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Quatro

Author: Monik Régis
last update publish date: 2026-10-29 21:13:07

Guerreiro

Escolha ou a única alternativa? Tu prefere vê e passar fome ou fazer do seu jeito?

Ser mais um no crime é uma parada onde seu único guia tem que ser a própria mente. Vender é diferente de usar. A maioridade escolhe ser mais um nesse mundão, já eu quero ser diferente, quero ser privilegiado não apenas pela luta de chegar onde quero dentro do tráfico.

Cada dia nessa vida é uma escadinha, cada dia você sobe um degrau por mais pequeno que seja.

Hoje sou visto como um dos maiores traficantes da comunidade. Tenho gerência dentro da boca de fumo principal, e também 157.

A sensação da primeira arma e do primeiro radinho não tem igual. Nós nos sentimos poderosos.

— O que tu quer, menor? — A voz do Gutie atinge minha audição. Ele se posiciona para o moleque que se aproxima.

— Pô, eu preciso de dois pinos. — a voz baixa e cautelosa é prevalecida dos lábios do moleque.

Do meu canto, com meu boné no rosto admiro a cena, minha íris séria observa o exato momento que o moleque de tom de pele negra e baixo enquadra Gutie. Jogo mais ou menos uns doze anos pra ele.

— Quantos anos tu tem, menor? — Gutie investiga.

— Doze... — a voz na defensiva mais uma vez fala.

— Está nessa há quanto tempo?

— É pro meu pai...

— Aí, só vende e para de fazer essas perguntas. — minha voz grossa sai entre meus lábios, Gutie vira o pescoço, me olhando por cima do ombro e balança levemente a cabeça.

Gutie entrega dois pinos de cocaína para ele, sem muita enrolação o menor entrega o dinheiro trocado, fazendo Gutie guardar no bolso.

Sobrepõe várias táticas e uma delas é ser um refém de família dependente, assim como ele está sendo. Pais são rasos, qualquer relacionamento que um dia pode sentir ódio da sua própria família é raso. Amor de família talvez seja uma maldição, cresci com isso na minha mente, sempre fui influenciado por meu pai e ele sempre prevaleceu essa parada desde quando fui menor.

— Precisamos de lazer, tem uma conhecida minha elaborando um churrasco na laje, vou brotar...— Patatá se aproxima.

Analiso Gutie jogar os pacotes dentro da mochila, calado.

— Coé, vamos brotar! — Mais uma vez Patatá chama olhando na minha direção e na direção do Gutie.

Permaneço calado.

— Vou brotar para aqueles lado mermo. — Ouço Gutie afirmar.

— E você? — Patatá olha firme no meu rosto.

— Não. — apenas essa palavra é o suficiente para responder da minha boca.

— Qual foi, tu só fica aí, precisa de uma mulher pra te satisfazer, bebida e ouro.— Patatá fala e solta uma risadinha debochada. — Precisa de mais que isso?

— Brota você, falei que não tô afim. Tá surdo?— murmuro, ajeitando minha corrente de ouro fina por cima da minha camiseta escura.

— Tú é amarelão mermo, não brota em lugar nenhum, faz quanto tempo que não fica com alguém? — Impaciente, encaro Patatá.

— Pergunta pra sua mãe que ela vai saber te responder...

— Se liga nesse teu papo — aponta o dedo na minha direção — Mas a sua mãe é mais gostosa, coroa gostosona pra valer. — Com um tom de ironia, Patatá tenta me provocar.

— Aproveita que ela está solteira. — Ergo minha mão direita, fazendo um jóia.

Saio de dentro da boca de fumo em direção as ruas mais afastadas. Com meus passos calmos nem olho pra trás e em uma certa distância a moto já invade minha visão.

Em passos devagares enfio minha mão direita sobre o bolso da minha bermuda, tirando de dentro a chave da minha moto entrelaçado em um cordão com o símbolo de uma guerrilha. Coloco a chave na ignição e passo minha perna direita sobre a moto, dessa vez passando meu boné para trás. Em seguida ligo, pilotando em direção a casa da minha mãe.

São questões de minutos para atravessar pequenos becos e vielas, até me aproximar do local. Meu corpo manuseia a moto com facilidades em pequenos locais até chegar no ponto final da casa da minha mãe.

Deixo a moto em frente a casa e desço, despertando a atenção dos vizinhos. Sério ergo meu olhar, analisando de relance eles desviarem a atenção quando percebem a minha feição.

— Quem é vivo sempre aparece... — A voz da Rafaela invade minha audição quando entro na casa.

— Cadê a sua mãe?

— "Sua mãe" é conversa, sou sua mãe também. — Cíntia aparece pelo corredor pequeno.

— Fiquei sabendo que tá descendo o asfalto todo dia... — Falo, olhando-a.

— Quando você aderir a palavra educação, vem conversar comigo! Desde quando fica acompanhando o que faço?

— Desde quando sua filha falou que você não para em casa.

— Você igualzinho seu pai mesmo...— nega levemente. — Vai acabar igual seu pai, na cadeia!

— Se eu for, o caô vai ser meu, já é? — aponto meu dedo na sua direção. — Não precisa lamentar depois e ir me visitar igual tá fazendo com meu pai. Fala, fala e no final engole as próprias palavras— respondo o mais sincero possível.

— Vai acabar sem mulher, sem filho e sem nada, Guerreiro. — seus olhos escuros me observam. — Não importa o que eu faço ou deixo de fazer, afinal, você nunca se importou.

— Não vim aqui pra desabafar com histórias tristes. Tá descendo pra lá sem ser dia de visita pro seu marido Cintia… — Me refiro ao meu pai.

— Vão começar de novo? — A voz da Rafaela é nítida de desprezo.

Meu rosto continua focado no rosto da minha mãe. Solto uma respiração forte.

— Mulher de bandido como o Russo, pra sempre é mulher dele, principalmente com seus dois filhos. — Aperto a chave da minha moto entre meus dedos. — fica esperta! — dou apenas uma olhada em seu rosto antes de sair pelo mermo caminho.

(...)

___

Patatá:Brota no churras.

__

Marcela:Churras hoje?

_

Simone: Teu parceiro te quer no churras na minha laje, te aguardo!

__

— Que inferno.- murmuro indo até o banheiro ligando o chuveiro e tirando minha bermuda junto com a cueca.

A água fria desliza sobre o meu corpo, fecho os olhos levemente quando sinto o contato dela descendo da minha cabeça até meus pés com urgência. Começo a ensaboar meu corpo e fico cerca de uns quinze minutos tomando banho.

Enrolado na toalha, saio do banheiro. Visto uma cueca preta, bermuda jeans e uma camiseta na cor marrom de gola.

Depois de estar com um perfume passado e hidratante, eu penteio meu cabelo. Relógio no pulso e cordão de ouro fino no pescoço.

Olho o espelho meio trincado na minha frente intensificando meu rosto. Dou apenas mais uma última olhada saindo em direção às escadas e logo pra garagem onde tiro meu sonata preto. Enfio meu corpo dentro do carro, de cima do painel pego uma bala de melancia e direciono até minha boca.

Um tempo depois estou subindo a laje onde está acontecendo o churrasco da Simone. Engraçado que eu falei dando que iria vir, mas aqui estou.

Alguns no local me cumprimentam, outros desviam a atenção. Aproximo da onde um bonde está em mãos ou menos cinco homens e ao lado algumas mulheres, entre elas, a Marcela.

— Todo gostoso. — Marcela vem a minha direção na intenção de marcar território.

— Eu ou a grana? — Ironizo.

— Sabe que os dois.— Ela abre um sorriso.

Marcela dá uma volta à minha frente, mostrando o vestido curto e colado no seu corpo. A cor vermelha intensifica sua face e sua curvas.

— Não quer tocar? — Pergunta.

— Ih, geral aqui tá vendo, garota. — Patatá solta uma risada acompanhada com os outros.

— Chatona demais… — Reclamo.

— Sabia que tu ia brotar. — Assim que me aproximo, Patatá fala.

— Meu parceiro tá na casa. — o contato da mão do Ratinho vem no meu ombro e um abraço de lado me mantém com raiva. — sem estresse por hoje, meu gostosão. Tá na casa dos trinta anos e é perigoso estresse. — Segura o copo com a outra mão, grudado no meu pescoço.

— Solta logo. — Ergo minha mão, tirando-o de perto.

No meu canto, acendo um baseado. O fogo sobressalta sobre minha visão diante do local iluminado pelas luzes amarelas na minha mão quando acendo o baseado.

Uma rápida absorção retrai o meu corpo. Uma energia ardente por toda minhas veias, fazendo ferver a cada canto dela. Meu coração bombeia um sangue mais rápido, despertando minha mente perturbada demais.

Ela está aqui...

Com a mão direita trago o baseado entre meus lábios. Uma sagacidade e minha visão, direciono em um único local.

Poucos metros de distância entre umas mesas, na mesa da dona da casa estaria sentada após receber os amigos. Meu olhar b**e em um rosto pequeno e os olhos fixados na minha direção.

Fixo na minha direção…

O cabelo cacheado solto enaltece seus traços. Percorro meu olhar até na sua altura do peito sem nenhum decote, é o que a mesa permite o acesso de vê-la. Mas daqui consigo analisar suas duas mãos entre suas pernas, certamente apertando sobre a calça jeans clara. Não tem ninguém sentado à sua frente, isso favorece a minha visão.

Ergo meu rosto. Nossos olhares se encontram mais uma vez.

Solto uma fumaça fraca ao afastar o baseado, deslizando minha língua quente por meus lábios à favor de sentir o gosto, e seus olhos rapidamente desviam para outro local.

Jéssica.

— Dança demais, amiga. — A voz da Marcela me tira do transe.

Nesse momento percebo que tem algumas mulheres tentando impressionar a nossa frente...

Nem um pouco convencido, volto minha atenção para a mesa, o mesmo local há segundos atrás. Dessa vez ela não está mais na mesa. Olho em volta, na laje, mas a lotação é intensa. Pessoas indo e vindo dificultam encontrá-la novamente. Trago mais uma vez meu baseado, soltando a fumaça para longe.

Que inferno…

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