LOGINNo terceiro ano do nosso casamento, Rafael Monteiro mudou o nome do meu contato. Não era "esposa". Era "19h-19h30". Ele dizia que só reservava meia hora por dia para assuntos pessoais. Se eu mandasse uma mensagem um minuto antes, ele não respondia. Se mandasse um minuto depois, também não. Uma vez, tive febre de 39 graus, precisei tomar soro no hospital e liguei sete vezes para ele. Às sete da noite, ele retornou pontualmente. — Restam 29 minutos. Vá direto ao ponto. Com a voz rouca, perguntei se ele podia ir me buscar. Ele olhou a agenda. — Não dá tempo de ir e voltar em 29 minutos. Chame um Uber. Eu sempre achei que ele só vivia ocupado com o trabalho. Por isso, eu nunca ousava desperdiçar aquela meia hora da noite. Anotava antes tudo o que queria dizer e tentava resumir até as minhas mágoas. Até que, certa madrugada, acordei assustada com um trovão. O lado dele da cama estava vazio. Na sala, Rafael estava encostado no sofá, revisando uma proposta para a gerente de projetos, Camila Ribeiro. Do outro lado da videochamada, ela reclamou, magoada: — Sr. Rafael, já é uma da manhã. Será que estou tomando muito do seu tempo? Ele riu. — Quando foi que contei o tempo que dedico a você? Parada atrás da porta, eu lembrei que, três horas antes, a dor no estômago tinha me feito bater à porta do escritório dele. Ele respondeu: — Seu tempo de hoje acabou. Voltei para o quarto e desliguei o alarme diário das 18h59. Na noite seguinte, às sete, Rafael não recebeu nenhuma mensagem minha pela primeira vez.
View MorePor fim, Rafael respondeu com a voz rouca: — Confirmo.O carimbo caiu com um som baixo.Mas eu ouvi.Parecia uma porta finalmente trancada por dentro.Recebi a certidão de divórcio às 10h26.Guardei o documento na bolsa.Ele observou o meu movimento.— Marina.Olhei para ele.Rafael tirou uma aliança do bolso do casaco.Era a minha aliança.O aro havia sido polido até brilhar.Com a voz extremamente rouca, ele perguntou:— Posso ficar com ela?Olhei para a joia.Logo depois do casamento, eu tinha erguido a aliança contra a luz para mostrar a ele.— Não parece uma lua pequena?— Não seja infantil.Depois, usei aquela aliança enquanto lavava louça, cozinhava e apagava tudo o que queria dizer uma vez após a outra.Olhei para Rafael.— Como quiser.Os dedos dele tremeram.Ele finalmente entendeu que o mais cruel não era brigar.Era não se importar.O carro de Júlia estava parado na rua.Ela abaixou a janela e acenou para mim.Eu me virei e ia ir embora.Rafael me chamou de repente.— Se eu
No dia da consulta, Júlia foi comigo ao hospital.Depois de conferir os exames, o médico recomendou que eu evitasse frio, cansaço e fortes emoções.Júlia assentiu enquanto enrolava um cachecol no meu pescoço.— Ouviu? Quando sentir dor, ligue primeiro para mim. Não importa a hora. Não tenho uma empresa de capital aberto.Eu ri.— Entendi.Quando saímos do consultório, a enfermeira chamou na porta: — Sra. Marina, pegue sua receita.Júlia respondeu imediatamente.— Estou indo.Ela pegou o papel e, ao se virar, viu Rafael no fim do corredor.Ele estava parado com uma sacola de remédios nas mãos.Eu não sabia há quanto tempo ele estava ouvindo a conversa.Seu rosto estava muito pálido.Vendo ele bloquear o corredor, a enfermeira perguntou: — O senhor também é familiar?Rafael engoliu em seco.— Sou o marido dela.Ergui os olhos e falei com calma: — Ele já não faz parte da minha família.Constrangida, a enfermeira olhou para nós dois e não disse mais nada.Mas Rafael ficou imóvel, como se a
Naquela noite, Rafael se sentou à mesa para me esperar pela primeira vez.Às 19h, o celular não tocou.Às 19h10, não havia mensagens.Às 19h30, nada aconteceu.O tempo que ele antes me concedia passou, vazio do começo ao fim.Rafael encarou o celular e finalmente me enviou uma mensagem."Marina, estou esperando você."Um ponto de exclamação vermelho apareceu.Ele o observou por muito tempo e soltou uma risada baixa.No fim, até respirar doía.Rafael se levantou e foi ao escritório.Os objetos ainda estavam sobre o teclado.A aliança, o prontuário, o exame e a ultrassonografia.No dia anterior, ele não ousara olhar direito. Só achara assustador o pouco que aqueles papéis pesavam.Ao os abrir novamente, leu a última observação do prontuário: "Paciente emocionalmente abalada. Recomenda-se acompanhamento do marido."Mas, naquela noite, ele estava bebendo no lugar de outra mulher.O dedo de Rafael parou. A borda do papel fez um corte leve em sua pele.Ao baixar os olhos, ele encontrou um ca
Nosso segundo encontro aconteceu no escritório de advocacia.Júlia foi comigo.— Se não estiver bem, fale. Não precisa mais enfrentar tudo sozinha.Assenti.Rafael chegou cinco minutos atrasado.Aquilo não combinava com ele.Antes, até suas relações pessoais eram cronometradas ao minuto. Muito menos se atrasaria para assinar um documento.Quando ele apareceu, estava com olheiras profundas.Não senti pena.O advogado empurrou os documentos para ele.— Sr. Rafael, o pedido da Sra. Marina é muito claro.— Não há questões de guarda, e a divisão dos bens é simples. Se concordar, o processo será rápido.Ao ouvir que não há questões de guarda, o rosto de Rafael mudou.Ele falou em voz baixa: — Não concordo.Não fiquei surpresa.Rafael não permitia que ninguém contrariasse nem seus planos de reunião. Nunca aceitaria que eu encerrasse o casamento sozinha.O advogado franziu a testa.— Sr. Rafael, a dissolução do casamento não depende apenas da sua vontade.Rafael não olhou para o advogado.Seus












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