LOGINCAIM LEE
Um joelho prensou suas costas. Uma mão enorme e áspera agarrou o cabelo comprido e encharcado e empurrou o rosto mais fundo na lama.
Não conseguia respirar com a lama que entrava pelo nariz.
Ele se debateu com tudo que tinha — arranhou a lama, tentou chutar para trás, tentou morder o ar. As pernas magras chutavam sem efeito nenhum; era leve demais, e o homem em cima nem parecia sentir o esforço.
— ME SOLTA, PORRA! — conseguiu gritar, abafado, cuspindo barro.
Ouviu então a segunda voz, perto, quase colada no ouvido.
— FICA QUIETO SE NÃO QUISER QUEBRAR A CARA DE VERDADE — rosnou Falcão, agachado ao lado. Estava tão perto que Caim conseguia ver a bota dele junto ao próprio rosto. — Quanto mais se debate, mais afunda, ratinho.
— Quem são vocês? O que vocês querem? — ofegou, chorando de lama, de medo, de falta de ar. Bem naquele instante veio outra contração, e mais daquele calor líquido escorreu, na frente deles, e a vergonha, por um segundo, pesou mais que o próprio medo.
O homem em cima riu — um riso curto, sem humor, quase no ouvido dele com um hálito que cheirava a café requentado.
— Aqui quem pergunta somos nós, seu intruso de merda. Você tá dentro da reserva. Isso dá cadeia.
Num desespero cego, Caim virou o rosto o quanto conseguiu e mordeu. Cravou os dentes na mão que segurava seu queixo, com toda a força que ainda restava. Sentiu gosto de sangue misturado com a própria lama.
Braga grunhiu de dor, mas não soltou. Só apertou mais.
— Filho da puta me mordeu ! — rosnou, e então veio a dor de verdade.
Não foi um soco. Foi uma coronhada — a coronha do fuzil batendo na lateral da cabeça, logo acima da orelha. Forte o bastante para apagar.
Caim viu branco. Depois, estrelas. Depois, o som da chuva ficou distante, abafado, como se estivesse debaixo d'água. A cabeça caiu mole na lama.
— Anda logo, porra, coloca — resmungou Falcão. — Tá chovendo pra caralho ainda.
De forma ágil e rápida, como se já tivessem feito isso milhares de vezes, o guarda pega uma coleira larga com aparência metálica. Ele a coloca ao redor do meu pescoço e fecha o fecho com um clique seco e definitivo. Mesmo mole, ainda restava um fio de consciência. Senti quando ela foi passada ao redor do pescoço.
A coleira.
Eu realmente não estou conseguindo pensar direito. A pancada foi muito forte, e a minha mente começa a ficar confusa, as imagens ao meu redor se embaralhando, as vozes dos homens parecendo vir de muito longe.
Tento levar a mão até lá, fraca e trêmula, tocando o metal gelado com os dedos sujos de barro.
Falcão nem precisou dizer nada. Só apertou um botão no controle preto que guardava no bolso.
A descarga não foi como um choque comum — foi fogo líquido entrando pela garganta e saindo pelas pontas dos dedos dos pés. Cada músculo contraiu ao mesmo tempo. As costas arquearam na lama, a mandíbula travou, e o grito que devia sair não saiu, só um engasgo seco. Sentiu a bexiga ceder, e logo em seguida o líquido entre as pernas jorrar de uma vez; sentiu gosto de sangue por ter mordido a própria língua. Os olhos reviraram, a boca espumou lama, e por três segundos que pareceram durar uma hora inteira, o corpo convulsionou sozinho.
Depois, escuridão.
— Olha, tá espumando — riu Falcão, se agachando, iluminando o rosto de Caim com uma lanterninha pequena. Os olhos revirados mostravam só o branco; lama misturada a sangue escorria da boca. Entre as pernas a calça preta encharcada tinha uma mancha clara e brilhante.
— E se mijou todo. Que nojeira. E olha esse cheiro saindo dele. Puta que pariu.
Braga fez cara de nojo, tirando a balaclava — revelando um rosto quadrado e barba por fazer.
— Eu que vou ter que carregar essa porra toda melada? Vai tomar no cu. Isso fede a cadela no cio, Falcão.
— Tá vivo? — Falcão bateu de leve no rosto do rapaz.
— Tá. Só desmaiado. Acabou a graça.
Pegou o rádio.
— QRA, Falcão. Intruso contido. Coleira instalada. Desacordado, mas estável. Sem ferimento no rosto, como a doutora pediu. Pode abrir o portão 02. Tragam manta, que ele tá em hipotermia e... — olhou para a virilha do rapaz — ...e melado.
A resposta veio rápida, do vigia da cabine.
— QAP, recebido. Abrindo portão 02. Levem direto pra sala 03. A doutora Helga já tá lá. Ela disse pra não limpar ele. Quer ver como chegou.
Braga resmungou, mas se agachou, passou um braço por baixo dos joelhos de Caim e outro nas costas, erguendo-o como quem carrega um saco de ração. A cabeça caiu mole para trás, boca aberta escorrendo lama.
— O que esse merda tava pensando, hein? — resmungou, carregando o corpo. Cinquenta e cinco quilos que, encharcados, pesavam como setenta. Sentia o calor daquele corpo tremendo mesmo desmaiado, e o cheiro doce que não ia embora só ficava mais forte depois do choque. — Vir sozinho?
— Sei lá — respondeu Falcão, andando na frente, abrindo caminho com o facão, indiferente. — Agora fodeu. Muito. Se meteu num lugar sem volta. Se fodeu bonito.
Andaram oitocentos metros pela mata fechada, sob a garoa fina. Caim balançava nos braços de Braga, inconsciente, com a coleira de metal piscando vermelho no pescoço, a calça manchada por um cio que ele nem sabia, até aquela noite, que tinha.
Quando chegaram à cerca, um portão de aço de quatro metros, coberto de hera artificial — ele se abriu sozinho, com um zumbido elétrico. Luz branca e fria, de hospital vazou para dentro da mata. O cheiro de desinfetante, que Caim tinha sentido antes sem entender de onde vinha, ficou insuportável.
— Entra logo — gritou o guarda da guarita interna.
— Tô entrando, caralho — Falcão gritou de volta.
Assim que cruzaram o portão, ele se fechou atrás deles.
Lá dentro, no centro de uma sala toda branca, fria, cheia de máquinas que apitavam baixinho, a doutora Helga esperava de pé, jaleco impecável, mãos cruzadas atrás das costas, olhos azuis claros e sem nenhuma emoção visível.
HUNTERMinhas mãos, grandes e marcadas por cicatrizes, deslizam pelo corpo dele com uma urgência desesperada. Descem pela sua cintura fina, sentindo a fragilidade da sua estrutura, até alcançarem sua bunda redonda. Quando apalpo o local e percebo o quanto ele já está molhado para mim, solto um rugido baixo e gutural que vibra do fundo do meu peito.Sem dar espaço para dúvidas ou hesitações, tomo a boca dele na minha. O beijo é duro, faminto, selando nossos lábios com violência . Mordo seus lábios macios até sentir o gosto metálico e quente do seu sangue na minha língua. Caim geme contra a minha boca, um som manhoso e desesperado, enquanto enfio minha língua profundamente, chupando a dele com voracidade.Minhas unhas duras e afiadas , arranham a pele da sua bunda quando o pressiono com força contra o meu quadril, colando nossas virilhas. Ele era um corpo pequeno, franzino em comparação ao meu porte gigante, parecendo uma estrutura delicada que poderia se quebrar a qualquer segundo sob
HUNTER O silêncio na cela após a saída de Luke era denso . A porta de ferro havia se fechado com um estrondo ecoando pelo corredor, me deixando sozinho com Caim. Luke sabia exatamente o que estava fazendo ao sair. Ele conhecia meu senso de dever e sabia que, por mais que minha mente consciente quisesse se negar ou erguer muros de indiferença, minha natureza jamais deixaria um ômega vulnerável sem proteção. Ele usou isso contra mim, confiando na minha vigilância como quem deixa um guarda de prontidão junto a um tesouro perigoso. Respiro fundo, apertando minhas mãos em punho com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos . Lentamente, atravesso o pequeno espaço da cela e volto para o meu canto de costume, o mais afastado do futon onde Caim tentava se recolher. Me sento no chão frio, encostando as costas na parede e cruzando os braços sobre o peito como uma barreira física e psicológica entre mim e a tentação que emanava dele. — Você já deve ter percebido o que aconteceu e
LUKEQuando a luz começa a invadir a cela, eu desperto antes mesmo que as lâmpadas do teto se acendam por completo, guiado por aquele instinto que nunca me abandona, nem mesmo no repouso. A primeira coisa que percebo, antes de abrir os olhos, é o peso suave e familiar do corpo de Caim aninhado ao meu. Ele está colado a mim como um filhote, deitado sobre o meu peito, as pernas entrelaçadas às minhas, os braços ainda apertados com firmeza ao redor da minha cintura, como se temesse que eu desaparecesse ao acordar.Fico imóvel por um instante, apenas o observando. Passo a mão devagar pelos seus cabelos escuros, macios e desalinhados, sentindo a temperatura da sua pele sob os meus dedos. A febre do cio ainda não se extinguiu por completo — há um calor suave, que ainda emana dele.Ele se mexe devagar, soltando um suspiro curto e sonolento, e abre os olhos com dificuldade, ainda pesados pelo cansaço e pela intensidade de tudo o que vivemos. Ao me ver, deitado ao seu lado, um sorriso pequeno,
HUNTERQuando saio da academia, o corredor já está mergulhado numa penumbra mais densa, com apenas as luzes de emergência emitindo aquele brilho fraco e azulado que se tornou a marca registrada desse lugar. Hoje me esforcei mais do que o normal: levantei cargas que fariam qualquer outro alfa aqui dentro recuar depois de alguns minutos, malhei até sentir os músculos queimando e o suor escorrendo por todo o corpo. Sempre funcionou assim: quanto mais pesado o fardo, mais forte a tensão, mais intensa a confusão dentro da minha cabeça, mais eu me esforço para esgotar o corpo. Quando a fadiga toma conta, não há espaço para pensamentos, para dúvidas, para sentimentos que não sei nomear nem controlar.Hoje me exercitei até o limite, penso, enquanto caminho com passos firmes e sem pressa, como sempre faço. Irei jantar rapidamente, me limpar e dormir sem demora. Amanhã será outro dia igual a todos os outros — ou pelo menos era o que eu esperava.Mas assim que a porta da cela se abre e eu cr
Antes mesmo que eu pudesse terminar de pronunciar a última palavra, os lábios de Luke vieram de encontro aos meus de forma avassaladora. O cheiro dele aquele aroma amadeirado, quente e selvagem de alfa dominante , invadiu meus sentidos de uma só vez, e isso me deixou completamente louco. Eu nunca pensei que um beijo pudesse ser tão poderoso, tão excitante a ponto de fazer meus joelhos fraquejarem mesmo sentado.O beijo dele começa gentil, mas logo se torna firme, exigente. Sinto os lábios dele tremerem levemente contra os meus, uma prova palpável do autocontrole que ele está exercendo, antes de sua língua pedir passagem e invadir a minha boca. Eu não recuo ; devolvo o beijo com a mesma paixão, com a mesma sede.Enquanto nos beijamos, consigo sentir o quanto ele esta se segurando. É perceptível o cuidado em cada toque, o desejo de que a minha primeira vez seja perfeita, prazerosa. Ele desce os lábios para o meu pescoço, e a sensação da barba roçando a minha pele sensível é simplesme
Quando finalmente abro os olhos pela primeira vez desde que fui capturado, uma paz inexplicável e profunda se espalha pelo meu peito. Não é a paz da ignorância, mas uma calma estranha, quase mágica. No silêncio que preenche a cela, consigo sentir a presença de Ying Yue ressoando no fundo do meu ser, uma centelha morna e ancestral que me conforta e me impede de afundar no desespero. Não faço a menor ideia de que horas são. Percebo que Hunter ainda não voltou para a cela, parece que ele continua na academia.Lentamente, me viro no futon. Do outro lado da cela, vejo Luke. Ele está deitado de costas para mim, com o rosto virado para a parede , a respiração pesada e ritmada de quem luta para descansar enquanto trava uma guerra interna.A febre ainda queima sob a minha pele, fazendo minhas fontes latejarem devagar. Me mexo e sinto o tecido do meu futon incrivelmente molhado abaixo do meu quadril. Fico tenso,me sento devagar, e estendo a mão trêmula para tocar o local úmido. Quando meço a t







