MasukAlessandro não deixou Donatella subir. Antes que o primeiro degrau da escada principal fosse alcançado, a voz dele cortou o saguão, baixa, clara e definitiva: — Escritório. Agora. Donatella parou. Não se virou de imediato. A mão ainda repousava no corrimão de madeira escura, os dedos impecáveis sobre o verniz. Por um segundo, apenas o silêncio do saguão respondeu — o silêncio de homens que fingiam não ouvir e de paredes que já tinham presenciado conversas piores. Depois, ela inclinou levemente a cabeça, como se avaliasse o tom da ordem, e obedeceu sem palavra. Os passos dela ecoaram pelo corredor do primeiro andar com a mesma elegância de sempre, mas havia uma rigidez nova nos ombros, quase imperceptível para quem não a conhecesse há décadas. Alessandro a seguiu de perto. Não tocou nela. Não elevou a voz. Não precisava. A presença dele atrás da tia era suficiente para transformar o trajeto em uma escolta silenciosa. Dentro do escritório, a porta foi fechada com um clique seco. O s
Chiara não se moveu por um longo tempo depois que a porta se fechou. O apartamento parecia menor. O ar, mais pesado. As palavras de Donatella ainda ecoavam, não como consolo, mas como uma lâmina afiada que finalmente encontrara um cabo. "O momento do seu retorno está cada vez mais próximo." "Eu tenho um plano." "Eu nunca falho nos meus propósitos." Chiara caminhou até a janela e apoiou a testa no vidro frio. Lá embaixo, a rua seguia indiferente. Pessoas caminhavam. Carros passavam. Ninguém sabia que, três andares acima, uma Vitale relembrava cada humilhação desde o dia em que Alessandro a expulsara. O jardim. O olhar de Isabella. A ordem fria do Don. A forma como Sofia, a caçula mimada, olhara para ela com algo próximo de alívio. "Ela nunca vai ocupar o lugar que por direito deveria ser meu." A frase que Chiara dissera em voz alta agora se repetia em silêncio, como uma oração invertida. Desde criança lhe disseram que seria a esposa de Alessandro. Desde criança prepararam-na p
O apartamento ficava num prédio antigo de Brooklyn Heights, longe o suficiente da mansão Vitale para não levantar suspeitas e perto o suficiente para que as notícias chegassem rápido. Chiara estava de pé perto da janela quando a porta se abriu. Não se virou de imediato. Continuou observando a rua três andares abaixo, os braços cruzados, o corpo tenso sob o vestido preto simples que escolhera naquela manhã. O cabelo, antes sempre impecável, estava preso num coque baixo, severo. Desde que Alessandro a expulsara da casa — desde que a humilhação pública no jardim e a ordem fria do Don a colocaram do lado de fora dos portões —, Chiara aprendera a esperar. E a odiar em silêncio.Donatella entrou sem se anunciar. O perfume discreto e caro preencheu o ambiente antes mesmo da voz. A porta foi fechada com cuidado por um dos homens que a acompanhavam, e os passos elegantes da tia ecoaram no assoalho de madeira.— Você está mais magra — disse Donatella, parando no centro da sala. A voz era contro
Enquanto Isabella e Sofia finalizavam a organização das gavetas, dois andares abaixo Alessandro estava no escritório. A tela do computador mostrava as imagens das câmeras externas em tempo real: a estrada secundária vazia sob a luz da manhã, o portão principal, o jardim interno onde as roseiras balançavam com o vento, a entrada de serviço. Enzo estava de pé diante da mesa, o relatório da manhã nas mãos, a expressão profissional e fechada. — Nenhuma movimentação suspeita nas últimas setenta e duas horas — disse o capo. — O carro não voltou. As placas falsas não deram em nada rastreável. Os contatos que temos do lado de Rossi confirmam que Lorenzo está em Nova York, mas não na propriedade. Está se movendo. Cauteloso. Mudando de lugar. — Cauteloso não significa distante — respondeu Alessandro. A voz estava baixa, controlada, cada palavra medida. Os olhos não saíam das telas. — Significa que ele está esperando. Medindo rotina. Medindo resposta. Eu quero os homens da secundária em turnos
Os dias que se seguiram ao avistamento do carro de Lorenzo Rossi trouxeram uma rotina estranha à mansão Vitale. Não era a quietude frágil das semanas anteriores, quando o quarto do bebê começara a ganhar forma e o grito de Sofia ainda ecoava como uma promessa leve. Tampouco era o estado de sítio declarado do dia em que Isabella descera do carro pálida e dissera, baixa, “ele estava lá”. Era algo no meio: uma vigilância constante, quase silenciosa, que se infiltrava em cada corredor, cada janela, cada decisão pequena. Alessandro não falara muito sobre o que Enzo encontrara no acostamento. Apenas informara, numa noite, que o carro não estava mais lá quando os homens chegaram, que as câmeras da estrada captaram a placa — falsa, como esperado — e que o perímetro externo fora dobrado. Isabella não perguntou detalhes. Não precisava. Via nos olhos dele, na forma como a mandíbula travava quando o telefone tocava, na maneira como a mão dele buscava a barriga dela mesmo no meio de uma conversa q
A mansão demorou a silenciar por completo. Mesmo com as novas ordens, mesmo com o perímetro reforçado, havia o som distante de passos no térreo, o clique ocasional de um rádio sendo ajustado, o motor baixo de um carro sendo reposicionado lá fora. Alessandro não comentou nenhum desses sons. Apenas trancou a porta do quarto por dentro com um clique deliberado, tirou o relógio e a arma e deixou os dois sobre a cômoda com um gesto cuidadoso, como se dissesse que, ali dentro, nada daquilo — nem a guerra, nem o pai dela, nem o mundo lá fora — teria permissão de entrar. Isabella sentou-se na beira da cama. O corpo ainda carregava a tensão da estrada, o frio residual do momento em que reconheceu o carro do pai no acostamento. As mãos tremiam de leve quando ela as apoiou sobre a barriga. O menino estava quieto demais. Alessandro notou. Ajoelhou-se à frente dela outra vez, as mãos grandes e quentes descansando sobre os joelhos dela, os polegares fazendo círculos lentos, quase inconscientes. —







