MasukA noite pesava sobre Paraisópolis como um manto sufocante. Dentro do quarto amplo no sobrado fortificado, a luz vermelha de um abajur barato tingia as paredes de um tom sanguíneo. Ricardo Azevedo Brum estava deitado na cama larga, o corpo suado e tenso, enquanto a mulher montava-o com movimentos cadenciados e experientes.
A mulher se chamava Larissa, ou pelo menos, era o nome que usava ali no morro. Uma prostituta de vinte e oito anos, pele morena, curvas generosas e olhos castanhos que sabiam fingir desejo melhor do que a maioria. Ricardo mantinha-a como amante ocasional há quase dois anos. Não era amor. Nunca seria. Era um escape brutal, uma forma crua de sentir algo que não fosse apenas o vazio que Beatriz deixara. — Mais forte, Chefe... — gemeu Larissa, inclinando o corpo para trás, os seios fartos balançando enquanto rebolava com intensidade, suas mãos cravavam no peito largo de Ricardo, unhas vermelhas deixando marcas vermelhas na pele bronzeada. — Me fode como você sabe... Ricardo agarrou os quadris de Larissa com força, dedos longos afundando na carne macia, e impulsionou para cima com estocadas profundas e brutais. O som molhado de carne contra carne enchia o quarto, misturado aos gemidos roucos de Larissa. Seu pau grosso deslizava com facilidade dentro de Larissa, quente, apertado, encharcado. Cada investida era violenta, quase punitiva, como se Ricardo quisesse foder não só o corpo da mulher, mas o próprio tormento que consumia-o tanto. Mas enquanto Larissa rebolava, gemendo seu nome como uma reza profana, a mente de Ricardo estava longe. Beatriz... Ele fechou os olhos azuis e, no escuro das pálpebras, viu o rosto de Beatriz. O sorriso tímido de quando tinham dezesseis anos. Os cabelos longos cheirando a shampoo de rosas. O corpo delicado, virgem na primeira vez que se entregaram um ao outro. A barriga levemente arredondada dos vinte anos, grávida de três semanas, que nunca teve chance de ver crescer. — Porra... — murmurou Ricardo entre dentes, aumentando o ritmo, batendo mais fundo em Larissa, que gritou de prazer, achando que era por sua causa. — Caralho... Mas não era. Ricardo via Beatriz debaixo de seu corpo. Sentiu o cheiro de Beatriz substituindo o perfume barato de Larissa. Lembrou das noites calmas na casa antiga, quando faziam amor devagar, com beijos molhados e sussurros de amor eterno. Beatriz era pura. Era luz. Era tudo que tinha de bom no mundo. Agora, Ricardo estava ali, fodendo uma prostituta como um animal ferido, enquanto o fantasma da esposa assassinada observava-o em silêncio. Larissa inclinou-se para frente, mordendo o pescoço de Ricardo, sussurrando safadezas no ouvido. — Você é tão grande... Me rasga toda, Ricardo... — a mulher disse. — Goza dentro de mim... Me enche... Ricardo virou os dois com um movimento brusco, colocando-a de quatro na cama. Agarrou os cabelos de Larissa com força, puxando a cabeça para trás, e meteu com fúria renovada. O tapa da pele contra pele ecoava alto. Larissa gemia alto, empinando a bunda, pedindo mais. O suor escorria pelos corpos. O quarto cheirava a sexo, cigarro e culpa. Ricardo fechou os olhos azuis novamente. “Beatriz... me perdoa...” A imagem veio nítida: o corpo de Beatriz no banco traseiro do carro, frio, violado, cortado. O sangue seco entre as pernas. O corte na barriga pequena. Caio tinha tirado tudo. Tinha profanado o que era sagrado. E Ricardo, em vez de morrer com Beatriz, tinha virado isso — um Chefão do Morro, um homem que protegia o povo com regras de ferro, mas que se afundava na carne paga para esquecer a dor. Ele metia mais forte, quase com raiva. Larissa gritava de prazer misturado a leve dor, o corpo tremendo. — Isso... Assim... — Larissa disse. — Me usa, porra! Sou sua vadia! Ricardo sentia o orgasmo se aproximando, uma onda quente subindo pela espinha. Mas não era prazer puro. Era uma mistura doentia de desejo, culpa e ódio. Ricardo pensava em Beatriz gemendo seu nome baixinho, no jeito inocente de como se entregava. Pensava no filho que nunca nasceu. Pensava no primo Caio rindo enquanto torturava e violava a mulher que ambos haviam amado. Com um rugido gutural, Ricardo gozou violentamente dentro de Larissa, jatos quentes enchendo-a enquanto segurava seus quadris com tanta força que deixaria marcas. Larissa gozou também, corpo convulsionando, gemendo alto, apertando-o por dentro. Por alguns segundos, só se ouvia a respiração pesada dos dois. Ricardo saiu de dentro de Larissa e caiu de lado na cama, olhando para o teto rachado. Larissa virou-se, passando a mão no peito de Ricardo, tentando ser carinhosa. — Você tá distante hoje, Chefe... — murmurou Larissa, traçando as cicatrizes antigas com as pontas dos dedos. — Pensando em Beatriz de novo? Ricardo não respondeu de imediato. Acendeu um cigarro com as mãos ainda trêmulas. A fumaça subiu devagar. — Beatriz nunca sai da minha cabeça... — disse finalmente, voz rouca e baixa. — Mesmo quando tô te fodendo, é em Beatriz que eu penso... No seu corpo... No seu cheiro... No jeito que me olhava como se eu fosse o único homem do mundo... Larissa ficou em silêncio. Sabia seu lugar. Não era ciúmes, era sobrevivência. Larissa era só o corpo que Ricardo usava para não enlouquecer. Ricardo tragou fundo, os olhos azuis brilhando com uma mistura de tristeza profunda e fúria contida. — Caio tirou tudo de mim... Matou Beatriz devagar. Torturou... Violou... Cortou meu filho de dentro de Beatriz como se fosse nada... — as lembranças eram dolorosas. — E eu... Eu tô aqui, vivo, mandando nesse morro, protegendo gente que nem conheço direito, enquanto Caio respira em Heliópolis... Larissa aproximou-se, beijando o peito de Ricardo com cuidado. — Você vai se vingar um dia... Todo mundo sabe... — a mulher confirmou. — Mas não precisa carregar isso sozinho o tempo todo... Ricardo riu, um riso amargo e sem alegria. Era como morrer um pouco a cada dia também. — Sozinho? Eu tô mais sozinho do que nunca, porra... — Ricardo confessou. — Protejo o morro, imponho regras, evito que as crianças virarem bandidos ou putas como você... Mas quando a noite chega... Só sobra isso... Uma buceta quente pra esquecer que minha mulher tá morta há anos... As palavras foram duras. Larissa não se ofendeu. Apenas subiu em cima de Ricardo novamente, beijando seu pescoço, descendo lentamente pelo peito, pela barriga, até tomar o pau semi-duro na boca. Chupou com habilidade, língua girando na cabeça, sugando devagar enquanto Ricardo endurecia outra vez. Ricardo gemeu, segurando os cabelos de Larissa. Mais uma vez, a mente via Beatriz. Via seus lábios, inocentes, beijando-o com amor. Via seu corpo nu na primeira noite de casados, tímido e entregue. Ricardo puxou Larissa para cima, penetrou-a novamente em um golpe só, fundo e brusco. Começaram a foder de novo, mais lento dessa vez, mas não menos intenso. Os gemidos de Larissa enchiam o quarto. Ricardo segurava seus seios, apertando os mamilos, mordendo o ombro enquanto estocava. — Beatriz... — sussurrou sem querer, quase inaudível. — Minha Beatriz... Larissa fingiu não ouvir. Rebolou mais forte, apertando-o por dentro, querendo tirar de Ricardo o máximo de prazer possível. O drama se desenrolava dentro de Ricardo como uma faca girando na ferida. Prazer físico misturado à dor mais profunda. Gozo e culpa. Luxúria e luto eterno. Ricardo gozou pela segunda vez, mais fraco, esvaziando-se dentro de Larissa enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo canto dos olhos, lágrimas que nunca deixaria ninguém ver. Depois, deitado ao lado de Larissa, fumando outro cigarro, Ricardo olhou para a janela gradeada. As luzes de Paraisópolis piscavam lá fora. O morro que conquistara com sangue. O povo que confiava em sua figura. As regras que mantinham tudo no lugar. Mas nada disso curava o buraco no peito. — Um dia eu vou matar Caio... — murmurou para a escuridão. — Devagar... Como fez com Beatriz... E talvez... Talvez depois eu consiga dormir sem sonhar com aquele corpo frio nos meus braços... Larissa adormeceu ao seu lado. Ricardo ficou acordado até o amanhecer, o pau ainda semi-duro, a mente presa entre o sexo recente e a memória sagrada de Beatriz. O Demônio Branco do morro continuava vivo. Mas por dentro, ainda era o viúvo ajoelhado no asfalto, chorando sobre o cadáver da mulher que nunca deixaria de amar.No final daquela tarde, Ricardo decidiu sair com Joice para que os dois pudessem passar algumas horas longe das preocupações da mansão. Depois dos últimos acontecimentos, Ricardo vinha tentando aproveitar os momentos tranquilos ao lado de Joice, principalmente agora que a relação entre os dois havia mudado.Joice se arrumou sem pressa e desceu quando Ricardo já esperava-a. O homem havia escolhido roupas mais simples do que costumava usar quando precisava circular pela comunidade. Também pediu que os poucos homens que os acompanhariam mantivessem certa distância, pois não queria chamar atenção.Ricardo era conhecido em Paraisópolis. Ser o Dono do Morro fazia com que sua presença dificilmente passasse despercebida, mas naquela tarde Ricardo pretendia apenas caminhar com Joice e aproveitar a sua companhia.Os dois seguiram pelas ruas conversando sobre coisas simples. Joice comentou sobre os gatos que agora estavam na mansão, falou sobre como ainda estava se acostumando com a nova rotina
A manhã havia começado tranquila em Heliópolis quando Sergio saiu para resolver alguns assuntos que precisavam de sua atenção. Desde a conversa que tivera com Caio, o rapaz continuava com a cabeça cheia. As palavras que havia dito ao pai ainda estavam presentes em seus pensamentos, principalmente o pedido para que ele parasse antes que a vingança acabasse causando uma nova tragédia.Sergio conhecia Caio o suficiente para saber que não seria fácil fazê-lo mudar de ideia. O pai havia passado anos alimentando ressentimentos e procurando maneiras de atingir aqueles que considerava responsáveis por tudo o que havia perdido. Agora, com Ricardo e Joice novamente próximos, aquela obsessão parecia ter encontrado uma nova direção.Mesmo preocupado, Sergio precisava continuar cumprindo suas responsabilidades. Não queria passar o dia inteiro pensando no que poderia acontecer. Resolveu alguns assuntos com os homens que trabalhavam para sua família e, depois, decidiu caminhar por uma região que con
A noite chegou lentamente sobre Paraisópolis, envolvendo a mansão em uma tranquilidade incomum. Os gatos de Joice ainda exploravam o quarto reservado, descobrindo cada canto do novo ambiente e se acostumando aos cheiros diferentes. Joice havia passado boa parte da tarde perto dos animais, organizando seus pertences e certificando-se de que tinham água, comida e um espaço confortável.Ricardo observava aquela movimentação de longe. Havia algo diferente naquela casa. Durante muito tempo, a mansão havia sido marcada por lembranças difíceis, principalmente depois da morte de Beatriz. Mesmo cercado pelos filhos, funcionários e homens de confiança, existia uma espécie de vazio que Ricardo aprendera a aceitar como parte de sua vida. Agora, porém, pequenas coisas começavam a mudar.O som dos gatos andando pelo corredor, a presença de Joice e até mesmo alguns objetos pessoais espalhados pelos cômodos faziam a casa parecer menos fria. Ricardo ainda não sabia explicar exatamente o que sentia, ma
A tarde começava a cair sobre Paraisópolis quando Joice finalmente se lembrou dos gatos. Estava sentada na sala da mansão, observando pela janela o movimento do lado de fora, quando uma lembrança repentina fez com que levasse a mão à testa. No meio de tudo o que havia acontecido desde o sequestro, havia deixado completamente de pensar nos animais que estavam no apartamento de Aline.A preocupação surgiu imediatamente. Joice sabia que Aline havia cuidado dos gatos durante sua ausência, mas ainda assim sentiu uma pontada de culpa. Aqueles animais faziam parte de sua vida havia muito tempo, e não conseguia imaginar quanto tempo mais poderia deixá-los longe.Joice pegou o celular e entrou em contato com Aline. Depois de explicar a situação, descobriu que os gatos estavam bem e continuavam sendo cuidados. Aline não demonstrou qualquer problema quando Joice perguntou se poderia buscá-los. Pelo contrário, pareceu aliviada por saber que finalmente teria uma oportunidade de levar os animais pa
Depois que Carolina voltou para o quarto e os outros filhos terminaram de organizar as coisas que haviam trazido da viagem, Ricardo permaneceu algum tempo na sala. A casa estava mais movimentada do que nos últimos dias, mas havia uma tranquilidade diferente no ambiente. Joice havia se recolhido por alguns minutos, deixando que Ricardo tivesse um momento sozinho com os filhos.Os três acabaram permanecendo na sala com o pai. Ainda existia uma curiosidade evidente sobre tudo o que havia acontecido enquanto estavam fora, principalmente porque haviam encontrado Joice ali de maneira inesperada. Ricardo percebeu que estavam esperando uma explicação mais detalhada, mas não queria transformar aquele momento em uma conversa pesada.Sentou-se em uma das poltronas e observou os filhos por alguns segundos. Todos haviam crescido bastante durante os últimos anos, e vê-los novamente depois da viagem fez Ricardo perceber como o tempo passava rapidamente.— Eu sei que foi estranho encontrar sua tia aq
A tarde já havia avançado quando os filhos de Ricardo finalmente retornaram da viagem. A movimentação começou na entrada da mansão assim que o carro parou diante do portão, trazendo de volta as malas, algumas lembranças dos dias que haviam passado longe de casa e a expectativa de reencontrar o pai.Carolina foi a primeira a descer do veículo. Estava cansada da viagem, mas ainda assim demonstrava animação por finalmente estar de volta. Os outros filhos vieram logo atrás, conversando sobre algumas coisas que haviam acontecido durante aqueles dias. Nenhum imaginava que encontraria uma surpresa dentro da mansão. Ricardo havia avisado que estaria esperando, mas não havia contado que Joice estava ali.Quando entraram na sala, os três pararam quase ao mesmo tempo. Joice estava sentada no sofá, conversando tranquilamente com Ricardo. Ao perceber a movimentação, virou o rosto e ficou igualmente surpresa. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O reencontro inesperado fez com que as lembranças







