LOGINAlice já tinha quatro meses completos.A casa acordava diferente depois da chegada dela. Mais cedo, mais barulhenta, mais cheia. Mas também mais leve. Eu abri os olhos naquela manhã e o primeiro pensamento foi o silêncio relativo do quarto. Arthur ainda dormia no cômodo ao lado. Alice também. O monitor da babá eletrônica transmita em silêncio.Ricardo estava atrás de mim, o corpo quente colado nas minhas costas, uma mão pesada na minha cintura. Eu senti ele se mexer, deu um beijo lento na minha nuca, a respiração já mudando. Virei o rosto. Os olhos escuros dele estavam abertos, ainda meio sonolentos, mas já me desejando.Não precisou de palavras.O beijo veio fundo, sem pressa. A mão dele subiu por baixo da minha camisola que eu usava para dormir, encontrou o seio ainda sensível da amamentação, apertou com cuidado. Eu gemi baixo, virando o corpo por completo. Ele se posicionou entre minhas pernas, o pau já duro esfregando contra a minha calcinha. Puxei o tecido para o lado. Ele entrou
Eu enfrentei homens armados sem piscar.Enfrentei facções, traições, noites em que a morte parecia mais próxima do que o amanhecer. Nunca tremei. Nunca deixei o medo transparecer no meu rosto. Medo era fraqueza. E fraqueza matava.Mas nada daquilo me preparou para o momento em que a Cecília apertou minha mão com força e disse, a voz já alterada:— Ricardo… acho que é agora.O chão sumiu debaixo dos meus pés.Eu tentei manter a postura. Respirei fundo. Chamei a babá que já conhecia a rotina da casa. Expliquei rápido que o Arthur ficaria com ela, que a gente ia para o hospital e voltava assim que possível. O menino olhou para mim com aqueles olhos sérios demais para a idade.— O bebê está vindo? — perguntou.— Está, Pequeno. A mamãe e o papai vão cuidar disso. Você fica aqui com a tia e quando a gente voltar você conhece o irmãozinho ou a irmãzinha.Ele assentiu, quieto. Eu beijei a cabeça dele e saí com a Cecília antes que a coragem me abandonasse de vez.No carro eu dirigia com uma mã
A minha gravidez já estava bem mais avançada.Final do oitavo mês. A barriga pesava, os meus pés inchavam muito, sempre no fim do dia e eu tinha desistido de qualquer sapato que não fosse um chinelo simples. Mas a rotina da casa finalmente parecia… nossa. De verdade.Arthur acordava, tomava café com a gente, ia para a escola particular que o Ricardo tinha escolhido e voltava no meio da tarde. Duas vezes por semana a terapeuta vinha em casa. A sala do fundo, aquela que ele reformou com porta acústica e iluminação quente, tinha virado o espaço oficial das sessões. Eu ficava do lado de fora as primeiras vezes, ouvindo. Depois aprendi a confiar. O meu menino estava bem. Mais organizado. Menos crises. E, de alguma forma que ainda me surpreendia, cada vez mais falante sobre números.Foi numa terça-feira que a professora me ligou.Eu estava dobrando roupinhas do bebê no quarto quando o telefone tocou. A voz do outro lado vinha animada e um pouco incrédula.— Dona Cecília, eu preciso te conta
Eu nunca imaginei que um dia estaria parado no meio da quadra esperando uma mulher.Na mesma quadra onde, durante anos, o funk batia até o chão tremer, onde dinheiro trocava de mão, onde eu resolvia problemas apenas com uma palavra no radinho. Hoje estava diferente. As laterais estavam cobertas com tecido branco e verde claro. Havia flores simples nos postes, cadeiras decoradas enfileiradas, uma trilha de pétalas branca e rosa no chão de cimento. O cheiro de comida boa vinha das barracas que as mulheres do morro montaram. Crianças corriam entre os adultos. Gente que eu conhecia do morro estavam ali sentadas esperando comigo.E eu estava no centro.De terno preto simples, sem gravata, as mãos juntas na frente do corpo. Pela primeira vez em décadas o nome Fera não precisava ser sussurrado. Todo mundo ali já sabia quem eu era. Sr Ricardo, o pai do Urso. Fera. O dono do morro. Não havia mais sombra para me esconder. E, estranhamente, eu não sentia falta dela.Olhei para o fundo da quadra.
Quando Ricardo chegou em casa, eu já sentia que alguma coisa tinha mudado.Não era só o alívio de saber que a Jéssica estava segura. Era outra coisa. Mais quieta. Mais profunda. A casa inteira parecia respirar diferente. Arthur corria pelo corredor com um carrinho na mão, o som dos pés descalços batendo no piso frio. Não havia mais aquela tensão constante de que a qualquer momento a porta podia ser arrombada, de que alguém ia aparecer para destruir o pouco de paz que a gente tinha construído.Eu estava na cozinha quando ele entrou. O rosto cansado, mas os olhos mais leves do que eu tinha visto em semanas. Ele deixou as chaves em cima da mesa, se aproximou e me beijou na testa.— Resolvido — disse só isso.— O Jason?— A dívida será paga. Fizemos um acordo. Vai ter um baile para selar a paz entre os dois morros. Ninguém mais mexe com a Jéssica.Eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Apertando a borda da pia, senti os ombros descerem de verdade pela primeira vez em dias.— O
Eu e a Cecília estávamos na sala quando o Arthur pegou a bola e saiu correndo para o quintal.— Vou jogar bola! — anunciou, já desaparecendo pela porta dos fundos.Ficamos os dois em silêncio por um segundo. Foi quando os sons começaram a descer do andar de cima. Gemidos abafados. A cama batendo leve na parede. A voz da Jéssica, manhosa, misturada com a do Steve rouco. Cecília olhou para mim e soltou uma risada baixa, quase sem querer. Eu também ri. O tipo de riso curto e cúmplice que só quem já passou da fase da vergonha consegue dar.— Parece que os dois se entenderam — ela comentou, ainda sorrindo.— Parece.Não quis ficar escutando. Levantei, estendi a mão para ela e fomos para o quintal. Arthur já estava chutando a bola contra o muro, concentrado. Eu fiquei observando o menino enquanto Cecília se sentava na cadeira de plástico. O sol da manhã batia fraco. Por um momento a casa parecia só isso: silêncio, criança brincando e a certeza de que, lá em cima, meu filho estava tentando s







