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Capítulo 2

Autor: Alyssa J
Quando voltei do hospital, vi Lily, de treze anos, usando shorts curtos, sentada no colo do meu marido, Damien. Ela estava com os braços enlaçados em seu pescoço, sussurrando algo em seu ouvido com intimidade demais para uma simples relação de pai e filha.

E meu marido, Damien, o empresário implacável que eliminava concorrentes sem piscar — permitia tudo. Com um documento em mãos, lia tranquilamente, como se aquela cena fosse a coisa mais normal do mundo.

Ao observar aquela “proximidade” exagerada, senti o estômago embrulhar.

Eu costumava alertá-lo sempre que via isso.

— Lily tem treze anos, não três. Vocês dois não deveriam ser tão íntimos assim.

Damien sempre franzia a testa e me olhava como se eu fosse um monstro.

— Aria, como você pode pensar desse jeito? Lily é insegura. Sarah morreu cedo, eu sou a única família que ela tem. É tão estranho que ela queira ficar perto de mim? Você é adulta, deveria ser mais compreensiva. Sinceramente, queria que ela fosse mais próxima de você também.

Mas desta vez eu não avancei para afastá-la numa tentativa inútil de “corrigir” a situação. Não gritei.

Passei pelo sofá sem dizer uma palavra, ignorei completamente os dois e fui direto para o quarto.

A voz de Lily veio atrás de mim, doce demais, quase provocativa.

— Papai, ela está brava comigo? Foi errado pedir para você me ajudar com a lição de casa?

A resposta de Damien veio logo depois, desdenhosa como sempre.

— Ela só está de mau humor. Eu resolvo isso. Não se preocupe com ela. Foque em ser feliz. Vamos continuar.

Tranquei a porta do quarto e liguei para meu advogado.

— Senhora Aria, já tomou sua decisão?

Olhei para meu reflexo no espelho. Estava pálida, mas meus olhos estavam firmes.

— Tomei. Prepare os papéis do divórcio. Envie para casa amanhã.

Depois de desligar, puxei uma mala e comecei a arrumar minhas coisas.

Quando estava quase terminando, lembrei-me do quadro no escritório — a última coisa que minha mãe me deixou antes de morrer.

Deixei a mala perto da porta e fui até lá. No instante em que empurrei a porta, meu sangue gelou.

Lily estava diante da escrivaninha, espalhando tinta preta por toda a tela.

— O que você acha que está fazendo?!

Gritei e corri até ela. Lily se assustou, e um borrão de tinta preta respingou na moldura.

Ela se virou. Ao perceber que era eu, não demonstrou medo algum. Pelo contrário, sorriu de forma estranha.

— Aria. — Piscou os grandes olhos com falsa inocência, o pincel ainda na mão. — Você anda triste ultimamente, então eu quis fazer um quadro para você. Como esse é o seu favorito, pensei em estudá-lo para pintar um ainda melhor.

A raiva rompeu qualquer controle que eu ainda tivesse. Antes que ela dissesse mais alguma coisa, avancei para arrancar o pincel de sua mão.

— Para com isso! Essa é a última lembrança da minha mãe! Sua louca!

Pá!

No momento em que segurei seu pulso, ela puxou o braço de volta e deu um tapa forte no próprio rosto. Em seguida, pegou um estilete da mesa e rasgou a tela de ponta a ponta.

O som do tecido se partindo ecoou pelo escritório.

Ela se jogou no chão, derrubando o cavalete.

— Ah! Papai! Socorro! Papai!

Os gritos agudos ecoaram pela mansão.

Fiquei parada, imóvel, encarando o quadro destruído no meio da bagunça, sentindo como se um pedaço do meu coração tivesse sido arrancado.

A porta se abriu violentamente e Damien entrou às pressas. Ele viu Lily no chão, coberta de tinta, uma marca vermelha viva estampada no rosto, ofegando entre soluços.

— Aria! Que diabos está acontecendo aqui? - Ele olhou pra mim.

Lily se levantou cambaleando e se atirou nos braços dele, tremendo. Apontou para mim enquanto chorava convulsivamente.

— Ela... Ela disse que eu estraguei o escritório... Pegou meu pincel e me bateu... Papai, eu não fiz por mal, eu só queria pintar algo para deixá-la feliz...

O olhar de Damien se tornou afiado.

— Aria, você passou dos limites! Ela tem treze anos! Como pôde bater em uma criança? Mesmo que ela tenha cometido um erro, você deveria ensiná-la, não agredi-la. Esse é o seu papel como madrasta.

Ao olhar para aquele homem incapaz de distinguir o certo do errado, senti vontade de rir.

— Olhe direito. — Apontei para a tela rasgada, minha voz rouca. — Ela destruiu a última lembrança da minha mãe.

— É só um quadro! — Damien rugiu. — Um quadro é mais importante que uma pessoa? Olhe o que você fez com a Lily! O rosto dela está inchado!

— Eu não bati nela. — Encarei-o friamente.

— Cala a boca! — A expressão dele ficou fria. — Ela é só uma criança. Você acha que ela se bateria sozinha? Eu deixei passar o incidente da piscina, mas desta vez você foi longe demais!

Ele deu um passo em minha direção.

— Aria, eu realmente me enganei sobre você. Achei que fosse gentil e generosa. Mas você é capaz de bater em uma criança. Peça desculpas para a Lily. Agora.

— Pedir desculpas?

Repeti as palavras, olhando para o homem que amei por três anos.

Entreguei a ele meu coração inteiro, em troca, recebi meu pai em estado vegetativo e a última herança da minha mãe destruída.

Sarah escolheu salvar a vida dele. Foi uma decisão dela.

Mas isso não significa que eu tenha que sacrificar tudo o que amo por ele e pela filha adotiva dela. Por que eu deveria pagar o preço da sua gratidão?

— Damien, vamos nos divorciar.

Respirei fundo. Não me dei ao trabalho de explicar mais nada. Só disse isso calmamente.
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