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Meu Doce Amor (livro completo)
Meu Doce Amor (livro completo)
Author: Aquino

Capítulo 1

Author: Aquino
last update publish date: 2021-08-05 09:49:32

Lara

Meu nome é Lara e aprendi cedo: reclamar não paga as contas e muito menos cura ressaca.

Enquanto meio mundo prefere chorar pelos cantos, eu prefiro dançar. Literalmente. O mundo já é pesado demais; se eu não fizer da minha vida uma festa, quem vai fazer? Entre um drama e outro, eu escolho o salto agulha de quinze centímetros e a pista de dança.

A verdade nua e crua? A gente nunca sabe quando será o último gole, o último beijo ou o último pôr do sol. Por isso, eu vivo. Sem medo. Sem freios. E, principalmente, sem pedir desculpas por ocupar espaço.

Mas não se engane, nem tudo em mim é purpurina e batom vermelho. Minha família é mestre em me tirar do sério. É uma sucessão de cobranças, críticas veladas e um roteiro pronto de "boa moça" que eu me recuso a assinar. E é exatamente por isso que hoje vou me jogar sem culpa.

Hoje à noite, o destino é a Blackout, a nova boate da cidade que todo mundo está comentando. Dizem que o som é tão alto que faz o coração mudar o ritmo e que as luzes são capazes de apagar qualquer lembrança ruim. É exatamente do que eu preciso.

Eram seis da tarde quando entrei em casa, jogando as chaves sobre o aparador de mogno que minha mãe polia obsessivamente todos os dias. O cheiro de desinfetante de lavanda e assado de domingo — que ela insistia em fazer mesmo sendo uma terça-feira — me atingiu como um soco.

— Lara, é você? — a voz da minha mãe veio da cozinha, carregada daquela expectativa passivo-agressiva que só ela domina.

— Sou eu, mãe. Estou subindo para tomar banho. Vou sair.

Ela apareceu no corredor, secando as mãos no avental impecável. Meus pais estão casados há mais de trinta anos. Um milagre moderno ou uma teimosia patológica, eu ainda não decidi. Meu pai, um homem calado e paciente, aguentava as eternas reclamações dela como um monge zen em meditação profunda.

— Sair de novo? No meio da semana? — Ela cruzou os braços, os olhos avaliando minha roupa de trabalho como se procurasse uma mancha na minha reputação. — Você vai acabar sozinha, Lara! Sua irmã, a Leila, está certa. Arrumou um bom partido, um homem que pode dar a ela um futuro, estabilidade, uma família de verdade.

Respirei fundo, sentindo o nó na garganta.

— Futuro, mãe? Desde quando um homem é sinônimo de futuro? Eu sou meu próprio futuro.

— Não seja insolente. Você sabe do que estou falando. A Leila tem um diamante no dedo e uma casa em condomínio fechado. E você? Tem o quê? Ressacas e sapatos que custam o dobro do que você ganha no estágio?

— Eu tenho a minha liberdade — retruquei, subindo o primeiro degrau da escada. — Eu não quero viver a vida da Leila, mãe. Não quero ser uma boneca na estante de um homem rico, sorrindo para fotos de I*******m enquanto chora escondida no closet porque o marido não a toca mais. Se for para casar, que seja por um amor que me faça perder o juízo, não por um saldo bancário.

— Você vai passar da idade... depois vai ser tarde demais. Os homens não procuram mulheres com a língua tão afiada quanto a sua quando querem algo sério.

Parei e olhei para ela.

— Então que não me procurem. Eu não sou um produto com data de validade, dona Márcia. Se eu ficar solteira curtindo a minha vida, que assim seja. Eu sou livre. Entenda isso de uma vez.

Bati a porta do quarto, mas ainda pude ouvir o suspiro dramático dela lá embaixo. Ela não entendia. Para ela, o amor era uma transação comercial segura. Para mim, era fogo ou nada.

Liguei o chuveiro no máximo, deixando a água quente relaxar meus ombros tensos. Enquanto o vapor subia, meus pensamentos voaram para Hadiya.

Minha melhor amiga. Minha irmã de alma. Hadiya era meu oposto em tudo. Ela tinha uma doçura que o mundo tentava esmagar, mas que ela insistia em manter. Ela acreditava em destino, em almas gêmeas e em fios vermelhos que conectam as pessoas através do tempo. Eu? Eu acreditava em dopamina e testosterona. No aqui e no agora.

Às vezes, eu me sentia culpada por ter sido a voz no ouvido dela, incentivando-a a "viver um pouco". Lembro-me perfeitamente da tarde em que fomos para a praia e ela confessou que ainda era virgem, aos vinte e dois anos.

— Hadiya, você precisa perder logo essa virgindade. Está esperando o quê? O casamento? O príncipe montado no cavalo branco que vai te resgatar de uma torre que nem existe? — eu disse, rindo enquanto passava bronzeador.

Ela me olhou com aqueles olhos grandes e melancólicos, sempre parecendo ver algo além do horizonte.

— Eu queria que fosse especial, Lara. Queria que fosse com ele.

"Ele". O tal amigo de infância que sumiu sem deixar rastros, deixando apenas uma promessa vazia e um buraco no peito de uma menina romântica.

— Ele foi embora, Hadya. Faz anos. Ninguém merece congelar a vida por um fantasma do passado. O cara não está aqui, mas o seu corpo está. Sinta-se viva!

Ela acabou me ouvindo. Teve uma noite com um cara qualquer da faculdade. Se arrependeu? Talvez. Ela nunca me culpou, mas o brilho nos olhos dela pareceu ficar um pouco mais opaco depois daquela noite. E isso me assombrava.

Eu queria vê-la feliz, mas talvez a minha felicidade fosse barulhenta demais para o silêncio que ela carregava no coração.

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