LOGINHoras mais tarde, a mesa do salão principal estava posta para o jantar. Magda acomodou-se ao lado de Ulisses, ficando de frente para Rodolfo e Astolfo. Logo percebeu que os irmãos não haviam poupado esforços: o banquete era farto, repleto de iguarias e aperitivos cuidadosamente dispostos.
— E então, Magda? O que achou? Gostou? — indagou Rodolfo, observando-a. — Sim, é um verdadeiro banquete. Tudo está deliciosamente saboroso. — Que bom que agrada seu paladar. Mandei preparar exclusivamente para você. — Obrigada, Rodolfo — respondeu a jovem, presenteando-o com um sorriso discreto. Astolfo, apoiando os cotovelos sobre a mesa, tomou a palavra: — Conte-nos, Magda... o que pretende fazer daqui em diante? — Rodolfo sugeriu que eu permaneça no castelo até decidir para onde ir. — Perfeito! Será um prazer imenso tê-la como nossa hóspede. Por mim, pode ficar pelo tempo que desejar. Não é mesmo, Astolfo? — interveio Ulisses, encarando o irmão. — Concordo plenamente — sorriu Astolfo, fixando os olhos na jovem. — Seria um privilégio admirar sua beleza e encanto por mais tempo. Magda sentiu as bochechas queimarem. O interesse de Astolfo era evidente, mas ela desconfiava que fosse puramente carnal. Afinal, um homem libertino como ele dificilmente estaria em busca de um romance genuíno. — Agradeço o elogio, Astolfo. — Está deixando nossa convidada constrangida — advertiu Rodolfo, com tom firme. — Não é minha intenção — rebateu Astolfo, sem desfazer o sorriso provocante. — Apenas gosto de exaltar o quanto a acho atraente. Ulisses mexeu-se na cadeira, visivelmente incomodado. Lançou um olhar gélido ao irmão do meio e declarou: — Acredito que ela não precise de comentários tão diretos para saber o valor de sua beleza . — Realmente, irmão — provocou Astolfo. — Mas faço questão de que ela saiba o que penso. Ela não lhe pertence, então me diga: por que tanto incômodo? Perdendo a paciência, Ulisses levantou-se abruptamente e apontou o dedo para o rosto de Astolfo. Magda encolheu-se, assustada com a tensão súbita, mas, no fundo, sentiu o peito arder. Ver dois semideuses duelando em palavras por sua causa provocava-lhe uma sensação avassaladora e inusitada. — Ela ainda não é nada minha, mas você está sendo extremamente inconveniente! — esbravejou Ulisses. — Guarde seus elogios vulgares para as mulheres que o acompanham todas as noites! — Você deveria seguir meu exemplo — debochou Astolfo, reclinando-se na cadeira. — Anda estressado demais. Arrumar uma mulher faria de você um homem de verdade. — Chega! — vociferou Rodolfo. O irmão mais velho golpeou a mesa com a palma da mão, fazendo os cálices de prata tilintarem. O silêncio caiu como uma lâmina sobre o salão. Magda permaneceu imóvel, sem fôlego. A disputa entre os três irmãos gerava um calor incandescente que lhe subia pelas pernas. Uma onda de desejo reprimido a atingiu: pela primeira vez, sentiu que precisava da presença e do toque daqueles três homens. — Fora daqui! Os dois! — ordenou Rodolfo, irrestritamente. Sem contestar a autoridade do mais velho, Astolfo e Ulisses retiraram-se do salão. Ficou claro para Magda que Rodolfo era quem detinha o controle. O cheiro marcante e masculino do semideus exalava pelo ar, fazendo o coração da jovem disparar. Uma vontade repentina de entregar-se a ele ali mesmo a dominou por alguns segundos. — Peço desculpas por meus irmãos — disse Rodolfo, suavizando o tom. — Acho que nunca estiveram diante de uma mulher tão fascinante. — Está tudo bem... Eles não me incomodam. — Acredito que você mexeu com o coração deles. — Mas eu não fiz nada para isso — murmurou ela, baixando o olhar. — Mexeu comigo também — confessou ele, fitando-a profundamente. — Mas ainda é cedo para tratar disso. — É melhor que eu volte para o meu quarto — disse Magda, levantando-se apressadamente. — Como desejar. Tenha uma boa noite. Magda caminhou pelos corredores em direção ao seu aposento, tentando acalmar a respiração. A atração que sentia pelos três crescia a cada instante, embora soubesse que, no fim, precisaria tomar uma decisão. Ao abrir a porta, encontrou sua dama de companhia. — Amélia! — Alteza! O jantar já terminou? Tão cedo? — Os rapazes se desentenderam e preferi me retirar. — O que aconteceu, se me permite a curiosidade? — Você é a única que permaneceu ao meu lado desde que fui banida, Amélia. Pode me perguntar o que quiser, nunca terei segredos com você. — Agradeço a confiança. Mas diga-me, o que houve? — Acho que todos os irmãos estão interessados em mim — confessou Magda, sentando-se na penteadeira. — Mas isso é excelente! — exclamou a serva. — Já imaginou se a senhorita se casar com um semideus? Mostrará a todos do reino que, apesar de tudo, tornou-se esposa de um ser poderoso! — Não sei... De todos, creio que apenas Ulisses pense em casamento, mas ele é o mais jovem. Rodolfo é o mais forte e ponderado, o verdadeiro líder aqui. Já Astolfo... é ousado demais. Se me casasse com ele, teria que dividi-lo com outras mulheres. — Muito bem observado. — Seja como for, terei tempo para pensar. O simples fato de me quererem aqui já é uma garantia. — Ao menos não estamos expostas aos perigos da floresta. — É verdade. Os irmãos surgiram no momento certo... Talvez seja o destino — suspirou Magda. — Ajude-me a tirar o vestido, por favor. Preciso de um banho e de descanso. Amélia retirou a peça elegante e preparou a banheira com água morna. — Pode ir, Amélia. Quero ficar a sós por alguns instantes. — Certo. Bom descanso, Magda. Imersa na água, a jovem repassava os acontecimentos da noite. Sentia-se confusa com os próprios impulsos. Nunca antes alimentara pensamentos tão audaciosos sobre desejo e sedução. Ao sair da banheira, enrolou-se na toalha e caminhou até a cama para se enxugar. Repentinamente, a porta do quarto abriu-se sem aviso. Magda virou-se sobressaltada, tentando cobrir-se como podia ao dar de cara com Astolfo. — O que faz aqui?! — exclamou ela, assustada. — Não sabe bater? — Perdoe-me! Não sabia que estava sem roupas — respondeu ele, embora não fizesse menção de sair, mantendo o olhar fixo nela. — Vire de costas, preciso me vestir! — Já vi muitas mulheres nuas, mas deixe-me olhá-la... Por favor, solte essa toalha. — Não! Nunca expus meu corpo a ninguém dessa forma — rebateu ela, dando um passo para trás. Sem pedir licença, Astolfo aproximou-se com rapidez e puxou o tecido de suas mãos. Maravilhado com o que via, encarou a silhueta da jovem. Magda tentou cobrir os seios fartos com as mãos pequenas, mas a cintura fina e as coxas delineadas ficavam totalmente expostas. — Você é a mulher mais linda que já contemplei — sussurrou o semideus, aproximando-se mais. — Deixe-me beijá-la... — Se afaste! Eu sei bem o que você quer. Só pretende me usar! — Entregue-se a mim, Magda... — Não posso! Eu busco um casamento. Se me entregar a você, serei apenas mais uma em sua lista! Astolfo ignorou o protesto e a prensou suavemente contra a parede. Com um gesto ágil, removeu o grampo que prendia os cabelos da jovem. Ao sentir o corpo quente e forte dele pressionando o seu, Magda estremeceu. O semideus recuou um passo para admirá-la. — Agora sim... está perfeita. Seus cabelos loiros ficam muito mais bonitos soltos. Use-os assim a partir de hoje. Ele inclinou-se novamente, buscando seus lábios. O aroma masculino que exalava de sua pele envolveu os sentidos de Magda, enfraquecendo sua resistência. Quando os lábios se encontraram em um beijo ardente, as mãos de Astolfo desceram firme por sua cintura. Nesse instante, a porta escancarou-se. Rodolfo estava parado no batente, com o olhar queimando em pura fúria ao presenciar a cena. Magda paralisou, sentindo o ar fugir de seus pulmões. O pânico e o desejo misturavam-se em seu peito enquanto encarava o irmão mais velho. O que ele faria agora?A fogueira no centro do acampamento na floresta estalava baixo. O silêncio da noite mortal só era interrompido pelo respirar pesado das crianças, adormecidos juntos sob o abrigo das raízes que Magda erguera.Ulisses ajustou as tiras do peitoral de couro, limpando a lâmina de ferro estígio pela última vez. O movimento repetitivo chamou a atenção de Rodolfo, que se levantou do tronco onde entalhava um pedaço de madeira.— Você está arrumando as armas como se estivesse prestes a marchar — disse Rodolfo, o tom grave chamando a atenção de Astolfo e Magda. — O perímetro está calmo, Ulisses.— O perímetro está calmo hoje — corrigiu Ulisses, sem erguer os olhos da lâmina. — Mas não estará amanhã. Eu vou ao Submundo. Sozinho.Magda, que trançava flores perto dos berços, congelou. As folhas caíram de suas mãos enquanto ela se levantava de pulo, o rosto pálido de incredulidade.— Você ficou louco? — disparou Astolfo. — O seu pai acabou de ser humilhado no Conselho do Olimpo! Se você pisar
A decisão foi tomada sem hesitação. A ideia de perder a infância e a juventude de Rubens, Afonso e Uriel em uma aceleração temporal desenfreada era um preço que nenhum deles estava disposto a pagar.— Não ficaremos mais nem um segundo — decretou Magda, segurando Afonso no colo enquanto Rodolfo erguia Rubens e Ulisses tomava o pequeno Uriel nos braços.Hermes avançou para o centro do santuário e cravou o Caduceu no chão. A varinha de serpentes aladas brilhou em um tom dourado cegante, fazendo o ar estalar. As paredes do templo de Cronos começaram a se distorcer, como vidro derretendo, enquanto a ilusão do tempo dilatado se desfazia ao redor do grupo.— Mantenham os olhos fechados e não soltem as crianças! — instruiu Hermes, a voz ecoando no turbilhão de vento que se formou. — Vou lançá-los pelas fendas dos meus caminhos secretos. Vocês emergirão nos limites do mundo mortal, no Vale das Mães Antigas, uma floresta petrificada sob a bênção de Perséfone. Nem Zeus do topo do céu, nem Had
A névoa do Santuário de Cronos agitou-se subitamente em espirais douradas. As pequenas asas caduceias brilharam no ar antes mesmo que os pés de Hermes tocassem o chão de pedra do templo. Diferente de suas aparições habituais, a expressão do Deus dos Mensageiros era séria, com o olhar focado e desprovido do sorriso provocativo de costume. Ao ver o pai, Magda percebeu imediatamente a gravidade do momento.— Pai... — disse Magda, dando um passo à frente. — O que aconteceu no Olimpo? Nós soubemos da reunião, Poseidon e Hefesto realmente..— Eles travaram Zeus e travaram as tropas oficiais — interrompeu Hermes, a voz rápida e enérgica, estendendo as mãos para segurar os ombros da filha. — A jogada no conselho foi brilhante, Magda. O Olimpo está dividido e paralisações políticas impedem uma marcha formal. Mas nem tudo são boas notícias. O problema agora é o próprio lugar onde vocês estão.Rodolfo e Astolfo aproximaram-se rapidamente, trocando olhares preocupados, enquanto Ulisses deu do
Na Forja de LemnosHefesto ergueu seu imenso martelo de guerra, batendo-o com violência contra a bigorna de bronze. Uma onda de choque de fogo e faíscas cortou a caverna, fazendo o chão de rocha tremer.— Zeus governou o Olimpo por eras exigindo lealdade, mas agora a paranóia o cega — a voz de Hefesto ressoou como um vulcão em erupção. — Ele deseja aniquilar o meu sangue, a minha continuação na terra, para proteger seu próprio medo? Não. O aço da minha forja não se curvará à insensatez do meu irmão.O Deus do Fogo olhou fixamente para Rodolfo, a chama em seus olhos brilhando com um orgulho feroz.— Volte para a sua mulher e para o meu neto, Rodolfo. Proteja o pequeno Rubens. Eu mesmo marcharei até o Grande Conselho do Olimpo. Quando Zeus convocar os deuses para ordenar o massacre, eu estarei lá... e o calor da minha forja declarará o meu veto. Se ele desejar destruir o meu neto, terá que passar por mim primeiro.No Palácio de Atlântida Nas profundezas do oceano, Poseidon cravo
No jardim interno do Santuário de Cronos, o chão subitamente tremeu. Não era um abalo violento, mas um pulso profundo e ritmado que fez a grama cintilar. De uma fenda na, uma galho espesso e coberta por espinhos de cristal negro brotou, desabrochando em uma única flor de pétalas roxas e douradas.Magda aproximou-se, atraída pela assinatura mágica inconfundível. Ao tocar a flor, uma névoa esmeralda envolveu a sala, e a voz de Perséfone — suave, mas carregada pela gravidade do cativeiro — ressoou diretamente na mente da filha e no coração de todos no salão:“Minha filha... Escute-me com atenção. O tempo do nosso segredo acabou.Hades descobriu toda a verdade. Ele e Zeus firmaram um pacto e marcharão juntos. Hades, que antes pretendia poupar o pequeno Uriel por ser seu descendente, agora jurou destruí-lo ao lado de seus irmãos. Eles reunirão as frotas dos céus e os abismos do Submundo para romper a barreira de Cronos.”Magda empalideceu, levando a mão ao peito enquanto Rodolfo, Astol
A Câmara do Inverno Perpétuo, cravada no ponto mais fundo do Palácio do Submundo, exalava um frio mortal. As paredes de rocha estavam cobertas por uma camada espessa de gelo negro, e o único som no recinto era o tilintar suave das correntes congeladas que prendiam os pulsos de Perséfone a uma pilar de pedra ancestral.Mesmo desprovida do calor da primavera, com os lábios levemente arroxeados e as vestes finas cobertas de geada, Perséfone mantinha a cabeça erguida. O olhar da Rainha do Submundo continuava altivo, denso e inflexível.Passos pesados ressoaram pelo corredor de rocha. A névoa de enxofre abriu-se, e a figura imponente de Hades emergiu da escuridão. Seus olhos ardiam como duas brasas cobertas de cinzas, e o cetro de ferro estígio em sua mão ecoava um pulso sombrio a cada toque no chão. Ele parou diante dela, encarando a esposa com uma mistura de rancor amargo e fúria contida. — Você continua em silêncio, minha Rainha — disse Hades, a voz grave e cavernosa ecoando nas p







