LOGINSeis meses atrás...
Aysha Minha irmã entra no meu quarto com um sorriso enorme no rosto. Ela está em êxtase por causa da festa na embaixada egípcia da qual participaremos naquela noite. Nosso baba trabalha como intérprete e, por isso, costuma ser convidado para eventos importantes da comunidade árabe. Não me surpreendo com a animação de Hanna. Sua vida se resume a encontrar um homem para se casar. Mas não pode ser qualquer homem. Ela é exigente e possui uma lista enorme de qualidades que o pretendente precisa ter. Ele deve ser rico, bonito, generoso e ter condições de proporcionar a vida confortável que ela sempre desejou. Se o rapaz não corresponder às suas expectativas, Hanna simplesmente perde o interesse. Não importa se ele é gentil, inteligente ou apaixonado. Para ela, o amor precisa vir acompanhado de uma conta bancária generosa, uma boa aparência e um sobrenome respeitado. Não posso culpá-la completamente por pensar assim. Fomos criadas dentro de uma cultura que valoriza o casamento e a família. Desde pequenas, ouvimos que uma mulher deve encontrar um bom marido, cuidar da casa e construir uma família. Hanna apenas aceitou esse destino sem questioná-lo. Eu, por outro lado, sempre tive dificuldade para me encaixar nesse modelo. Minha irmã se aproxima da cama, onde estou terminando de me arrumar, e me observa de cima a baixo. Seus olhos passam pelo vestido que escolhi e sua expressão muda imediatamente. —O baba pediu para te chamar. Nós já vamos. —Está certo. Volto minha atenção para o espelho e ajeito uma mecha dos meus cabelos negros. O vestido que escolhi é azul-escuro, justo na medida certa e termina pouco acima dos meus joelhos. O decote não é exagerado, mas valoriza meu colo. Não vejo nada de errado nele. Hanna, obviamente, pensa diferente. —Sério que você irá usar esse vestido? Respiro fundo e viro o rosto para encará-la. —Qual é o problema? —Você ainda pergunta? —Ela aponta para o meu corpo, como se eu estivesse vestida de maneira indecente. —Seu vestido é muito justo. —Estou decente, Hanna. Hoje não extrapolei no decote. Estou apenas mostrando os joelhos. Ela cruza os braços e balança a cabeça, desaprovando cada centímetro da minha roupa. —Seu vestido está muito colado ao corpo. Você não percebe? —Percebo. Também percebo que ele é bonito, confortável e que eu gosto dele. —Você poderia usar algo mais adequado para a festa. —Mais adequado para quem? Hanna me lança um olhar impaciente. —Para a nossa família. Para a nossa cultura. Para não chamar atenção de maneira errada. Dou uma risada curta, sem humor. —Não irei me vestir de uma maneira que não me agrada apenas para satisfazer você. —Desse jeito, irá morrer solteira. —Deveria ficar feliz. Você terá menos concorrência hoje. Minha resposta faz a boca de Hanna se curvar em um sorriso frio. Ela se considera mais encantadora, mais interessante e muito mais adequada do que eu. Desde crianças, existe uma competição silenciosa entre nós, embora apenas ela pareça admitir isso. Somos gêmeas idênticas. Temos os mesmos olhos castanhos, os mesmos cabelos negros, a mesma pele clara e os mesmos traços delicados. Muitas pessoas não conseguem nos distinguir quando estamos juntas. Mas nossa semelhança termina no rosto. Hanna sabe exatamente como agradar aos outros. Conhece as regras, os gestos e as palavras certas. Nunca levanta a voz diante dos mais velhos, nunca contradiz um homem em público e jamais aparece em uma festa usando algo que possa provocar comentários. Eu não tenho a mesma paciência. Não consigo sorrir quando estou irritada nem fingir interesse por uma conversa vazia. Não aceito que outras pessoas decidam como devo me vestir ou que tipo de vida preciso levar. Talvez por isso meu baba se preocupe tanto comigo. Ele sempre desejou que eu fosse mais parecida com Hanna. —Então vamos? —Hanna pergunta, interrompendo meus pensamentos. Pego minha bolsa e me levanto. —Vamos. Saímos do quarto e encontramos nosso baba aguardando na sala. Ele está vestido com um terno escuro e segura o celular em uma das mãos. Assim que nos vê, seus olhos passam por mim e depois se demoram em Hanna. Não preciso perguntar qual de nós ele considera mais adequada para a ocasião. —Finalmente —ele diz, consultando o relógio. —Precisamos chegar antes dos convidados mais importantes. —Aysha demorou por causa do vestido —Hanna comenta. Olho para ela, mas não respondo. Nosso baba suspira, porém não insiste no assunto. Ele sabe que não mudarei de roupa. Depois de alguns minutos, entramos no carro e seguimos para a embaixada. Durante o caminho, Hanna fala sem parar sobre a festa. Comenta os convidados que estarão presentes, os vestidos que algumas mulheres provavelmente usarão e os homens solteiros que poderão aparecer. —Ouvi dizer que o filho do banqueiro Mustafá Zayed Osman também estará lá —ela comenta. —E isso deveria significar alguma coisa para mim? —Hakin Zayed Osman é um homem muito conhecido. —Conhecido por quê? —Ele é advogado criminalista e se tornou promotor. Além disso, é filho de um homem muito rico e influente. —Então você já pesquisou sobre ele. —Eu apenas sei quem ele é. —Claro. Hanna ignora minha provocação e continua olhando pela janela. —Dizem que ele é muito bonito. —Isso você descobrirá quando o vir. —Espero que seja solteiro. —Se não for, você encontrará outro. —Não é tão simples assim, Aysha. Homens como ele não aparecem todos os dias. Viro o rosto para a janela, escondendo o sorriso. —Você já está planejando o casamento? —Não seja ridícula. Mas suas bochechas ficam vermelhas, revelando que a ideia não lhe parece tão absurda. Minutos depois, chegamos à embaixada. O prédio é imponente, com colunas claras, janelas altas e uma entrada cercada por jardins bem cuidados. Há vários carros estacionados diante do portão e funcionários recebendo os convidados. Assim que entramos, sou envolvida pelo som da música árabe. Um conjunto toca instrumentos tradicionais em um pequeno palco decorado com tecidos dourados e vermelhos. A cantora tem uma voz excepcional, suave e profunda, que preenche o salão sem esforço. O ambiente está iluminado por lustres enormes. Mesas cobertas com toalhas claras ocupam uma parte do espaço, enquanto os convidados circulam pelo salão segurando taças e conversando em pequenos grupos. Não me surpreendo quando encontro mulheres vestidas como eu, acompanhadas de homens árabes de mente mais aberta. É raro, mas existe. Nem todos os homens da nossa comunidade esperam que suas esposas sejam silenciosas, submissas e completamente dependentes deles. Hanna, porém, parece não perceber ninguém ao redor. Seus olhos percorrem o salão com atenção, procurando alguém. —Linda essa música —digo. Ela não responde. —Hanna? Minha irmã continua olhando para um lado do salão. —Lindo é aquele homem que está olhando para nós. Observo a pessoa a quem ela se refere. Um homem alto, forte e viril está parado próximo a um dos grupos de convidados. Seus cabelos são quase negros e estão penteados de maneira impecável. Ele veste um terno escuro que se ajusta perfeitamente ao corpo e mantém uma das mãos no bolso da calça. Sim, ele está olhando para nós. Minha respiração acelera. Não consigo evitar. Há algo nele que prende minha atenção imediatamente. Talvez seja a postura segura. Talvez seja o modo como ele mantém o queixo erguido, como se nada naquele ambiente pudesse intimidá-lo. Ele realmente é de tirar o fôlego. Quando nossos olhos se encontram, sinto um arrepio percorrer minha nuca. Tento olhar para outro lado, mas não consigo. Seus olhos são de um azul-claro impressionante, quase luminoso sob as luzes do salão. Ele sorri para nós duas e começa a avançar. Existe algo diabólico em sua beleza. Seu rosto é tão perfeito que chega a ser escandaloso. Ele caminha com tranquilidade, sem pressa, consciente de que todos acompanham seus movimentos. —Ele está vindo para cá —Hanna murmura. —Eu percebi.A vida prossegue.Alex viaja poucos dias depois, e eu me envolvo cada vez mais com o trabalho. Procuro ocupar todos os espaços da minha rotina para não pensar demais no que aconteceu naquele almoço, no olhar de Hakin ou na sensação que me invade sempre que ele está perto.Aos sábados e domingos, evito me encontrar com o noivo da minha irmã.Sei o quanto ele não gosta de mim. Também sei o quanto eu me sinto afetada por sua presença. É mais fácil manter distância do que correr o risco de dizer ou fazer alguma coisa capaz de comprometer a felicidade de Hanna.Durante algumas semanas, consigo manter esse afastamento.Até o dia em que tudo muda.Fecho os olhos e estremeço quando me lembro do momento em que Hakin me confundiu com Hanna.Isso ocorre três meses depois do noivado, poucos dias antes do casamento dele com a minha irmã.Naquela manhã, a costureira deveria ter chegado cedo para fazer os ajustes finais no vestido que Hakin havia dado de presente a Hanna. O embrulho chegou logo no i
Ao término do almoço, somos convidados a voltar para a sala.A mudança de ambiente faz com que todos se acomodem nos sofás e nas poltronas dispostos ao redor da grande sala. Ainda sinto o sabor da comida na boca e o peso do silêncio que acompanhou toda a refeição. Alex permaneceu quieto, respeitando os costumes da família, mas percebo que está ansioso para conversar comigo novamente.Hakin, porém, não se senta.Ele permanece de pé, sério, com os ombros largos e a expressão controlada. Seu olhar passa pelos presentes até encontrar Hanna.—Hanna, venha ficar ao meu lado.Ela parece surpresa com o gesto. Por alguns segundos, fica olhando para ele sem entender o motivo de seu pedido. Depois, ajeita o caftã e se levanta.Hanna caminha até Hakin com um sorriso tímido. Ele a espera ao lado do sofá, mantendo uma das mãos dentro do bolso da calça. Existe algo diferente em sua postura, como se estivesse se preparando para um momento importante.Meu coração começa a bater mais depressa.Não sei
—Como vai, Bennett?Ele conhece Alex?Hakin estende a mão para ele, que aperta sua mão.—Muito bem, Oman. Quando Aysha me convidou, não imaginava que participaria de um almoço em sua casa.Pisco, surpresa.—Vocês se conhecem?—Sim. Sempre que posso, participo dos eventos filantrópicos com meu pai —Alex explica.Os olhos de Hanna brilham para ele.—Você é filho do duque Henry Bennett? Alexandro Bennett Terceiro?Duque?Não me admiro que ela saiba. Hanna ama a coluna social e conhece os nomes das famílias mais importantes. É claro que não perderia a oportunidade de reconhecer alguém tão influente.—Exato.—Que incrível —Hanna diz, quase suspirando.Mas Hakin nem olha para ela.Seu olhar está fixo no meu.No mínimo, deve estar achando que eu escolhi Alex encantada por sua posição social.Um bastardo!Um cretino!Não estou com Alex por interesse. Eu nem sabia que ele era filho de um duque. Não tenho culpa se o conheci no hospital, como médico e colega de trabalho.Um senhor e uma senhora
AyshaA semana passou ligeira. O sábado chegou a galope e, com ele, o almoço na casa de Hakin.Desde que recebi o convite, tento não pensar demais no encontro. Sei que será apenas um almoço entre as famílias, uma ocasião para que os pais de Hakin conheçam melhor Hanna e estreitem os laços com o nosso baba.Mesmo assim, a simples ideia de estar novamente perto de Hakin me deixa inquieta.Não deveria me importar com a maneira como ele me vê. Hakin é o noivo da minha irmã e, em breve, será meu cunhado. Preciso me acostumar com isso e controlar as reações que surgem sempre que ele aparece diante de mim.Escolho um lindo vestido que comprei especialmente para esse grande evento. Ele é mostarda, tem decote redondo e um babado sobreposto que deixa a peça elegante. Cobre meus joelhos, embora evidencie minhas formas.Passo algum tempo diante do espelho, observando meu reflexo. Não quero parecer ousada demais para os padrões da família Osman, mas também não desejo vestir algo que não combine co
Não consigo entender por que me importo tanto com o que ele pensa a meu respeito.Mas me importo.Essa constatação me irrita ainda mais.—Você não deveria falar de assuntos que desconhece —digo, tentando manter a calma. —Não sabe nada sobre os homens com quem me relacionei, nem sobre o que procuro em alguém.—Não parece procurar nada além de liberdade.—E isso é um problema?—Para mim, não.—Então por que está tão preocupado?Ele não responde.As palavras ficam suspensas entre nós. A tensão cresce de maneira quase visível. Sinto como se uma corrente elétrica percorresse o espaço entre os nossos corpos.Hanna surge na sala, interrompendo-nos.Ela está completamente alheia às faíscas que parecem saltar dos nossos olhos, cheios de animosidade e algo que não desejo nomear.—Habibi, perdoe-me pelo atraso —ela diz, aproximando-se com um sorriso lindo.Hakin desvia os olhos de mim e encara minha irmã.—Já estou acostumado —ele responde, dando de ombros.Hanna passa os olhos por mim e depois
Dois meses depois...AyshaEstou no corredor, observando Hakin sentado ao lado do meu baba. Com certeza, ele está esperando por minha irmã, que, como sempre, está atrasada.Hanna possui muitas qualidades, mas pontualidade definitivamente não é uma delas. Ela pode passar horas escolhendo o vestido perfeito, combinando os acessórios, refazendo a maquiagem e testando diferentes perfumes antes de sair de casa. Depois, ainda espera que todos compreendam o atraso como se fosse algo natural.Eu, ao contrário, não suporto fazer os outros esperarem.Talvez por isso tenha aprendido a chegar cedo a todos os compromissos. No hospital, alguns minutos podem fazer diferença. Um paciente pode piorar enquanto alguém decide se está ou não pronto para cumprir sua função. Minha profissão me ensinou a ser prática, responsável e atenta.Mas, quando Hakin está por perto, toda a minha praticidade desaparece.Gostaria de dizer que fiz progressos e que já não me sinto afetada pela presença dele. Gostaria de af







