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Capítulo 7

last update Veröffentlichungsdatum: 23.09.2026 04:32:49

Capítulo 7 — A reação do meu pai.

🥀 Júlia Narrando 🥀

Meu pai viaja com frequência.

Às vezes para participar de algum julgamento, outras para palestras ou compromissos relacionados ao trabalho. Alexandre Moura praticamente vive com uma mala pronta.

E existe uma tradição que ele nunca deixa de cumprir quando volta.

Nosso jantar no restaurante italiano de sempre.

Normalmente eu adoro esses encontros.

Hoje, porém, estou sentindo vontade de desaparecer.

Porque dessa vez eu não vou conseguir esconder nada.

Meu pai vai descobrir que eu estou grávida.

E eu conheço Alexandre Moura bem o suficiente para saber que ele não vai receber essa notícia com um sorriso.

Muito pelo contrário.

Chego ao restaurante de Uber e sou conduzida até a mesa onde ele já está sentado.

Assim que me vê, ele se levanta e me abraça.

— Minha princesa.

Forço um sorriso.

— Oi, pai.

Ele beija minha testa antes de se sentar novamente.

— Senti sua falta.

— Também senti.

Ele pega a taça de vinho e toma um gole tranquilo, como se aquela noite fosse apenas mais um jantar entre pai e filha.

— Prova esse vinho. É uma safra excelente.

Olho para a taça.

— Hoje eu vou passar.

Ele ergue uma sobrancelha.

— Desde quando você recusa vinho?

— Desde hoje.

Ele me observa por alguns segundos, mas não comenta.

Meu pai é sócio de uma vinícola e entende de vinho como poucas pessoas.

Para ele, praticamente tudo precisa ser perfeito.

O vinho.

A comida.

As roupas.

Minha faculdade.

Minhas notas.

Minhas escolhas.

Principalmente minhas escolhas.

— E a faculdade? — pergunta.

— Está tudo bem.

— Só bem?

— Estou indo bem, pai.

Ele assente.

— Espero que continue assim. Administração é um curso sério. Não quero que você desperdice uma oportunidade dessas.

Respiro fundo.

Eu nem queria estar cursando Administração.

Mas discutir isso com ele sempre foi como discutir com uma parede de concreto.

Ele simplesmente não aceita ouvir um não.

— Vamos pedir? — ele pergunta. — O ravioli que você gosta?

Meu estômago revira só de imaginar.

— Hoje prefiro lasanha.

Ele chama o garçom e faz o pedido.

Durante alguns minutos, conseguimos conversar sobre coisas completamente banais.

Ele pergunta da faculdade.

Dos meus amigos.

Do que tenho feito.

Quer saber absolutamente tudo.

Meu pai sempre foi assim.

Controlador até quando finge estar apenas interessado.

Eu mexo no guardanapo sobre a mesa.

Meu coração começa a bater mais rápido.

É agora.

— Pai...

Ele ergue os olhos.

— Hum?

— Preciso te contar uma coisa.

Ele sorri de lado.

— O que você aprontou?

— Nada.

— Então?

Ele toma mais um gole de vinho.

— Me diga que voltou com aquele seu ex.

Reviro os olhos.

— Quantas vezes eu vou precisar dizer que não?

— Eu gostava dele.

— Você gostava. Eu não.

— Uma pena.

Solto o ar devagar.

— Não é sobre ele.

— Então me diga.

Pronto.

Sem enrolar.

Se eu ficar pensando demais, vou desistir.

— Eu passei muito mal alguns dias atrás. A Lara estava comigo e começou a desconfiar que eu pudesse estar grávida.

O sorriso desaparece do rosto dele.

— Grávida?

Concordo.

— Fiz teste, exame de sangue e ultrassom.

Faço uma pausa.

— Eu estou grávida, pai.

O garfo que estava na mão dele para no meio do caminho.

Ele me encara.

Por alguns segundos, não diz absolutamente nada.

Depois coloca o talher sobre o prato.

Devagar.

— Isso é algum tipo de brincadeira?

— Não.

— Você está falando sério?

— Estou.

Ele passa a mão pelo rosto.

— Meu Deus...

Não parece emocionado.

Parece furioso.

— Você tem dezenove anos.

— Eu sei.

— Dezenove.

A voz dele vai ficando mais dura.

— Está na faculdade, não terminou nem sua formação e agora aparece grávida.

— Pai...

— Quem é o pai?

Engulo em seco.

— Você não conhece.

— Quem é?

— Foi uma noite.

Ele ri sem humor.

— Uma noite.

— Sim.

— Você teve uma relação de uma noite com um homem que sequer conhece direito e conseguiu engravidar.

A vergonha começa a se transformar em raiva dentro de mim.

— Nós usamos preservativo.

— Claramente não foi suficiente.

— Eu sei disso.

— Não, você não sabe!

Ele b**e a mão sobre a mesa.

Algumas pessoas próximas olham na nossa direção.

Eu me encolho por um instante, mas logo volto a encará-lo.

— Você deveria ter sido mais responsável.

— Eu fui!

— Então como isso aconteceu?

— Eu não sei, pai! Aconteceu!

Ele respira fundo, tentando recuperar o controle.

— Quantas semanas?

— Onze.

Ele fica em silêncio.

Então diz, com uma frieza que me faz gelar:

— Ainda dá tempo.

Franzo a testa.

— Tempo para quê?

Ele me olha como se eu tivesse acabado de fazer a pergunta mais absurda do mundo.

— Para resolver essa situação.

Meu coração aperta.

— Resolver?

— Sim. Amanhã vou procurar uma clínica.

Demoro alguns segundos olhando para ele.

— Não entendi pai.

— Quero que você interrompa essa gravidez.

Minha boca se abre, mas nenhuma palavra sai.

— Pai...

— Não vou assistir minha filha jogar o próprio futuro fora por causa de uma irresponsabilidade.

— Ele não é uma irresponsabilidade.

— É exatamente o que ele é neste momento!

A voz dele ecoa pela mesa.

Sinto meus olhos arderem.

— Não fala assim do meu filho.

— Filho? Você nem sabe como vai sustentar uma criança emocionalmente, quanto mais criar uma!

— Eu vou aprender.

— Você é uma menina!

— Eu tenho dezenove anos!

— Exatamente! — Ele aponta para mim. — Dezenove anos, solteira, sem diploma e grávida de um homem que nem sabe o nome.

Meu sangue ferve.

— Eu vou dar um jeito.

— Você não tem estrutura para isso.

— Então me deixa construir!

Ele balança a cabeça, indignado.

— Não.

— Como assim, não?

— Eu não vou permitir.

Fico alguns segundos encarando meu pai.

— Permitir?

Ele se inclina sobre a mesa.

— Enquanto você depender de mim, algumas decisões serão tomadas pensando no que é melhor para você.

Dou uma risada incrédula.

— E quem decidiu que o melhor para mim é matar meu filho?

O rosto dele endurece.

— Não use essa palavra para me manipular.

— Manipular você?

Minha voz treme.

— Você está tentando decidir o que eu vou fazer com o meu corpo!

— Estou tentando impedir que você destrua sua vida!

— Ter um filho não destrói a vida de ninguém!

— Destrói quando acontece dessa maneira!

— Então você prefere que eu mate meu bebê para continuar sendo a filha perfeita?

Ele fica em silêncio.

Aquele silêncio responde muita coisa.

— Você sempre quis controlar tudo — digo, sentindo as lágrimas escorrerem. — Minha faculdade, minhas amizades, onde eu vou, com quem eu saio...

— Porque eu sei mais do que você.

— Esse é exatamente o problema!

Ele me encara, ofendido.

— Cuidado com a maneira como fala comigo.

— Não! Quem precisa ter cuidado é você!

Minha voz sai mais alta do que eu esperava.

— Eu não vou abortar.

Ele aperta a mandíbula.

— Júlia.

— Não vou.

— Você está agindo pela emoção.

— Estou tomando uma decisão sobre a minha própria vida.

— Essa criança é fruto de um erro.

— Pode ter sido uma gravidez inesperada. Mas ela não é um erro para mim.

Meu pai passa a mão pelo cabelo.

— Você vai se arrepender.

— Talvez eu tenha medo.

Limpo o rosto.

— Talvez eu chore, talvez eu reclame, talvez eu tenha dias em que ache que não vou conseguir.

Olho diretamente para ele.

— Mas eu não vou tirar meu filho.

— Eu quero que você pense melhor.

— Eu já pensei.

— Júlia...

— Não existe discussão.

Ele fica me encarando com uma expressão de puro descontentamento.

— Você está sendo extremamente irresponsável.

— E você está sendo cruel.

Ele se cala.

Pego minha bolsa.

— Vou embora.

— Nós ainda não terminamos essa conversa.

— Para mim, terminamos.

Levanto da mesa.

— Eu espero que um dia você consiga olhar para o seu neto sem enxergar um problema.

Ele não responde.

Saio do restaurante com as lágrimas descendo pelo rosto.

Meu peito dói.

Eu sabia que ele não ficaria feliz.

Mas não estava preparada para descobrir que meu próprio pai seria capaz de olhar para o bebê que está dentro de mim e desejar que ele não existisse.

Encosto na parede do lado de fora e fecho os olhos.

Respiro fundo.

Nada adianta.

— Que noite maravilhosa...

Murmuro para mim mesma.

Procuro meu celular dentro da bolsa.

Merda.

Esqueci em cima da mesa.

— Perfeito.

Ouço uma voz ao meu lado.

— Júlia?

Viro o rosto.

Uma garota está parada alguns passos distante, segurando a bolsa no ombro.

Eu reconheço.

Milena.

Irmã do Falcão.

— Oi.

Ela se aproxima.

— Eu estava jantando aqui com uma amiga e vi você sair. Aconteceu alguma coisa?

Solto uma risada fraca.

— Não uma conversa difícil com meu pai.

Ela entende que não estou bem.

— Quer conversar?

— Hoje não.

— Tudo bem.

Ela aponta para o estacionamento.

— Posso pelo menos te levar para casa.

Olho para ela.

— Eu esqueci meu celular lá dentro. Não consigo nem chamar um Uber.

— Então vem comigo.

— Não quero voltar para aquele restaurante.

— Não precisa.

Ela sorri.

— Podemos ir para minha casa. Ou, se preferir, passar na boate. Você não precisa beber, obviamente.

Olho para ela.

Depois para o restaurante atrás de mim.

Não tenho a menor vontade de voltar para aquela mesa.

— Acho que a boate seria uma boa a ideia.

— Então está decidido.

Ela aponta para o carro.

— Vamos.

Caminho ao lado dela.

Meu rosto ainda está molhado de lágrimas.

Minha vida estava uma bagunça.

Eu estava grávida.

O pai do meu bebê mal aceitava a possibilidade de ser pai.

E agora meu próprio pai queria decidir o destino do meu filho.

Pelo menos naquela noite eu não precisava enfrentar tudo sozinha.

Entro no carro de Milena e fecho a porta.

— Só tem um detalhe — digo, olhando para ela.

— Qual?

— Eu queria muito esquecer essa noite.

Ela ri.

— A gente dá um jeito.

— Pena que eu não posso nem encher a cara.

Ela olha para minha barriga e começa a rir.

— Realmente. Seu bebê já está acabando com seus planos.

— Nem nasceu e já está mandando na minha vida.

Dessa vez, eu também consigo rir.

Pouco.

Mas consigo.

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