Share

INFERNO EM SEUS BRAÇOS
INFERNO EM SEUS BRAÇOS
Author: Sandra Rummer

Ele a Escolheu

Author: Sandra Rummer
last update publish date: 2026-09-15 18:52:22

“Estava escrito que eu devo ser leal ao pesadelo de minhas escolhas.

 Joseph Conrad

 

Aysha

A festa de ritos do casamento de Hakin e da minha irmã gêmea já está bem adiantada quando chego à bela mansão dos Osman. Fiquei presa no hospital e não consegui sair a tempo. Assim que cheguei em casa, tomei um banho rápido, troquei de roupa e vim para cá sem sequer jantar.

Ainda sinto o cheiro de álcool hospitalar impregnado em minha pele. Passei o dia inteiro correndo de um lado para o outro, atendendo pacientes, verificando medicações e ajudando a equipe médica. Meu corpo pede descanso, mas não posso faltar à celebração da minha própria irmã.

A música árabe toca alta no jardim, misturando-se às vozes dos convidados e ao som das risadas. Logo na entrada, sou recebida por uma funcionária que me cumprimenta com um sorriso discreto. Ela usa um vestido longo e elegante, bordado em dourado, e carrega uma bandeja com pequenos copos de suco.

Recuso a bebida com um gesto e avanço pelo corredor iluminado.

Minha atenção é atraída pelas luzes penduradas nas árvores, pelas mesas cobertas com toalhas claras e pelos arranjos de flores brancas que decoram todos os cantos. A família de Hakin não economizou em nada. Cada detalhe revela riqueza e tradição. Tudo parece perfeito, exatamente como Hanna sempre sonhou.

Nós somos gêmeas idênticas. Ambas temos os traços finos da nossa mãe. Nossos olhos são castanhos escuros, somos excepcionalmente bonitas e temos confiança nisso. Nossa pele é macia e clara como porcelana, um contraste magnífico com os cabelos negros e lisos que herdamos do nosso baba.

Somos altas, esbeltas e temos lindas curvas, mas nossa semelhança termina aí.

Desde crianças, as pessoas costumam nos confundir. Muitas vezes, trocamos de lugar apenas para brincar com nossos professores, colegas e parentes. Bastava mudarmos de roupa ou prender os cabelos de maneira diferente para ninguém saber quem era quem.

Com o tempo, porém, percebi que nossa aparência igual não era suficiente para nos tornar parecidas. Hanna sempre soube representar exatamente o que esperavam dela. Eu nunca tive essa paciência.

Não me saí como meu baba esperava. Fiz universidade de enfermagem e concluí meu curso. Hoje trabalho em um grande hospital. Sou independente e dona do meu nariz. Não fiquei apenas à espera de um marido.

Meu baba sempre desejou que eu seguisse os costumes da nossa família. Queria me ver usando vestidos longos, falando baixo, sendo discreta e aguardando o surgimento de um bom pretendente. Ele nunca me tratou mal, mas eu sabia que, no fundo, sentia que eu havia escolhido um caminho difícil demais.

Não me arrependo.

Gosto do meu trabalho, apesar dos dias cansativos. Gosto de saber que minhas mãos podem aliviar a dor de alguém. Gosto de voltar para casa exausta e ter a sensação de que fiz algo importante. Não consigo imaginar uma vida limitada a festas, compras e conversas sobre casamentos.

Já Hanna é uma árabe perfeita.

A vida toda alimentou o sonho de um bom casamento. Ela nunca pensou em ter uma profissão, apenas em se casar com um homem maravilhoso, ter uma casa maravilhosa, cercada de empregados e receber joias como presente.

Hanna sabe escolher os vestidos certos, usar as palavras certas e sorrir no momento exato. Quando está diante de um homem importante, torna-se delicada, tímida e encantadora. Muitas vezes, observo minha irmã representar esse papel e me pergunto se ela realmente acredita na personagem que criou.

E seu sonho se realizou.

Na festa da embaixada egípcia, da qual participamos ao lado do nosso baba, Hakin estava lá, lindo e solteiro.

Eu me lembro perfeitamente daquela noite. Lembro-me do instante em que ele entrou no salão e todas as mulheres acompanharam seus passos. Hakin não precisou fazer esforço para chamar atenção. Sua presença era forte, quase ameaçadora. Ele tinha um jeito seguro de caminhar, como se todos ao redor fossem obrigados a abrir espaço para ele.

Alto, forte e muito bonito, possuía olhos azuis que pareciam ainda mais claros sob as luzes do salão. Seus cabelos eram quase negros e estavam penteados para trás de maneira impecável. Ele vestia um terno escuro, feito sob medida, e carregava no rosto a expressão de um homem acostumado a ser obedecido.

Encantado com nossa semelhança, aproximou-se de nós e adivinhe para quem seus olhos brilharam?

Naturalmente, para ela.

Hanna o encantou com suas vestes comportadas, com seu sorriso tímido e com a conversa de mulher virtuosa à espera de um marido. Eu, ao contrário, estava usando um vestido justo demais para os padrões da nossa família, com o decote revelando mais do que minha irmã considerava apropriado.

Hakin me analisou dos pés à cabeça antes de voltar sua atenção para Hanna. Não disse nada, mas não precisei de palavras para compreender sua desaprovação.

Naquele momento, senti uma irritação imediata.

Não gosto de ser julgada por alguém que não sabe nada sobre mim. Ainda assim, não consigo ignorar o efeito que ele provoca no meu corpo. Quando seus olhos encontram os meus, meu coração acelera e uma espécie de calor se espalha pelo meu peito.

Hakin gostou de Hanna. Não demorou muito e eles começaram a namorar.

Bonito e rico, ele era o sonho realizado da minha irmã. Hanna passou a viver em função dele. Falava sobre os presentes que recebia, os restaurantes sofisticados que frequentavam e os lugares que ele prometia levá-la. Cada encontro se transformava em uma oportunidade para mostrar que havia sido escolhida.

Eu tentava fingir que não me incomodava.

Quando ela entrava no meu quarto para me mostrar uma bolsa nova ou uma joia que Hakin havia comprado, eu sorria e fazia algum comentário educado. Depois que ela saía, porém, ficava sozinha com pensamentos que não queria admitir nem para mim mesma.

Eu gostava dele.

Talvez tivesse gostado desde o primeiro instante, desde aquele cumprimento formal na festa da embaixada e daquele olhar azul que pareceu atravessar minha pele. Mas Hakin não era para mim. Ele queria uma mulher como Hanna, não alguém como eu.

Além disso, minha irmã acreditava que havia encontrado o grande amor da vida. Eu jamais faria qualquer coisa para destruir sua felicidade.

Pelo menos era isso que repetia para mim mesma.

Durante os meses de namoro, Hakin tornou-se uma presença constante na casa dos Adiva. Sempre que vinha buscar Hanna, eu procurava não estar na sala. Inventava tarefas, prolongava meu turno no hospital ou me escondia no quarto até ouvir o carro dele partir.

Mesmo assim, algumas vezes nossos caminhos se cruzavam.

Nessas ocasiões, seus olhos permaneciam sobre mim por tempo demais. Eu fingia não perceber, embora meu corpo inteiro registrasse cada olhar. Hakin parecia irritado quando me encontrava pronta para sair, usando roupas que não combinavam com o comportamento que ele esperava de uma mulher árabe.

Eu o provocava de propósito.

Ele me julgava, e eu não aceitava abaixar a cabeça.

Nossa relação era feita de silêncios, olhares atravessados e palavras que nunca dizíamos. Hakin parecia me considerar um problema, mas, mesmo assim, jamais conseguia simplesmente ignorar minha presença.

Pouco a pouco, o casamento foi organizado. Hanna escolheu o vestido, os arranjos, os convidados e até os pratos que seriam servidos na festa. Tudo precisava ser perfeito. Tudo precisava corresponder à imagem da vida que ela sempre sonhou.

E agora estou aqui, no jardim da mansão dos Osman, observando minha irmã receber os cumprimentos dos convidados.

Ela está linda em seu vestido claro, com os cabelos negros presos em um penteado elegante e um colar de brilhantes repousando sobre o colo. Sorri para todos como se tivesse conquistado o mundo.

Talvez tenha mesmo.

Ao lado dela, Hakin veste um terno escuro e mantém uma das mãos sobre a cintura da minha irmã. Ele parece sério, mas satisfeito. O casal recebe os cumprimentos dos familiares enquanto as mulheres entoam o tradicional zaghareet.

Paro a alguns passos de distância.

Hanna é a noiva perfeita. Hakin é o noivo perfeito. Todos ao redor parecem felizes com aquela união.

Então, por que sinto uma inquietação tão forte no peito?

Talvez seja apenas o cansaço. Talvez seja a consciência de que, depois daquela noite, nada voltará a ser como antes.

Hakin gostou de Hanna. Não demorou muito e eles começaram a namorar. Bonito e rico, ele era o sonho realizado da minha irmã, até o acidente e ele ficar cego...

E, depois disso, o destino começa a mudar o lugar de cada um de nós.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   Abro a boca para dizer que não sou Hanna. Mas não dá tempo.

    A vida prossegue.Alex viaja poucos dias depois, e eu me envolvo cada vez mais com o trabalho. Procuro ocupar todos os espaços da minha rotina para não pensar demais no que aconteceu naquele almoço, no olhar de Hakin ou na sensação que me invade sempre que ele está perto.Aos sábados e domingos, evito me encontrar com o noivo da minha irmã.Sei o quanto ele não gosta de mim. Também sei o quanto eu me sinto afetada por sua presença. É mais fácil manter distância do que correr o risco de dizer ou fazer alguma coisa capaz de comprometer a felicidade de Hanna.Durante algumas semanas, consigo manter esse afastamento.Até o dia em que tudo muda.Fecho os olhos e estremeço quando me lembro do momento em que Hakin me confundiu com Hanna.Isso ocorre três meses depois do noivado, poucos dias antes do casamento dele com a minha irmã.Naquela manhã, a costureira deveria ter chegado cedo para fazer os ajustes finais no vestido que Hakin havia dado de presente a Hanna. O embrulho chegou logo no i

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   O noivado

    Ao término do almoço, somos convidados a voltar para a sala.A mudança de ambiente faz com que todos se acomodem nos sofás e nas poltronas dispostos ao redor da grande sala. Ainda sinto o sabor da comida na boca e o peso do silêncio que acompanhou toda a refeição. Alex permaneceu quieto, respeitando os costumes da família, mas percebo que está ansioso para conversar comigo novamente.Hakin, porém, não se senta.Ele permanece de pé, sério, com os ombros largos e a expressão controlada. Seu olhar passa pelos presentes até encontrar Hanna.—Hanna, venha ficar ao meu lado.Ela parece surpresa com o gesto. Por alguns segundos, fica olhando para ele sem entender o motivo de seu pedido. Depois, ajeita o caftã e se levanta.Hanna caminha até Hakin com um sorriso tímido. Ele a espera ao lado do sofá, mantendo uma das mãos dentro do bolso da calça. Existe algo diferente em sua postura, como se estivesse se preparando para um momento importante.Meu coração começa a bater mais depressa.Não sei

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   Podemos nos conhecer aos poucos. Pretendo ir devagar com você... —Alex insiste.

    —Como vai, Bennett?Ele conhece Alex?Hakin estende a mão para ele, que aperta sua mão.—Muito bem, Oman. Quando Aysha me convidou, não imaginava que participaria de um almoço em sua casa.Pisco, surpresa.—Vocês se conhecem?—Sim. Sempre que posso, participo dos eventos filantrópicos com meu pai —Alex explica.Os olhos de Hanna brilham para ele.—Você é filho do duque Henry Bennett? Alexandro Bennett Terceiro?Duque?Não me admiro que ela saiba. Hanna ama a coluna social e conhece os nomes das famílias mais importantes. É claro que não perderia a oportunidade de reconhecer alguém tão influente.—Exato.—Que incrível —Hanna diz, quase suspirando.Mas Hakin nem olha para ela.Seu olhar está fixo no meu.No mínimo, deve estar achando que eu escolhi Alex encantada por sua posição social.Um bastardo!Um cretino!Não estou com Alex por interesse. Eu nem sabia que ele era filho de um duque. Não tenho culpa se o conheci no hospital, como médico e colega de trabalho.Um senhor e uma senhora

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   Hakin não parece satisfeito ao me ver ao lado de Alex.

    AyshaA semana passou ligeira. O sábado chegou a galope e, com ele, o almoço na casa de Hakin.Desde que recebi o convite, tento não pensar demais no encontro. Sei que será apenas um almoço entre as famílias, uma ocasião para que os pais de Hakin conheçam melhor Hanna e estreitem os laços com o nosso baba.Mesmo assim, a simples ideia de estar novamente perto de Hakin me deixa inquieta.Não deveria me importar com a maneira como ele me vê. Hakin é o noivo da minha irmã e, em breve, será meu cunhado. Preciso me acostumar com isso e controlar as reações que surgem sempre que ele aparece diante de mim.Escolho um lindo vestido que comprei especialmente para esse grande evento. Ele é mostarda, tem decote redondo e um babado sobreposto que deixa a peça elegante. Cobre meus joelhos, embora evidencie minhas formas.Passo algum tempo diante do espelho, observando meu reflexo. Não quero parecer ousada demais para os padrões da família Osman, mas também não desejo vestir algo que não combine co

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   Ele está apaixonado por Hanna. E eu preciso me lembrar disso.

    Não consigo entender por que me importo tanto com o que ele pensa a meu respeito.Mas me importo.Essa constatação me irrita ainda mais.—Você não deveria falar de assuntos que desconhece —digo, tentando manter a calma. —Não sabe nada sobre os homens com quem me relacionei, nem sobre o que procuro em alguém.—Não parece procurar nada além de liberdade.—E isso é um problema?—Para mim, não.—Então por que está tão preocupado?Ele não responde.As palavras ficam suspensas entre nós. A tensão cresce de maneira quase visível. Sinto como se uma corrente elétrica percorresse o espaço entre os nossos corpos.Hanna surge na sala, interrompendo-nos.Ela está completamente alheia às faíscas que parecem saltar dos nossos olhos, cheios de animosidade e algo que não desejo nomear.—Habibi, perdoe-me pelo atraso —ela diz, aproximando-se com um sorriso lindo.Hakin desvia os olhos de mim e encara minha irmã.—Já estou acostumado —ele responde, dando de ombros.Hanna passa os olhos por mim e depois

  • INFERNO EM SEUS BRAÇOS   Esse homem continua mexendo comigo.

    Dois meses depois...AyshaEstou no corredor, observando Hakin sentado ao lado do meu baba. Com certeza, ele está esperando por minha irmã, que, como sempre, está atrasada.Hanna possui muitas qualidades, mas pontualidade definitivamente não é uma delas. Ela pode passar horas escolhendo o vestido perfeito, combinando os acessórios, refazendo a maquiagem e testando diferentes perfumes antes de sair de casa. Depois, ainda espera que todos compreendam o atraso como se fosse algo natural.Eu, ao contrário, não suporto fazer os outros esperarem.Talvez por isso tenha aprendido a chegar cedo a todos os compromissos. No hospital, alguns minutos podem fazer diferença. Um paciente pode piorar enquanto alguém decide se está ou não pronto para cumprir sua função. Minha profissão me ensinou a ser prática, responsável e atenta.Mas, quando Hakin está por perto, toda a minha praticidade desaparece.Gostaria de dizer que fiz progressos e que já não me sinto afetada pela presença dele. Gostaria de af

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status