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CAPITULO 8

last update Tanggal publikasi: 2026-06-05 09:39:06

CAIM LEE

Porra… já tô caminhando um tempão, não sei ao certo quanto tempo se passou — talvez uns dez minutos, ou quem sabe mais — só sei que essa chuva não dá sinal de parar tão cedo, e eu já estou encharcado . A roupa agora pesa como chumbo, grudando na pele e fazendo cada movimento um esforço dobrado. Os tênis, que eu escolhi com tanto cuidado por serem resistentes, afundam na lama a cada passo.

Paro de repente, me encostando no tronco de uma árvore. Ergo o celular com a mão trêmula, tentando enxergar a tela fraca por entre os dedos molhados, e o que vejo me faz sentir um nó no estômago: ainda falta bastante, quilômetros ainda por percorrer dentro dessa floresta. A bateria já está pela metade.

Me agacho ali mesmo, na beira da trilha, e fico olhando para o nada, Merda. A vontade de dar meia-volta e correr de volta para o meu carro é quase irresistível. Fecho os olhos por um instante e me vejo na minha cama, o colchão macio, o cobertor quente, o silêncio seguro do meu apartamento apertado mas meu.

É onde eu deveria estar agora, descansando, esquecendo o mundo e suas confusões. Mas aqui estou eu: no meio do nada, dentro de uma floresta que parece não ter fim, debaixo dessa chuva . Se ao menos houvesse uma caverna, qualquer abrigo onde eu pudesse esperar a tempestade passar… mas não, tudo o que existe aqui é mato, barro e escuridão.

Além disso, depois de tudo o que eu já caminhei, de toda a determinação que eu reuni antes de sair de casa, não dá para simplesmente voltar atrás. Se eu desistir agora, é como se toda a minha investigação não tivessem valido de nada.

— Forças, Caim — sussurro para mim mesmo— Pense que no final tudo isso vai valer a pena. Pense na verdade que você vai descobrir, na história que ninguém mais teve coragem de contar.

Com o ânimo renovado por essa conversa comigo mesmo, levanto-me devagar, ajustando a mochila nos ombros, preparado para continuar a caminhada. Mas mal dou o primeiro passo e paro , o coração disparando no peito. Ouço um som nítido: o estalo seco de um galho quebrando-se sob um peso.

Aponto a lanterna em todas as direções, girando o corpo rapidamente, o feixe de luz  cortando a escuridão .

— Tem alguém aí? — grito, tentando fazer minha voz soar firme, mas o medo deixa um tremor evidente nas palavras.

A resposta é um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo vento que sopra entre os troncos e pelo bater incessante da chuva. Fico imóvel, ouvindo, esperando qualquer movimento. Nada. Então, olho para baixo e vejo, bem ao lado do meu pé, um galho partido que eu mesmo acabei de pisar.

Solto o ar, e passo a mão pelo rosto molhado, limpando a água que escorre pelos olhos.

— Porra, eu to muito nervoso… preciso me acalmar — murmuro, sentindo uma mistura de alívio e vergonha. A minha imaginação, somada ao cansaço e à tensão, já está me pregando peças.

Respiro fundo, e começo a andar mais rápido. Quer saber? Eu só vou chegar lá, confirmar o que está acontecendo, tirar umas fotos que provem a existência desse lugar e dessa pesquisa proibida, e depois vou embora. Ninguém precisa saber que eu estive aqui, ninguém vai me ver.

Enquanto Caim segue em frente, completamente alheio ao que se passa ao seu redor, a poucos metros, escondidos entre a vegetação densa e protegidos pela escuridão e pela chuva, dois homens observam cada um dos seus movimentos com atenção absoluta.

São os guardas designados para a ronda externa, homens treinados, e que conhecem cada palmo dessa floresta como a palma das suas mãos. Eles foram avisados pela central de segurança sobre a aproximação de um intruso, e agora, esperam apenas o momento certo para agir.

***

Ele não viu. Mas, a doze metros de distância, dois homens o observavam com clareza perfeita.

Estavam parados havia oito minutos sob uma lona camuflada que deixava a água escorrer sem barulho. Roupa impermeável preta, botas de cano alto, balaclavas. Um carregava um fuzil com silenciador a tiracolo; o outro, uma caixa preta na mão. Os óculos de visão térmica estavam levantados na testa ,não precisavam mais deles. O cheiro já tinha chegado até ali antes da imagem.

— Tô vendo — sussurrou Falcão, o mais velho, no rádio colado à garganta. Não precisava de binóculo; a luz fraca da lanterna do rapaz entregava tudo. 

— Homem pequeno. Uns 60 kg no máximo. Um e sessenta. Tá tremendo e molhado até o osso.

Braga, o maior dos dois, quase 1,90m e ombros largos como um armário, respondeu sem quase mover a boca, só vibrando a garganta.

— Tá sozinho?

— Sozinho. Só uma mochila velha e lanterna de merda. Não é polícia, não é jornalista grande. É curioso. Ratinho da cidade.

Falcão sorriu por baixo da balaclava. Gostava dessa parte — não da parte de carregar depois, mas da caçada em si, daquele instante em que a presa sente que está sendo observada e não sabe de onde.

— Fecha por trás. Sem barulho, sem luz. Quando eu der dois cliques, derruba.

— Entendido. Coleira ou taser?

— Coleira. 

Braga abriu a caixa preta. Dentro, uma coleira larga, de metal fosco forrado de borracha, com uma caixinha quadrada na frente e um LED vermelho piscando — feita, originalmente, para um cão de sessenta quilos. Ou, agora, para um homem magro demais.

Caim continuou andando, mas a sensação ruim não ia embora. Era como carregar um peso nas costas, um olhar físico e quente queimando a nuca inchada. O coração disparou de um jeito que não tinha nada a ver com a contração — era medo puro, animal, do tipo que faz cada som parecer um tiro, até o barulho do próprio tênis  na lama.

Parou no meio de uma clareira minúscula, de não mais que dois metros de largura. A chuva tinha diminuído para uma garoa fina, mas as árvores continuavam pingando pesado, como se a mata inteira estivesse suando.

Não aguentou mais.

— EU SEI QUE TEM ALGUÉM AÍ, APARECE! — gritei com toda a força que ainda tinha, a voz rasgando no meio. — APARECE, PORRA!

Falcão fez o sinal. Dois cliques no rádio. Tic-tic.

Braga saiu da mata como se tivesse sido cuspido por ela.

Caim não viu o homem vindo só sentiu o impacto.

Foi um peso enorme nas costas, quase cem quilos de uma vez, que tirou todo o ar dos pulmões. Não foi empurrão — foi um corpo inteiro caindo de cima, jogando-o de cara na lama. A lanterna voou longe e se apagou. A boca encheu de terra, de água suja, de gosto de ferro. Tentou gritar e engasgou com lama.

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