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Mentiras Sob o Luar
Mentiras Sob o Luar
Author: Ding

Capítulo 01

Author: Ding
Minha mãe mal tinha me ajudado a deitar na cama quando a mãe de Kane apareceu. Não fiquei surpresa. Ilsa sempre tivera um timing perfeito — ou péssimo, dependendo do ponto de vista.

Ela parou na porta do meu quarto com a mesma expressão de sete anos atrás.

Culpa e urgência misturadas, como se fosse me pedir algo que não tinha o direito de pedir, mas fosse pedir mesmo assim, porque já havia decidido que o futuro do filho dela importava mais do que a minha vida.

— Selene. — Ela entrou no quarto. Sua voz era baixa, quase gentil. Era assim que ela sempre começava. — Preciso te pedir um favor. Um favor muito difícil.

Observei seu rosto corar.

Ela abria a boca e a fechava repetidas vezes, como um peixe tentando respirar fora d'água.

Não deixei que terminasse.

Eu já sabia por que ela estava ali.

Era o mesmo motivo de sete anos atrás.

Sete anos antes, quando recebi o diagnóstico, ela invadira meu quarto de hospital antes mesmo que as lágrimas no meu rosto secassem.

Eu ainda tentava entender o que significava envenenamento por prata.

Ainda tentava aceitar que estava morrendo aos dezoito anos.

Foi então que ela se ajoelhou diante de mim, sobre o chão frio do hospital.

— Selene, por favor. Não arraste Kane pra isso. O Rei Alfa acabou de escolhê-lo para um treinamento de três anos na Fortaleza do Norte. Se ele descobrir que você sofre de envenenamento por prata, nunca irá.

Lembro-me da voz dela falhando.

Dos olhos brilhando de lágrimas.

Ela parecia tão sincera.

Tão desesperada.

— Você e Kane cresceram juntos. Estão juntos há tantos anos. Eu imploro... termine com ele. Um dia ele será o Alfa da alcateia, e você está morrendo. Como pode prendê-lo ao seu destino?

Eu não respondi.

Não consegui.

Minha garganta estava apertada demais.

Ela interpretou meu silêncio como permissão para continuar.

— Eu já pensei em tudo. Vou encontrar um jovem guerreiro lobo... alguém de uma alcateia vizinha, alguém que Kane não conheça. Você só precisa fingir que está beijando esse guerreiro debaixo do velho carvalho. Kane vai ver. Então você finge que o traiu. Finge que está terminando com ele.

Ela disse aquilo como se fosse simples.

Como se partir o coração de Kane fosse tão fácil quanto trocar de roupa. E, porque eu tinha dezoito anos, estava apavorada e acreditava que já estava condenada à morte, aceitei.

Assim, em vez de procurar uma cura...

Em vez de lutar pela minha vida...

Passei as primeiras semanas da minha sentença fingindo trair o único homem que já amei.

Fiz com que ele me odiasse.

Eu o empurrei para o Norte.

Agora, sete anos depois, Ilsa estava novamente no meu quarto.

— Selene, não me culpe. Eu não tive escolha. — Ela entrelaçou as mãos, nervosa. — A nova companheira de Kane, Vivra... ela é filha do Rei Alfa. Quando Kane se tornar Alfa, ela será a Luna. Os dois são perfeitos um para o outro em todos os sentidos. Eu imploro... deixe que sejam felizes.

Ela fez uma pausa, e sua voz baixou ainda mais.

— Você sabe o quanto Kane amava você. Desde que eram crianças, ele carregava você no coração. Se algum dia descobrir a verdade sobre o que aconteceu naquela época... eu tenho medo. Muito medo do que ele possa fazer.

Ela respirou fundo.

— Então, por favor. Apenas fique longe dele por um tempo. Você já está morrendo mesmo. Não é como se devesse sair de casa, certo?

No instante em que aquela palavra deixou sua boca...

"Morrendo."

Minha mãe arremessou ao chão a tigela que segurava.

A porcelana se estilhaçou.

A água se espalhou pelas tábuas de madeira.

Seu rosto ficou vermelho.

O corpo inteiro tremia de fúria.

Eu sabia que ela estava prestes a explodir.

A dizer coisas que jamais poderiam ser retiradas.

A destruir pontes que eu ainda não estava pronta para queimar.

Então segurei seu braço e o apertei de leve.

Um gesto pequeno.

Quase infantil.

"Por favor, mãe. Ainda não."

Ela baixou os olhos para mim.

A raiva em seu rosto desmoronou, dando lugar a algo mais suave. Mais triste. Mordeu os lábios e deu um passo para trás.

Voltei meu olhar para Ilsa. Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu realmente me sentia.

— Luna, posso lhe prometer uma coisa. Não vou contar a Kane o que aconteceu sete anos atrás. Mas não posso prometer que vou me afastar dele. Não consigo fazer isso.

O rosto de Ilsa endureceu.

Ela abriu a boca para argumentar, mas continuei antes que pudesse falar.

— Você não entende. Passei sete anos lutando contra essa doença. Sete anos de rituais de purificação, noites sem dormir e uma dor tão intensa que me fazia querer arrancar a própria pele. A única coisa que me manteve viva foi a esperança de vê-lo outra vez.

Minha voz vacilou por um instante. Respirei fundo e recuperei o controle.

— Então, não. Não vou me esconder nesta casa até morrer. Vou vê-lo sempre que puder. E, se isso complicar as coisas para você e sua perfeita Vivra, sinto muito. Mas não o suficiente para desistir.

Ilsa ficou me encarando. Abriu e fechou a boca algumas vezes.

Por fim, assentiu rigidamente, virou-se e saiu do quarto.

Minha mãe não disse nada. Apenas sentou na beira da cama e segurou minha mão. Encostei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos.

A verdade era que eu não tinha sido completamente sincera com Ilsa.

Sim.

Eu queria ver Kane.

Mas não porque esperasse reconquistá-lo.

Eu sabia que isso era impossível.

Agora ele tinha uma nova companheira.

Um filho a caminho.

Uma vida inteira da qual eu não fazia mais parte.

Eu só queria ficar perto dele mais algumas vezes antes de morrer.

Só isso.

Será que era pedir demais?

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