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Capítulo 4

Author: Jinny Cacá
— Quem é você? Ficou maluca?

Assustada com a entrada repentina, Camila se virou para a porta e disparou, furiosa.

Nem percebeu que os dois homens ao seu lado, que segundos antes riam e conversavam animadamente, agora estavam pálidos, de olhos arregalados e visivelmente constrangidos.

Gustavo Sampaio e Felipe Amaral se levantaram ao mesmo tempo, tão depressa que as cadeiras rasparam o chão com um ruído agudo.

— He... Helena... Você veio e nem avisou...

Ela os encarou com frieza.

— Se eu tivesse avisado, como teria a chance de ouvir tanta coisa nojenta sendo dita pelas minhas costas?

— Lena!

A repreensão baixa e descontente veio do fundo da sala.

Leonardo estava recostado no sofá mais afastado. A gravata já havia sido arrancada, e os dois primeiros botões da camisa branca estavam abertos, deixando à mostra as clavículas bem definidas.

Parecia ter bebido. Os cantos dos olhos estavam avermelhados, e os cabelos, sempre impecavelmente arrumados, agora caíam de forma um pouco desordenada sobre a testa. Havia nele um ar cansado e desleixado, muito diferente da elegância contida que costumava exibir.

No instante em que seus olhares se encontraram, Helena parou.

Toda a raiva que fervia dentro dela esfriou de uma vez.

Leonardo estava ali.

Ela jamais imaginara que ele também estivesse naquela sala.

Helena sempre percebera uma hostilidade difícil de explicar por parte daqueles amigos dele.

Anos antes, no casamento, bastara um deles fazer alguns comentários inconvenientes para Leonardo fechar a cara na mesma hora e se afastar de todos por três anos.

Então por que agora ele permanecia ali, indiferente, enquanto a insultavam e a diminuíam sem o menor pudor?

Por que não havia sequer tentado interrompê-los?

Camila se aproximou e examinou Helena de cima a baixo, surpresa.

— Leo, então essa é sua esposa?

Leonardo respondeu apenas:

— Uhum.

Em seguida, levantou-se. Com poucos passos, chegou até Helena e estendeu o braço para envolvê-la pela cintura.

— Como você soube que eu estava aqui?

Helena se esquivou.

Reprimiu a tempestade de emoções no peito e respondeu friamente:

— A churrascaria está precisando de língua de boi. Disseram que tinha umas línguas compridas demais por aqui e me mandaram vir buscar.

Gustavo e Felipe empalideceram.

— Helena, foi mal... Eu não achei que você fosse aparecer. A gente só estava brincando, não foi por mal.

Helena olhou para eles.

— Brincando? E você achou engraçado?

Um silêncio estranho e pesado tomou conta da sala.

Camila explodiu:

— Leo, afinal, sua esposa é surda de verdade ou está fingindo? Porque, para ficar escutando conversa atrás da porta, o ouvido dela parece funcionar muito bem!

Gustavo e Felipe tentaram segurá-la, mas Camila se desvencilhou.

— Não me puxem! Eu só não suporto ver alguém tratando vocês assim! Ela pode até ser esposa do Leo, mas não tem o direito de humilhar vocês desse jeito! Quando a gente começou a construir tudo junto, éramos como irmãos. Ela nem fazia parte da vida dele naquela época!

Helena voltou os olhos para ela.

Camila usava uma maquiagem cuidadosamente feita para parecer natural e uma camiseta esportiva enorme, provavelmente masculina. A gola larga escorregava com seus movimentos, deixando parte do ombro muito branco e a alça preta do sutiã à mostra.

— Então você é a Srta. Nogueira?

Camila ergueu uma sobrancelha.

— Sou. E daí?

Helena ainda nem havia respondido quando Leonardo se colocou na frente dela.

Na frente de Camila.

— Lena, chega. Volta pra casa.

Helena o encarou, sem acreditar.

Depois de tudo o que acabara de ouvir, a primeira reação de Leonardo havia sido proteger a outra mulher.

— Você acha que eu vou bater nela? Então sabe que eu tenho motivos para estar com raiva, mas, mesmo assim, ficou sentado ouvindo eles falarem tudo isso de mim?

Leonardo franziu a testa. O cheiro discreto de álcool ainda pairava ao redor dele, e o cansaço em seu rosto era impossível de esconder.

— Eles não fizeram por mal. Somos todos amigos. Não precisa transformar isso num escândalo. Se você não gosta deles, é só não encontrá-los mais daqui para frente.

Camila se apressou em entrar na conversa:

— Exatamente! A boca é nossa, a gente fala o que quiser! Se você é sensível demais e não sabe levar uma brincadeira, então não fica escondida na porta dos outros ouvindo conversa! Não foi você mesma que procurou isso?

Quanto mais falava, mais se exaltava, sem demonstrar o menor respeito por Helena.

Diante de alguém capaz de distorcer tudo daquela forma e ainda se achar certa, Helena não tinha nada a dizer.

Também não queria desperdiçar mais tempo discutindo com ela.

Seus olhos permaneceram em Leonardo.

Helena fez o possível para manter a voz firme.

— Você também pensa assim?

Leonardo pareceu não entender.

— Assim como?

O celular de tela estilhaçada vibrava sem parar em sua mão. Uma ligação atrás da outra, cobrando que ela aparecesse logo.

Helena encarou o homem diante de si.

Pela primeira vez, ele lhe pareceu um completo desconhecido.

Como se, durante todos aqueles anos, ela nunca o tivesse conhecido de verdade.

— Leonardo, vamos nos divorciar.

Ele permaneceu impassível.

— A Cami só é muito direta. Sempre foi meio sem filtro. Não leva tudo tão a sério.

Helena soltou uma risada baixa e amarga, contendo as lágrimas.

Não olhou mais para ele.

Virou-se e caminhou em direção à saída.

Leonardo a chamou:

— Para de agir por impulso. Está tarde. Vou pedir para o motorista te levar!

Helena não respondeu.

Continuou andando sem olhar para trás.

Atrás dela, a voz irônica de Camila voltou a soar:

— Nossa, Leo! Sua esposa é mesmo difícil, hein? Até na sua frente ela tem coragem de fazer essa cara e ir embora desse jeito!

Gustavo também comentou:

— Com esse temperamento dela, Leo, como você aguentou todos esses anos?

Felipe foi ainda mais longe:

— Pessoas com deficiência costumam ser mais complicadas mesmo. Na minha opinião, Leo, você nunca deveria ter se casado com ela. Bastava dar uma compensação e pronto. Pra que sacrificar a própria felicidade pelo resto da vida...?

Helena acelerou o passo, quase correndo para fora dali.

Tinha medo de que as lágrimas, já prestes a cair, a humilhassem ainda mais.

O celular continuava vibrando em sua mão, uma chamada atrás da outra. Cada vibração parecia ecoar dentro de seu peito até deixá-lo dormente.

Helena respirou fundo e obrigou a si mesma a engolir tudo o que vinha sufocando nos últimos dias.

Subiu apressada e entrou na sala privativa do andar de cima.

Márcia Ferreira estava sentada à mesa, comendo com ótimo apetite. Assim que ouviu a porta, largou o garfo com um estalo, fechou os olhos e se deixou cair dramaticamente contra o encosto da cadeira.

— Ai... Ai... Estou passando tão mal... Meu corpo inteiro dói! Sua ingrata, por que demorou tanto? Está esperando eu morrer para depois vir buscar meu corpo?

Helena já tinha assistido àquele teatrinho centenas, talvez milhares de vezes.

Achava que havia se tornado imune.

Naquele momento, porém, aquilo pareceu mais insuportável do que nunca.

Sua voz saiu fria:

— Para de fingir. Por que vocês me enganaram para eu vir até aqui?

Seu primo, Bruno Ferreira, se aproximou com uma expressão aflita.

— Prima, desta vez você precisa mesmo me ajudar! Eu coloquei tudo o que tinha naquela loja. Primeiro teve aquele incêndio, e agora a polícia veio atrás de mim dizendo que o sistema de prevenção e combate a incêndio estava irregular e que eu posso até responder criminalmente...

Helena franziu a testa.

Márcia se endireitou imediatamente, abandonando toda a encenação.

— Helena, liga para o Leonardo agora mesmo e manda ele resolver isso!

Bruno também insistiu:

— Pois é! Para o seu marido, isso se resolve com uma ligação. Se você pedir, ele com certeza vai ajudar!

Uma ironia amarga tomou conta de Helena.

Então era assim que Leonardo pretendia resolver tudo?

Desde que conseguisse proteger Camila e livrá-la das consequências, pouco importava se outras pessoas fossem arrastadas para o problema?

Camila havia voltado ao país fazia apenas dois dias.

E, nesse curto espaço de tempo, Leonardo já havia se transformado completamente em alguém que Helena não reconhecia.

Ao vê-la calada, Márcia perdeu a paciência.

— Está esperando o quê? Liga logo para ele!

Helena respirou fundo.

— Ele não vai ajudar.

A expressão de Bruno desabou.

— Como assim?

Márcia percebeu que havia alguma coisa errada.

— Você brigou com o Leonardo?

Foi só então que Helena sentiu os olhos arderem.

— Mãe...

Antes que pudesse continuar, Márcia estendeu a mão e beliscou seu braço com força.

— Sua idiota! Você perdeu o juízo? Você é surda! Falando sem rodeios, é uma pessoa com deficiência. Teve uma sorte que nem merecia ao conseguir se casar com um homem tão bom quanto o Leonardo e ainda tem coragem de brigar com ele?

A voz de Márcia foi ficando cada vez mais agressiva.

— Uma mulher como você, lá na nossa terra, nem um homem divorciado ia querer! E ainda acha que pode ficar de cara fechada e bancar a importante? Escuta bem: vai pedir desculpas ao Leonardo agora mesmo! Se for preciso, ajoelha e implora para ele te perdoar! E, daqui pra frente, vai fazer tudo do jeito que ele quiser. Nada de contrariar aquele homem ou desagradar ele de novo!

O braço de Helena já estava coberto de grandes hematomas por causa da queda. Quando Márcia apertou justamente aquele lugar, uma dor lancinante a atravessou.

As lágrimas brotaram de imediato.

Até as pontas de seus dedos começaram a tremer.

Mas aquela dor física não chegava perto do que ela sentia por dentro.

Helena simplesmente não conseguia acreditar que palavras tão cruéis pudessem sair da boca da própria mãe.

Sempre soubera que Márcia nunca gostara dela desde pequena. Ainda assim, toda vez que a mãe atacava justamente suas feridas para humilhá-la, era como se algo serrasse lentamente seu coração, deixando-a sem conseguir respirar.

Com os olhos vermelhos, Helena perguntou, já incapaz de esconder a mágoa na voz:

— Mãe... Você nem quer saber o que aconteceu? Vai simplesmente decidir que a culpa é minha?

Márcia estava tão apavorada com a possibilidade de perder um genro rico e influente como Leonardo que parecia incapaz de pensar em qualquer outra coisa.

Ergueu a mão.

— Claro que a culpa é sua! Só uma inútil como você conseguiria deixar o próprio marido com raiva! Se o Leonardo não quiser mais você, vai virar um trapo que ninguém quer!

Pá!

O tapa ecoou pela sala.

Mas a dor que Helena esperava não veio.

Ela ficou paralisada.

Um homem havia se colocado na sua frente.

Márcia e Bruno empalideceram na mesma hora, tão assustados que as pernas quase cederam.

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