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23 - Podemos começar?

Author: Aya Lins
last update publish date: 2026-07-09 21:51:53

Girei nos calcanhares e saí marchando na frente em direção à estrutura do camarote, sem esperar por ele.

Eu precisava colocar distância entre o meu bom senso e o magnetismo irritante de Daniel Fontana.

Pelo canto do olho, vi que ele vinha logo atrás, a passos lentos e descontraídos, ainda vestindo apenas aquela regata preta com a camisa jogada no ombro, acompanhando cada movimento meu com aqueles olhos escuros e atentos.

Eu estava quase alcançando o início do fluxo mais denso de pessoas quando
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  • Meu problema era o peão tatuado   70 - Sozinhos

    A reunião começou de maneira surpreendentemente produtiva.Puxei a cadeira ao lado de Isadora e me sentei, tentando focar a atenção na mesa.Ela colocou os extratos impressos sobre a mesa, organizados por período, enquanto Túlio separava as notas fiscais fotografadas por Celina.— Bom, vamos ao que interessa — falei, me apoiando sobre a mesa e puxando a primeira pasta do ano anterior. — Túlio, por onde a gente começa?Túlio ajeitou os óculos na ponte do nariz e puxou a prancheta de notas.— Pelo cruzamento direto. Eu tenho as notas fiscais das vendas de gado e dos maquinários com os valores registrados pela Verona. Agora precisamos ver quanto desse dinheiro realmente entrou na conta oficial do seu Maurício.Isadora pegou o marcador de texto amarelo e abriu a folha de extratos de maio do ano passado.O cheiro de hidratante que vinha da pele dela voltava a me desconcentrar toda vez que ela se inclinava sobre o papel, mas fiz um esforço consciente para me manter focado.Pelos vinte minut

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    ~ { POV Daniel } ~A primeira colheita da Fazenda Ferrari terminou sem grandes problemas, o que, considerando as condições em que aquela propriedade se encontrava, já era motivo suficiente para comemorar.Os trabalhadores conseguiram manter o ritmo, os cavalos responderam bem ao esforço e Túlio passou boa parte do dia conferindo as cargas, anotando números e garantindo que nenhuma laranja desaparecesse misteriosamente entre o talhão e o galpão.Celina, por sua vez, cumpriu a missão de vigiar os animais com a seriedade de quem estava disposta a arrancar as orelhas de qualquer peão que tentasse exigir mais deles do que deveriam dar.E Isadora...Bom, Isadora passou o dia inteiro ao meu lado.Não que isso tivesse alguma importância especial.Eu só estava observando a proprietária da fazenda trabalhar, garantindo que ela não se metesse em alguma encrenca e, de quebra, aproveitando a oportunidade para mostrar que eu era muito mais do que o sujeito convencido que ela insistia em enxergar.U

  • Meu problema era o peão tatuado   68 - O menor dos meus problemas

    Pisquei duas vezes, tentando processar a pergunta da Celina.Por um segundo, minha mente deu um nó, até que uma ideia alternativa estalou na minha cabeça e eu soltei um riso soprado.— Espera aí... — ergui as sobrancelhas, encarando minha amiga de cima a baixo. — Você tá me perguntando se eu confio no Túlio ou tá querendo saber se eu o aprovo porque ficou interessada nele?Celina não desvios o olhar.Um sorriso de canto devagar nasceu nos lábios dela, sem a menor sombra de vergonha.— Bom... que ele é bem pegável, isso é inegável — ela deu de ombros, pegando um pedaço de broa da cesta. — É bonito, educado, tem aquele ar de homem sério e compenetrado que dá até um charme a mais.Soltei uma risada involuntária e balancei a cabeça.— Você não presta.— Eu sei.Ela pegou uma fatia de bolo e deu uma mordida antes de voltar a falar.— Mas não foi só por isso que eu perguntei.Ajustei a postura, o tom divertido evaporando quando percebi a gravidade no olhar dela.— Ele conversou comigo sobre

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    Com o carregamento da carroça completamente cheio de sacos pesados de juta, iniciamos o trajeto de volta em direção ao galpão principal.A carroça estava pesada o suficiente para que os cavalos sentissem a diferença no primeiro trecho da subida, mas Daniel parecia completamente à vontade.Ele vinha ao meu lado com uma postura irritantemente relaxada, uma das mãos firme nas rédeas enquanto a outra descansava sobre a perna.O suor ainda brilhava na testa e nos braços, a camisa escura grudando um pouco nas costas por causa do esforço de minutos antes.E ele ainda tinha a coragem de parecer satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio por me pegar no flagrante encarando cada centímetro do seu corpo.— Está se divertindo? — perguntei, sem conseguir esconder a irritação.Ele virou o rosto na minha direção.— Bastante.— Eu percebi.Um sorriso preguiçoso apareceu no canto da boca dele.— Algum problema, patroa?— Por que você piscou pra mim enquanto trabalhava?— Pisquei? Não me l

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    ~ { POV Isadora } ~Daniel estava me irritando.Muito.Mais do que deveria.E o pior de tudo era que eu sabia exatamente o motivo.Desde que ele tinha segurado a minha mão naquela caminhonete e dito, com aquela voz baixa e séria, que eu podia contar com ele, alguma coisa dentro de mim parecia ter saído do eixo.Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos dele sobre os meus, lembrar do jeito como ele tinha me olhado e, principalmente, da ausência daquela provocação habitual.Ele não estava tentando me conquistar naquele momento.Ele só estava ali.E aquilo era muito mais perigoso.— Para, Isadora — murmurei para mim mesma, enquanto observava o movimento dos trabalhadores começando a se espalhar pelo laranjal.Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar.Não com a fazenda do meu pai à beira da ruína, quem eu achava ser minha mãe rondando a estrada e meu pai só com a Verona no hospital.Eu precisava retomar o controle.Da fazenda, da colheita, da minha cabeça.Principalmente da minha cabe

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    Acordei antes mesmo do despertador tocar.Fiquei alguns segundos encarando o teto do quarto, ouvindo o silêncio da madrugada se dissolver aos poucos do lado de fora, com os primeiros sons dos animais começando a se espalhar pela propriedade e uma faixa de claridade azulada entrando pela fresta da cortina.Eu deveria estar cansado.Depois de tudo que tinha acontecido no dia anterior, dormir deveria ter sido fácil.Mas minha cabeça não tinha colaborado.A imagem de Isadora parada naquela estrada, chorando dentro do carro, ainda voltava para mim toda vez que eu fechava os olhos.A forma como ela tinha saído correndo e se jogado nos meus braços, sem pensar duas vezes, continuava presa na minha memória de um jeito que eu não sabia muito bem como explicar.Talvez porque, pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela tivesse baixado completamente a guarda comigo.Não existia patroa. Não existia marra. Não existia o orgulho Ferrari.Só existia uma Isadora assustada, precisando de alguém, e e

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