ログインRenata Eu ainda sentia os olhares do salão quando a porta do apartamento se fechou atrás de nós.Mas, pela primeira vez, eles não pesavam.Durante todo o caminho de volta, uma frase de Erick ficou presa dentro de mim."Ela é minha família."Uma palavra tão pequena para uma coisa que me assustava tanto.Tirei os sapatos assim que entramos e soltei um gemido de alívio.— Nunca mais uso salto grávida.Erick afrouxou a gravata.— Eu avisei.— Você disse que eu ficaria linda.— E ficou.— Isso não é aviso.Ele riu.Eu também.A tensão do evento começou a desaparecer, mas outra ocupou o lugar.Porque Erick estava diferente.Ou talvez fosse eu.A maneira como ele tinha me defendido ainda mexia comigo. Não tinha falado por mim nem me tratado como alguém frágil. Apenas ficou ao meu lado.Quando Helena tentou me diminuir, ele não hesitou.E agora aquele mesmo homem estava diante de mim, mangas dobradas, gravata frouxa, cabelo levemente bagunçado.Bonito demais.Perigoso demais para minha paz.
Erick Eu odiava eventos corporativos.Durante anos, tinha aprendido a sorrir para pessoas que eu não suportava, apertar mãos de homens que venderiam a própria mãe por uma porcentagem maior e fingir interesse em conversas que terminavam sempre em dinheiro.Naquela noite, porém, eu precisava estar ali.Depois de tudo envolvendo Marcelo, os rumores e a instabilidade dentro da Monteiro Holdings, minha ausência seria interpretada como fraqueza.Mas eu não fui sozinho.Quando Renata apareceu na sala usando um vestido preto elegante que valorizava sua barriga já grande, esqueci por alguns segundos o nó da gravata que estava ajustando.Ela parou.— Que foi?— Nada.— Erick.— Estou olhando.Renata arqueou uma sobrancelha.— Percebi.Aproximei-me.— Você está linda.Ela alisou o vestido sobre a barriga.— Estou enorme.— Está grávida.— Uma grávida enorme.— Uma grávida linda.O canto da boca dela subiu.— Você anda perigoso com esses elogios.— Estou atrasado alguns meses.O sorriso desapare
Renata No meu sonho, não havia seguranças na porta.Não havia câmeras.Não havia Marcelo.Não havia Helena.Não havia medo.Só uma casa.Nem era uma casa enorme como as que combinavam com o sobrenome Monteiro. Era bonita, confortável, iluminada pelo sol que atravessava janelas abertas. Havia brinquedos espalhados pela sala e uma manta jogada sobre o sofá.E Erick estava no meio de tudo aquilo.Descalço.Com nosso bebê nos braços.— Assim? — ele perguntou, parecendo completamente perdido.Eu ri.— Segura a cabecinha.— Estou segurando.— Erick, você administra uma empresa inteira e está com medo de um bebê de quatro quilos?— Empresas não choram quando eu seguro errado.Ri mais alto.Ele me olhou indignado, enquanto nosso filho fazia um barulhinho baixo em seus braços.Então aconteceu.Erick sorriu para o bebê.Não aquele sorriso discreto que ele dava quando tentava esconder sentimentos.Era aberto.Feliz.Livre.Meu coração ficou cheio.Aproximei-me.Ele ergueu os olhos para mim.— V
Erick Existem momentos em que você percebe que o problema é maior do que imaginava.E existem momentos em que descobre que o problema carrega o seu sobrenome.Eu estava encarando a tela do computador pela terceira vez.O relatório continuava igual.O número do aparelho usado para enviar a mensagem anônima para Renata estava ali.Confirmado.Rastreado.Identificado.E cada linha que eu lia fazia meu estômago se revirar mais.— Tem certeza? — perguntei.César assentiu.— Verificamos duas vezes.Passei a mão pelo rosto.— Não pode ser coincidência.— Também não acho.Olhei novamente para o nome.Alberto Mendes.Um funcionário antigo.Muito antigo.Trabalhava para minha família desde antes de eu assumir a empresa.Antes mesmo de eu terminar a faculdade.Antes de eu entender como funcionava o mundo dos Monteiro.Meu maxilar travou.— Ele ainda trabalha para minha mãe?— Sim.O silêncio que tomou conta da sala foi pesado.Perigoso.Porque aquilo não provava que Helena tinha enviado a mensa
Renata A confiança era uma coisa estranha.Levava meses para nascer.Segundos para morrer.Eu estava aprendendo isso da pior forma.A manhã tinha começado tranquila. Erick saiu cedo para uma reunião importante, prometendo voltar para o almoço. Antes de sair, deixou um beijo na minha testa, outro na barriga e me fez prometer que tomaria as vitaminas.Uma cena simples.Bonita.Quase normal.Mas a normalidade nunca durava muito tempo na minha vida.Eu estava sentada na sala, organizando algumas roupinhas do bebê quando o celular vibrou.Sorri automaticamente, pensando que fosse Erick.Mas não era.Número desconhecido.Meu estômago apertou imediatamente.Abri a mensagem."Você realmente acredita que Erick Monteiro contou toda a verdade?"Franzi a testa.Li novamente."Pergunte a ele o que ainda está escondendo sobre Marcelo."Meu coração desacelerou.Depois disparou.A mensagem continuava."Todo mundo mente quando tem algo a perder."As mãos ficaram geladas.A conversa terminava ali.Sem
Erick Acordei antes do despertador.Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto escuro do quarto enquanto tentava entender por que aquela manhã parecia diferente.Então senti.O peso leve da cabeça de Renata apoiada em meu ombro.A mão dela repousava próxima à minha sobre o cobertor. A respiração tranquila preenchia o silêncio do quarto. E, pela primeira vez em muitos anos, eu não acordei pensando em reuniões, contratos ou problemas.Acordei pensando em ficar.Virei o rosto devagar.A luz suave do amanhecer atravessava as cortinas, desenhando sombras delicadas sobre o rosto dela.Era uma cena simples.Mas mexeu comigo de um jeito que nenhuma conquista profissional jamais conseguiu.Porque aquilo parecia lar.Uma palavra que sempre existiu para outras pessoas, nunca para mim.Cresci em uma casa enorme. Cercado de luxo. Cercado de regras.Mas nunca tive isso.Nunca tive paz.Nunca tive alguém dormindo ao meu lado por escolha.Nunca tive uma mulher confiando em mim o suficie







