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Ele está vindo para cá

Penulis: Sandra Rummer
last update Tanggal publikasi: 2026-09-15 18:57:26

Seis meses atrás...

Aysha

Minha irmã entra no meu quarto com um sorriso enorme no rosto. Ela está em êxtase por causa da festa na embaixada egípcia da qual participaremos naquela noite. Nosso baba trabalha como intérprete e, por isso, costuma ser convidado para eventos importantes da comunidade árabe.

Não me surpreendo com a animação de Hanna. Sua vida se resume a encontrar um homem para se casar. Mas não pode ser qualquer homem. Ela é exigente e possui uma lista enorme de qualidades que o pretendente precisa ter.

Ele deve ser rico, bonito, generoso e ter condições de proporcionar a vida confortável que ela sempre desejou. Se o rapaz não corresponder às suas expectativas, Hanna simplesmente perde o interesse. Não importa se ele é gentil, inteligente ou apaixonado. Para ela, o amor precisa vir acompanhado de uma conta bancária generosa, uma boa aparência e um sobrenome respeitado.

Não posso culpá-la completamente por pensar assim. Fomos criadas dentro de uma cultura que valoriza o casamento e a família. Desde pequenas, ouvimos que uma mulher deve encontrar um bom marido, cuidar da casa e construir uma família. Hanna apenas aceitou esse destino sem questioná-lo.

Eu, por outro lado, sempre tive dificuldade para me encaixar nesse modelo.

Minha irmã se aproxima da cama, onde estou terminando de me arrumar, e me observa de cima a baixo. Seus olhos passam pelo vestido que escolhi e sua expressão muda imediatamente.

—O baba pediu para te chamar. Nós já vamos.

—Está certo.

Volto minha atenção para o espelho e ajeito uma mecha dos meus cabelos negros. O vestido que escolhi é azul-escuro, justo na medida certa e termina pouco acima dos meus joelhos. O decote não é exagerado, mas valoriza meu colo. Não vejo nada de errado nele.

Hanna, obviamente, pensa diferente.

—Sério que você irá usar esse vestido?

Respiro fundo e viro o rosto para encará-la.

—Qual é o problema?

—Você ainda pergunta? —Ela aponta para o meu corpo, como se eu estivesse vestida de maneira indecente. —Seu vestido é muito justo.

—Estou decente, Hanna. Hoje não extrapolei no decote. Estou apenas mostrando os joelhos.

Ela cruza os braços e balança a cabeça, desaprovando cada centímetro da minha roupa.

—Seu vestido está muito colado ao corpo. Você não percebe?

—Percebo. Também percebo que ele é bonito, confortável e que eu gosto dele.

—Você poderia usar algo mais adequado para a festa.

—Mais adequado para quem?

Hanna me lança um olhar impaciente.

—Para a nossa família. Para a nossa cultura. Para não chamar atenção de maneira errada.

Dou uma risada curta, sem humor.

—Não irei me vestir de uma maneira que não me agrada apenas para satisfazer você.

—Desse jeito, irá morrer solteira.

—Deveria ficar feliz. Você terá menos concorrência hoje.

Minha resposta faz a boca de Hanna se curvar em um sorriso frio. Ela se considera mais encantadora, mais interessante e muito mais adequada do que eu. Desde crianças, existe uma competição silenciosa entre nós, embora apenas ela pareça admitir isso.

Somos gêmeas idênticas. Temos os mesmos olhos castanhos, os mesmos cabelos negros, a mesma pele clara e os mesmos traços delicados. Muitas pessoas não conseguem nos distinguir quando estamos juntas.

Mas nossa semelhança termina no rosto.

Hanna sabe exatamente como agradar aos outros. Conhece as regras, os gestos e as palavras certas. Nunca levanta a voz diante dos mais velhos, nunca contradiz um homem em público e jamais aparece em uma festa usando algo que possa provocar comentários.

Eu não tenho a mesma paciência.

Não consigo sorrir quando estou irritada nem fingir interesse por uma conversa vazia. Não aceito que outras pessoas decidam como devo me vestir ou que tipo de vida preciso levar. Talvez por isso meu baba se preocupe tanto comigo.

Ele sempre desejou que eu fosse mais parecida com Hanna.

—Então vamos? —Hanna pergunta, interrompendo meus pensamentos.

Pego minha bolsa e me levanto.

—Vamos.

Saímos do quarto e encontramos nosso baba aguardando na sala. Ele está vestido com um terno escuro e segura o celular em uma das mãos. Assim que nos vê, seus olhos passam por mim e depois se demoram em Hanna.

Não preciso perguntar qual de nós ele considera mais adequada para a ocasião.

—Finalmente —ele diz, consultando o relógio. —Precisamos chegar antes dos convidados mais importantes.

—Aysha demorou por causa do vestido —Hanna comenta.

Olho para ela, mas não respondo.

Nosso baba suspira, porém não insiste no assunto. Ele sabe que não mudarei de roupa. Depois de alguns minutos, entramos no carro e seguimos para a embaixada.

Durante o caminho, Hanna fala sem parar sobre a festa. Comenta os convidados que estarão presentes, os vestidos que algumas mulheres provavelmente usarão e os homens solteiros que poderão aparecer.

—Ouvi dizer que o filho do banqueiro Mustafá Zayed Osman também estará lá —ela comenta.

—E isso deveria significar alguma coisa para mim?

—Hakin Zayed Osman é um homem muito conhecido.

—Conhecido por quê?

—Ele é advogado criminalista e se tornou promotor. Além disso, é filho de um homem muito rico e influente.

—Então você já pesquisou sobre ele.

—Eu apenas sei quem ele é.

—Claro.

Hanna ignora minha provocação e continua olhando pela janela.

—Dizem que ele é muito bonito.

—Isso você descobrirá quando o vir.

—Espero que seja solteiro.

—Se não for, você encontrará outro.

—Não é tão simples assim, Aysha. Homens como ele não aparecem todos os dias.

Viro o rosto para a janela, escondendo o sorriso.

—Você já está planejando o casamento?

—Não seja ridícula.

Mas suas bochechas ficam vermelhas, revelando que a ideia não lhe parece tão absurda.

Minutos depois, chegamos à embaixada. O prédio é imponente, com colunas claras, janelas altas e uma entrada cercada por jardins bem cuidados. Há vários carros estacionados diante do portão e funcionários recebendo os convidados.

Assim que entramos, sou envolvida pelo som da música árabe. Um conjunto toca instrumentos tradicionais em um pequeno palco decorado com tecidos dourados e vermelhos. A cantora tem uma voz excepcional, suave e profunda, que preenche o salão sem esforço.

O ambiente está iluminado por lustres enormes. Mesas cobertas com toalhas claras ocupam uma parte do espaço, enquanto os convidados circulam pelo salão segurando taças e conversando em pequenos grupos.

Não me surpreendo quando encontro mulheres vestidas como eu, acompanhadas de homens árabes de mente mais aberta. É raro, mas existe. Nem todos os homens da nossa comunidade esperam que suas esposas sejam silenciosas, submissas e completamente dependentes deles.

Hanna, porém, parece não perceber ninguém ao redor. Seus olhos percorrem o salão com atenção, procurando alguém.

—Linda essa música —digo.

Ela não responde.

—Hanna?

Minha irmã continua olhando para um lado do salão.

—Lindo é aquele homem que está olhando para nós.

Observo a pessoa a quem ela se refere.

Um homem alto, forte e viril está parado próximo a um dos grupos de convidados. Seus cabelos são quase negros e estão penteados de maneira impecável. Ele veste um terno escuro que se ajusta perfeitamente ao corpo e mantém uma das mãos no bolso da calça.

Sim, ele está olhando para nós.

Minha respiração acelera. Não consigo evitar. Há algo nele que prende minha atenção imediatamente. Talvez seja a postura segura. Talvez seja o modo como ele mantém o queixo erguido, como se nada naquele ambiente pudesse intimidá-lo.

Ele realmente é de tirar o fôlego.

Quando nossos olhos se encontram, sinto um arrepio percorrer minha nuca. Tento olhar para outro lado, mas não consigo. Seus olhos são de um azul-claro impressionante, quase luminoso sob as luzes do salão.

Ele sorri para nós duas e começa a avançar.

Existe algo diabólico em sua beleza. Seu rosto é tão perfeito que chega a ser escandaloso. Ele caminha com tranquilidade, sem pressa, consciente de que todos acompanham seus movimentos.

—Ele está vindo para cá —Hanna murmura.

—Eu percebi.

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