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Capítulo 3

Author: Jinny Cacá
Helena encarou o rosto sereno de Leonardo, quase indiferente, e sentiu o coração se contrair.

Mesmo depois de levar um tapa, ele parecia não se importar.

Será que nada realmente conseguia abalá-lo, por mais que ela passasse dos limites?

Leonardo estendeu a mão outra vez. Helena tentou afastá-lo, mas ele segurou seu pulso.

— Você bateu com vontade, hein?

Antes que ela pudesse reagir, ele a puxou para os braços.

A palma quente pousou em sua testa, enquanto as pontas dos dedos, um pouco frias, tocaram sua pele com delicadeza.

— Está sentindo alguma coisa?

A voz de Leonardo era baixa e suave, quase como se tentasse acalmar uma criança.

Helena fechou os olhos por reflexo e respirou fundo.

Foi então que sentiu um perfume intenso e adocicado.

Uma fragrância feminina recém-lançada.

A imagem de Leonardo carregando aquela mulher nos braços surgiu em sua mente, nítida demais.

Dolorosa demais.

Sua respiração travou.

Helena empurrou a mão dele com força.

— Não encosta em mim!

Ela usou toda a força que tinha. O tom abafado deixava claro que não estava brincando.

Leonardo, porém, não percebeu o choro contido em sua voz. Apenas soltou uma risada baixa.

— Que crueldade.

Ele serviu um copo de água morna e o levou até os lábios dela.

— O Fórum de Inovação ainda não terminou. Vou ficar ocupado por mais alguns dias. Você não vive dizendo que quer viajar para uma ilha? Assim que isso acabar, eu te levo.

Helena não pegou o copo.

Continuou imóvel, olhando para ele.

— Leonardo... Você não tem nada para me contar?

As cortinas estavam fechadas, deixando o quarto mergulhado na penumbra.

Os cílios de Helena tremiam de leve, tornando difícil decifrar o que ela sentia.

Até Leonardo, que nunca fora especialmente atento às mudanças de humor dela, percebeu que havia algo errado.

Ao se lembrar das mais de dez chamadas perdidas da noite anterior, o sorriso desapareceu de seu rosto.

— Lena, eu não ignorei suas ligações de propósito ontem à noite. Surgiu uma emergência e eu realmente não consegui me afastar.

Havia um leve traço de culpa em sua voz.

— Me desculpa. Eu devia ter pensado melhor. Não vou deixar você esperando assim de novo.

Mentira.

Uma mentira dita com toda a aparência de sinceridade.

Helena o encarou e sentiu a decepção afundar ainda mais dentro do peito.

"Leonardo... Você está me traindo?"

A pergunta quase escapou.

Antes que pudesse pronunciá-la, porém, um zumbido violento explodiu em seu ouvido esquerdo, entorpecendo sua cabeça e interrompendo seus pensamentos.

Ao vê-la levar a mão ao ouvido, Leonardo ficou tenso na mesma hora.

— Seu ouvido está incomodando de novo?

Helena o afastou e aumentou a distância entre os dois.

— Eu estou bem!

Leonardo a observou em silêncio. Por um instante, algo difícil de decifrar atravessou seu rosto.

— Lena, ontem à noite foi só...

Um toque de celular alegre e estridente cortou a quietude pesada do quarto.

— A chefe mais linda e incrível do mundo está ligando! Atende logo, vai~!

A voz feminina era doce, manhosa e ligeiramente desafinada.

Não havia dúvida de que alguém gravara aquilo especialmente para ser usado como toque personalizado.

O rosto de Helena esfriou.

Seus dedos se fecharam devagar.

Leonardo também pareceu surpreso por um instante, mas logo atendeu.

Do outro lado da linha, a mulher começou a falar quase chorando. Mesmo sem o viva-voz, sua voz aguda e cheia de queixa chegava com nitidez até Helena.

— Leo! E agora? A polícia veio atrás de mim de novo! Estão me tratando supermal!

Leonardo se virou quase por instinto, ficando de costas para Helena.

Quando respondeu, sua voz já havia mudado.

Mais baixa.

Mais paciente.

— Calma. As indenizações foram pagas do jeito que eu pedi?

— Uhum... Eu fiz tudo como você falou! Ontem à noite fui falar com cada um deles e pagar a compensação, mas teve uma mulher que não quis me deixar em paz de jeito nenhum! Deve ter achado quinhentos mil pouco e agora quer aproveitar a situação para arrancar mais dinheiro de mim! Que pessoa horrível!

— Não tenha medo. — A voz de Leonardo permaneceu firme e tranquila. — Deixa isso comigo. Eu resolvo...

Helena ficou olhando para as costas dele.

Observou a maneira como falava baixo para acalmar aquela mulher, como aceitava cuidar do problema sem hesitar, com a naturalidade de quem já sabia exatamente o que fazer.

Cada detalhe fazia a dor em seu peito apertar um pouco mais.

De repente, Helena quis saber.

Quis saber como, exatamente, ele pretendia resolver aquilo.

Não demorou para Leonardo encerrar a ligação e voltar até a cama.

Helena o encarou.

— Quem era?

O olhar dele vacilou por um segundo.

— Uma amiga.

Após uma breve pausa, acrescentou:

— Ela acabou de voltar ao país. Qualquer dia eu apresento vocês. Tenta dormir mais um pouco. Preciso resolver uma coisa.

Enquanto falava, já se virava para sair.

Ao passar pelo banheiro, seu olhar caiu sobre algo no chão.

As roupas que Helena havia usado na noite anterior.

Leonardo parou.

— Por que jogou essa roupa fora? Não gostou?

Estava prestes a pegá-la, provavelmente para ver melhor o modelo, quando o toque alegre soou outra vez.

Ele atendeu imediatamente.

— Não tenha medo. Estou indo para aí agora. Eles não vão fazer nada com você...

Continuou falando enquanto saía.

Já estava quase na porta da suíte quando parou.

Virou-se e olhou mais uma vez para Helena, sentada em silêncio na cama.

Na noite anterior, quando Rafael comentou que achava ter visto Helena sendo levada em uma ambulância, Leonardo sentira o coração parar por um instante.

Ainda bem que ele tinha se enganado.

Helena estava ali, diante dele.

Aparentemente, estava perfeitamente bem.

O celular de Helena não parava de tocar.

Sua mãe e seu primo ligavam sem descanso, uma chamada atrás da outra, como se não fossem desistir até que ela atendesse.

Helena respirou fundo e finalmente aceitou uma das ligações.

Nem teve tempo de dizer nada.

Do outro lado, sua mãe começou a chorar desesperadamente. Logo em seguida, ouviu a voz alarmada do primo:

— Tia! Tia, o que aconteceu?!

Antes que Helena pudesse entender o que estava havendo, ele disparou um endereço e desligou.

Seu coração se apertou.

Ignorando os hematomas espalhados pelo corpo, Helena vestiu um casaco às pressas e saiu.

Só quando desceu do táxi e viu diante de si o luxuoso espaço reservado para eventos privados sua expressão esfriou.

Na entrada, havia uma fonte de mármore branco de vários níveis, cercada por árvores de cânfora e postes de iluminação com detalhes dourados. Um caminho de pedra polida levava até a área onde os carros paravam para deixar e buscar os convidados.

Tudo ali exalava luxo.

Um contraste brutal com Helena, que chegara às pressas, ainda abatida e desarrumada.

O vento frio da noite atravessou seu casaco e pareceu penetrar até os ossos.

Helena entrou.

Guiada por um funcionário, subiu até o segundo andar.

Ao virar o corredor, ouviu uma gargalhada feminina vinda de uma sala privativa cuja porta estava entreaberta.

— Hahahaha! É sério isso? O Leo se casou mesmo com uma mulher surda? Então dá até pra falar mal dela na cara dela sem ela perceber, né?

Os passos de Helena pararam.

A mesma voz continuou lá dentro, agora num tom manhoso, carregado de ressentimento.

— Eu só passei alguns anos fora! Vocês ainda são meus amigos ou não? A gente não tinha combinado de ficar todo mundo solteiro? Como é que vocês deixaram o Leo se casar escondido de mim?

Ela soltou um suspiro exagerado.

— E a gente ainda brincava que, se nós dois continuássemos solteiros por muito tempo, podia acabar rolando alguma coisa entre a gente. Afinal, somos melhores amigos desde sempre... Se ele tivesse se casado com uma mulher incrível, tudo bem. Mas o Leo é tão perfeito... Por que foi escolher justamente uma surda?

Outras vozes masculinas logo se juntaram à conversa.

Helena reconheceu os amigos de faculdade que haviam começado a empreender ao lado de Leonardo.

— Cami, se você não tivesse ido embora naquela época, tudo teria sido diferente. Só você consegue colocar o Leo na linha. Se estivesse aqui, ele jamais teria se casado com uma surda!

— Pois é! Você foi embora sem avisar ninguém, o Leo ficou arrasado, bebeu demais e acabou sofrendo aquele acidente de carro. Pensando bem agora... Essa história sempre me pareceu meio estranha.

Camila captou imediatamente o ponto principal.

— Estranha como?

— Pensa comigo: quem foi a pessoa que mais ganhou com aquele acidente?

Outro homem respondeu:

— Aquela mulher não trabalhava com tradução? Ouvi dizer que, depois que perdeu a audição de um ouvido, não conseguiu mais seguir na profissão. Quanto será que ela ganhava por mês? No fim, trocou a audição de um ouvido pelo título de Sra. Valença e garantiu uma vida inteira sem se preocupar com dinheiro. Foi o melhor negócio que já fez!

Camila arregalou os olhos.

— O quê? Você está dizendo que aquela mulher se aproveitou do acidente para pressionar o Leo e obrigá-lo a se casar com ela?

Helena fechou a mão com força.

O sangue subiu de uma vez à cabeça, e suas têmporas começaram a pulsar.

Sem hesitar, ela ergueu o pé e chutou a porta da sala privativa com toda a força.

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