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Os Irmãos

Penulis: Krystal Pires
last update Tanggal publikasi: 2026-09-15 02:37:08

Na manhã seguinte, Magda despertou e observou ao redor, percebendo que suas vestes ainda guardavam as marcas e a poeira do dia anterior.

​— Amélia! — chamou.

​A dama de companhia aproximou-se rapidamente:

​— O que deseja, Alteza?

​— Minhas roupas estão completamente sujas.

​— Não se preocupe — respondeu a serva com um sorriso brando. — Rodolfo esteve aqui mais cedo e deixou este vestido para que possa se trocar.

​— Já pedi para não me chamar assim, Amélia. Apenas Magda.

​— Perdão, é a força do costume.

​— Preciso de um banho — pediu a jovem. — Ajude-me, por favor.

​No banho, enquanto a água morna percorria sua pele, Magda sentia o peito oprimido pela aflição. Não sabia o que fazer a partir dali; precisava partir em breve, pois temia abusar da hospitalidade dos três irmãos.

​Ao se enxugar, pediu que Amélia lhe entregasse a veste trazida por Rodolfo. Observando cada detalhe do tecido, notou como ele emoldurava e delineava seu corpo. Era uma peça muito mais ousada do que qualquer traje que jamais usara no castelo do pai.

​— Ficou perfeito! — exclamou Amélia, maravilhada.

​— Não sei... Acho que há tecido de menos aqui — murmurou Magda, hesitante.

​— Eu achei que está radiante — disse uma voz grave na porta.

​Rodolfo parado no batente observava a cena. Magda corou levemente:

​— Ainda acho pouco pano, mas agradeço a gentileza.

​— Está linda — elogiou o semideus, aproximando-se. — Vim saber se aceita dar um passeio comigo pelo jardim. O que acha?

​— Sim, aceito — respondeu ela. — É o mínimo que posso fazer para retribuir sua acolhida.

​Os dois passaram a caminhar pelos jardins do castelo. Só então Magda pôde contemplar a grandiosidade do lugar, cercado por árvores frutíferas e flores de cores vibrantes.

​— Que lugar maravilhoso! — admirou-se.

​— Gostou? Geralmente as mulheres apreciam plantas, por isso a trouxe aqui.

​— Mas trouxe-me até aqui apenas para me mostrar a vegetação?

​— Não só por isso — admitiu Rodolfo, desacelerando o passo. — Queria conversar. Gostaria de conhecer sua história... saber como acabou naquela floresta.

​Sem as amarras do passado, Magda compartilhou cada trecho de sua jornada. Ao desabafar, sentiu um imenso peso ser retirado de seus ombros.

​— Não posso acreditar que esse príncipe Heitor tenha sido capaz de tamanha covardia — desabafou Rodolfo, com o feição rígida.

​— Nem eu — confessou a jovem, baixando o olhar. — O que mais me fere é saber que meu próprio pai me abandonou à própria sorte. Se não fosse por você e seus irmãos, não sei o que teria acontecido comigo.

​— Felizmente estávamos no lugar certo, na hora certa.

​— Sim, graças aos céus. Mas eu também gostaria de saber mais sobre você e sua família.

​Rodolfo observou o horizonte e passou a contar a história de sua linhagem. Explicou que era filho de Hefesto, o deus do fogo. Astolfo era filho de Poseidon, o senhor dos mares. E Ulisses, o mais jovem, era filho de Hades, o governante do submundo.

​A mãe deles era uma mortal de beleza extraordinária chamada Helena, que viveu um romance com cada um dos três deuses, concebendo um filho de cada divindade. Essa beleza incomum acabou despertando uma disputa feroz entre os imortais. De todos, Hades era o mais possessivo. Quando Rodolfo tinha dezessete anos, o deus do inferno tirou a vida de Helena por ela se recusar a pertencer somente a ele. Desde aquele dia, cabia a Rodolfo cuidar dos irmãos menores.

​— Sua história é impressionante... e dolorosa — sussurrou Magda, tocada pela revelação.

​— E foi assim que chegamos até aqui — concluiu ele.

​— E nenhum de vocês se casou? — perguntou a jovem, curiosa.

​— Não. Ainda não encontramos as esposas ideais.

​Magda ficou pensativa. Que mulher não desejaria se casar com um semideus? Ainda mais podendo escolher entre três homens tão fortes, imponentes e atraentes. Contudo, lembrando-se de sua condição, sentiu que era o momento de ir embora.

​— Foi um prazer conhecê-lo, Rodolfo, mas creio que seja a hora de me despedir e seguir meu caminho.

​— Você não precisa ir.

​— Você já me ajudou muito, só tenho a agradecer por tudo.

​— Você foi banida e não tem para onde ir — ponderou ele com firmeza. — Fique. O quarto será seu pelo tempo que precisar.

​— E seus irmãos? O que pensam disso?

​— Eles também querem que você fique. Inclusive, hoje jantaremos todos juntos.

​Magda suspirou, convencida:

​— Está bem... Ficarei até encontrar um paradeiro.

​— Por mim, excelente — sorriu o semideus.

—Quero levá-la para andar a cavalo na floresta. O que me diz?

​— Cavalo? Não sei... Tenho medo.

​— Não há o que temer, estarei com você.

​— Tudo bem — concordou ela.

​Rodolfo ausentou-se por alguns instantes e retornou montado em um imponente cavalo negro. Ao se aproximar de Magda, desmontou, tomou-a delicadamente nos braços e a acomodou sobre o selim. Em seguida, subiu logo atrás dela. Magda sentiu o firme peitoral do semideus encostado em suas costas e observou as mãos grandes segurando as rédeas. Por um breve segundo, um pensamento involuntário cruzou sua mente: como seria sentir aquelas mãos percorrendo seu corpo.

​— Está gostando do passeio? — indagou ele ao pé de seu ouvido.

​— Sim... está maravilhoso.

​Acomodada ali, Magda sentiu que poderia passar o dia inteiro daquela forma, envolvida pelo calor e pela presença de Rodolfo.

​Ao término do passeio, ela despediu-se dele e retornou ao quarto. Deitada na cama, aguardava ansiosa pelo jantar. Rodolfo lhe enviara um novo traje, ainda mais elegante e trabalhado que o anterior.

​Batidas leves soarão à porta. Magda levantou-se e, ao abrir, deparou-se com Astolfo.

​— Apenas passei para ver como está — disse o irmão do meio, entrando sem pedir licença e acomodando-se na cama.

​— Estou ótima — respondeu ela, surpresa.

​— Sabia que este quarto já foi meu? — perguntou ele com um sorriso de canto.

​— Não.

​— Pois foi exatamente nesta cama que perdi minha virgindade.

​Magda encarou-o, espantada.

​— Estou brincando com você! — gargalhou Astolfo.

​— Não tenho interesse em suas intimidades — rebateu ela, séria.

​— Será mesmo? Porque eu adoraria saber as suas. Vou confessar: estou completamente caidinho por você.

​— Saia daqui, agora!

​— Só queria um beijinho seu, meu amor... Só um.

​— Já mandei sair! — ordenou ela, dando um passo para trás.

​A porta abriu-se abruptamente.

​— Astolfo está incomodando você? — interveio Ulisses, surgindo no ambiente.

​— Não exatamente, mas gostaria que ele saísse — explicou Magda.

​— Vamos, saia. Deixe a moça em paz — ordenou Ulisses ao irmão.

​— Tudo bem, tudo bem... Vou me divertir com quem me quer por perto. Até logo! — debochou Astolfo, retirando-se do aposento.

​— Desculpe meu irmão — pediu Ulisses assim que ficaram a sós. — Ele tem esse jeito inconveniente, mas tem bom coração.

​— Imagino que sim.

​— Vejo você no jantar?

​— Sim, já estou faminta — sorriu ela, mais calma.

​— Você vai adorar a refeição. Rodolfo mandou preparar o melhor para você, Princesa.

​— Não sou mais uma princesa.

​— Pois para mim ainda se parece com uma. Delicada como uma pedra de rubi.

​— Não diga isso, fico sem graça — murmurou ela, corando.

​Em pouco tempo, Magda percebeu o contraste marcante entre os três: Rodolfo era forte, intenso e protetor, porém nada romântico; Astolfo era impetuoso e sedutor demais; já Ulisses mostrava-se envolvente, misterioso e cortês. Por um momento, a lembrança de Heitor veio à sua mente — seu antigo noivo também sabia ser romântico, ou ao menos fingia ser.

​— Deixarei você descansar. Até mais tarde — despediu-se Ulisses com um breve aceno antes de sair.

​A sós no quarto, Magda sentia o peito inquieto. Não sabia ao certo o significado daquela confusão de sentimentos, mas de uma coisa tinha absoluta certeza: não podia, sob hipótese alguma, se apaixonar pelos três irmãos.

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