— Dona Sofia, a senhora não vai me perguntar o motivo? — Indagou Juliana. Ela limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão, ajudou a senhora a se sentar no sofá da sala e foi até a cozinha buscar um copo de água para que ela se acalmasse.
— O Cláudio me contou que vocês brigaram por causa de filhos e que ele passou a noite fora. — Comentou Sofia, pegando o copo. — Ele continua não querendo ter um bebê?
Balançando a cabeça, Juliana suspirou:
— Dessa vez, quem não quer sou eu. Ele exigiu que eu largasse o meu trabalho para ficar em casa, esperando engravidar, e para virar uma simples dona de casa.
— Mas que pensamento mais atrasado! Isso é pior do que no meu tempo! — Irritou-se Sofia, elevando a voz. — Será que ele subiu na vida e agora acha que você não é boa o bastante para ele? Que audácia da parte dele. Quando o seu projeto for lançado, vai ter uma multidão implorando para falar com você. Como ele ousa tratar o nosso maior talento como se fosse uma empregada particular?
Ouvir aquelas palavras de apoio fez o nariz de Juliana arder, e ela não conseguiu segurar a verdade que estava presa na garganta:
— O verdadeiro problema não é esse, dona Sofia. Ele não me ama de verdade. O Cláudio só casou comigo para provocar a Melissa, mas, para a tristeza dele, ela não apareceu no dia do nosso casamento.
— Quem? — Questionou Sofia, achando o nome familiar. Ela repetiu a palavra duas vezes antes de perguntar. — Você está falando daquela neta do Henrique que foi estudar no exterior?
— Sim, ela mesma. — Confirmou Juliana, abaixando a cabeça.
— E como você descobriu essa história?
— Acabei escutando uma conversa por acaso. — Juliana começou a relatar tudo o que ouviu naquele dia triste. Porém, antes mesmo de terminar de contar os detalhes, sentiu sua mão ser puxada com força. Sofia já a arrastava em direção à porta da rua.
— Isso é um absurdo sem tamanho! Eu mesma vou te levar no melhor advogado da cidade. Vamos preparar os papéis do divórcio hoje, e aquele cafajeste vai ter que assinar logo! — Exclamou Sofia.
Tudo no escritório de advocacia foi resolvido bem rápido. As folhas recém-impressas do acordo de divórcio ainda estavam mornas, mas, para Juliana, pareciam arder em suas mãos. Ela ficou encarando as palavras no papel durante um longo tempo, perdida em pensamentos, até que enfim pegou a caneta e assinou o seu nome.
Depois de saírem do escritório, ela e Sofia passearam pelo shopping, compraram algumas roupas novas e jantaram juntas. A noite já estava escura quando Juliana voltou para casa, enfrentando o vento frio da rua. Ao se aproximar, percebeu que as luzes da sala estavam acesas, indicando que Cláudio já havia chegado do trabalho.
Contudo, ele não estava sozinho. A família Santos inteira estava lá. Rosiane tinha sofrido um machucado leve e decidiu que não queria ficar no hospital. Como ela odiava o cheiro de remédio de hospital e achava a comida de lá sem gosto, resolveu se instalar na casa do irmão. A intenção dela era clara, pois ela queria que Juliana trabalhasse como sua cuidadora particular durante a recuperação. O problema é que, assim que chegaram e viram a marca vermelha de um tapa no rosto de Cláudio, a família Santos ficou furiosa.
— Foi a Juliana que te bateu? Fala a verdade! — Exigiu Maria, a sogra. Como o filho continuou calado, ela percebeu que ele estava tentando proteger a esposa, como sempre fazia. — Você acha que somos bobos e não conseguimos adivinhar? Quem mais teria coragem de levantar a mão para você? No seu trabalho, você é o diretor mais importante, e a Melissa é uma moça tão educada que jamais faria uma coisa dessas.
— Por que a Juliana fez isso, Cláudio? — Rosiane se intrometeu, pronta para defender o irmão. — Você dá comida, compra roupa e banca a casa para ela morar. Do que mais essa ingrata pode reclamar? Levantar a mão para você é o fim da picada. Quando ela chegar, eu vou dar um jeito nela!
A voz da cunhada carregava muita raiva. Rosiane sempre adorou inventar confusão para prejudicar as pessoas de quem não gostava, e a sua vítima favorita era justamente a cunhada, a quem considerava uma mulher inútil.
— Foi mesmo a Juliana que te agrediu? — Perguntou Pedro, o sogro, com a voz grossa e severa.
— Eu também bati nela. — Confessou Cláudio, desviando o olhar.
— Ela mereceu cada pancada! — Retrucou Maria, indignada. — Onde já se viu uma mulher ter a audácia de bater no próprio marido?
— É isso mesmo! Qual é o problema de você dar uma lição nela? — Concordou Rosiane, cheia de razão. — Se a Juliana não tivesse te conhecido, ela nunca teria dinheiro para conviver com pessoas do nosso nível social.
Após pensar por alguns minutos, Pedro tomou uma decisão:
— Meu filho, você precisa pedir o divórcio da Juliana.
Franzindo a testa, o homem protestou:
— Pai, não começa!
Do lado de fora da porta, Juliana escutava tudo de cabeça baixa. Ela apertou os papéis do divórcio que segurava na bolsa e pensou que aquela situação era perfeita. Era melhor se separar de uma vez por todas. No entanto, ela foi surpreendida pela recusa firme do marido.
— Não. Eu não vou me separar dela. — Afirmou Cláudio.
— E por que não? — Maria se queixou, sentindo até dor de cabeça de tanto nervoso. — Essa mulher te enfeitiçou, meu filho? Por que você continua insistindo nesse erro? Tem tanta moça de boa família por aí. A Melissa, por exemplo, é maravilhosa. Por que você teima em ficar sofrendo com a Juliana?
— Você não quer se separar para poder casar com a Melissa, Cláudio? — Questionou Rosiane, curiosa. — Vocês sempre se deram tão bem no passado. A gente sabe que vocês nunca assumiram namoro, mas todo mundo percebia o clima entre os dois.
No corredor, os lábios de Juliana formaram um sorriso de desprezo. Ela sabia muito bem o motivo. Cláudio jamais deixaria a preciosa Melissa enfrentar as tarefas cansativas e a rotina chata de um casamento real.
— Você está com medo de que uma separação manche a sua imagem lá na empresa? — Analisou Pedro, tentando ser lógico. — Até onde eu me lembro, você nunca levou a Juliana para nenhum evento importante, nem mesmo para a festa de fim de ano da firma. Quase ninguém sabe que você é casado e menos pessoas ainda sabem quem é a sua esposa. Você não precisa se preocupar com fofocas.
A verdade é que a família Santos tinha ficado encantada com o jeito carinhoso de Melissa e não queria mais saber de Juliana como nora. Todos estavam decididos a forçar o divórcio.
Apesar da pressão, Cláudio continuou batendo o pé.
— Eu já falei que não vou me divorciar. E façam o favor de não repetir esse tipo de assunto na frente da Juliana. — Ordenou ele, levantando-se do sofá e indo se trancar no escritório, fugindo da discussão com a família.
Os parentes dele achavam que Cláudio estava louco de amor pela esposa. Mas Juliana era a única que conhecia a verdadeira razão de ele não querer a separação. Se eles terminassem, onde ele iria arrumar uma empregada de graça que ficasse à disposição dele a qualquer hora do dia e da noite? Ela podia não ser uma cozinheira profissional, mas ao longo dos anos acabou acostumando mal o paladar do marido com a sua comida caseira.
Juliana guardou os documentos com cuidado na bolsa. Não importava a vontade de Cláudio. Ela ia dar um jeito de se divorciar dele, nem que precisasse fazer tudo escondido. Ela esperou mais alguns minutos no corredor até sentir que a confusão lá dentro tinha diminuído. Só então ela digitou a senha na porta e entrou.
Ao escutarem o barulho da fechadura, os membros da família Santos viraram o rosto na direção dela, todos com expressões de reprovação.
— Por que você demorou tanto para voltar, Juliana? — Reclamou Rosiane de braços cruzados. — Estamos morrendo de fome, principalmente o Cláudio. Você sabe que ele ataca do estômago se não comer na hora certa.
Depois de dar a bronca, a cunhada olhou para os chinelos cor-de-rosa de coelhinho que Juliana usava e fez uma careta de nojo.
— Você já está quase fazendo trinta anos. Por que continua usando essas coisas rosas de criança? Que coisa mais boba.
Juliana encolheu os dedos dos pés, mas no fundo achava aqueles chinelos muito bonitos. Aquele calçado representava o carinho de outra pessoa por ela. Para alguém que cresceu em um orfanato e passou a vida inteira apenas estudando, sem saber fazer amigos, receber bondade era algo raro. Por isso, aquele presente simples tinha muito valor e ela nunca iria jogá-lo no lixo.
Com preguiça de olhar na cara da nora, Maria mandou ela ir logo preparar a janta e aproveitou para dar uma ordem:
— Não esquece de fazer uma comida bem leve, com bem pouco sal. — Ela falava isso porque Pedro sofria de pressão alta.
— Tudo bem, entendi. — Respondeu Juliana. Ela caminhou direto para a cozinha, mas em vez de pegar as panelas, tirou o celular do bolso e pediu comida por aplicativo. Ela tomou o cuidado de escolher pratos com tempero suave e marcou a opção de tirar o sal. Como eles moravam perto do centro, bem do lado de uma avenida cheia de restaurantes, o entregador chegou bem rápido.
Quando a campainha tocou, Maria foi atender a porta. Ao ver que era entrega de lanche, a mulher arregalou os olhos, sem acreditar na audácia da nora. Ignorando o choque da sogra, Juliana caminhou com naturalidade até a porta do escritório, bateu de leve na madeira e avisou:
— A comida está pronta.
No entanto, a voz dela não tinha a mesma alegria de antes. Antigamente, toda vez que terminava de cozinhar, ela ia toda feliz chamar o marido para comer. A porta do escritório sempre se abria na mesma hora, e ele dizia com um sorriso que valorizava o seu trabalho.
Dessa vez, quando Cláudio abriu a porta, aquela frase carinhosa não existiu. Os dois ficaram se encarando em silêncio, e a primeira coisa que notaram foi a marca vermelha do tapa no rosto um do outro. Nenhum deles disse uma palavra, como se os dois se recusassem a pedir desculpas.
— Vem comer logo, filho! Vem provar a comida de aplicativo que a Juliana pediu para nós. — Ironizou Maria, fazendo muito barulho enquanto arrumava os pratos na mesa de jantar.
Ouvindo isso, Cláudio fechou a cara e reclamou com a esposa:
— Por que você comprou comida pronta? Faltou alguma coisa na geladeira? Eu estava com vontade de tomar aquela sua canja de galinha quentinha.
— Aí na sacola tem canja de galinha. — Retrucou Juliana de forma curta, dando as costas e indo para a mesa.
Cláudio quase levantou a mão para segurar o braço dela, mas desistiu e seguiu a esposa, muito contrariado com a situação. A comida que veio nas embalagens de plástico não deu a menor vontade de comer nele. Como ele não tinha tomado café da manhã e agora sentia que não ia ter uma janta caseira, a paciência dele chegou ao fim.
— Até quando você vai continuar com essa birra, Juliana? — Perguntou ele, perdendo a linha.
— Eu só decidi que não vou mais cozinhar. — Respondeu Juliana, mantendo o tom de voz calmo e sem emoção. — O que isso tem a ver com fazer birra? Acaso eu nasci grudada no fogão?
Cláudio ficou sem palavras, sem conseguir pensar em uma resposta rápida. Ela pegou o garfo e começou a comer o seu próprio prato, dando uma sugestão em seguida:
— Se você não gosta de comer comida de rua, então a gente devia contratar uma empregada para cuidar da casa.
— Contratar empregada para quê? A gente já tem... — Rosiane começou a falar, pronta para ofender a cunhada, mas foi cortada no meio da frase.
— Tem razão, a gente já tem uma. — Interrompeu Juliana. Ela olhou para os sogros, que a encaravam com olhares críticos, e deu um sorriso de canto de boca. — Se vocês têm tanta pena do Cláudio assim, podiam mandar a cozinheira da casa de vocês para cá.
— Juliana! Já chega! — Estourou Cláudio. No entanto, ao olhar para o rosto um pouco inchado da esposa, ele tentou segurar a raiva e pediu com uma voz um pouco mais calma. — Por favor, trate os meus pais com respeito.
O respeito de Cláudio pelos pais e o carinho pela irmã mais nova eram sentimentos verdadeiros. Apenas a gentileza e o amor que ele demonstrava pela esposa eram uma grande mentira. Diante disso, Juliana resolveu ficar calada. Após terminarem a refeição, Pedro e Maria foram embora. Sabendo que teria que comer comida de rua se ficasse ali, Rosiane não viu outra saída a não ser ir embora junto com os pais.
A noite avançou e o silêncio tomou conta da casa. Deitada na cama, Juliana quebrava a cabeça tentando pensar em uma desculpa para não dormir com o marido. Ao mesmo tempo, ela buscava um jeito de forçar Cláudio a assinar os papéis da separação.
O som de passos pesados começou a se aproximar do quarto, fazendo o coração dela bater mais rápido de nervoso. Para o seu alívio, o celular de Cláudio tocou bem naquela hora. Aquela ligação caiu do céu para salvá-la.
— O seu celular está tocando. — Avisou Juliana. Ela pegou o aparelho na mesinha e virou para trás, dando de cara com Cláudio vestindo um roupão de banho. — É a Melissa.
Assim que viu o nome na tela brilhante, Cláudio deu meia-volta e saiu do quarto para atender. Ele não demorou nem um minuto e logo retornou, avisando que tinha surgido uma urgência e que precisava sair de casa.
— Tudo bem. — Respondeu Juliana, apertando os lábios.
O marido ficou olhando para o rosto dela por alguns segundos e tentou se justificar:
— Não vai pensar besteira. Nós somos apenas bons amigos. É você quem é a minha esposa de verdade.
— Sei disso. Pode ir tranquilo. — Concordou Juliana, querendo apenas se livrar da presença dele.
Durante a madrugada, um barulho de panelas batendo na cozinha acordou Juliana. Ela saiu do quarto bocejando de sono e viu uma pessoa deitada no sofá da sala. Era uma mulher.
Ao escutar os passos, a visitante levantou a cabeça. A boca dela estava muito pálida e uma das mãos apertava a barriga, como se ela estivesse sentindo fortes cólicas.
— Juliana? O barulho do Cláudio acabou te acordando? — Perguntou a mulher com a voz fraca.
Juliana ficou parada no lugar, encarando a pessoa, em choque. Ela não conseguia acreditar que Cláudio teve a cara de pau de trazer outra mulher para dentro de casa daquele jeito, no meio da noite.
— Me desculpa, eu não queria causar confusão para vocês. — Continuou a visita. — O problema é que moro muito longe daqui e não tenho muitos amigos para pedir ajuda de madrugada. O único jeito foi ligar para o Cláudio. Juro que não esperava que ele fosse me trazer para a casa de vocês e ainda se oferecer para fazer alguma coisa para aliviar a minha dor.
Ouvindo isso, Juliana percebeu na hora que ela só estava querendo se exibir. O que mais a deixou de boca aberta não foi a desculpa sem sentido, mas sim o fato de Cláudio estar cozinhando. Lá na cozinha, a panela fervia fazendo barulho e dava para sentir o cheiro suave e doce no ar.
O homem usava um avental e segurava uma espátula numa mão e um ovo na outra. Ele parecia perdido com as panelas e resmungava sozinho:
— Por que esse ovo frito sempre acaba queimando?
Então era assim que Cláudio agia quando estava apaixonado por alguém. Ele não era aquele homem sério e frio de sempre, mas sim um garoto atrapalhado. Ele até tinha coragem de fazer coisas que odiava por causa da mulher amada. Afinal, Cláudio sempre detestou cozinhar e odiava até mesmo chegar perto do fogão, dando a desculpa de que não suportava o cheiro de óleo e de fumaça nas roupas. Foi exatamente por esse motivo que, durante a reforma da casa, ele proibiu a cozinha aberta que Juliana tanto sonhava. Por culpa dele, ela sempre tinha que cozinhar de portas fechadas para depois levar os pratos prontos até a mesa.
— Você ainda não percebeu a verdade, Juliana? — Sussurrou Melissa, aproximando-se da dona da casa. A mulher tinha uma postura de superioridade, agindo como se fosse uma vencedora comemorando o primeiro lugar de uma corrida. — O Cláudio só ama a mim. Você só serviu como um passatempo sem importância, uma distração barata que ele usou para não ficar sozinho enquanto eu estava fora do país.