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Capítulo 04

Author: Dzel
last update publish date: 2026-09-01 18:19:12

A visão daquela garota recuada no corredor daquela casa miserável recusava-se a deixar minha mente.

Eu já havia visto milhares de rostos assustados ao longo da minha vida. Homens poderosos implorando pela própria pele, inimigos tremendo antes do último tiro, soldados vacilantes. Nenhum deles causou qualquer impacto na minha alma endurecida. Mas Lia Machini fora diferente. No instante em que meus olhos cruzaram com os dela, algo sombrio e primitivo despertou no meu peito, fincando raízes profundas de uma forma que eu jamais imaginara ser capaz de sentir.

Ela era a perfeita definição de uma beleza pura e intocada. Seus cabelos loiros caíam em ondas suaves em volta de um rosto delicado, criando um contraste estonteante com a aura sombria daquele ambiente caindo aos pedaços. Seus olhos verdes, grandes e redondos como duas esmeraldas translúcidas, me encararam com um pavor tão genuíno que por um segundo esqueci como respirar. Ela tinha um nariz pequeno e arrebitado, lábios naturalmente vermelhos que pareciam desenhados para serem provocantes sem que ela sequer tentasse, e um corpo de curvas impecáveis escondido sob aquele vestido simples e surrado.

Quando vi a marca vermelha do tapa que aquele verme do pai dela havia deixado em sua bochecha macia, o sangue nas minhas veias ferveu instantaneamente. Uma raiva cega me dominou. Ninguém encostaria a mão no que agora me pertencia.

De volta ao meu escritório, o silêncio da noite foi interrompido novamente pelas batidas na porta. Klaus entrou no ambiente com as mãos nos bolsos e um sorriso de canto.

— A poeira baixou, o negócio com o Machini está resolvido e a vigilância na casa já foi estabelecida — disse meu irmão, servindo-se de um copo de uísque. — Agora, Dom Santini, você não tem mais nenhuma desculpa. Vamos para a boate. A área VIP está reservada e precisamos comemorar a resolução daquele transtorno.

Encarei o copo em minha mão, a imagem dos olhos verdes de Lia ainda gravada na minha memória.

— Tudo bem — concordei, levantando-me da poltrona de couro. — Precisamos espairecer.

Pouco tempo depois, o ambiente escuro e ensurdecedor da nossa boate privativa no centro da cidade nos recebeu. As luzes estroboscópicas cortavam a fumaça e a música alta vibrava pelo chão de mármore. Caminhamos direto para o mezanino reservado, onde a privacidade era absoluta e a segurança impedia qualquer aproximação indesejada.

Assim que me sentei no sofá de veludo preto da área VIP, não demorou muito para que uma figura bem conhecida se aproximasse. Bianca, com seu vestido vermelho justo e perfume doce e marcante, caminhou em minha direção com passos firmes. Ela era minha amante fixa há meses, uma mulher que entendia perfeitamente as regras do jogo e nunca fazia perguntas desnecessárias.

Sem pedir licença, Bianca acomodou-se suavemente no meu colo, passando as mãos bem cuidadas pelos meus ombros e colando os lábios no meu pescoço.

— Sentiu minha falta, Matteo? — murmurou ela contra a minha pele, deixando um beijo demorado ali.

Ao mesmo tempo, Maria, a amante fixa de Klaus, aproximou-se do meu irmão, sentando-se ao lado dele enquanto trocavam risadas e carinhos ousados. Klaus deu um gole em sua bebida e, por cima do ombro de Maria, lançou-me um olhar curioso e analítico. Ele esperou que a música alta abafasse o tom da nossa conversa antes de finalmente tocar no assunto que estava entalado em sua garganta desde mais cedo.

— Então, Matteo... — Klaus começou, girando o gelo dentro do seu copo. — Você realmente selou um acordo de casamento com a filha do Machini? O Conselho está cobrando um matrimônio há meses, é verdade, mas aceitar a garota de um soldado falido foi uma surpresa para todos.

Ajeitei Bianca no meu colo, mantendo uma das mãos firme em sua cintura, mas minha mente estava longe daquele camarote, presa na garota de olhos verdes que deixara para trás sob vigilância.

— Uni o útil ao agradável, Klaus — respondi com a voz fria e calma, sem demonstrar qualquer oscilação de sentimento. — O Conselho exige que o Dom cumpra a tradição e tenha uma esposa de sangue puro e virgem ao seu lado para garantir a linhagem. Eu precisava de uma noiva que preenchesse esses requisitos sem criar alianças políticas complicadas ou mulheres ambiciosas tentando controlar meus passos. Vi isso em Lia.

Klaus ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpreso com o pragmatismo da minha resposta.

— E é só isso? Apenas um dever tradicional para o Conselho? — questionou ele, inclinando-se para a frente.

— Nada mais do que isso — declarei, encarando meu irmão fixamente. — Ela estará sob o meu teto para cumprir o papel que a tradição exige e gerar meus herdeiros. Nada além disso. A vida da *Famiglia* continua exatamente como está.

Bianca sorriu contra o meu peito, claramente satisfeita ao ouvir que a posição dela como minha amante não seria ameaçada por um sentimento nobre, sem imaginar que a obsessão que nascia dentro de mim por Lia era mais perigosa do que qualquer amor convencional.

— Aliás — continuei, direcionando meu olhar de forma rígida para Klaus —, é bom você ir se acostumando com a ideia. O próximo casamento a ser arranjado pelo Conselho será o seu. Você é o Subchefe, e a cobrança sobre a sua estabilidade virá logo em seguida.

Klaus soltou uma risada debochada, puxando Maria para mais perto de si e dando um longo trago em seu cigarro antes de soltar a fumaça para o alto.

— Deixe o futuro para o futuro, meu irmão — respondeu Klaus com uma piscadela irônica. — Enquanto a minha vez não chega, pretendo aproveitar cada segundo desta vida ao máximo.

Dei um pequeno gole no meu uísque enquanto os graves da música ecoavam pelo ambiente. Klaus podia acreditar que a vida continuaria a mesma, mas no fundo do meu peito, eu sabia que a chegada daquela garota loira de olhos verdes mudaria o nosso império para sempre.

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