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Capítulo 2

Author: Árvore Florida
— Otávio, venha rápido para debaixo do meu guarda-chuva, não se molhe.

Jessica ficou nas pontas dos pés para protegê-lo com o guarda-chuva, e Otávio o pegou imediatamente.

Aquele mesmo marido que antes demonstrava apenas desdém por mim, agora inclinava o guarda-chuva atenciosamente para Jessica, puxando-a para os seus braços, com medo de que ela tomasse sequer uma gota de chuva.

— E a minha irmã? Ela não voltou para casa, nem entrou em contato com você? — Perguntou Jessica de repente, enquanto ele sorria.

— Não se preocupe com ela. Hoje é o seu aniversário, não fique chateada por quem não vale a pena. — O sorriso de Otávio desapareceu instantaneamente, e ele respondeu com impaciência.

— Vamos, vou te levar para comer alguma coisa, assim compenso o meu erro de ter saído mais cedo.

Os dois caminharam lado a lado, parecendo mesmo um casal de recém-casados em perfeita sintonia.

Eu fiquei atrás deles, deixando as gotas de chuva atravessarem a minha alma, despedaçando o meu último fio de esperança.

"Otávio, se você acredita que fui eu quem causou a morte dos seus pais, então por que se casou comigo?"

"E por que, depois de casarmos, continuou me tratando tão mal e sempre preferiu favorecer a Jessica, partindo o meu coração tantas vezes?"

"Seria só porque Jessica tomou a iniciativa de se aproximar de você?"

Mas estava claro que ela só se aproximou para...

— Otávio, daqui a três dias uns amigos me convidaram para nadar na praia, você vai? — De repente, Jessica parou de andar, interrompendo os meus pensamentos, e virou o rosto para olhar para ele.

— Não vá! Por favor, não vá! Se você for, nunca mais vai voltar! — Ignorando a minha própria tristeza, avancei ansiosamente para o lado de Otávio.

Mas Otávio não podia me ouvir. Embora não soubesse nadar, ele hesitou por um instante antes de concordar.

— Tudo bem, vou resolver este caso o mais rápido possível e estarei lá daqui a três dias, sem falta.

Naquele dia, depois de acompanhar Jessica para comer e levá-la de volta para casa, ele retornou apressadamente ao laboratório para continuar a autópsia.

Desta vez, ele fez uma nova descoberta: havia a marca de uma tatuagem apagada no tornozelo do cadáver.

O meu coração disparou violentamente... Ele descobriria que era eu?

Aquela foi a tatuagem que fiz com o nome dele quando começamos a namorar. Ele também tatuou o meu nome no peito.

Mas depois, descobri que ele a tinha removido. Naquele dia, fiquei muito triste e, por puro orgulho ferido, também fui remover a minha.

Foi apenas naquele dia que percebi o quanto doía apagar uma tatuagem, e que exigia várias sessões. Por isso, deixei apenas uma marca leve.

Já Otávio apagou a dele completamente.

Pensando nisso, meus olhos se encheram de decepção, mas continuei fixando o meu olhar na expressão dele, esperando ansiosamente que ele descobrisse a verdade.

Mas, após observá-la por um momento, ele desviou o olhar e registrou com tranquilidade no documento:

[A tatuagem no tornozelo está desbotada, sendo impossível distinguir o desenho.]

Neste momento, já havia amanhecido. Quando Vitor entrou, viu exatamente essa cena. Ele encarou a tatuagem por um longo tempo e franziu o cenho de repente:

— Se não me engano, a sua esposa também não tem uma tatuagem exatamente aqui no tornozelo, quase do mesmo tamanho?

Os estagiários assentiram repetidamente em concordância.

— Que besteira é essa! Por acaso os seus professores só ensinaram vocês a fazer suposições infundadas? — Otávio franziu a testa.

Apesar de dizer isso, ele deu mais uma olhada na tatuagem, mas logo afastou aquele pensamento.

— Como poderia ter acontecido algo com ela... Além do mais, ela jamais teria coragem de apagar essa tatuagem. — Ele murmurou de cabeça baixa.

A sua expressão parecia um pouco complexa. Após um tempo em silêncio, ele pegou o celular e vi a ponta do seu dedo hesitar sobre o meu número de telefone.

Antes que pudesse discar, o aparelho tocou primeiro.

Os pais de Yolanda ligaram para ele.

— Otávio, volte rápido para casa! A Yolanda teve a coragem de envenenar o cachorrinho que a Jessica criava há três anos!

— Essa mulher enlouqueceu de vez?! Só porque eu pedi para ela ir a uma festa de aniversário, ela começa a matar animais! Fiquem tranquilos, eu garanto que desta vez não vou perdoá-la tão facilmente! — As pupilas de Otávio se contraíram abruptamente.

— Doutor Machado, não se exalte. A sua esposa não é esse tipo de pessoa. Dias atrás, eu a vi alimentando cães de rua, ela jamais faria uma coisa dessas! — Quando ele estava prestes a sair, Vitor o segurou ansiosamente.

Os outros também concordaram em coro, mas Otávio ficou ainda mais furioso, repreendendo-o em voz alta:

— Vitor, parece que você gosta bastante da Yolanda, não é? Então que tal se eu a desse para você como esposa? Você fica feliz e eu me livro desse peso!

Assim que ele terminou de falar, a porta bateu estrondosamente.

Fiquei parada no mesmo lugar, sentindo-me tão desamparada quanto aqueles estagiários.

Naquele momento, perdi completamente a vontade de segui-lo ou de me aproximar daquele homem outra vez.
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