
— O que significa que não sabem?
Finalmente, a enfermeira colocou o bebê em seus braços. Lívia olhou para a filha. E esqueceu de respirar. A menina era linda. Tinha cabelos escuros, delicados e surpreendentemente espessos para um recém-nascido. Mas foram os olhos que fizeram Lívia estremecer. Eram de um tom incomum. Um dourado profundo, quase âmbar.
— Isso é normal?
A médica permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Precisamos fazer alguns exames.
Lívia apertou a filha contra o peito.
— Ela é minha.
— Ninguém está dizendo o contrário.
— Então não tirem minha filha de mim.
A voz dela falhou. A médica suavizou a expressão.
— Não vamos tirar.
Lívia baixou os olhos novamente. A pequena menina havia parado de chorar. Estava olhando diretamente para ela. Como se a reconhecesse. Como se soubesse exatamente quem era sua mãe. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Lívia.
— Eu esperei tanto por você...
A menina fechou os dedos minúsculos ao redor do dedo de sua mãe. E Lívia sorriu. Naquele instante, decidiu que nada no mundo poderia separá-las.
Ela só não sabia que, em algum lugar distante dali, existia um homem que nem sequer sabia que aquela criança havia nascido.
Um homem que, anos antes, havia fornecido uma amostra genética para um procedimento médico. Uma amostra que jamais deveria ter sido utilizada. Uma amostra que acabara dentro do corpo de Lívia. E que carregava um segredo capaz de mudar o mundo sobrenatural.
***
Três dias depois, Lívia deixou o hospital. A filha dormia em seus braços enquanto ela atravessava a porta principal. Nenhum homem esperava por elas. Nenhum pai. Nenhuma família.
Apenas sua irmã, Helena, que segurava as lágrimas enquanto caminhava ao lado dela.
— Você escolheu um nome?
Lívia olhou para o bebê.
— Aurora.
— Aurora?
Ela sorriu.
— Porque ela chegou quando eu mais precisava de luz.
Helena tocou delicadamente a cabeça da criança.
— Ela é diferente.
Lívia parou.
— Diferente como?
Helena hesitou.
— Os olhos.
Lívia olhou novamente para a filha.
— O médico disse que algumas crianças nascem com características incomuns.
— E você acredita nisso?
— Preciso acreditar.
Helena não respondeu. Porque havia outra coisa. Uma coisa que nenhum médico conseguira explicar. Aurora tinha uma temperatura corporal estranhamente elevada. Seus batimentos cardíacos eram mais fortes do que o esperado. E, durante a madrugada anterior, uma enfermeira jurara ter visto os olhos da recém-nascida refletirem uma luz dourada no escuro.
Lívia, porém, não queria ouvir teorias. Queria apenas levar a filha para casa.
***
Naquela mesma noite, a milhares de quilômetros dali, Dante Valerius entrou em uma sala onde ninguém ousava falar. Ele era o Alfa Supremo. E todos naquela sala conheciam sua autoridade.
Dante colocou alguns documentos sobre a mesa.
— Começaremos a investigação amanhã.
Um dos homens assentiu.
— Sim, Alfa.
Dante se virou para a janela. A lua cheia iluminava as montanhas. Por algum motivo, sentia uma inquietação que não conseguia explicar. Seu lobo estava agitado. Não era comum.
Durante anos, Dante havia aprendido a controlar cada instinto, cada emoção e cada impulso. Mas naquela noite havia algo diferente. Uma sensação inexplicável. Como se uma parte dele estivesse despertando.
— Alfa?
Dante não respondeu. Seus olhos permaneceram fixos na lua. Então ouviu o rosnado baixo dentro da própria mente. Ela nasceu. Dante franziu a testa.
— Quem?
O lobo não respondeu. Apenas repetiu: A herdeira. Dante fechou os olhos. Ele não sabia quem era a criança. Não sabia onde ela estava. Não sabia sequer que existia.
Mas, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, seu instinto lhe dizia que algo havia mudado.
E ele ainda não fazia ideia de que, em uma pequena casa do outro lado do país, uma recém-nascida de olhos dourados dormia tranquilamente nos braços da mulher que, sem saber, carregava o maior segredo de seu reino.
Lívia havia pensado que sua filha era apenas um milagre. Mas Aurora não era uma criança comum. E quando Dante descobrisse a verdade... nada no mundo seria capaz de impedir o Alfa de encontrar sua filha.
De volta à cidade, Elara acordou durante a madrugada.Sentou-se na cama.Sentia alguém chamando por ela.Não era Aurora.Não era Lyra.Não era Lívia.Era outra coisa.Uma presença.Ela levantou-se e caminhou até a janela.No vidro apareceu lentamente uma marca negra.Elara tocou.Uma voz sussurrou:— Você não deveria ter sobrevivido.Elara recuou.— Quem está aí?A voz respondeu:— Aquele que nasceu antes de vocês.Elara ficou imóvel.— Antes?A marca desapareceu.Então outra frase apareceu no vidro:“A quarta herdeira não é uma criança.”Elara arregalou os olhos.— Então quem é?Nenhuma resposta.Apenas uma última palavra surgiu no vidro.“Procure.”Elara correu até a porta.Mas antes que pudesse sair, Aurora apareceu no corredor.— Elara?Lyra veio logo atrás.— O que aconteceu?Elara olhou para as duas.Seu rosto estava pálido.— Nós não somos as primeiras.Lyra ficou imóvel.— O que você quer dizer?Elara apontou para a janela.A marca negra havia desaparecido.— Existe alguém ant
Três meses haviam se passado desde a abertura do Santuário Original.Pela primeira vez em muitos anos, a cidade dos Caçadores estava em paz.Os muros haviam sido reconstruídos.As antigas diferenças entre lobos e humanos começavam, lentamente, a desaparecer.E, no centro de tudo, três meninas cresciam juntas.Aurora.Lyra.E Elara.Elara.Esse havia sido o nome escolhido pela própria menina.Um nome que, segundo Gabriel, significava algo próximo de luz e mistério.Ela gostava.Talvez porque sua vida inteira tivesse sido cercada pelos dois.Mistério.E escuridão.Agora, porém, ela finalmente tinha uma família.***Lívia observava as três brincando no jardim.Aurora corria atrás de Lyra, enquanto Elara permanecia alguns passos atrás, rindo.Era estranho pensar que, meses antes, nenhuma delas sabia da existência das outras.Aurora crescera acreditando que era filha única.Lyra passara anos acreditando que estava sozinha.E Elara sequer possuía um nome.Agora eram inseparáveis.Dante apro
As meninas se olharam.— Aurora — disse Lyra.— Lyra — respondeu Aurora.A terceira menina respirou fundo.— Eu não quero perder nenhuma de vocês.Lívia se ajoelhou diante delas.— Então não escolham entre vocês.As três olharam para ela.— Escolham umas às outras.Dante percebeu primeiro.— Lívia...Ela se levantou.— A magia quer que elas escolham um lado.Gabriel assentiu.— Porque é assim que a guerra continua.Lívia segurou as mãos das três.— Então elas não vão escolher um lado.Os três símbolos começaram a se unir.Serena recuou.— Não!Uma enorme luz tomou o templo.Lyra gritou.Aurora fechou os olhos.A terceira menina segurou as mãos das irmãs.A energia percorreu o templo.As correntes de Gabriel começaram a desaparecer.A marca da Lua Negra que estava gravada nas paredes começou a rachar.Serena caiu de joelhos.— Vocês não entendem!Lívia respondeu:— Talvez não.Olhou para as três meninas.— Mas entendemos que ninguém deve ser obrigado a escolher entre aqueles que ama.*
A porta se abriu completamente.Do outro lado não havia apenas escuridão.Havia silêncio.Um silêncio tão profundo que parecia engolir até mesmo o som da respiração.Lívia permaneceu parada diante da entrada.A voz de seu pai ainda ecoava em sua mente.“Se você abrir essa porta, a guerra que começou há vinte anos finalmente terminará.”Ela olhou para Aurora.Depois para Lyra.E finalmente para a terceira menina.As três estavam juntas.Pela primeira vez.Depois de tantos anos de separação.— Eu vou entrar — disse Lívia.Dante segurou sua mão.— Então eu vou com você.Lívia olhou para ele.— Pode ser perigoso.— Depois de tudo que enfrentamos, você realmente acha que vou deixar você entrar sozinha?Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.— Não.Dante apertou sua mão.— Nunca.As três meninas atravessaram a porta.E a escuridão as envolveu.***Quando Lívia abriu os olhos, não estava mais na montanha.Estava em um lugar impossível.O céu era prateado.Não havia sol.Nem lua.Ao redor
Do lado de fora, uma voz ecoou.— Helena!Ela fechou os olhos.— Eles chegaram.A voz continuou:— Entregue as crianças e ninguém precisará morrer.Dante respondeu:— Venha buscá-las.Um silêncio.Então uma mulher entrou na caverna.Ela usava um longo manto negro.No pescoço carregava um símbolo de lua.Seus olhos estavam fixos na terceira herdeira.A menina recuou.— Não...A mulher sorriu.— Minha pequena.— Não chega perto de mim.— Depois de tantos anos, ainda tem medo?Lívia se colocou entre as duas.— Quem é você?A mulher olhou para ela.— Você deve ser Lívia.— Como sabe meu nome?— Eu conheci seu pai.Lívia ficou imóvel.— Quem é você?A mulher sorriu.— Meu nome é Serena.Clara deu um passo para trás.— Serena Valen...Dante olhou para Clara.— Você conhece esse nome?Clara respondeu:— Todos acreditavam que ela estava morta.Serena riu.— Todos acreditavam errado.***Lívia não tirava os olhos dela.— O que você quer?Serena respondeu:— Quero recuperar aquilo que pertence
A risada ecoou pela caverna.Lenta.Baixa.Assustadoramente tranquila.A terceira herdeira apertou a mão de Lívia.— É ela.Lívia olhou para a passagem.— Quem?A menina engoliu em seco.— A mulher que me criou.Dante levantou a espada.— Todos para trás.Rafael posicionou-se ao lado dele.Lyra puxou Aurora para perto.Elias permaneceu imóvel.Clara, porém, parecia ter visto um fantasma.— Não...Lívia olhou para a mãe.— Você conhece essa mulher.Clara não respondeu.— Mãe!— Conheço.A voz de Clara saiu quase sem força.— Quem é ela?Clara respirou fundo.— Helena.Todos olharam para a mulher que estava atrás deles.A mesma Helena que os havia recebido na cidade.A mesma mulher que havia dito esperar pelas três herdeiras durante vinte anos.Lívia virou-se lentamente.— Helena?A mulher não respondeu.Apenas fechou os olhos.Quando os abriu novamente, não havia mais medo em seu rosto.Havia determinação.— Eu sinto muito.Dante avançou.— Você nos enganou.Helena recuou.— Eu precisa







