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CAPITULO 9

last update Petsa ng paglalathala: 2026-06-05 09:53:39

CAIM LEE

Um joelho prensou suas costas. Uma mão enorme e áspera agarrou o cabelo comprido e encharcado e empurrou o rosto mais fundo na lama.

Não conseguia respirar com a lama que entrava pelo nariz.

Ele se debateu com tudo que tinha — arranhou a lama, tentou chutar para trás, tentou morder o ar. As pernas magras chutavam sem efeito nenhum; era leve demais, e o homem em cima nem parecia sentir o esforço.

— ME SOLTA, PORRA! — conseguiu gritar, abafado, cuspindo barro.

Ouviu então a segunda voz, perto, quase colada no ouvido.

— FICA QUIETO SE NÃO QUISER QUEBRAR A CARA DE VERDADE — rosnou Falcão, agachado ao lado. Estava tão perto que Caim conseguia ver a bota dele junto ao próprio rosto. — Quanto mais se debate, mais afunda, ratinho.

— Quem são vocês? O que vocês querem? — ofegou, chorando de lama, de medo, de falta de ar. Bem naquele instante veio outra contração, e mais daquele calor líquido escorreu, na frente deles, e a vergonha, por um segundo, pesou mais que o próprio medo.

O homem em cima riu — um riso curto, sem humor, quase no ouvido dele com um  hálito que cheirava a café requentado.

— Aqui quem pergunta somos nós, seu intruso de merda. Você tá dentro da reserva. Isso dá cadeia.

Num desespero cego, Caim virou o rosto o quanto conseguiu e mordeu. Cravou os dentes na mão que segurava seu queixo, com toda a força que ainda restava. Sentiu gosto de sangue misturado com a própria lama.

Braga grunhiu de dor, mas não soltou. Só apertou mais.

— Filho da puta me mordeu ! — rosnou, e então veio a dor de verdade.

Não foi um soco. Foi uma coronhada — a coronha do fuzil batendo na lateral da cabeça, logo acima da orelha. Forte o bastante para apagar.

Caim viu branco. Depois, estrelas. Depois, o som da chuva ficou distante, abafado, como se estivesse debaixo d'água. A cabeça caiu mole na lama.

— Anda logo, porra, coloca — resmungou Falcão. — Tá chovendo pra caralho ainda.

De forma ágil e rápida, como se já tivessem feito isso milhares de vezes, o guarda pega uma coleira larga com aparência metálica. Ele a coloca ao redor do meu pescoço e fecha o fecho com um clique seco e definitivo. Mesmo mole, ainda restava um fio de consciência. Senti quando ela foi passada ao redor do pescoço.

A coleira.

Eu realmente não estou conseguindo pensar direito. A pancada foi muito forte, e a minha mente começa a ficar confusa, as imagens ao meu redor se embaralhando, as vozes dos homens parecendo vir de muito longe.

Tento levar a mão até lá, fraca e trêmula, tocando o metal gelado com os dedos sujos de barro.

Falcão nem precisou dizer nada. Só apertou um botão no controle preto que guardava no bolso.

A descarga não foi como um choque comum — foi fogo líquido entrando pela garganta e saindo pelas pontas dos dedos dos pés. Cada músculo contraiu ao mesmo tempo. As costas arquearam na lama, a mandíbula travou, e o grito que devia sair não saiu, só um engasgo seco. Sentiu a bexiga ceder, e logo em seguida o líquido entre as pernas jorrar de uma vez; sentiu gosto de sangue por ter mordido a própria língua. Os olhos reviraram, a boca espumou lama, e por três segundos que pareceram durar uma hora inteira, o corpo convulsionou sozinho.

Depois, escuridão.

— Olha, tá espumando — riu Falcão, se agachando, iluminando o rosto de Caim com uma lanterninha pequena. Os olhos revirados mostravam só o branco; lama misturada a sangue escorria da boca. Entre as pernas a calça preta encharcada tinha uma mancha clara e brilhante.

— E se mijou todo. Que nojeira. E olha esse cheiro saindo dele. Puta que pariu.

Braga fez cara de nojo, tirando a balaclava — revelando um rosto quadrado e  barba por fazer.

— Eu que vou ter que carregar essa porra toda melada? Vai tomar no cu. Isso fede a cadela no cio, Falcão.

— Tá vivo? — Falcão bateu de leve no rosto do rapaz.

— Tá. Só desmaiado. Acabou a graça.

Pegou o rádio.

— QRA, Falcão. Intruso contido. Coleira instalada. Desacordado, mas estável. Sem ferimento no rosto, como a doutora pediu. Pode abrir o portão 02. Tragam manta, que ele tá em hipotermia e... — olhou para a virilha do rapaz — ...e melado.

A resposta veio rápida, do vigia da cabine.

— QAP, recebido. Abrindo portão 02. Levem direto pra sala 03. A doutora Helga já tá lá. Ela disse pra não limpar ele. Quer ver como chegou.

Braga resmungou, mas se agachou, passou um braço por baixo dos joelhos de Caim e outro nas costas, erguendo-o como quem carrega um saco de ração. A cabeça caiu mole para trás, boca aberta escorrendo lama.

— O que esse merda tava pensando, hein? — resmungou, carregando o corpo. Cinquenta e cinco quilos que, encharcados, pesavam como setenta. Sentia o calor daquele corpo tremendo mesmo desmaiado, e o cheiro doce que não ia embora  só ficava mais forte depois do choque. — Vir sozinho?

— Sei lá — respondeu Falcão, andando na frente, abrindo caminho com o facão, indiferente. — Agora fodeu. Muito. Se meteu num lugar sem volta. Se fodeu bonito.

Andaram oitocentos metros pela mata fechada, sob a garoa fina. Caim balançava nos braços de Braga, inconsciente, com a coleira de metal piscando vermelho no pescoço, a calça manchada por um cio que ele nem sabia, até aquela noite, que tinha.

Quando chegaram à cerca, um portão de aço de quatro metros, coberto de hera artificial — ele se abriu sozinho, com um zumbido elétrico. Luz branca e fria, de hospital vazou para dentro da mata. O cheiro de desinfetante, que Caim tinha sentido antes sem entender de onde vinha, ficou insuportável.

— Entra logo — gritou o guarda da guarita interna.

— Tô entrando, caralho — Falcão gritou de volta.

Assim que cruzaram o portão, ele se fechou atrás deles.

Lá dentro, no centro de uma sala toda branca, fria, cheia de máquinas que apitavam baixinho, a doutora Helga esperava de pé, jaleco impecável, mãos cruzadas atrás das costas, olhos azuis claros e sem nenhuma emoção visível.

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