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Às sete da noite, ajustei o nó da gravata de crochê de seda diante do espelho do meu closet. O terno sob medida encaixava com precisão cirúrgica nos meus ombros. Borrifei um perfume de notas amadeiradas, peguei minha carteira, o celular e as chaves do carro, e comecei a descer a escadaria principal da minha casa. No saguão, a cena que encontrei fez meu sangue ferver instantaneamente. Thiago estava jogado em um dos sofás de couro italiano, com o corpo inclinado para trás, mexendo no celular. Mas o detalhe sórdido era o seu par de sapatos impertinente apoiado bem no centro da mesa de centro de madeira nobre. Ao lado dele, o senhor José — um homem de sessenta e cinco anos, que trabalhava conosco há mais de três décadas e que tinha mais classe no dedinho minguante do que Thiago no corpo todo — pedia educadamente para que ele tirasse os pés dali. — Você perdeu a audição, Thiago? — minha voz ressoou pelo saguão com a firmeza de um chicote. Thiago tomou um susto, recolhendo as pernas num movimento brusco. Mas, antes de se recompor, lançou um olhar de puro desprezo na direção do senhor José. — Relaxa, pai. Só estava descansando as pernas. — A mesa de centro não é descanso de pé — falei, descendo os últimos degraus com passos pesados. — E o José não é seu empregado pessoal para ficar limpando a sujeira do seu sapato. — Ele é pago para cuidar da casa, não é? — Thiago deu de ombros, com uma audácia que me fez cerrar os punhos ao lado do corpo. — Eu sou o dono desta casa. Eu pago o salário do José e ele tem a minha total confiança — respondi, entredentes, parando a um metro de distância dele. — Ele ajudou a te trocar quando você era um bebê rançoso. Você devia demonstrar o mínimo de respeito pela história dele aqui. Na próxima vez que eu flagrar você tratando qualquer pessoa desta casa com esse tom, nós vamos ter um problema seríssimo que a sua mesada não vai resolver. Entendeu? Thiago bufou, virando a cara. Respirei fundo e me voltei para o idoso, que mantinha uma postura resignada. — José, por favor, deixe isso para lá. O senhor está liberado por hoje, vá descansar. — Muito obrigado, menino Leonardo — o senhor José respondeu, abrindo um sorriso gentil e sincero antes de retirar-se discretamente para a área de serviço. Girei sobre os calcanhares e caminhei em direção à garagem, ouvindo os passos pesados e inconformados do Thiago logo atrás de mim. — Você não precisava me humilhar na frente dele... — ele começou, assim que cruzamos a porta da garagem. Entrei no SUV preto, ajustando o banco. Assim que ele bateu a porta do passageiro, encarei-o de lado com o olhar mais gélido do meu repertório. — Se o próximo assunto da sua boca for sobre o José, eu sugiro que você desça do carro e vá de táxi. Ele fechou a cara e optou pelo silêncio, afundando no banco do passageiro e voltando a encarar a tela do celular. Liguei o motor e acelerei em direção ao centro de convenções onde o desfile seria realizado. O trânsito de Chicago fluía bem, mas a minha mente estava estranhamente agitada. Eu odeio multidões, odeio o piscar dos flashes dos paparazzi e odeio ainda mais o ambiente corporativo de eventos sociais, onde homens de negócios passam a noite medindo forças para ver quem aparenta ser mais poderoso. Por mim, eu teria assinado a liberação dos seguros das joias e ficado em casa lendo um bom livro. No entanto, à medida que nos aproximávamos do local, uma sensação estranha e persistente começou a se instalar no meu peito. Não era ansiedade, nem irritação. Era uma intuição magnética, um pressentimento nítido de que a rotina que eu vinha arrastando há anos estava prestes a sofrer um abalo sísmico. Algo naquela noite seria diferente. E, pela primeira vez em muito tempo, minha mente não estava focada nos negócios, mas na urgência inexplicável de pisar naquele evento.— Então, Sofia... — Falo o nome dela, provando-o em minha língua como um doce proibido, uma fruta proibida que eu sei que não deveria provar. — Está com projeto novo? — Pergunto, tentando manter a conversa fluindo, tentando prolongar aquele momento que parece tão frágil e tão precioso.— Sim, uns dois. Se eu não me engano. — Começa a comer, seus movimentos graciosos, cada garfada uma dança, cada mordida uma poesia.— Aqui está, senhor. — O senhorzinho coloca meu pedido na minha frente, o aroma doce do morango invadindo meus sentidos como uma promessa de perigo e prazer. Agradeço e encaro o prato, mas não toco, paralisado pelo medo e pelo desejo que lutam dentro de mim.— Vai viajar? Ficar por aqui? — Ela olha para o meu prato e depois para mim, seus olhos curiosos, tentando decifrar o enigma que eu pareço ser, o homem que veio de um mundo tão diferente do dela.— Por agora não pretendo ir a lugar algum. — Pego a colher com mão trêmula, sentindo o metal frio contra meus dedos. — Soment
— Não sei. — Dá de ombro, sorrindo de lado. — Sou muito ocupada, sabe? — Pisca os olhinhos e rio, sua risada contagiante, um som que parece música para meus ouvidos, uma melodia que eu quero ouvir repetidamente.— O de sempre, Sof? — O menino pergunta e me olha de relance, claramente desafiador, como um cachorrinho tentando proteger seu território contra um invasor. — Cadê seu namorado? — Pergunta, dando ênfase na palavra "namorado", me encarando com hostilidade disfarçada de curiosidade.— Sim, querido. E deve estar na casa dele, não sei. — O responde com toda a educação, sua voz doce mas firme, como se estivesse estabelecendo limites sem precisar levantar a voz. Ele sorri e vai fazer o pedido dela, mas não sem antes me lançar outro olhar de desaprovação, como se eu fosse um intruso em seu território, um lobo em meio a ovelhas.— E o senhor? — Me viro para o homem, e sua pergunta me pega desprevenido, como uma onda inesperada em um mar calmo.— É... — Olho para tudo que tinha ali — a
Subo novamente para o meu quarto e escovo meus dentes com movimentos mecânicos, o sabor da pasta de menta não conseguindo despertar meus sentidos adormecidos. Pego minhas coisas que preciso levar para o escritório — a pasta de couro italiana, o celular que nunca para de tocar, os óculos de leitura que uso cada vez mais, testemunhas silenciosas do passar dos anos. Saio da mansão e entro no meu carro, o motor roncando suavemente como um animal adormecido, e dirijo na direção da minha empresa, o trânsito de Chicago se movendo lentamente ao meu redor como um rio de metal e vidro, cada carro uma história, cada motorista um destino.Paro no sinal vermelho, apoio o braço na janela e olho para o outro lado da rua, sem nenhuma razão aparente, apenas o desejo de me distrair dos pensamentos que me assombram. Meu coração para quando a vejo. Ela está de saia, blusa branca e sapato também branco, seu cabelo preso em um rabo de cavalo que balança suavemente com seus movimentos, como se dançasse ao v
Solto um suspiro pesado, sentindo o peso do mundo sobre meus ombros — o peso das responsabilidades, das expectativas, do legado que carrego — e volto a me concentrar no meu café da manhã, começando a ler minha agenda no meu tablet. Os números e compromissos se misturam diante dos meus olhos, uma névoa de informações que não consigo processar. Minha mente ainda está presa na imagem da loira de olhos azuis — seus cabelos dourados como trigo ao sol, seu sorriso que iluminou a passarela como um farol na escuridão, seus olhos que encontraram os meus como se houvesse um segredo antigo entre nós, uma conexão que transcendia o tempo e o espaço.Pela minha agenda, terei três reuniões hoje, sendo uma delas com a nova contratada da minha empresa para ser a modelo oficial da mesma. Eu não faço parte da equipe que faz a escolha de modelos, não dou minha opinião e deixo isso sempre com eles. Cada setor tem seus especialistas, e eu aprendi a confiar em suas decisões — uma lição dura que custou caro
A manhã seguinte amanheceu cinzenta, nuvens pesadas e ameaçadoras cobrindo o céu de Chicago como um presságio de tempestade iminente. O ar estava carregado, pesado, como se a própria cidade estivesse prenunciando a tempestade emocional que se formava dentro de mim. Os raios de sol que teimavam em atravessar as nuvens pareciam fracos, impotentes diante da escuridão que se instalara em meu peito. Sentado à mesa de jantar, com uma xícara de café fumegante entre as mãos — o vapor subindo em espirais dançantes que se dissipavam no ar frio —, eu tentava processar os eventos da noite anterior, cada imagem gravada em minha mente como se tivesse sido esculpida em pedra com um cinzel impiedoso.Ótimo, fui me interessar justamente pela namorada do meu filho... Maravilha! Não tem nada melhor que isso, não é mesmo? A ironia do destino era tão cruel quanto cômica. Dos milhões de mulheres em Chicago, a única que despertou algo em mim depois de anos de apatia emocional tinha que ser a namorada do meu
— Querida, estava linda. — Beijou meu nariz com carinho, seus olhos brilhando de orgulho paterno. — Como sempre. — Piscou o olho, e senti um pouco do amor que sempre me faltou em outros lugares.— Obrigada, papai. — Thiago saiu de trás dele, parando ao lado do pai, que não estava com a cara muito boa, seus olhos escuros fixos em mim de uma forma que me fazia sentir descoberta, como se ele pudesse ver através de todas as minhas camadas.— Terei que ir para casa, querida. Amanhã tenho uma viagem de última hora. — Confirmo e o abraço com força, sentindo o cheiro familiar de seu perfume. — Mas, parabéns por mais uma conquista. Sua mãe e irmã vão ficar, seu irmão... Saiu com algumas das modelos. — Dou risada, tentando aliviar a tensão que pairava no ar.— Eu já estou indo também, pai. — Thiago se aproxima e me puxa para si com um movimento brusco, suas mãos frias em minha cintura.— Eu vou levá-la para sair, senhor Almeida. — Disse, e meu pai o encarou sério, mas nada disse. Seus olhos, no







