FAZER LOGINHá pessoas que entram na nossa rotina sem pedir licença.
Primeiro, você percebe a presença delas. Depois, começa a reconhecer os passos. O jeito de segurar uma xícara. A maneira como olham. E, quando percebe, aquela pessoa já ocupa um espaço na sua cabeça que você não sabe explicar. O meu problema era que eu nem sabia o nome dele. E, mesmo assim, eu já estava começando a esperar que aparecesse. — Você está olhando para a porta há cinco minutos. A voz de Melissa me arrancou dos pensamentos. Desviei os olhos imediatamente. — Não estou. Ela soltou uma risada. — Está, sim. — Estou trabalhando. — Claro. Trabalhando e encarando a porta. Revirei os olhos e voltei a limpar a bancada. O Atelier estava mais movimentado naquela manhã. Funcionários entravam e saíam carregando pastas, celulares, reuniões atrasadas e expressões de quem já precisava de férias antes mesmo do almoço. Eu conhecia alguns rostos. Outros, apenas de vista. Mas conhecia um em particular bem demais. O homem do café preto. O homem arrogante. O homem do guarda-chuva. Ou, como eu havia decidido chamá-lo mentalmente: O homem sem nome. Ridículo. Eu sabia. Mas não tinha como chamá-lo de outra coisa. Naquela manhã, porém, ele não apareceu. E eu odiei perceber que isso me incomodou. --- O relógio passou das dez. Depois das onze. E nada. Eu deveria estar aliviada. Afinal, aquele homem tinha um talento irritante para me tirar do sério em menos de dois minutos. Mas, em vez disso, eu me peguei olhando para a porta novamente. Talvez ele estivesse ocupado. Talvez tivesse outra cafeteria. Talvez simplesmente tivesse encontrado alguém menos desagradável para preparar seu café. A última possibilidade me incomodou mais do que deveria. — Está esperando alguém? Levantei os olhos. Melissa estava sorrindo. — Não. — Tem certeza? — Absoluta. — Então por que continua olhando para a porta? — Porque posso. Ela riu. — Você é péssima mentindo. — E você é péssima cuidando da sua própria vida. — Verdade. Ela saiu antes que eu pudesse responder. Suspirei. Peguei um copo e comecei a preparar um pedido. Foi quando ouvi a voz atrás de mim. — Espero não estar interrompendo uma reunião importante. Meu corpo inteiro ficou imóvel. Não precisei olhar. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Baixa. Calma. Arrogante. Virei devagar. Ele estava ali. Camisa preta perfeitamente ajustada ao corpo, mangas dobradas até os antebraços, cabelos escuros ligeiramente bagunçados como se tivesse passado a mão por eles várias vezes. E aqueles olhos. Aqueles olhos que pareciam observar mais do que deveriam. — Você chegou atrasado — falei. Ele ergueu uma sobrancelha. — Atrasado? — Sim. — Para quê? Cruzei os braços. — Para o seu café. Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dele. — Então você percebeu minha ausência. Droga. — Eu percebi que a cafeteria estava mais silenciosa. — Isso significa que sentiu minha falta? — Significa que hoje eu tive cinco minutos a menos de irritação. Ele soltou uma risada baixa. — Interessante. — O quê? — Você sempre responde assim? — Só quando alguém merece. Ele se aproximou do balcão. — Café preto. Médio. Sem açúcar. Parei. — Eu sei. Ele me encarou por alguns segundos. — Você lembra. — É o meu trabalho lembrar. — Claro. Peguei o copo. — Mais alguma coisa? — Não. Preparei o café em silêncio. Mas senti os olhos dele sobre mim durante todo o processo. E isso começou a me incomodar. Ou talvez fosse exatamente o contrário. Oque está acontecendo comigo? Quando coloquei o copo sobre o balcão, ele não o pegou imediatamente. — Você ainda não sabe meu nome. Meu coração deu uma pequena batida diferente. — Não. — E não perguntou. — Você também nunca perguntou o meu. Ele ficou em silêncio. Por alguns segundos, nenhum de nós desviou o olhar. — Kiara. Meu corpo congelou. — Como você sabe meu nome? O sorriso desapareceu do rosto dele. — Você usa um crachá. Olhei para o meu peito. É claro. Meu nome estava ali. Kiara Voss. Senti-me idiota. — Certo. Ele pegou o café. — Agora você sabe o meu. Franzi a testa. — Eu sei? Ele se virou. E foi embora. Fiquei encarando suas costas enquanto ele atravessava o salão. — Ei! Ele parou. — Você não disse! Virou apenas o rosto na minha direção. — Eu sei. E continuou andando. Fiquei boquiaberta. — Idiota. --- Durante o resto do expediente, aquilo não saiu da minha cabeça. Ele sabia meu nome. Eu não sabia o dele. E aquilo parecia proposital. Como se estivesse brincando comigo. Como se soubesse exatamente o efeito que causava. No final da tarde, quando o movimento diminuiu, comecei a organizar as coisas para fechar. Foi então que encontrei algo sobre uma das mesas. Um cartão preto. Sem logotipo. Sem telefone. Apenas um nome escrito em letras discretas. Ian Lee. Fiquei olhando para aquilo. Ian. Então esse era o nome dele. Ou talvez fosse de outra pessoa? Peguei o cartão. Não sabia por que estava sorrindo. Talvez porque, depois de tantos dias, aquele homem finalmente tivesse deixado de ser apenas um rosto. Agora tinha um nome. Ou pelo menos esperava que fosse ele. Ian Lee. Repeti mentalmente. Ian Lee. O nome combinava com ele. Curto. Frio. Difícil de esquecer. Coloquei o cartão no bolso do avental. Não deveria ter feito aquilo. Eu sabia. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquele pequeno pedaço de papel ainda seria importante. --- Quando saí do Atelier, o céu estava escuro. As luzes da cidade refletiam nas janelas do VOSSEN, transformando o prédio em uma imensa parede de vidro. Parei por alguns segundos na calçada. A chuva da noite anterior havia deixado o asfalto molhado. Lembrei do guarda-chuva. Daquela mão estendida. Da pessoa que havia mandado entregá-lo. Naquele momento, eu tinha certeza de que não fazia ideia de quem era aquele homem. Agora eu sabia. Ian Lee. Olhei para cima. As janelas dos andares superiores estavam quase todas apagadas. Quase. Uma delas continuava acesa. Não sei por quê, mas fiquei olhando. Então uma silhueta apareceu atrás do vidro. Alta. Imóvel. Observando a cidade. Meu coração apertou quando reconheci o contorno. Ian. Ele estava ali. E, mesmo estando tão distante, tive a estranha sensação de que ele também havia me visto. Talvez fosse imaginação. Talvez não. A silhueta desapareceu. Baixei os olhos. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e comecei a caminhar. No bolso direito, meus dedos tocaram o cartão preto. Ian Lee. Eu deveria devolver aquilo amanhã. Era o correto. Mas, pela primeira vez desde que ele havia entrado na minha rotina, percebi uma coisa. Eu não queria que ele fosse embora. E isso era perigoso. Porque algumas pessoas chegam à nossa vida como uma tempestade. Sem aviso. Sem permissão. E, quando percebemos o estrago que fizeram... Já estamos no meio dela. --- Talvez eu estivesse exagerando. Era apenas um homem. Um homem que trabalhava no mesmo prédio que eu. Um homem que tomava café preto sem açúcar. Um homem arrogante, irritante e dono de uma habilidade impressionante de aparecer justamente quando eu começava a esquecê-lo. E, agora, eu sabia o nome dele. Ian Lee. Não deveria significar nada. Mas significava. Eu caminhava pelas ruas enquanto o vento frio passava pelo meu rosto, levando alguns fios do meu cabelo para trás. A cidade estava mais silenciosa naquela hora. As vitrines iluminadas refletiam no asfalto. Carros passavam ocasionalmente. Pessoas caminhavam apressadas, algumas sozinhas, outras acompanhadas. Eu gostava daquela parte da Tarde. Quando tudo parecia desacelerar. Quando ninguém parecia ter pressa para fingir que estava bem. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco. E encontrei o cartão novamente. Ian Lee. Passei o polegar sobre as letras. Por que eu ainda estava com aquilo? Eu deveria ter deixado no Atelier. Ou devolvido a ele. Ou, melhor ainda, jogado fora. Mas não fiz nenhuma das três coisas. Continuei carregando o cartão como se fosse algum tipo de segredo. Um segredo completamente idiota e pelo qual eu poderia ser demitida. Por que por mais que fosse "lixo" ainda é do Ateliê. Quando cheguei ao prédio onde morava, subi as escadas lentamente. Meu corpo estava cansado. Meus pés doíam. Minha cabeça parecia cheia demais. Tudo o que eu queria era tomar banho, vestir meu pijama e desaparecer dentro da cama. Assim que abri a porta do apartamento, ouvi um miado. — Oi, meu amor. Minha pequena gata apareceu correndo pelo corredor. Ela tinha apenas dois meses e já havia decidido que o apartamento inteiro pertencia a ela. Deixei a bolsa sobre o sofá e me abaixei. — Você sentiu minha falta? Outro miado. — Eu também senti. Peguei-a no colo. Ela imediatamente começou a ronronar. — Pelo menos alguém aqui gosta de mim. Ela levantou a cabeça e me encarou. — Não faz essa cara. Outro miado. — Eu sei que você está com fome. Levei-a até a cozinha e coloquei comida no potinho. Ela começou a comer como se estivesse há três dias sem ver comida. Fiquei observando. — Você não sabe como foi meu dia. Ela ignorou completamente. — Foi horrível. Nada. — Conheci o homem mais irritante do mundo. Ela continuou comendo. — O nome dele é Ian. A gatinha parou por um segundo. Olhou para mim. — Viu? Até você acha estranho. Ela voltou a comer. — Não gostei desse olhar. Peguei uma garrafa de água na geladeira. — Ele é arrogante. Bebi um gole. — Muito arrogante. Outro gole. — E convencido. Minha gata terminou de comer e veio até mim. Passei a mão sobre a cabeça dela. — Mas... Parei. Não queria dizer a próxima parte. — Ele é bonito. A gatinha piscou. — Não precisa me julgar. Ela começou a esfregar a cabeça na minha perna. — Obrigada. Fui para o quarto. Troquei de roupa. Prendi o cabelo de qualquer jeito e me joguei na cama. Por alguns minutos, fiquei olhando para o teto. Ian. O rosto dele apareceu na minha cabeça. A voz. O sorriso. O jeito como havia dito meu nome. Kiara. Fechei os olhos. — Para. Virei para o lado. Minha gatinha pulou na cama e caminhou até meu travesseiro. — Você também está pensando nele? Ela deitou ao meu lado. — Espero que não. Silêncio. Suspirei. — Estou com fome. Minha gata levantou a cabeça. — Não você. Ela miou. — Você acabou de comer. Levantei da cama. Abri a geladeira. Nada me agradou. Olhei para os armários. Nada. — Ótimo. Fechei uma porta. — Vou morrer de fome. A gatinha me observava da cama. — Não faça essa cara. Ela piscou. — Eu já volto. Peguei minha bolsa. — Vou comprar alguma coisa. Ela miou novamente. — Não posso te levar. Outro miado. — Porque você é pequena. Ela inclinou a cabeça. — E porque você provavelmente tentaria fugir. Mais um miado. — Tchau. Saí antes que pudesse mudar de ideia. --- A loja de conveniência ficava a algumas quadras do meu apartamento. Não era grande. Tinha aquelas luzes brancas demais, prateleiras apertadas e uma pequena área com mesas perto da janela. Era perfeita para uma compra rápida. Entrei. Peguei um macarrão instantâneo. Depois um pacote de biscoitos. Uma bebida. E, por algum motivo, também peguei um chocolate. Passei pelo caixa e escolhi uma mesa no canto. Abri a embalagem do macarrão e fiquei esperando a água quente. Estava cansada demais para pensar. Foi quando ouvi uma cadeira sendo puxada. Olhei para cima. E quase deixei o garfo cair. Ian. Meu coração fez algo completamente desnecessário dentro do peito. Ele não estava usando terno. Não havia camisa social. Nenhum relógio chamativo. Nenhuma aparência impecável de homem importante. Ele usava uma calça cargo preta. Uma regata bege que deixava os braços à mostra. E os cabelos estavam levemente bagunçados. Muito mais naturais. Muito mais perigosos. Ele parecia outra pessoa. Ou talvez aquela fosse a pessoa de verdade. Seus olhos encontraram os meus. Ele sorriu. — Você de novo. Olhei ao redor. — Você que sentou na minha mesa. Ele puxou a cadeira e se acomodou. — Então é sua? — Estava usando. — Agora estou usando também. — Você sempre faz isso? — Isso o quê? — Senta na mesa dos outros sem pedir. Ele apoiou os braços sobre a mesa. — Só quando encontro alguém interessante. Meu rosto esquentou. Ignorei. — Você está me seguindo? Ele riu. — Se eu estivesse, você saberia? — Espero que sim. — Então não. Fiquei em silêncio. Ele olhou para minha comida. — Jantar? — Sim. — Isso é jantar? Olhei para o macarrão instantâneo. — É o que eu tenho. — Triste. — Ninguém pediu sua opinião. — Você parece irritada. — Você parece convencido. — Eu sou. Soltei uma risada involuntária. Ele percebeu. E sorriu. — Finalmente. — Finalmente o quê? — Você riu. — Eu rio. — Não comigo. — Porque você não é engraçado. — Ainda. Ergui uma sobrancelha. — Ainda? Ele inclinou a cabeça. — Estou trabalhando nisso. Aquela resposta me pegou desprevenida. Peguei meu garfo. — Então você trabalha? Ele riu. — Às vezes. — Essa foi péssima. — Eu sei. Comi um pouco. Ele continuou me observando. — Você mora por aqui? — Talvez. — Resposta suspeita. — E você? — Também. — Isso não responde nada. — Então estamos quites. Revirei os olhos. — Você é sempre assim? — Assim como? — Misterioso. Ele ficou alguns segundos em silêncio. — Talvez eu só não goste de contar tudo sobre mim. A resposta mudou alguma coisa no ambiente. Pela primeira vez, não havia provocação. Apenas sinceridade. Olhei para ele. — Eu também não. — Eu sei. — Como sabe? Ele deu de ombros. — Você parece esconder bastante coisa. Meu sorriso desapareceu. — Você me observa demais. — Talvez. — Isso deveria me preocupar? Ele sustentou meu olhar. — Não. — Por quê? Um pequeno sorriso apareceu. — Porque, se eu quisesse que você se preocupasse, você já estaria preocupada. Fiquei alguns segundos sem responder. Ele desviou os olhos primeiro. Pegou o próprio celular sobre a mesa. — Você sempre vem aqui? — Às vezes. — Sozinha? — Geralmente. — Não é perigoso? — Você está preocupado comigo? Ele olhou novamente para mim. — Talvez. Meu coração acelerou. — Você nem me conhece. — Conheço o suficiente. — Não conhece. — Ainda. Aquela palavra novamente. Ainda. Como se ele tivesse certeza de que aquilo não terminaria naquela noite. Como se soubesse que haveria um depois. Terminei meu macarrão. Peguei o chocolate e abri. Ian olhou para a embalagem. — Chocolate depois do jantar? — Sim. — Você tem hábitos estranhos. — E você tem o hábito de se meter na vida dos outros. — Talvez seja por isso que nos damos bem. Parei de mastigar. Olhei para ele. — Nós não nos damos bem. Ele sorriu. — Ainda. Fechei os olhos por um instante. — Você gosta muito dessa palavra. — Gosto. — Por quê? Ele se inclinou um pouco sobre a mesa. — Porque algumas coisas levam tempo. Fiquei olhando para ele. Pela primeira vez, não encontrei uma resposta pronta. Então ele sorriu. E eu percebi que talvez o maior problema não fosse Ian Lee ter entrado na minha vida. Talvez o problema fosse eu estar começando a abrir espaço para ele ficar.O celular permaneceu na minha mão mesmo depois que a mensagem desapareceu.Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.O silêncio daquele porão parecia diferente agora.Antes, ele era apenas vazio.Agora parecia esconder olhos.Como se as paredes soubessem exatamente o que tínhamos acabado de descobrir.— Vamos embora — Ian disse.Olhei para ele.— Embora?— Por algumas horas.— Ian...— Kiara, você acabou de desmaiar.— Eu estou bem.— Você acabou de ter lembranças que nem sabia que existiam, descobriu que alguém apagou parte da nossa história e recebeu uma mensagem de uma pessoa que sabe exatamente o que estamos fazendo.Ele fez uma pausa.— Acho que merecemos algumas horas sem procurar respostas.Eu queria discordar.Queria dizer que não podíamos parar.Que cada minuto importava.Mas, pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, eu estava cansada.Não apenas fisicamente.Cansada de descobrir pedaços de uma vida que eu não lembrava de ter vivido.Cansada de olhar para fotogra
Na manhã seguinte, a mensagem continuava na tela do meu celular. A segunda está onde tudo começou. Eu havia dormido pouco. Na verdade, quase não dormi. Passei horas olhando para o teto, tentando decidir o que aquela frase significava. O hospital Lee? A clínica? A casa do meu pai? Ou talvez algo ainda mais antigo. Ian apareceu na minha frente pouco depois das oito da manhã. — Você descobriu alguma coisa? Balancei a cabeça. — Nada. Ele olhou para o celular. — Então vamos descobrir juntos. A palavra ficou na minha cabeça. Juntos. Talvez porque, desde que tudo aquilo começou, essa fosse a primeira vez que eu não sentia que estava carregando o passado sozinha. --- O hospital Lee parecia ainda mais vazio durante o dia. A parte abandonada continuava isolada, coberta por poeira e pelo silêncio de um lugar que havia sido esquecido. Descemos até o porão. Ian carregava uma lanterna. Eu segurava a pasta com os documentos que havíamos encontrado. — A entrada subterrânea dev
Kiara A casa de Ian parecia diferente naquela noite. Talvez porque, pela primeira vez, eu não estivesse ali apenas como alguém tentando descobrir respostas. Eu estava entrando no lugar onde ele guardava as próprias perguntas. Assim que fechamos a porta, ele colocou a caixa de documentos sobre a mesa. — Trouxemos tudo? Olhei para a caixa. — Tudo. Ian respirou fundo. — Então vamos começar. — Agora? — Se deixarmos para amanhã, provavelmente nenhum de nós vai dormir. Soltei uma risada curta. — Você tem razão. Sentamo-nos à mesa. A primeira coisa que fizemos foi organizar os documentos. Relatórios médicos. Registros de entrada. Anotações. Fotografias. Páginas incompletas. Tudo parecia fazer parte de uma história maior, mas as peças não se encaixavam. Ian abriu um dos documentos. — Olha isso. Aproximei-me. Era o registro de Killian Voss. Meu pai. Ainda era estranho ver aquele nome escrito em documentos oficiais. — Ele esteve na clínica várias vezes. — Quantas?
Saímos da sala dos arquivos. Eu ainda segurava a fotografia de Killian contra o peito. Não conseguia parar de olhar para aquele rosto. Meu pai. O homem que eu não lembrava. O homem que, aparentemente, havia tentado me encontrar. Caminhamos pelo corredor em silêncio. Então ouvi um som. Toc. Parei. Ian também. — Você ouviu? Ele levantou o celular, iluminando o corredor. — Ouvi. Ficamos imóveis. Nada. Apenas o silêncio do prédio abandonado. Então veio novamente. Toc. Dessa vez, mais forte. O som vinha do final do corredor. Olhei naquela direção. Havia uma porta que não tínhamos visto antes. Uma porta de metal. Escura. Sem maçaneta aparente. Acima dela, uma pequena placa enferrujada. SUBSOLO — ACESSO RESTRITO. Meu coração acelerou. — Essa porta não estava na planta. Ian se aproximou. — Não. Ele iluminou a parede ao redor. Havia marcas antigas. Como se alguma coisa tivesse sido arrastada várias vezes pelo chão. — Tem alguém aqui? — perguntei. Minha própr
Kiara voss Acho que acabamos de descobrir quem eu sou. A voz de Ian ainda ecoava na minha cabeça. Ele permanecia diante daquele quadro. Dr. Daniel Lee — Diretor Clínico. Seu pai. Não o meu. Por algum motivo, eu sentia que precisava deixar isso claro até para mim mesma. Daniel Lee pertencia à história de Ian. Eu ainda precisava descobrir quem pertencia à minha. Olhei novamente para as fotografias penduradas na parede. Médicos. Funcionários. Pessoas que haviam trabalhado naquela clínica anos atrás. Meu olhar passou por cada rosto até parar novamente em Daniel. Ian continuava imóvel. — Você está bem? — perguntei. Ele demorou a responder. — Não sei. Aproximei-me. — Você nunca tinha visto essa foto? — Não. Ele passou os dedos pela moldura, sem tocá-la de verdade. — Eu sabia o nome do meu pai. Sabia que ele era médico. Mas nunca imaginei que ele tivesse sido diretor daqui. — Talvez seja por isso que suas memórias começaram a voltar. Ian me olhou. — Talvez. Ficamos
Kiara Naquela noite, eu não consegui dormir. Não depois de descobrir que Ian também tinha perdido parte da própria memória. Não depois de descobrir que nossos pais estavam envolvidos. E muito menos depois de ver aquele pingente. Eu ainda conseguia sentir o metal frio entre meus dedos. Aquela pequena peça parecia insignificante. Mas minha memória dizia o contrário. Ela tinha pertencido à nossa história. E eu precisava saber qual. Às sete da manhã, Ian apareceu no Atelier. Eu ainda estava organizando algumas caixas quando ele entrou. Não disse bom-dia. Não sorriu. Apenas colocou uma pasta sobre o balcão. — Precisamos ir. Olhei para a pasta. — Para onde? Ele me encarou. — Lee Medical Center. Meu coração acelerou. — Hoje? — Agora. Olhei para o relógio. — Você descobriu alguma coisa? — Descobri onde ficavam os arquivos antigos. Meu corpo ficou tenso. — Como? — Um dos funcionários antigos da VOSSEN ainda trabalha para minha família. Conversei com ele ontem. — E?







