LOGINA porta da frente bateu com um som definitivo, ecoando pela casa pequena como o estalo de uma sentença de morte executada. O silêncio que se seguiu não trouxe alívio; trouxe o peso sufocante de um pesadelo do qual eu sabia que nunca iria acordar.
O cheiro do perfume amadeirado de Matteo Santini ainda pairava no ar da sala, impregnando o ambiente com a lembrança da sua presença avassaladora e gélida. Eu continuava caída no chão frio de piso queimado, encolhida, tocando com os dedos trêmulos a bochecha ardente onde o tapa do meu pai ainda queimava. As lágrimas escorriam quentes e ininterruptas pelo meu rosto, embaçando minha visão enquanto eu tentava absorver o destino que acabara de ser traçado para mim. Foi então que o silêncio foi quebrado por um som gutural e asqueroso. Dário soltou uma gargalhada alta, um riso debochado e livre de qualquer remorso. O medo mortal que o paralisara segundos atrás diante do Dom simplesmente evaporou, dando lugar à sua arrogância sórdida de costume. Ele se recompôs, limpando o suor da testa com a manga da camisa suja, e virou-se para me encarar. Seus olhos injetados de sangue brilhavam com uma satisfação cruel. — Olhe para você, sua estúpida! — debochou ele, caminhando a passos lentos até o sofá e jogando-se sobre o estofado rasgado. — Acha que é coitadinha? Você deveria me agradecer de joelhos! Eu acabei de salvar a minha vida e, de quebra, arrumei o melhor destino possível para uma inútil como você. — Pai... por favor... como você pôde fazer isso comigo? — murmurei com a voz embargada pelo choro, mal conseguindo projetar o som da minha garganta seca. — Ele é um monstro... ele é o líder da máfia... Dário soltou outra gargalhada gargalhada estridente, inclinando a cabeça para trás. — Um monstro? Ah, garota, você não tem ideia! — disse ele, apontando o dedo na minha direção enquanto tirava um maço de cigarros amassado do bolso. — Matteo Santini é o pior homem que existe sobre a face deste mundo. Ele é o diabo em pessoa! É um homem frio, implacável, que mata sem piscar e que ergueu o império dele sobre montanhas de corpos. E é com esse homem que você vai se casar! Ele acendeu o cigarro, tragando profundamente antes de soprar a fumaça cinzenta no ar rarefeito da sala. Seu olhar sobre mim transbordava uma malevolência pura. — Eu espero do fundo do meu coração que ele veja o quanto você é imprestável — continuou Dário, o tom carregado de veneno. — Espero que aquele mafioso espanque você todos os dias, exatamente como você merece. Quando você estiver trancada na mansão dele, chorando de dor pelas garras do Dom, vai se lembrar deste dia e entender que o seu lugar sempre foi o chão. Cada palavra dele entrava na minha alma como espinhos afiados. O meu próprio pai, o único sangue que me restava no mundo, estava comemorando o fato de ter me entregue à destruição. — Agora saia da minha frente, sua parasita — ordenou ele, levantando-se e ajeitando o casaco com uma pressa sórdida. — Eu vou aproveitar a noite para comemorar no bar! Vou beber e celebrar que finalmente vou me livrar de você e da sua cara de coitada para sempre. Sem dar a mínima para o meu estado, Dário caminhou até a porta e saiu, rindo sozinho enquanto avançava pela rua escura. Do lado de fora, a poucos metros da entrada, pude ver a sombra de um homem alto e impecavelmente vestido de terno, parado sob a luz fraca do poste. O segurança que Matteo havia deixado. Eu era oficialmente uma prisioneira. Arrastei-me do chão com as poucas forças que me restavam e caminhei a passos vacilantes até o meu pequeno quarto no fundo da casa. Fechei a porta e desmoronei sobre a cama solteiro surrada. Abracei meu travesseiro com força contra o peito e deixei o choro convulsivo tomar conta de todo o meu corpo. As lágrimas molhavam o tecido gasto enquanto a dor do abandono e o terror do futuro me esmagavam por dentro. Três semanas. Eu tinha apenas três semanas até ser entregue definitivamente ao líder da máfia italiana. O cansaço físico e a exaustão emocional finalmente venceram minha vigilância, e acabei adormecendo em meio aos soluços. No entanto, a mente não me deu trégua. O sono não trouxe paz, apenas o pesadelo. No meu sonho, o ambiente ao meu redor era uma escuridão densa e sufocante, manchada por sombras vermelhas que pareciam sangue. Eu estava presa em um salão imenso de mármore frio, incapaz de mover as pernas. O som de passos firmes e ritmados ecoava pelas paredes, aproximando-se com uma lentidão aterrorizante. Surgindo da penumbra, a figura imponente de Matteo Santini caminhava na minha direção. Seus olhos cinzentos não tinham humanidade; eram gélidos, brilhando com um sadismo assustador. O terno escuro que ele vestia parecia absorver toda a luz do lugar. Ele parou diante de mim, seu maxilar travado com uma fúria incontrolável. Eu tentei gritar, tentei implorar por misericórdia, mas nenhum som saía da minha garganta paralisada pelo pavor. Matteo ergueu a mão grande, cujos nós dos dedos estavam manchados de sangue fresco. Sem dizer uma única palavra, seu rosto se contorceu em uma expressão demoníaca e ele desferiu um golpe brutal contra mim. O impacto me derrubou no chão frio. No pesadelo, ele não parava. A cada golpe, a cada agressão, a imagem do meu pai rindo ao fundo se misturava ao olhar obsessivo e cruel do Dom. Matteo me espancava sem piedade, exatamente como meu pai previra, transformando-me em nada além de cinzas e dor. Acordei em um sobressalto, o peito subindo e descendo descontroladamente, o suor frio cobrindo minha pele e o coração disparado como se quisesse rasgar minhas costelas. Apertei o cobertor contra o peito na escuridão do meu quarto silencioso, sentindo o sabor amargo do pavor genuíno. O pesadelo terminara, mas a realidade que me esperava dali a três semanas seria exatamente a mesma: eu seria entregue ao diabo em pessoa.O tique-taque do relógio na parede do camarim privativo da suíte parecia uma contagem regressiva para o início de uma nova existência. Em poucas horas, eu deixaria de ser apenas Lia Machini para me tornar a esposa do homem mais temido de toda a Itália.A sensação de caminhar de olhos vendados para um abismo escuro dominava cada pensamento meu. Eu não sabia o que esperar do futuro. Criada sob a sombra da violência, meu corpo ainda reagia a qualquer barulho mais alto com um tremor involuntário. O medo de que, após as luzes da festa se apagarem e as portas da mansão Santini se fecharem, a rotina de agressões e humilhações se repetisse me aterrorizava. A imagem do meu pai erguendo a mão contra mim ainda era uma ferida aberta, e a dúvida se Matteo se tornaria outro carrasco queimava como ácido no meu peito.Terminei de ajustar os detalhes do vestido e inclinei-me na direção do espelho de corpo inteiro.A visão que o reflexo me devolveu fez meu fôlego travar. A renda delicada do vestido de
Ajeitei os punhos da minha camisa social enquanto o elevador privativo subia para a suíte presidencial do meu hotel. Faltava pouco para a cerimônia. Amanhã, a alta sociedade do submundo testemunharia a união que consolidaria meu império, mas, antes que qualquer aliança fosse selada diante de um padre, eu precisava encará-la.Passei a chave magnética na porta e entrei no ambiente silencioso. Lia estava em pé perto da janela panorâmica, observando as luzes da cidade. Ela trajava algo incrivelmente simples, um vestido leve, sem adereços caros, e os cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros. Não havia maquiagem pesada ou joias reluzentes, e ainda assim Lia não precisava de absolutamente nada para ser deslumbrante. Sua beleza era natural, pura e gritante no meio da minha rotina cercada de superficialidade. Mas o que mais me fascinava era a sua essência: o jeito submisso como abaixava a cabeça, a fala calma, a postura doce e contida de quem foi acostumada a ocupar o menor espaço possível
O sábado amanheceu cinzento, com uma névoa espessa cobrindo os arranha-céus da cidade. Era o último dia antes do casamento. Amanhã, a esta hora, eu estaria caminhando em direção ao altar para me tornar, perante Deus e o submundo, a esposa de Matteo Santini e nova senhora Santini.Eu estava sentada no sofá de veludo da suíte, encarando o vapor que subia da xícara de chá intocada sobre a mesa, quando duas batidas leves ecoaram na porta. Antes que eu pudesse responder, a porta abriu-se e Klaus passou por ela.Diferente do irmão, que trajava a firmeza de um terno escuro e alinhado a qualquer hora do dia, Klaus vestia uma calça de alfaiataria preta e uma camisa cinza ligeiramente aberta no colarinho, dobrada até os cotovelos. Ele trazia uma pasta fina de couro debaixo do braço e trajava aquele mesmo sorriso cínico e descontraído no rosto.— Bom dia, futura cunhada, disse ele, fazendo uma breve e exagerada reverência ao fechar a porta atrás de si. — Não se assuste. Matteo está em uma reuni
A manhã de sexta-feira trouxe uma movimentação atípica para o andar da suíte presidencial. Faltavam apenas dois dias para a cerimônia que selaria meu destino com Matteo Santini. Por volta das dez horas, a porta se abriu para dar passagem a uma equipe inteira de estilistas, costureiras e maquiadoras renomadas, trazendo consigo araras móveis repletas de vestidos de alta costura, manequins e caixas de veludo com joias cintilantes.Eu me mantive num canto do imenso closet, observando tudo em silêncio. A estilista principal, uma mulher elegante de sotaque francês, aproximou-se de mim com extrema cortesia, instruindo suas assistentes a ajustarem o vestido de noiva feito sob medida para o meu corpo por ordens diretas de Matteo.Tratava-se de uma peça deslumbrante de renda italiana e seda pura, com um decote ombro a ombro delicado e uma cauda longa que parecia esculpida em nuvens. Enquanto as costureiras se ajoelhavam ao meu redor para marcar a bainha com alfinetes, encarei minha imagem no es
O contraste entre a minha realidade de poucas horas atrás e a atual parecia fruto de um delírio. A porta dupla de madeira nobre abriu-se para revelar a suíte presidencial do Hotel Santini, um espaço tão monumental e requintado que cheguei a hesitar no limiar da entrada, com medo de sujar o chão de mármore impecável com meus sapatos velhos.Tudo ali exalava um luxo silencioso e avassalador: as janelas que iam do chão ao teto revelavam uma vista panorâmica de toda a cidade iluminada sob o céu noturno, os móveis de design elegante revestidos em tecidos nobres, o lustre de cristal refletindo luzes suaves e um closet gigantesco que já continha roupas novas dispostas em cabides, todas exatamente do meu tamanho. Na casa do meu pai, o mofo e o cheiro de bebida era constante no ar; ali, o ambiente cheirava a amadeirado, baunilha e sofisticação pura.Dois funcionários uniformizados deixaram minha pequena bolsa surrada sobre uma mesa lateral e se retiraram com reverências impecáveis, trancando a
A imagem da mão de Klaus aproximando-se de Lia ainda queimava na minha mente como ferro em brasa. Aquele impulso primitivo, selvagem e visceral de proteger o que me pertencia nunca havia se manifestado com tanta força em toda a minha vida. Nem mesmo para o meu próprio irmão, o homem a quem confiei minha retaguarda por anos, eu permitiria qualquer tipo de familiaridade com ela. Lia era minha. Apenas minha.Eu estava sentado na minha poltrona de couro no escritório principal da propriedade Santini, girando um copo de uísque puro entre os dedos enquanto encarava os papéis na mesa. A porta se abriu e Giovanni, o soldado encarregado da vigilância de Lia, passou pelo umbral com uma postura tensa e rígida.— Dom Santini? disse ele, fazendo uma breve reverência. — Tenho um relatório importante sobre a residência da senhorita Machini.Pousei o copo sobre a madeira polida com um baque seco.— Fale.— Há cerca de uma hora, o pai da garota, Dário, voltou para casa visivelmente embriagado, relato







