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Capítulo 4

Author: Meteor Sea
Vicente entrou às pressas, ofegante, com a urgência de quem temia nunca mais me encontrar.

Pálida, soltei uma risada amarga. Mas, antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, ele colocou uma bala de leite na minha boca.

O gesto veio com a mesma naturalidade de sempre, como tantas outras vezes ao longo daqueles sete anos.

— Olha só o seu estado. Daqui a pouco sua glicose despenca de novo.

O sabor cremoso do leite se espalhou pela minha boca. A doçura, porém, nunca me pareceu tão amarga.

Diante do meu silêncio, Vicente tirou o paletó e o colocou sobre meus ombros.

— Vou pedir pro motorista te levar ao hotel. Já reservei um quarto pra você. Fica lá uns dias, descansa um pouco. Quando o casamento acabar, eu vou te procurar. A gente conversa e eu te explico tudo direito.

Senti os olhos arderem.

Ele não disse que me amava. Nem que sentiria minha falta.

Mas aqueles pequenos cuidados, tão instintivos, me fizeram lembrar do Vicente que enfrentava a chuva para me levar remédios e só ia embora depois de se certificar de que eu comia direito.

Sete anos de hábitos não desapareciam de uma hora para outra.

O paletó ainda guardava o calor do seu corpo. Durante tanto tempo, acreditei que aquele carinho pertencia só a mim.

Agora, porém, era outra mulher quem ocupava o lugar de sua esposa.

— Vicente! Então você tá mesmo aqui.

A voz de Lavínia surgiu à porta. Bianca vinha logo atrás.

O olhar da minha irmã parou na mão que Vicente ainda mantinha próxima de mim. Seus olhos se encheram de lágrimas quase instantaneamente.

— Eu vou ter que ficar em segundo lugar pra sempre? — Sua voz vacilou. — Eu sei que você ainda não conseguiu esquecer minha irmã... Se é assim, eu desisto. Não quero atrapalhar a felicidade de vocês...

Vicente a puxou para os braços no mesmo instante, com os olhos vermelhos, apertando-a contra o peito.

Lavínia se ergueu na ponta dos pés e, entre lágrimas, procurou os lábios dele.

Naquela cena, parecia que a grande vilã da história era eu.

Respirei fundo, engolindo o choro.

Sem dizer uma palavra, peguei a mala e segui para a porta.

Quando passei por Bianca, ela jogou o ombro contra o meu de propósito.

Perdi o equilíbrio antes mesmo de entender o que aconteceu. Bati com força na mesa baixa atrás de mim e caí no chão.

Uma dor lancinante atravessou meu ventre, como se algo se rasgasse por dentro.

Em segundos, o sangue quente encharcou a saia do meu vestido.

Ao ver o sangue se espalhar pelo chão, Vicente perdeu a cor.

Sem pensar duas vezes, se agachou ao meu lado e me amparou.

— Elisa! Onde tá doendo? Me fala! Eu vou te levar pro hospital agora mesmo.

Por um instante, o desespero em seus olhos pareceu verdadeiro.

Ele já se preparava para me pegar no colo quando Lavínia levou a mão à barriga e se curvou.

— Vicente, minha barriga tá doendo... Será que aconteceu alguma coisa com o nosso bebê?

Bastou aquela frase para Vicente ficar imóvel.

Minha mãe e meu pai correram para cercar Lavínia. Rafael a pegou no colo, enquanto Bianca disparou para chamar o elevador.

Vicente hesitou por alguns segundos.

Depois, virou as costas para mim e foi atrás deles.

Antes de sair, Vicente ainda olhou para trás.

— Vou levar a Lavínia pro hospital primeiro. No seu caso, deve ser só a menstruação. Vai pra casa, descansa um pouco que logo passa.

A porta se fechou.

No corredor, os passos apressados se afastaram até desaparecer.

Apertei as mãos contra o ventre e tentei me levantar para pedir ajuda. Mas, assim que meus dedos alcançaram o celular, tudo escureceu.

Quem me encontrou foi uma funcionária que entrou para limpar o quarto da noiva.

Ao me ver caída numa poça de sangue, ela se assustou tanto que chamou uma ambulância na mesma hora.

Quando os exames ficaram prontos, o médico assumiu uma expressão grave.

— Você está grávida de seis semanas. Há sinais de ameaça de aborto espontâneo. Vamos te internar e fazer o possível para preservar a gestação.

Fiquei olhando para o teto, incapaz de reagir.

Justo quando decidi deixar Vicente para trás, nosso segundo filho começava a crescer dentro de mim.

Passei dois dias numa cama de hospital, entre injeções e medicamentos. Tinha tanto medo de perder o bebê que mal ousava me virar.

Mas, na manhã do terceiro dia, o médico terminou o exame e ficou em silêncio por um longo tempo.

— Infelizmente, o coração do bebê parou de bater. Não conseguimos salvar a gravidez.

Não chorei.

Minha mão apenas procurou o ventre, num gesto involuntário.

A barriga continuava lisa, sem qualquer sinal de que uma pequena vida passou por ali.

Pouco antes do procedimento, uma enfermeira entrou com o termo de consentimento.

Ela olhou ao redor do quarto vazio.

— Você tá sem acompanhante? Ninguém da sua família veio? Nem o pai do bebê?

Naquele instante, meu celular vibrou. Era uma nova publicação de Lavínia nas redes sociais.

Na fotografia, ela aparecia aconchegada nos braços de Vicente.

Ao lado deles, meus pais escolhiam nomes para o bebê. Rafael comprou um berço, e Bianca presenteou Lavínia com um par de sapatinhos minúsculos.

A legenda dizia:

[Foi só um susto! Nosso bebê está ótimo.]

[Obrigada a toda a minha família por tanto amor e carinho.]

Durante dois dias inteiros, todos ficaram ao lado de Lavínia no hospital onde ela estava internada.

Ninguém sequer se preocupou em saber como eu estava.

— Quer tentar ligar pra alguém da família? — A enfermeira perguntou com delicadeza.

Meus olhos pararam no espaço reservado à assinatura de um familiar responsável.

Depois de um longo silêncio, peguei a caneta que ela segurava.

— Não precisa.

Minha voz saiu baixa, mas firme.

— Eu não tenho família.

Depois do procedimento, o médico insistiu para que eu ficasse mais algum tempo em observação.

Recusei.

Peguei minha mala e segui sozinha para o aeroporto.

A cada passo, uma dor funda atravessava meu ventre, como se uma lâmina cega rasgasse minha carne por dentro.

Quando anunciaram o embarque, saí do grupo da família e desliguei o celular.

A contagem regressiva de vinte e quatro horas finalmente chegou ao fim.

Enquanto o avião atravessava as nuvens, a cidade que me manteve prisioneira durante sete anos desapareceu pela janela.

Dez horas depois, cheguei ao meu destino.

Assim que liguei o celular, a tela ficou tomada por uma enxurrada de chamadas perdidas.

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