LOGINCapítulo 2 Semanas antes
Arthur Blackburn
Esmaguei o mapa sobre a mesa de carvalho com um soco pesado de pura frustração. Meu lobo Trevor arranhava minha mente, rosnando avisos sombrios que apertavam meu peito dolorido. O ar do escritório parecia denso demais, sufocando meus pulmões com um pressentimento terrível.
Tyron tinha saído no meio da madrugada sombria, ignorando todas as minhas ordens de alfa. Ele foi encontrar a mulher que dizia amar cegamente, desafiando o perigo das alcateias inimigas. Meu irmão caçula sempre foi movido pela paixão inconsequente e pelo calor do momento, além de confiar muito nas pessoas.
Encontrei apenas um bilhete amassado sobre a cama perfeitamente arrumada no quarto vazio dele. A caligrafia apressada dizia que ele voltaria antes do sol nascer no horizonte. Mas a madrugada já avançava e o vínculo de sangue que compartilhamos vibrava em um desespero sombrio.
A chuva começou a açoitar as janelas de vidro grosso do meu grande escritório. O som da água batendo na pedra ecoava o tumulto brutal que destruía minha paz interna. Eu sabia que as florestas vizinhas estavam repletas de mercenários gananciosos e desonestos.
Não consegui mais suportar a agonia da espera inútil trancado dentro das quatro paredes frias do meu lar.
Arranquei a camisa do corpo, sentindo os ossos estalarem enquanto a transformação tomava conta violentamente de mim. Trevor assumiu o controle, explodindo em uma enorme fera de pelagem negra brilhante.
Saltei pela janela aberta, aterrissando pesadamente na lama fofa do pátio principal da nossa fortaleza.
A chuva fria encharcava meus pelos, lavando qualquer traço de hesitação da minha mente selvagem. Eu precisava encontrar o garoto antes que a imprudência dele cobrasse um preço.
Corri pela floresta densa, farejando o ar úmido em busca do cheiro familiar de Tyron. A água apagava os rastros mais sutis, tornando minha caçada angustiante e quase impossível agora.
O cheiro de terra molhada mascarava a trilha que ele havia deixado para trás.
Forcei meus sentidos ao limite absoluto, ignorando os galhos que rasgavam minha pele floresta a dentro. A aflição crescia a cada quilômetro avançado em direção às fronteiras perigosas das terras vizinhas.
Meu irmão não tinha noção da maldade que habitava o coração daquelas pessoas, ele era bondoso demais.
O silêncio pesado da noite na Alcateia Garra de Pedra foi quebrado subitamente por terror. Um uivo longo e carregado de pura agonia rasgou o véu da madrugada chuvosa. O som congelou meu sangue nas veias, paralisando minhas patas no chão enlameado.
A dor bateu no meu peito como uma marreta de aço forjado no fogo alto.
Senti o elo fraterno se esticar e se romper brutalmente dentro da minha própria alma. Um vazio indescritível sugou todo o oxigênio dos meus pulmões em um segundo eterno.
Eu caí de joelhos na lama fria, uivando para o céu escuro em desespero puro. A morte havia levado a única pessoa que eu realmente amava neste mundo apodrecido. O menino que eu criei como um filho estava morto em algum lugar sujo.
Levantei com os olhos queimando em um vermelho vivo de pura fúria e destruição iminente. O cheiro de sangue fresco e ferro oxidado atingiu meu focinho com força e nojo. Corri na direção do odor nauseante, quebrando árvores jovens no meu caminho cego.
Cheguei a uma clareira enlameada perto da antiga fronteira que dividia as terras entre minha alcatéia e duas grandes alcateias vizinhas.
O corpo do meu irmão jazia no meio de uma poça do próprio sangue vermelho. A chuva lavava seu rosto pálido, apagando o sorriso que ele sempre costumava exibir.
Retornei à forma humana, ignorando a nudez e o frio cortante que açoitava meu corpo. Me joguei no chão ao lado dele, puxando seu corpo sem vida para os meus braços. Abracei Tyron com força, sentindo o calor abandonar sua pele gelada para sempre, os desgraçados tinham arrancado o coração dele.
O choro preso na minha garganta explodiu em um grito bestial de dor e perda. A dor de perder meu irmão era um abismo infinito que ameaçava engolir minha sanidade. Prometi protegê-lo de tudo, mas falhei miseravelmente em mantê-lo a salvo dos inimigos.
Analisei as feridas profundas no pescoço e no peito largo do meu amado irmão caçula.
Ele foi emboscado por vários lobos ferozes, atacado pelas costas sem chance de defesa alguma. Foi um massacre covarde orquestrado por alguém que sabia exatamente onde encontrá-lo desprotegido.
Notei um pedaço de papel amassado preso dentro do bolso interno da jaqueta de couro que ele usava.
Puxei o papel sujo de sangue com as mãos trêmulas pela raiva que me consumia. Era o bilhete que a maldita mulher havia mandado para atraí-lo até a morte.
A tinta estava borrada pela chuva, mas ainda era possível ler o convite fatal escrito. Me encontre na fronteira de sempre, meu amor, dizia a caligrafia delicada e venenosa dela.
O ódio borbulhou nas minhas veias como ácido derretendo minhas últimas barreiras de controle.
Virei o papel rasgado e encontrei a prova definitiva da traição suja e extremamente covarde. O símbolo de cera derretida no canto do bilhete não deixava nenhuma dúvida do crime. Era o brasão oficial da família principal que governava as miseráveis Terras Altas.
Aquela maldita havia arquitetado o assassinato do meu sangue por moedas sujas. A culpa me corroía por não ter impedido esse romance secreto antes que fosse tarde. Eu devia ter matado aquela mulher no instante em que soube do envolvimento deles.
Levantei o corpo do meu irmão com cuidado, o colocando sobre os meus ombros largos.
O peso da morte dele era como chumbo afundando minha alma em um oceano de trevas. Comecei a caminhada lenta e dolorosa de volta para os portões da nossa casa.
Cada passo na lama afundava mais o prego do remorso dentro do meu coração despedaçado. Trevor chorava no fundo da minha mente, lamentando a perda do seu jovem irmão de alma.
Nós estávamos completamente quebrados, mas a fúria nos manteria de pé e vivos.
Prometi sobre o sangue derramado do meu irmão que faria os responsáveis implorarem pela morte. A mulher das Terras Altas conheceria a fúria implacável do Alfa da Garra de Pedra. Eu destruiria tudo o que eles amavam antes de arrancar seus corações do peito.
O céu chorava comigo enquanto eu atravessava os limites seguros do meu próprio e vasto território. Os guardas vieram correndo, os rostos pálidos refletindo o horror da cena que viam. O silêncio sepulcral tomou conta da alcateia inteira diante da nossa tragédia tão brutal.
Entreguei o corpo para o curandeiro, sentindo meus braços ficarem vazios e incrivelmente gelados, eu sabia que não havia nada a ser feito, mas ainda assim ordenei que ele tentasse, mas é claro que foi em vão.
A dor da perda se cristalizava em uma pedra de gelo puro dentro do estômago. Eu não descansaria até ver a cabeça do responsável rolar aos meus próprios pés.
Me tranquei no escritório, novamente encarando o brasão de cera manchado de sangue sobre a mesa. Eu precisava de um plano perfeito para destruir aquela família falida sem levantar suspeitas, a vingança precisava ser lenta, dolorosa e calculada em cada um dos seus detalhes.
Meus informantes confirmaram minhas suspeitas durante uma manhã fria alguns dias após a morte dele. A filha do Alfa Gileon havia recebido um pagamento suspeito logo após o assassinato cruel. Ela vendeu o amor do meu irmão por algumas moedas de ouro sem valor.
Uma mulher orquestrou a queda do meu sangue, manipulando os sentimentos de um menino bom. Eu vou fazê-la pagar com a própria alma, trancada na minha fortaleza como um animal, lamentando cada dia que ela viver, e o problema é que nossa vida é muito, muito longa.
A justiça da nossa matilha exige dor em dobro para quem derrama nosso sangue.
Olhei pela janela, observando o túmulo recente que foi cavado no pátio dos nossos amados ancestrais. A chuva continuava caindo, mas não era suficiente para lavar o ódio do meu ser. A guerra silenciosa contra as Terras Altas tinha acabado de começar de forma letal, eles não sabiam onde tinham se metido.
Capítulo 11 O que ficou na pele Annelise LightmoonA porta dos aposentos dele se fechou atrás de mim com um som seco demais.Eu não corri. Forcei cada passo a ser medido, controlado, exatamente como tinha aprendido a fazer quando ainda era obrigada a atravessar os corredores das Terras Altas com as costas queimando de chicotadas. Os guardas no corredor baixaram o olhar quando passei. Nenhum deles falou. A vigilância já tinha sido dobrada, como ele ordenou. Eu sentia o peso daqueles olhares na minha nuca até a curva do corredor.Só então minhas pernas fraquejaram.Apoiei a mão na parede de pedra fria e fechei os olhos por um segundo. O corpo inteiro ainda tremia. Não de medo. De outra coisa. Uma coisa quente e vergonhosa que latejava entre as minhas pernas e fazia Meire andar em círculos dentro do peito com uma urgência quase dolorosa.O toque dele ainda estava na minha cintura.Eu ainda sentia a marca invisível dos dedos fortes segurando a carne, puxando meu corpo para trás até minh
Capítulo 10 – O cheiro que ficou em mimArthur BlackburnA porta se fechou atrás dela com um baque seco demais.Eu fiquei parado no meio do quarto, a respiração ainda pesada, o corpo ainda tenso, o cheiro dela impregnado em tudo como uma mancha que eu não conseguia limpar. Rosas brancas. Suor. Desejo contido. E por baixo de tudo, aquele maldito reconhecimento que fazia Trevor andar em círculos dentro do meu peito.Eu passei as duas mãos pelo cabelo, puxando os fios com força até doer. Não ajudou.A imagem dela de joelhos no chão ainda estava queimada atrás dos meus olhos. O jeito como o vestido escuro grudava nas coxas. O tremor que passou pelo corpo dela quando eu a puxei para cima. O momento exato em que o cheiro mudou, ficando mais doce, mais aberto, mais traidor. Tinha sentido o laço puxar com uma violência que quase me fez morder ali mesmo.Eu soltei um palavrão baixo e caminhei até a lareira.O fogo ainda queimava, mas não esquentava o suficiente. Eu apoiei as duas mãos na pedra
Capítulo 9 – O peso do olharArthur Blackburn Eu deveria ter continuado andando.Em vez disso, fiquei parado no alto da escadaria de pedra, os braços cruzados, observando a mulher que agora carregava meu nome sujar as mãos com fuligem e água suja. Ela esfregava os caldeirões com a mesma disciplina fria de quem já tinha nascido ajoelhada. Sem reclamar. Sem levantar a voz. Sem me dar o prazer de vê-la quebrar.Trevor não gostava daquilo.O lobo se mexia inquieto cada vez que o cheiro dela, rosas brancas agora misturado com cinzas e suor subia até mim. Eu forcei o animal para baixo com mais força do que o necessário. Não importava o que o instinto gritasse. Aquela mulher ainda carregava o sangue do meu irmão nas mãos, mesmo que eu ainda não tivesse provas concretas o suficiente para arrancar a verdade dela na frente de toda a alcateia.Quando o balde caiu e ela foi ao chão, algo dentro do meu peito puxou com violência.Eu desci os degraus antes de conseguir me impedir.Ela estava de
Capítulo 8 – Cinzas e orgulho Anelise LightmoonEu estava encolhida na cama estreita, coberta com o lençol, usando apenas peça intimas, o vestido branco amassado no canto escuro do quarto. O corpo inteiro doía. Não era só o cansaço da viagem nem as feridas antigas. Era o peso de tudo que tinha acontecido nas últimas horas. O casamento. O laço latejando. A forma como Arthur tinha me olhado antes de sair.Meire permanecia quieta, mas atenta. Como se estivesse esperando.A chave girou do lado de fora. A porta se abriu sem batida. Uma mulher de meia-idade entrou carregando uma bacia de água fria e um vestido simples de tecido grosso e escuro. Ela não me cumprimentou. Apenas deixou as coisas sobre a única cadeira do aposento e falou com a voz sem emoção.— O Alfa mandou você se vestir e descer para a cozinha. Agora.Eu me levantei sem responder. A água gelada cortou a pele quando lavei o rosto. O vestido novo era largo demais nos ombros e curto demais nos braços, feito para alguém que
Capítulo 7 – Maldito LaçoArthur BlackburnNa manhã seguinte, Trevor estava inquieto demais. O lobo não parava de farejar o ar, buscando o rastro doce e teimoso daquela que agora pertencia oficialmente a mim. Abri a porta e entrei no quarto dela.Ela estava no centro do aposento.De costas para mim. O vestido branco ainda estava colado ao corpo como uma ofensa. Os cabelos loiros presos de forma simples, alguns fios soltos na nuca. Eu sentia o cheiro dela mesmo dali. Rosas brancas e algo mais quente por baixo, junto com o cheiro fraco de jasmim. Algo que fazia Trevor arranhar as paredes da minha mente com uma urgência que eu odiava.— Vire-se.A ordem saiu mais baixa do que eu pretendia.Ela obedeceu devagar. Quando os olhos cor de mel encontraram os meus, eu senti o impacto no peito como um soco. Não havia medo puro naquele olhar. Havia contenção. Havia uma armadura antiga demais para alguém tão jovem. E havia o laço. Maldito laço que latejava entre nós como se não se importasse com
Capítulo 6 – As regras do inferno Anelise LightmoonA fita de couro escuro permaneceu amarrada ao redor dos nossos pulsos por mais alguns segundos, o nó apertado demais, a pele sob ela latejando com o calor do contato. Depois ele puxou o próprio lado com um movimento seco. O tecido escorregou do meu pulso e caiu no chão de pedra entre nós.Ninguém no salão se moveu.Arthur virou o rosto apenas o suficiente para que a ordem saísse clara e sem espaço para discussão.— A cerimônia terminou. Todos podem se retirar.O silêncio se quebrou em murmúrios baixos e passos pesados. Guerreiros e mulheres da alcateia começaram a se dispersar com a disciplina de quem sabia que desobedecer não era opção. Eu permaneci parada sob o arco de pedra, o coração batendo tão forte que doía.Gileon tentou se aproximar uma última vez. O sorriso falso já havia desaparecido. Agora havia apenas a expressão de um homem que percebeu, tarde demais, que acabou de perder qualquer poder de barganha.Arthur nem o olhou.







