LOGINA calmaria após a tarde no shopping durou muito pouco. Apenas dois dias se passaram, mas o peso do tempo parecia desacelerar a cada minuto que me aproximava da data do casamento. Eu continuava trancada naquela casa modesta, cuidando das tarefas domésticas como um autômato, tentando manter a mente ocupada para não enlouquecer com o medo do que viria a seguir.
Naquela tarde de quinta-feira, enquanto limpava a pequena mesa da sala, o som característico de dois carros de alto padrão parando na rua me fez paralisar. O ronco grave dos motores e o bater de portas pesadas ecoaram pela rua estreita. Instintivamente, o nó no meu estômago voltou a se apertar. Segurei o pano de prato com força contra o peito e fui até a janela, espiando pela fresta da cortina gasta. Dois homens de terno escuro desceram do primeiro veículo, abrindo caminho com postura militar. Mas foi o segundo carro que capturou toda a minha atenção. Dele, saltou Matteo Santini, impecável como sempre em um terno risca-de-giz feito sob medida. Ao lado dele, contudo, havia um segundo homem. Ele parecia um pouco mais jovem, com traços físicos que lembravam vagamente o Dom, mas com uma expressão substancialmente mais relaxada e um sorriso de canto cínico no rosto. Meu pai, que estava deitado no sofá cheirando a bebida, pulou em um sobressalto ao ver as sombras dos homens se aproximando da entrada. Antes que ele pudesse ensaiar qualquer reação covarde, a porta foi aberta. Matteo passou pelo umbral com sua presença esmagadora, e o homem mais jovem o seguiu. O silêncio na sala tornou-se instantaneamente gélido e sufocante. — Dom Santini... Dário gaguejou, encolhendo os ombros e dando passos para trás até se encostar na parede. — Eu... eu não esperava a visita dos senhores hoje... Matteo nem sequer se deu ao trabalho de olhar para o meu pai. Seus olhos cinzentos e profundos ignoraram completamente a presença dele, varrendo o ambiente até encontrarem a minha figura pequena e amedrontada perto do corredor. — Lia? disse Matteo, com a voz grave e calma, dando um passo firme para dentro do cômodo. Ao lado dele, o homem mais jovem cruzou os braços e analisou o ambiente caindo aos pedaços antes de fixar seu olhar em mim. O sorriso no rosto dele tornou-se mais caloroso, e ele deu dois passos descontraídos na minha direção. — Então você é a famosa Lia? Minha futura cunhada, disse ele, com um tom de voz incrivelmente leve e amigável, que parecia totalmente fora de lugar para um homem da máfia. — Eu sou Klaus, o Subchefe e irmão desse sujeito de cara fechada aqui ao lado. Vim pessoalmente conhecer a mulher que conseguiu a proeza de fazer meu irmão falar de casamento. Senti minhas bochechas queimarem ligeiramente. Abaixei a cabeça, mantendo o olhar fixo no chão por puro receio de quebrar a etiqueta daquele submundo perigoso. — Prazer... Senhor Santini... murmurei com a voz quase inaudível, apertando o pano de prato nas mãos trêmulas. — Nada de "Senhor", por favor. Pode me chamar apenas de Klaus, respondeu ele, dando mais um passo na minha direção e estendendo a mão com gentileza evidente. — Tenho que confessar que, vendo você de perto, entendo o motivo do meu irmão ter tomado uma decisão tão drástica. Você realmente muito boni... Klaus não conseguiu terminar a frase. Em um movimento brusco, fluido e assustadoramente rápido, Matteo se colocou exatamente entre o irmão e eu. Sua figura alta e imponente cortou o contato visual, bloqueando Klaus por completo. A aura de Matteo mudou drasticamente em uma fração de segundo: a calma controlada deu lugar a uma raiva contida, sombria e profundamente territorial. Matteo segurou o pulso de Klaus com firmeza antes que a mão do irmão me tocasse, o aperto parecendo forte o suficiente para esmagar os ossos de qualquer homem comum. — Meça suas palavras e suas atitudes, Klaus, a voz de Matteo baixou para um tom gélido, perigoso e rouco, soando como um rosnado reprimido. — Você está diante da minha futura esposa. O tom que usa com ela e a distância que mantém são linhas que nem mesmo você pode cruzar. Um silêncio absoluto e aterrador caiu sobre a sala. Meu pai parecia a ponto de desmaiar perto da parede, horrorizado com a possibilidade de uma briga entre os dois líderes do império. Eu continuei paralisada atrás das costas largas de Matteo, com o coração martelando no peito diante daquela demonstração bruta de possessão. Klaus piscou, claramente surpreso com a reação desmedida e feroz do irmão mais velho. Por um segundo, a tensão entre os dois foi tão palpável que pareceu que uma guerra explodiria ali mesmo. Contudo, percebendo a seriedade inegociável nos olhos cinzentos de Matteo, Klaus ergueu as mãos em um gesto de rendição e deu dois passos para trás, soltando um suspiro e recuperando o sorriso irônico. — Entendido, Dom, disse Klaus, embora seu olhar revelasse uma fascinação genuína pela mudança drástica de comportamento do irmão. — Sem ofensas. Apenas queria garantir que a sua noiva se sentisse acolhida na família. — Ela é minha responsabilidade. Apenas minha, declarou Matteo, sem afrouxar a postura rígida nem por um segundo. Matteo então se virou devagar para me encarar. O brilho obsessivo e protetor que queimava em suas pupilas era tão intenso que fez todo o meu corpo estremecer. Ele olhou para minhas mãos trêmulas e depois para o meu rosto, garantindo que eu estivesse intacta. — Voltaremos a nos ver em breve, Lia, disse ele, o tom de voz suavizando ligeiramente apenas ao dirigir-se a mim. — Se precisar de algo, avise ao segurança na porta. Ele não esperou por uma resposta. Virou-se de costas e caminhou para fora da casa, sendo seguido por um Klaus pensativo e silencioso. Enquanto os carros arrancavam do lado de fora, caí sentada na cadeira da cozinha, tentando recuperar o fôlego. Klaus tentara ser gentil e amigável, mas a reação feroz de Matteo provara algo ainda mais assustador: para o Dom da máfia, eu não era apenas uma noiva de fachada. Eu me tornava uma posse sagrada e intocável, e o nível da obsessão dele por mim era algo que eu mal conseguia dimensionar.O tique-taque do relógio na parede do camarim privativo da suíte parecia uma contagem regressiva para o início de uma nova existência. Em poucas horas, eu deixaria de ser apenas Lia Machini para me tornar a esposa do homem mais temido de toda a Itália.A sensação de caminhar de olhos vendados para um abismo escuro dominava cada pensamento meu. Eu não sabia o que esperar do futuro. Criada sob a sombra da violência, meu corpo ainda reagia a qualquer barulho mais alto com um tremor involuntário. O medo de que, após as luzes da festa se apagarem e as portas da mansão Santini se fecharem, a rotina de agressões e humilhações se repetisse me aterrorizava. A imagem do meu pai erguendo a mão contra mim ainda era uma ferida aberta, e a dúvida se Matteo se tornaria outro carrasco queimava como ácido no meu peito.Terminei de ajustar os detalhes do vestido e inclinei-me na direção do espelho de corpo inteiro.A visão que o reflexo me devolveu fez meu fôlego travar. A renda delicada do vestido de
Ajeitei os punhos da minha camisa social enquanto o elevador privativo subia para a suíte presidencial do meu hotel. Faltava pouco para a cerimônia. Amanhã, a alta sociedade do submundo testemunharia a união que consolidaria meu império, mas, antes que qualquer aliança fosse selada diante de um padre, eu precisava encará-la.Passei a chave magnética na porta e entrei no ambiente silencioso. Lia estava em pé perto da janela panorâmica, observando as luzes da cidade. Ela trajava algo incrivelmente simples, um vestido leve, sem adereços caros, e os cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros. Não havia maquiagem pesada ou joias reluzentes, e ainda assim Lia não precisava de absolutamente nada para ser deslumbrante. Sua beleza era natural, pura e gritante no meio da minha rotina cercada de superficialidade. Mas o que mais me fascinava era a sua essência: o jeito submisso como abaixava a cabeça, a fala calma, a postura doce e contida de quem foi acostumada a ocupar o menor espaço possível
O sábado amanheceu cinzento, com uma névoa espessa cobrindo os arranha-céus da cidade. Era o último dia antes do casamento. Amanhã, a esta hora, eu estaria caminhando em direção ao altar para me tornar, perante Deus e o submundo, a esposa de Matteo Santini e nova senhora Santini.Eu estava sentada no sofá de veludo da suíte, encarando o vapor que subia da xícara de chá intocada sobre a mesa, quando duas batidas leves ecoaram na porta. Antes que eu pudesse responder, a porta abriu-se e Klaus passou por ela.Diferente do irmão, que trajava a firmeza de um terno escuro e alinhado a qualquer hora do dia, Klaus vestia uma calça de alfaiataria preta e uma camisa cinza ligeiramente aberta no colarinho, dobrada até os cotovelos. Ele trazia uma pasta fina de couro debaixo do braço e trajava aquele mesmo sorriso cínico e descontraído no rosto.— Bom dia, futura cunhada, disse ele, fazendo uma breve e exagerada reverência ao fechar a porta atrás de si. — Não se assuste. Matteo está em uma reuni
A manhã de sexta-feira trouxe uma movimentação atípica para o andar da suíte presidencial. Faltavam apenas dois dias para a cerimônia que selaria meu destino com Matteo Santini. Por volta das dez horas, a porta se abriu para dar passagem a uma equipe inteira de estilistas, costureiras e maquiadoras renomadas, trazendo consigo araras móveis repletas de vestidos de alta costura, manequins e caixas de veludo com joias cintilantes.Eu me mantive num canto do imenso closet, observando tudo em silêncio. A estilista principal, uma mulher elegante de sotaque francês, aproximou-se de mim com extrema cortesia, instruindo suas assistentes a ajustarem o vestido de noiva feito sob medida para o meu corpo por ordens diretas de Matteo.Tratava-se de uma peça deslumbrante de renda italiana e seda pura, com um decote ombro a ombro delicado e uma cauda longa que parecia esculpida em nuvens. Enquanto as costureiras se ajoelhavam ao meu redor para marcar a bainha com alfinetes, encarei minha imagem no es
O contraste entre a minha realidade de poucas horas atrás e a atual parecia fruto de um delírio. A porta dupla de madeira nobre abriu-se para revelar a suíte presidencial do Hotel Santini, um espaço tão monumental e requintado que cheguei a hesitar no limiar da entrada, com medo de sujar o chão de mármore impecável com meus sapatos velhos.Tudo ali exalava um luxo silencioso e avassalador: as janelas que iam do chão ao teto revelavam uma vista panorâmica de toda a cidade iluminada sob o céu noturno, os móveis de design elegante revestidos em tecidos nobres, o lustre de cristal refletindo luzes suaves e um closet gigantesco que já continha roupas novas dispostas em cabides, todas exatamente do meu tamanho. Na casa do meu pai, o mofo e o cheiro de bebida era constante no ar; ali, o ambiente cheirava a amadeirado, baunilha e sofisticação pura.Dois funcionários uniformizados deixaram minha pequena bolsa surrada sobre uma mesa lateral e se retiraram com reverências impecáveis, trancando a
A imagem da mão de Klaus aproximando-se de Lia ainda queimava na minha mente como ferro em brasa. Aquele impulso primitivo, selvagem e visceral de proteger o que me pertencia nunca havia se manifestado com tanta força em toda a minha vida. Nem mesmo para o meu próprio irmão, o homem a quem confiei minha retaguarda por anos, eu permitiria qualquer tipo de familiaridade com ela. Lia era minha. Apenas minha.Eu estava sentado na minha poltrona de couro no escritório principal da propriedade Santini, girando um copo de uísque puro entre os dedos enquanto encarava os papéis na mesa. A porta se abriu e Giovanni, o soldado encarregado da vigilância de Lia, passou pelo umbral com uma postura tensa e rígida.— Dom Santini? disse ele, fazendo uma breve reverência. — Tenho um relatório importante sobre a residência da senhorita Machini.Pousei o copo sobre a madeira polida com um baque seco.— Fale.— Há cerca de uma hora, o pai da garota, Dário, voltou para casa visivelmente embriagado, relato







