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MEU PADRASTO OBSESSIVO
MEU PADRASTO OBSESSIVO
Author: Ara Pereira

CAPÍTULO 1

Author: Ara Pereira
last update publish date: 2026-09-09 07:56:05

ZIAN

*

Meu nome é Zian Montclair, tenho trinta anos e sou professor universitário na área de Arquitetura Paisagística da Universidade da Califórnia, ou, pelo menos, é assim que gosto de me apresentar quando alguém pergunta quem sou, porque a verdade é que, dependendo de quem está fazendo a pergunta, meu nome costuma vir acompanhado de uma segunda informação que parece despertar muito mais interesse do que deveria...sou o professor mais jovem da universidade.

Eu não sei exatamente quando as pessoas começaram a transformar a minha idade em uma espécie de atração à parte, mas aprendi cedo que ser jovem demais em um ambiente onde a experiência costuma ser medida pelos fios brancos e pelos anos acumulados pode ser tão inconveniente quanto vantajoso, principalmente quando você está diante de uma sala cheia de universitários e percebe que alguns deles ainda estão tentando decidir se devem me chamar de professor ou simplesmente descobrir quantos anos eu tenho antes de decidir como me tratar.

Comecei minha formação muito cedo e nunca tive muita paciência para desperdiçar tempo, então enquanto algumas pessoas ainda estavam tentando descobrir o que queriam fazer da própria vida, eu já estava mergulhado em livros, projetos, pesquisas e tudo aquilo que pudesse me levar para onde eu queria chegar, seguindo rapidamente da graduação para as especializações e, depois, para a vida acadêmica, até conseguir ocupar uma posição que, para alguém com trinta anos, ainda parecia improvável demais aos olhos de muita gente.

Eu sabia disso, assim como sabia que eu era muito cobiçado também.

Não era exatamente necessário possuir uma capacidade extraordinária de observação para perceber o interesse das alunas, embora eu fosse muito bom em observar pessoas, e talvez fosse justamente por isso que conseguia identificar cada olhar prolongado, cada sorriso que demorava um pouco mais do que deveria, cada comentário com uma segunda intenção escondida e até aquelas pequenas tentativas de chamar minha atenção durante as aulas, algumas discretas, outras tão óbvias que chegavam a ser engraçadas.

Eu sempre levei meu trabalho muito a sério, talvez até mais do que deveria, e durante muito tempo essa foi a maneira mais fácil que encontrei de manter tudo no devido lugar, porque quando eu entrava naquela universidade, eu não era Zian Montclair, o homem que despertava curiosidade por ser jovem, bonito ou qualquer outra coisa que as pessoas decidissem enxergar em mim, eu era simplesmente o professor responsável por ensinar.

Era assim que eu gostava.

Ou pelo menos era assim que eu tentava fazer parecer.

Eu aprendi a relevar as indiretas, os sorrisos demorados e até algumas aproximações que ultrapassavam um pouco os limites do bom senso, porque fingir que não percebia era, muitas vezes, muito mais fácil do que precisar lidar com as consequências de admitir que tinha percebido.

Algumas vezes, uma mão acabava pousando sobre meu braço durante uma conversa que não precisava de contato algum, um comentário aparentemente inocente vinha acompanhado de um olhar que dizia exatamente o contrário, ou alguma aluna encontrava uma desculpa particularmente criativa para permanecer na sala depois que todos os outros já haviam saído, e eu simplesmente respirava fundo, mantinha a expressão indiferente e seguia com aquilo que estava fazendo.

Eu não era de ferro, nunca fui. Mas sempre soube separar as coisas.

Durante o dia, eu era professor, e quando as portas da universidade se fechavam, eu podia ser qualquer outra coisa.

Talvez esse tenha sido justamente o motivo pelo qual ninguém jamais descobriu um dos meus maiores segredos.

Todos os anos, quando os alunos estavam próximos da formatura, surgia uma tradição que oficialmente não existia, pelo menos não aos olhos do reitor, dos professores ou de qualquer pessoa que tivesse autoridade suficiente para acabar com ela.

Uma festa.

Uma festa secreta, organizada pelos próprios universitários, escondida da administração e cuidadosamente mantida longe dos olhos daqueles que poderiam transformar uma noite de diversão em uma sequência de advertências, suspensões e sermões sobre responsabilidade.

E havia uma regra que tornava tudo ainda mais interessante. Era uma festa de máscaras.

Ninguém deveria saber quem era quem, e era justamente isso que tornava aquela festa tão tentadora para mim.

Eu nunca contei a ninguém que eu participava, não havia um colega que soubesse, nenhum funcionário, nenhum aluno e, principalmente, nenhuma pessoa que pudesse olhar para mim durante o expediente e imaginar que, algumas horas antes, eu poderia estar do outro lado de uma máscara, misturado entre aqueles mesmos universitários que me chamavam de professor durante o dia.

Era quase irônico.

Eu podia atravessar um corredor e receber um bom-dia respeitoso de alguém que, na noite anterior, talvez tivesse dançado ao meu lado sem sequer imaginar quem eu era.

E isso me divertia mais do que deveria, mas eu tinha consciência que se eu fosse descoberto, eu poderia ser demitido.

A máscara fazia com que todos se tornassem desconhecidos, e eu gostava daquela sensação de anonimato, porque pela primeira vez ninguém me olhava sabendo quem eu era, qual era a minha profissão ou qual posição eu ocupava dentro daquela universidade.

Ali, eu era apenas um homem usando uma máscara.

E foi assim que, algumas vezes, acabei me envolvendo com algumas das alunas.

Nunca souberam quem eu era.

Eu sabia com quem havia me envolvido, reconhecia algumas delas no dia seguinte pelos cabelos, pela voz ou simplesmente por detalhes que ficavam registrados na minha memória, mas elas nunca tiveram a menor ideia de que o homem com quem haviam dividido aquelas noites era justamente o professor que encontravam dentro da universidade.

Eu sabia que havia algo de absurdo naquela situação, mas talvez fosse justamente o absurdo que tornasse tudo tão interessante.

Durante o dia, eu precisava ser impecável, à noite, atrás daquela máscara, eu podia deixar de ser o professor mais jovem da universidade por algumas horas.

E ninguém jamais saberia, até aquele ano.

Naquela noite, eu me preparei como havia feito outras vezes, sem imaginar que havia alguma diferença entre aquela festa e todas as anteriores, sem suspeitar que eu estava prestes a entrar em uma situação da qual não sairia carregando apenas mais uma lembrança escondida.

Eu coloquei a máscara e deixei para trás o homem que todos conheciam.

Não sabia quem encontraria, não sabia o que aconteceria, e muito menos sabia que, entre todas aquelas pessoas escondidas atrás de máscaras, existia alguém que faria tudo aquilo que eu acreditava controlar cuidadosamente sair completamente do meu alcance.

Até aquele momento, eu acreditava que sabia exatamente onde terminavam os meus limites.

Eu estava prestes a descobrir que algumas coisas simplesmente não avisam quando chegam para me destruir ou me enlouquecer.

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