Se connecterOs homens de Alessandro chegaram gritando o nome dele. Dois capos armados, o rosto tenso, as armas ainda quentes. Quando viram o Don ensanguentado atrás do balcão, com uma mulher desconhecida pressionando a ferida, as expressões mudaram de alívio para desconfiança imediata.
— Don Vitale — disse il più alto, con il mirino ancora abbassato, ma pronto. — Chi è lei? (Don Vitale — disse o mais alto, a mira ainda baixa, mas pronta. — Quem é ela?) Alessandro não soltou o pulso de Isabella. O anel dela ainda arranhava a pele dele como uma acusação silenciosa. Por um segundo, ele considerou a possibilidade de que aqueles homens não fossem mais leais. O ataque tinha sido preciso demais. Alguém de dentro poderia ter vendido a rota do cruzeiro. — Ela vem comigo — ordenou, a voz rouca, mas carregada da autoridade que ninguém ousava questionar. — Cabine. Agora. E ninguém entra. Ninguém. Não houve discussão. Um dos homens tirou o terno ensanguentado de Alessandro com movimentos rápidos. O outro cobriu a saída, mas os olhos dele demoraram um segundo a mais no rosto de Isabella. Alessandro notou. Guardou a informação. Isabella foi puxada junto, o pulso ainda preso nos dedos dele, enquanto atravessavam o convés destruído. Havia estilhaços de vidro, manchas de sangue e passageiros chorando no chão. Cada sombra parecia esconder um cano de arma. O luxo do Mediterraneo Reale agora parecia um campo de batalha flutuante. E o pior: o ataque podia não ter terminado. A cabine 417 ficava no mesmo andar, uma suíte espaçosa com vista para o oceano negro. Assim que a porta se fechou com um estalo seco, Alessandro soltou o pulso dela apenas o suficiente para trancar a fechadura por dentro e puxar a trava de segurança. Depois empurrou uma cadeira pesada contra a maçaneta. Só então virou-se e encostou as costas na madeira, o rosto pálido debaixo da luz amarelada. O coração ainda batia rápido demais. Não só pela perda de sangue. Pela certeza de que alguém, em algum lugar daquele navio, ainda queria vê-lo morto. — Tira a camisa — mandou Isabella, já se movendo em direção ao banheiro. A voz saiu firme, mas havia um tremor escondido por baixo. Ela também ouvira os passos no corredor. — E senta antes que você desmaie de novo. Ele obedeceu em silêncio, os movimentos lentos e rígidos. A camisa branca, agora mais vermelha do que branca, caiu no chão. O peito largo, marcado por cicatrizes antigas, surgiu sob a luz. O ombro direito era um buraco sujo de sangue coalhado e tecido queimado pela pólvora. A bala tinha atravessado de lado, rasgando músculo, mas sem atingir osso. Ainda assim, sangrava, e doía. Mas a dor física era nada comparada à tensão que apertava o peito dele. Se a mulher mentia sobre o nome, o que mais ela escondia? E se fosse uma isca? E se o próximo tiro viesse de dentro da cabine? Isabella voltou do banheiro com toalhas brancas, uma tesoura de unhas e a última garrafa de uísque que encontrara atrás do bar. Sem pedir permissão, empurrou-o para sentar na beira da cama king-size. O colchão afundou sob o peso dele. Ela ajoelhou-se entre as pernas abertas dele, o vestido preto manchado subindo pelas coxas. O contato era íntimo e perigoso demais. O calor do corpo dele irradiava contra ela como uma ameaça viva. Lá fora, um barulho de passos fez os dois congelarem por um segundo. Os passos passaram, então continuaram. A proximidade era absurda. O cheiro de sangue, suor e uísque antigo preenchia o espaço entre os dois. Isabella molhou uma toalha com o álcool e pressionou contra a ferida sem aviso. Alessandro soltou um grunhido baixo, os dentes cerrados. A mão livre dele foi direto para a coxa dela, apertando com força, como se precisasse de um ponto de apoio para não gritar, ou para não puxá-la para cima de uma vez e, ao mesmo tempo, verificar se ela escondia uma arma. — Fácil — rosnou ele, a voz embargada pela dor e por algo mais escuro. Os olhos cinzentos não deixavam o rosto dela. Desconfiados. Afiados. — Se eu fizer fácil, você morre de infecção — respondeu ela, sem suavizar a pressão. Os dedos tremiam levemente. Cada segundo que passava aumentava o risco de alguém arrombar a porta. — Aguenta. Ela limpou a ferida de forma tosca, quase cruel. O uísque ardia. O sangue novo escorria misturado ao álcool, pingando no tecido do vestido dela e nas coxas nuas. Alessandro observava cada movimento com os olhos semicerrados, a respiração pesada. Cada vez que ela se inclinava, o decote do vestido se abria mais, revelando a curva dos seios ainda manchados com o sangue dele da hora anterior. Ele odiava o quanto aquilo o afetava. Odiava a forma como o corpo dela, tão perto, fazia a dor parecer secundária. E odiava ainda mais a voz na cabeça que sussurrava: E se ela for uma Rossi? E se tudo isso for armadilha? O silêncio da cabine era quebrado apenas pelo som molhado da limpeza, pela respiração irregular dos dois e pelo barulho distante do navio ainda em caos. De repente, vozes baixas passaram no corredor. Italiano. Rápido. Alessandro ergueu a mão boa num gesto de silêncio. Isabella parou no meio do movimento, o coração disparado. Os segundos se arrastaram. As vozes se afastaram. Só então ela voltou a respirar. Por dentro, Isabella lutava contra o próprio pânico. Aquele era Alessandro Vitale. O homem que o pai jurara destruir. O monstro das histórias de infância. E agora ela estava de joelhos entre as pernas dele, com as mãos sujas do sangue dele, sentindo o calor da pele marcada por violência. Se ele descobrisse quem ela era de verdade, ela estaria morta antes do amanhecer. Ou pior: usada como isca viva contra a própria família. Cada segundo naquela cabine era uma roleta-russa. — Por que você fez isso? — perguntou ele de repente, a voz baixa, quase vulnerável, mas carregada de suspeita. — Podia ter corrido. Podia ter me deixado lá. Ninguém obriga uma mulher a salvar o Don da Camorra no meio de um tiroteio. Isabella não respondeu de imediato. Continuou limpando, os dedos agora escorregadios de sangue e álcool. A pergunta pesava no ar como uma acusação. Quando finalmente falou, a voz saiu rouca, carregada de tudo o que ela não podia dizer: — Porque eu sei o que é ser caçada. Ele a estudou em silêncio. Aproximou o rosto um pouco, os olhos cinzentos vasculhando os dela em busca de mentiras. A proximidade era asfixixiante. O joelho dela encostava na parte interna da coxa dele. O cheiro dela, suor limpo, medo contido e algo doce por baixo, misturava-se ao metal do sangue. Alessandro sentia a dor latejar, mas por baixo dela crescia outra coisa mais primitiva e perigosa. Uma necessidade de entender aquela mulher que o salvara e, ao mesmo tempo, mentia com os olhos abertos. E a certeza fria de que, se ela fosse inimiga, ele teria que matá-la antes que o sol nascesse. A garrafa de uísque estava pela metade. Isabella regou a ferida mais uma vez, depois levou o gargalo à boca e bebeu um gole longo, o líquido queimando a garganta como se pudesse queimar também o medo. Em seguida, ofereceu a ele. Alessandro bebeu sem tirar os olhos dela, o uísque escorrendo pelo canto da boca. Uma gota desceu pelo queixo e pingou no peito nu. O álcool fez o que a dor não conseguira: afrouxou as defesas. Mas não o suficiente para apagar a desconfiança. Nem o suficiente para fazê-lo esquecer que a porta, por mais trancada que estivesse, não era intransponível. Isabella começou a improvisar um curativo com tiras de toalha limpa, amarrando o ombro com firmeza. Cada movimento a obrigava a se inclinar mais. O peito dela quase tocava o dele. A respiração dela batia quente contra a pele do pescoço dele. Alessandro sentia o corpo reagir apesar da ferida. O sangue quente, o álcool no sistema, o cheiro dela tão perto e a certeza de que ela escondia algo que podia destruí-los a ambos. Um estalo no corredor fez os dois travarem de novo. Mas não era nada além do navio rangendo. Quando ela terminou de amarrar o último nó, tentou se afastar. O coração batia descompassado. Precisava de distância. Precisava respirar. E principalmente, precisava lembrar quem ele era e o que o pai faria se soubesse onde ela estava. E, acima de tudo, precisava sumir antes que ele fizesse a pergunta certa. A mão boa de Alessandro subiu e segurou a nuca dela, impedindo o movimento. Os dedos longos enterraram-se no cabelo solto com uma posse silenciosa e perigosa. Isabella congelou, os olhos castanhos erguendo-se para os dele. Havia apenas alguns centímetros entre as bocas. O ar entre eles estava carregado de tudo o que não podiam dizer: mentiras, sangue, desejo proibido e o peso de dois sobrenomes que se odiavam há gerações. E por trás de tudo, o medo constante de que a porta fosse arrombada a qualquer segundo. — Elena Bianchi — murmurou ele, o tom duvidoso, quase um desafio. A voz saiu rouca, carregada de uma tensão que ia além da ferida. — Mentira continua sendo mentira. E mentiras, piccola, têm o péssimo hábito de matar pessoas neste negócio. — E daí? — sussurrou ela, o coração batendo tão forte que ele certamente sentia contra o peito. Os olhos ardiam. O medo e o desejo se misturavam numa corrente perigosa. — Você ia sangrar até a morte se eu não mentisse. O uísque acabou. A última gota desceu pela garganta de Alessandro enquanto ele a puxava mais para perto, como se quisesse arrancar a verdade da boca dela com os dentes. O corpo dela acabou entre as pernas dele, o vestido subindo ainda mais. O calor era insuportável. O peito nu dele, suado e manchado de sangue seco, encostava nos seios dela a cada respiração trêmula. Havia medo nos olhos dela. Havia fome nos dele. E por baixo de tudo, uma corrente elétrica perigosa que nenhum dos dois sabia como desligar, e a certeza de que o perigo lá fora ainda não tinha terminado. A dor no ombro ainda latejava, mas agora era apenas um pano de fundo. O que dominava era o cheiro dela, o calor dela, a forma como os lábios dela se entreabriram quando ele apertou a nuca com mais força, não só de desejo, mas de uma necessidade feroz de provar que ela era real, que não ia desaparecer, que a mentira que ela carregava não ia destruí-lo antes que ele entendesse. E que, se alguém entrasse por aquela porta agora, ele a usaria como escudo, ou a protegeria com o próprio corpo. Ainda não sabia qual das duas. Alessandro inclinou a cabeça. A boca dele desceu pelo pescoço dela; o gosto de sal e sangue mistura-se, e ali ele soube que esse era o sabor mais perigoso que ele já havia sentido.O apartamento ficava num prédio antigo de Brooklyn Heights, longe o suficiente da mansão Vitale para não levantar suspeitas e perto o suficiente para que as notícias chegassem rápido. Chiara estava de pé perto da janela quando a porta se abriu. Não se virou de imediato. Continuou observando a rua três andares abaixo, os braços cruzados, o corpo tenso sob o vestido preto simples que escolhera naquela manhã. O cabelo, antes sempre impecável, estava preso num coque baixo, severo. Desde que Alessandro a expulsara da casa — desde que a humilhação pública no jardim e a ordem fria do Don a colocaram do lado de fora dos portões —, Chiara aprendera a esperar. E a odiar em silêncio.Donatella entrou sem se anunciar. O perfume discreto e caro preencheu o ambiente antes mesmo da voz. A porta foi fechada com cuidado por um dos homens que a acompanhavam, e os passos elegantes da tia ecoaram no assoalho de madeira.— Você está mais magra — disse Donatella, parando no centro da sala. A voz era contro
Enquanto Isabella e Sofia finalizavam a organização das gavetas, dois andares abaixo Alessandro estava no escritório. A tela do computador mostrava as imagens das câmeras externas em tempo real: a estrada secundária vazia sob a luz da manhã, o portão principal, o jardim interno onde as roseiras balançavam com o vento, a entrada de serviço. Enzo estava de pé diante da mesa, o relatório da manhã nas mãos, a expressão profissional e fechada. — Nenhuma movimentação suspeita nas últimas setenta e duas horas — disse o capo. — O carro não voltou. As placas falsas não deram em nada rastreável. Os contatos que temos do lado de Rossi confirmam que Lorenzo está em Nova York, mas não na propriedade. Está se movendo. Cauteloso. Mudando de lugar. — Cauteloso não significa distante — respondeu Alessandro. A voz estava baixa, controlada, cada palavra medida. Os olhos não saíam das telas. — Significa que ele está esperando. Medindo rotina. Medindo resposta. Eu quero os homens da secundária em turnos
Os dias que se seguiram ao avistamento do carro de Lorenzo Rossi trouxeram uma rotina estranha à mansão Vitale. Não era a quietude frágil das semanas anteriores, quando o quarto do bebê começara a ganhar forma e o grito de Sofia ainda ecoava como uma promessa leve. Tampouco era o estado de sítio declarado do dia em que Isabella descera do carro pálida e dissera, baixa, “ele estava lá”. Era algo no meio: uma vigilância constante, quase silenciosa, que se infiltrava em cada corredor, cada janela, cada decisão pequena. Alessandro não falara muito sobre o que Enzo encontrara no acostamento. Apenas informara, numa noite, que o carro não estava mais lá quando os homens chegaram, que as câmeras da estrada captaram a placa — falsa, como esperado — e que o perímetro externo fora dobrado. Isabella não perguntou detalhes. Não precisava. Via nos olhos dele, na forma como a mandíbula travava quando o telefone tocava, na maneira como a mão dele buscava a barriga dela mesmo no meio de uma conversa q
A mansão demorou a silenciar por completo. Mesmo com as novas ordens, mesmo com o perímetro reforçado, havia o som distante de passos no térreo, o clique ocasional de um rádio sendo ajustado, o motor baixo de um carro sendo reposicionado lá fora. Alessandro não comentou nenhum desses sons. Apenas trancou a porta do quarto por dentro com um clique deliberado, tirou o relógio e a arma e deixou os dois sobre a cômoda com um gesto cuidadoso, como se dissesse que, ali dentro, nada daquilo — nem a guerra, nem o pai dela, nem o mundo lá fora — teria permissão de entrar. Isabella sentou-se na beira da cama. O corpo ainda carregava a tensão da estrada, o frio residual do momento em que reconheceu o carro do pai no acostamento. As mãos tremiam de leve quando ela as apoiou sobre a barriga. O menino estava quieto demais. Alessandro notou. Ajoelhou-se à frente dela outra vez, as mãos grandes e quentes descansando sobre os joelhos dela, os polegares fazendo círculos lentos, quase inconscientes. —
A porta do escritório se fechou com um estalo seco. Alessandro não levou Isabella para o quarto de imediato. Levou-a diretamente para o escritório no segundo andar, o braço firmemente envolvido na cintura dela o caminho inteiro, o corpo posicionado de forma a protegê-la até mesmo dos olhares dos homens no corredor. A mão grande repousava na curva lateral da barriga, o polegar fazendo movimentos lentos e inconscientes, como se já estivesse acalmando o menino antes mesmo de saber o que Isabella ia dizer. Enzo já estava lá dentro, falando baixo ao telefone. Sofia tentou segui-los, mas Alessandro apenas ergueu a mão livre, o gesto suave, mas definitivo. — Depois, Sofia. Eu explico. Agora não. Ela precisa de silêncio. A menina parou no corredor, o rosto preocupado. Isabella lançou-lhe um olhar rápido, tentando transmitir alguma calma que ainda não sentia, antes de a porta se fechar por completo. Dentro do escritório, a luz era baixa e quente. Alessandro não a guiou apenas até o sofá — e
A loja de enxoval ficava numa área discreta de Brooklyn, escolhida por Enzo por ter entradas controladas, pouca circulação e saídas fáceis de monitorar. O prédio era baixo, de tijolos claros, com vitrines discretas que não chamavam atenção demais. Isabella e Sofia entraram acompanhadas por quatro homens: dois na frente, dois atrás, todos de roupa civil — camisas, jaquetas leves, calças escuras — mas com a postura inconfundível de quem estava armado e atento a cada movimento. O olhar dos homens varria as laterais, os carros estacionados, os poucos pedestres. Isabella sentiu o peso da escolta, mas pela primeira vez em semanas não a rejeitou. Queria apenas entrar, escolher e voltar. Dentro, o ar cheirava a tecido novo, talco e um leve residual de madeira clara das prateleiras. Durante quase duas horas, as duas percorreram corredores de roupinhas pequenas, mantas dobradas em pilhas impecáveis, displays de sapatinhos que cabiam na palma da mão. Havia bodies empilhados por cor, macacões m







