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Capítulo 2

Author: Aurélia
Só então ele ergueu os olhos e franziu levemente a testa. Estava prestes a dizer alguma coisa quando o toque do celular o interrompeu.

Ao ver o nome na tela, um sorriso surgiu no canto de seus lábios, e ele atendeu.

— O que foi, Manuela? A canja já está cozinhando. Se estiver entediada, brinque um pouco com o bebê. — De repente, ele fez uma pausa e lançou um olhar significativo em minha direção antes de responder. — Ela não sabe. Fique tranquila.

Depois de desligar, ele olhou para mim.

— Manuela ainda não sabe que contei tudo a você. Finja que não sabe de nada. Ela não quer perder a sua amizade. — Ao terminar, despejou a sopa em um recipiente térmico.

Ele se apressou para sair, mas eu o chamei e repeti:

— Divórcio.

Ele se virou, com uma expressão de incompreensão.

— Nós acabamos de oficializar o casamento. Divórcio? Quer que todo mundo ao nosso redor ria de nós? Tenha um pouco de dignidade e pare de fazer escândalo.

Agarrei o vaso que estava ao meu alcance e o arremessei com força diante dele, gritando de raiva:

— Eu estou fazendo escândalo? Enquanto eu chorava a morte do meu pai, vocês transavam pelas minhas costas. Vocês tiveram algum respeito por mim? Vocês chegaram a ter um filho! Com que direito você exige que eu mantenha a dignidade?

Naquele instante, minhas lágrimas começaram a cair sem que eu pudesse impedir.

Vinícius franziu a testa e disse apenas uma frase, com total indiferença:

— Você é louca. — Então, bateu a porta e foi embora.

Observei-o se afastar cada vez mais e desabei no chão.

Pouco depois, uma enxurrada de mensagens de Manuela começou a surgir na tela do meu celular.

[Jéssica, você nem esperou eu acordar para ir embora.]

[Já conheceu seu afilhado?]

[Quando você e Vinícius vão viajar em lua de mel?]

[O Vinícius também não tem jeito. Tinha mesmo que apressar o casamento de vocês justo quando eu estava dando à luz? Agora você não vai poder ficar comigo durante a recuperação!]

Logo depois, outra mensagem apareceu.

[Mas não precisa se preocupar comigo. O pai do bebê veio cuidar de nós.]

Em seguida, ela enviou uma foto. Nela, os dedos longos de um homem seguravam uma mamadeira.

No dedo anelar, ele ainda usava uma aliança igual à minha. Meu corpo inteiro começou a tremer, e mal consegui segurar o celular.

Eles já nem se davam ao trabalho de fingir. Ele nem sequer havia tirado a aliança.

Ao mesmo tempo, Manuela atualizou o Instagram com uma única frase.

[Se desta vez eu pedir que você fique, você aceita?]

No segundo seguinte, uma mensagem de Vinícius apareceu na tela.

[Vá sozinha para a lua de mel.]

Meu peito se contraiu de repente. Minha respiração ficou rápida e pesada, e meu corpo inteiro tremia. Com dificuldade, escrevi uma frase nos comentários da publicação de Manuela.

[Não precisam ficar insinuando. Eu deixo vocês ficarem juntos.]

Depois de enviar o comentário, arrastei meu corpo exausto escada acima para arrumar minhas coisas.

Eu mesma havia decorado cada detalhe daquela casa para o nosso casamento, mas não suportava permanecer ali nem por mais um instante.

Quando estava prestes a sair, encontrei um celular antigo escondido no fundo do guarda-roupa. Sem nem pensar, digitei a data de nascimento de Manuela. O celular foi desbloqueado.

A tela de bloqueio exibia uma foto de Vinícius e Manuela se beijando.

Todas as anotações eram sobre Manuela. O ciclo menstrual de Manuela, os alimentos que ela evitava, as datas de suas consultas pré-natais.

A galeria também era inteiramente dedicada a Manuela. O rosto dela enquanto dormia, seu sorriso bobo, os lábios fazendo biquinho ao pedir carinho, o rubor de sua pele quando se entregava ao desejo. As lágrimas no canto de seus olhos quando foi levada para a sala de parto.

Uma foto após outra, desde que os dois tinham doze anos até o dia anterior. Ele tinha registrado cada momento dela.

O mais ridículo era que, em algumas das fotos que ele tirou de Manuela às escondidas, eu também aparecia.

Meus dedos tremiam tanto que eu não conseguia fazê-los parar.

Uma vida inteira não passa de pouco mais de trinta mil dias, e Vinícius havia tirado quase quarenta mil fotos de Manuela.

Estivemos juntos por três anos, mas, tirando as fotos do casamento, não tínhamos uma única foto nossa. Sempre que eu pegava o celular para tirar uma foto de nós dois, Vinícius franzia a testa e inventava uma desculpa.

— Como você trabalha com audiovisual, é inevitável que a divulgação da foto cause uma grande repercussão.

Ele nunca havia me visitado no set de filmagem, nem uma única vez, mas jamais perdia um show de Manuela.

A viagem de lua de mel que planejei não iria além de Vila Nevada.

Enquanto isso, os dois haviam viajado pelo país inteiro e deixado suas pegadas até mesmo em uma vila pelas auroras boreais, dentro do Círculo Polar Ártico.

Eles haviam ido à Disney vinte e sete vezes. Não era de admirar que, sempre que eu sugeria comemorar nosso aniversário lá, ele descartava a ideia com um simples "que tédio".

"Se era mesmo tão entediante, por que ele foi vinte e sete vezes com ela?"

Como se estivesse me punindo, continuei passando por todas as fotos. Quando ergui a cabeça novamente, percebi que minhas lágrimas já haviam secado.

Coloquei o celular de volta no lugar e mandei uma mensagem para o meu agente: [Aceito aquele projeto de Hollywood. Peça ao Paulo para vir me buscar.]

[Jéssica, é maravilhoso saber que você vai retomar a carreira!]

Depois de responder ao meu agente, saí arrastando a mala. No entanto, no instante em que estava prestes a entrar no táxi, alguém me agarrou por trás e me puxou com toda a força.

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