LOGINCapítulo 6
A rotina dos dias que se seguiam ao meu noivado forçado transcorreu em um estado de dormência quase irreal. A presença constante daquele segurança parado na porta de casa era um lembrete permanente de que minha vida antiga havia acabado. No entanto, na manhã daquela segunda-feira, a batida na porta trouxe algo inesperado. Ao abrir a fresta de madeira, o homem alto de terno escuro não usou de violência. Com uma postura impecavelmente profissional, ele me estendeu um pequeno envelope preto de papel encorpado. —Senhorita Machini ? disse ele, com a voz grave. — O Dom ordenou que eu lhe entregasse isto. É um cartão sem limites para que a senhorita compre todas as roupas e pertences necessários para a sua mudança após o casamento. O cartão é seu; pode mantê-lo para qualquer eventualidade. Hoje vou levá-la ao centro comercial para essa tarefa. Peguei o envelope com as mãos trêmulas. Olhar para aquele cartão preto com letras douradas me fez sentir uma pontada de inquietação. Eu nunca tive nada meu, e a ideia de gastar o dinheiro do homem mais perigoso da cidade parecia quase um sacrifício. Minutos depois, me vi caminhando em direção ao imponente carro preto estacionado na rua estreita. Era a primeira vez na vida que eu andava de carro. Me sentei no banco de couro macio, fascinada e assustada ao mesmo tempo com o cheiro de veículo novo e o som suave do motor ganhando vida. Observei a paisagem da periferia desaparecer pela janela filme escuro enquanto avançávamos para a parte nobre da cidade. O destino era um shopping center luxuoso. Eu nunca tinha pisado em um lugar assim. Ao cruzar as portas de vidro reluzentes, senti um nó apertar em minha garganta. O chão de mármore impecável, o brilho dos lustres e as pessoas elegantemente vestidas faziam com que eu me sentisse uma intrusa. Olhei para baixo, reparando no meu vestido surrado de pano gasto e nos meus sapatos gastos. A vergonha subiu quente pelo meu pescoço, tornando cada passo um fardo pesado. O segurança me guiou discretamente até uma boutique de luxo, cuja vitrine exibia vestidos deslumbrantes. Engoli em seco e dei alguns passos para dentro do estabelecimento. Não demorou dois segundos para que uma das atendentes me notasse. A mulher, impecavelmente maquiada e vestindo um terno sob medida, olhou-me de cima a baixo com um franzir de nariz indisfarçável. O desprezo em suas pupilas era evidente. — Pois não? perguntou ela, a voz carregada de uma frieza cortante, sem dar um único passo em minha direção. — Acredito que a senhorita tenha se enganado de lugar. Nossas peças são exclusivamente de alta costura e os preços não são voltados para o seu... perfil. Senti meu rosto queimar de vergonha. A humilhação me paralisou. Baixei a cabeça, dando um passo para trás, pronta para pedir desculpas e fugir dali, quando uma presença esmagadora tomou o portal da loja. A atmosfera do ambiente mudou no mesmo instante. O ar pareceu ficar mais denso. — O perfil dela é o de quem pode comprar esta loja inteira e mandar demitir você antes do final do dia, a voz grave, pausada e gélida de Matteo ecoou pelo espaço. Ele entrou na loja com sua postura imponente, vestindo um terno cinza-chumbo perfeito. A aura de autoridade que o cercava fez a atendente empalidecer instantaneamente. A mulher congelou, percebendo imediatamente quem era o homem à sua frente. O pavor tomou o lugar da arrogância no rosto dela. Matteo sequer olhou para a funcionária trêmula. Seus olhos cinzentos fixaram-se em mim, varrendo minha figura pequena e amedrontada antes de avançar a passos lentos em minha direção. — Escolha o que quiser, Lia, disse ele, a voz soando surpreendentemente firme, porém suave apenas para mim. — Tudo o que você desejar nesta loja será seu. Fiquei imóvel, sem saber como reagir. A proximidade dele fazia meu coração disparar dentro do peito, dividida entre o fascínio e o pavor que sua figura me causava. — E-eu... só preciso do básico... murmurei, a voz saindo quase como um sussurro inaudível, mantendo o olhar fixo no chão por puro medo de encará-lo. — Poucas coisas já servem... Matteo soltou um suspiro imperceptível, mas não me pressionou. Ele fez um sinal com a mão para o seu segurança, que imediatamente começou a selecionar cabides pelas araras, enquanto a atendente se desdobrava em desculpas gaguejadas ao fundo, totalmente ignorada por nós. Após empacotarem dezenas de sacolas, muito mais do que o "básico" que eu havia pedido, Matteo não me deixou voltar direto para a minha casa. Ele me guiou até um restaurante privativo e discreto no topo do complexo. Nos sentamos em uma mesa reservada perto da janela. O almoço foi servido em um silêncio tenso, quebrei apenas por algumas respostas curtas que dei quando ele me perguntava se a comida estava do meu agrado. Ele não me agrediu, não gritou e não fez nenhuma ameaça. Matteo apenas me observou comer, mantendo uma postura protetora, porém distante. Ao final da tarde, o carro de Matteo me deixou na porta da minha casa. O segurança descarregou todas as sacolas e as colocou dentro da sala, garantindo que eu estivesse em segurança antes de se despedir. Caminhei até o meu quarto e sentei-me na borda da cama, encarando as dezenas de sacolas de grife espalhadas pelo chão. Passo os dedos pelo tecido macio das roupas novas, ainda em choque com tudo o que vivenciara. Aquele dia tinha sido simplesmente incrível. Eu andei de carro pela primeira vez, visitei um lugar lindo, comi pratos deliciosos e fui defendida de uma humilhação por um homem que parecia ter o mundo aos seus pés. Mas, ao deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos, a imagem dos olhos cinzentos e gélidos de Matteo voltou à minha mente. Ele me deu um dia de princesa, mas a certeza de quem ele realmente era no submundo continuava ali. Eu ainda tinha um medo profundo e visceral do meu futuro marido.A visão da lateral do carro contra o poste e do sangue escorrendo pelos cabelos loiros de Lia era uma imagem que queimava na minha cabeça toda vez que eu piscava. Naquela noite, quando o carro nos atingiu, o mundo parou por alguns segundos. A sensação devastadora de impotência — de ver o corpo frágil da minha mulher desacordado nos meus braços — fez um abismo de escuridão se abrir no meu peito. Eu teria queimado a cidade inteira se ela não tivesse aberto aqueles olhos verdes.Ver o curativo delicado e os três pontos na têmpora dela todos os dias era um lembrete constante de que a fúria cega não resolveria essa guerra. Eu não podia agir por impulso. Os Rossi e aquele verme do Dário queriam exatamente isso: que o Dom da família Santini perdesse o controle e atacasse sem estratégia.Entrei no meu escritório no térreo da mansão, fechando a porta de madeira pesada. Klaus já me esperava, em pé diante da grande mesa de mogno, com mapas de rotas e relatórios financeiros espalhados sobre o tam
A chuva fina que começou a cair na saída do jantar cobria o vidro fumê do SUV blindado com vários pingos de água. O ambiente dentro do veículo era quente e silencioso. Matteo mantinha uma das mãos firmemente entrelaçada à minha sobre o banco de couro, enquanto a outra repousava no seu joelho.— Você esteve perfeita hoje — murmurou ele, a voz grave cortando o som suave do motor. — Não sobrou um único conselheiro naquele salão sem saber quem é a Senhora Santini.Sorri, inclinando a cabeça para encostá-la em seu ombro.— Eu só fiz o que você me pediu... mantive a cabeça erguida.O momento de paz foi destruído em uma fração de segundo.O som agudo de pneus cantando no asfalto molhado ecoou pela avenida deserta. Antes que nosso motorista pudesse reagir ou que os seguranças do carro de apoio gritassem pelo rádio, um carro desgovernado surgiu do cruzamento e atingiu a lateral traseira do nosso veículo com um impacto brutal.O estalo do metal retorcido e o estilhaçar dos vidros ressoaram como
A notícia de que faríamos nossa primeira aparição oficial após a crise com a família Rossi chegou na manhã de quinta-feira. Matteo me explicou com clareza: o Conselho da Famiglia organizaria um jantar formal de negócios no salão nobre do Hotel Santini, reunindo todos os capos, aliados e figuras de poder do submundo. Era um movimento estratégico para demonstrar força, estabilidade e alinhar a hierarquia do império.A ideia de retornar àquele ambiente rodeado por homens perigosos e olhares julgadores costumava fazer meu estômago se contorcer em nós de pavor. No entanto, enquanto eu terminava de me arrumar diante do espelho da suíte, a sensação dentro do meu peito era diferente.Eu trajava um vestido longo de veludo verde, de corte reto e elegante, com um decote discreto que valorizava meu colo. Meus cabelos loiros estavam presos em um coque sofisticado, deixando minha postura ereta em evidência.A porta do closet se abriu e Matteo passou por ela, vestindo um smoking preto sob medida que
A bolha de paz e do nosso mundo na Costa Amalfitana dissipou-se no exato segundo em que o helicóptero pousou de volta no heliponto da mansão Santini. A brisa quente do mar e o som calmo das ondas deram lugar ao cheiro de chumbo, ao ronco dos motores dos carros blindados e à atmosfera densa e gélida que cercava a vida do meu marido.Assim que os motores da aeronave desligaram, Klaus já nos aguardava no pátio. O semblante do meu cunhado, quase sempre marcado por um deboche descontraído, estava rijo e tenso.— Que bom que chegaram — disse Klaus, indo direto ao ponto enquanto caminhávamos para dentro da propriedade. — A família Rossi aproveitou os dias da sua ausência para testar os limites do território sul. Invadiram dois galpões de carga na madrugada e tentaram coagir um dos nossos capos locais. O Conselho está reunido na sala de guerra esperando por você.O ar ao redor de Matteo mudou instantaneamente. A postura relaxada e o olhar caloroso que ele mantivera para mim durante toda a lua
A noite caiu sobre a Costa Amalfitana, trazendo uma brisa fresca que vinha do mar e balançava suavemente as cortinas de linho do terraço. A mesa para dois foi posta ao ar livre, iluminada apenas pelas chamas de pequenas velas e pelas luzes distantes dos barcos no horizonte.Lia estava sentada à minha frente, vestindo um vestido de seda verde-esmeralda que destacava a curva dos seus ombros e a doçura dos seus olhos. Não havia pressa. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, o peso do meu império parecia ter ficado do outro lado do oceano.Sirvo um pouco de vinho na taça dela e acomodo-me na cadeira, apreciando o jeito como ela segurava o talher com delicadeza, mastigando devagar sem fazer barulho algum.— Você quase não tocou na sobremesa — comentei, mantendo o tom calmo. — Se quiser qualquer outra coisa, mandarei os chefs prepararem agora mesmo. Você é a Senhora Santini, Lia. Basta pedir.Lia ergueu os olhos, um sorriso discreto e acanhado surgindo em seus lábios vermelhos.— Está
O som barulhento das hélices do helicóptero privado era o único ruído que cortava o céu azul-anil. Eu olhava pela janela, pasma com a imensidão da paisagem que se desdobrava lá embaixo. Deixáramos a cidade cinzenta para trás, substituída por tons dramáticas que despencavam sobre um mar de águas cristalinas na Costa Amalfitana.Sentado ao meu lado, Matteo mantinha sua mão grande sobre a minha coxa, o olhar atento em cada reação do meu rosto. Pela primeira vez desde que o conheci, ele não trajava um terno rígido. Usava uma camisa social branca leve, de mangas dobradas até os cotovelos, e um par de óculos escuros que escondiam a firmeza de seus olhos cinzentos.— Gostou da vista? — perguntou ele, a voz grave sobressaindo-se ao abafado do fone de comunicação.— É... lindo, Matteo — murmurei, incaz de tirar os olhos do horizonte. — Eu nunca vi o mar de perto...Matteo franziu levemente o cenho, surpreso pela minha confissão, mas logo seu olhar suavizou.— Pois agora ele é todo seu durante







