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Capítulo 03

Author: Dzel
last update publish date: 2026-09-01 18:18:43

A humilhação era um veneno diário que eu era obrigada a engolir, gota por gota, sem jamais poder reclamar do sabor.

Ainda parado no meio da cozinha, meu pai me encarava com o rosto retorcido de um ódio cego e irracional. O cheiro de álcool barato exalado por ele impregnava o ar, tornando o ambiente sufocante. Eu permanecia encolhida perto da pia, abraçando meu próprio corpo na esperança inútil de me tornar invisível, mas o silêncio só parecia alimentar a monstruosidade que habitava dentro dele.

— Você é exatamente como a falecida da sua mãe — ele esbravejou, dando um passo pesado em minha direção. — Olhe para você! Uma inútil, travada, com essa cara de coitada! Acha que eu não vejo o nojo nos seus olhos? Acha que é melhor do que eu?

— N-não, pai... Eu não disse nada... — murmurei, minha voz falhando pelo nó de pavor preso na minha garganta.

— Calada! — o grito dele ecoou pelas paredes desgastadas.

Antes que eu pudesse recuar, a mão pesada de Marco voou contra o meu rosto. O estalo seco do tapa ressoou pela casa. A força do impacto fez minha cabeça girar para o lado e o meu corpo cambalear contra a borda do balcão. Uma dor aguda e lancinante queimou na minha bochecha, enquanto o gosto metálico de sangue preenchia minha boca. Lagrimas quentes finalmente transbordaram pelos meus olhos, descontroladas.

Eu me encolhi no chão, cobrindo o rosto machucado com as mãos trêmulas. Mas, antes que Dário pudesse se aproximar para continuar a agressão, três batidas firmes, pesadas e ritmadas ecoaram na porta da frente. Não era uma batida comum de vizinho; era um anúncio de autoridade que fez o ar da casa congelar instantaneamente.

Meu pai travou no lugar. A cor sumiu do seu rosto de forma tão drástica que ele pareceu envelhecer dez anos em questão de segundos. O medo puro e viscoso tomou conta de seus olhos, apagando toda aquela valentia covarde que ele usava contra mim. Ele sabia exatamente quem estava do outro lado.

Caminhando com passos vacilantes, Dário foi até a sala. Eu o segui devagar, mantendo-me escondida na penumbra do corredor, espiando pela brecha da parede com o coração martelando desesperadamente no meu peito.

Quando ele abriu a porta, a figura que preencheu a entrada fez a pouca luz do ambiente desaparecer.

Lá estava ele. Matteo Santini.

Ele vestia um terno sob medida impecável, tão escuro quanto a própria noite. Sua presença era avassaladora, carregada de uma aura de poder e perigo que fazia os pulmões esquecerem como respirar. Aos trinta e três anos, o Dom da máfia italiana parecia um deus da morte personificado. Seus olhos cinzentos e frios vasculharam a sala até pousarem em meu pai. Ao lado dele, um homem alto e de olhar afiado — que eu supus ser seu irmão e subchefe — permanecia como uma sombra letal.

— D-Dom Santini... — a voz do meu pai saiu como um sussurro trêmulo e patético. O pavor estampado na face de Marco era absoluto; seus joelhos tremiam visivelmente.

— O tempo acabou, verme — a voz de Matteo ressoou baixa, grave e assustadoramente calma, mas carregada de uma promessa de destruição. — O prazo para o pagamento das suas dívidas expirou no segundo em que o sol se pôs. E você sabe muito bem quais são as consequências para quem deshonra o nome da *Famiglia*.

O terror me paralisou por completo no corredor. Eu sabia das lendas sobre a máfia. Sabia o que acontecia com os inadimplentes.

— Se o dinheiro não estiver na minha mesa agora — continuou Matteo, dando um passo lento para dentro da casa, fazendo meu pai recuar instintivamente —, você e qualquer um que carregue o seu sangue morrerão antes do amanhecer.

— Por favor! Dom Santini, eu imploro pela sua misericórdia! — meu pai desmoronou de joelhos no chão, desesperado, juntando as mãos em súplica. — Eu não tenho o dinheiro... mas eu tenho algo de valor! Algo puro!

O desespero de Dário o fez olhar para trás, caçando o ambiente até que seus olhos se fixaram em mim, escondida no corredor.

— A minha filha! — gritou ele, apontando um dedo trêmulo na minha direção. — Lia! Ela tem dezenove anos, é virgem, nunca tocou em homem nenhum! Eu entrego a garota ao senhor em troca da minha dívida! Leve-a! Ela é sua!

O choque me atingiu como uma tonelada de ferro. Meu mundo ruiu por completo. O meu próprio pai estava me vendendo como se eu fosse um pedaço de carne insignificante para salvar a própria pele.

Matteo desviou o olhar de Dário e travou seus olhos cinzentos em mim. O impacto daquele contato visual fez todo o meu corpo estremecer. Ele olhou para a minha figura pequena e amedrontada, e então sua atenção se fixou na minha bochecha esquerda, onde a marca vermelha e inchada do tapa do meu pai queimava vividamente.

Em uma fração de segundo, a expressão de Matteo mudou. Os olhos gélidos do Dom inflamaram-se com um brilho sombrio, perigoso e profundamente furioso. Uma rigidez mortal tomou conta do seu maxilar perfeitamente desenhado.

Ele deu dois passos lentos na minha direção, ignorando o homem rastejando aos seus pés. A aura ao redor dele tornou-se tão sufocante que o ar pareceu faltar.

— Você bateu nela? — a voz de Matteo baixou ainda mais, soando como o rugido contido de uma fera prestes a despedaçar sua presa.

— Ela... ela é uma inútil, Dom, eu só estava... — Marco tentou se justificar, gaguejando.

— Silêncio! — rosnou o homem ao lado de Matteo, fazendo meu pai se encolher no chão.

Matteo parou a poucos passos de mim. O cheiro do seu perfume amadeirado e caro envolveu meus sentidos, misturando-se ao pavor que me dominava. Ele me encarou por longos segundos, sua postura emanando uma posse sombria e inabalável que fez minha alma tremer. Em seguida, ele se virou lentamente para o meu pai, proferindo a sentença que mudaria o rumo da minha vida para sempre.

— A dívida de dinheiro está quitada, Marco — declarou Matteo, a voz fria cortando a sala como uma lâmina afiada. — Mas a garota agora pertence a mim. Daqui a três semanas, acontecerá o nosso casamento.

*Casamento.* A palavra ecoou na minha mente, fazendo minhas forças evaporarem. Eu seria forçada a me casar com o homem mais perigoso da Itália.

— E escute bem o que vou lhe dizer, seu verme — continuou o Dom, dando um passo ameaçador na direção do meu pai, que encolheu a cabeça. — A partir de hoje, deixarei um dos meus melhores seguranças postado na porta desta casa, vinte e quatro horas por dia. Ele vai vigiar cada passo seu. Se eu sonhar que você encostou um único dedo na minha noiva novamente, eu volto aqui e arranco suas mãos antes de esfolá-lo vivo. Prepare a menina para o casamento. Ela sairá daqui direto para a minha propriedade.

Sem dizer mais nenhuma palavra, Matteo lançou um último olhar intenso e obsessivo em minha direção antes de se virar e sair da casa, acompanhado por seus homens. A porta se fechou com um baque firme, deixando para trás um silêncio aterrorizante.

Caí de joelhos no chão frio da sala, abraçando minhas pernas enquanto as lágrimas rolavam sem controle pelo meu rosto. O pavor queimava em minhas veias. Eu havia sido barganhada, vendida pelo meu próprio pai, e sentenciada a me casar com o próprio diabo em pessoa.

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