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O Assento Vazio: A Filha que os Pais Deixaram para Morrer
O Assento Vazio: A Filha que os Pais Deixaram para Morrer
Author: Yolk Chips

Capítulo 1

Author: Yolk Chips
Eu era Tatiane, a filha do meio da família — a invisível, aquela que ninguém enxergava.

Meus pais marcavam no calendário o aniversário de Beatriz, minha irmã mais velha, e de Enzo, o caçula da casa. O meu, eles sempre esqueciam.

Beatriz e Enzo sempre apareciam com roupa nova, escolhida a dedo. Quando se tratava de mim, meus pais sempre esqueciam de comprar qualquer coisa.

Todo começo de ano, Beatriz e Enzo sempre ganhavam presente. Eu, nunca ganhei nada deles.

E até naquele dia, na estrada de volta para passar o Ano-Novo, com a temperatura muitos graus abaixo de zero, meus pais me deixaram para trás de novo, num posto de serviço vazio...

Quando saí do banheiro, vi Beatriz e Enzo entrando no carro. Eu já ia correr atrás, mas, no instante seguinte, o motor pegou e o carro arrancou.

Saí disparada, correndo atrás deles, e gritei a plenos pulmões:

— Pai! Mãe! Eu ainda nem entrei no carro!

Mas o carro virou logo adiante, se misturou ao fluxo da estrada e sumiu de vista.

Fiquei olhando para a direção em que ele desapareceu. Meus lábios tremeram, enquanto eu repetia, num fio de voz:

— Pai... Mãe... Eu ainda não entrei...

Minha voz era leve como fumaça. Mal chegou aos lábios, o vento cortante a rasgou e a espalhou pelo vazio daquele posto.

No segundo seguinte, o resto de espanto e inconformismo que ainda resistia dentro de mim foi engolido por uma dormência gelada.

Desviei o olhar devagar e olhei em volta.

O posto era grande demais, silencioso demais, vazio demais.

Sob a luz amarelada dos postes, tudo ao redor era branco e opaco. Não se via viva alma.

Ao longe, na estrada, os carros passavam em disparada. Os faróis se esticavam em rastros borrados de luz, mas nenhum deles parou por mim.

Eu não tinha coragem de sair andando sem rumo. Meus pés pareciam pregados no chão, pesados como chumbo, enquanto dentro de mim ainda restava um fiapo de esperança.

Talvez meus pais nem tivessem ido tão longe assim. Talvez percebessem que eu não tinha entrado no carro e voltassem na mesma hora para me buscar.

Agarrei a barra da roupa com força e fiquei encarando a curva onde o carro tinha sumido, esperando, vez após vez, ver aparecer de novo aquele carro branco que eu conhecia tão bem.

O frio só piorava. Era como se a friagem estivesse entrando pelas frestas dos ossos, me congelando de dentro para fora.

Os dedos dos pés já estavam dormentes, perdendo a sensibilidade aos poucos.

Minhas bochechas também ardiam, vermelhas de tanto vento. As lágrimas giravam nos meus olhos, mas eu não deixava cair.

Eu sabia que, mesmo se chorasse, ninguém viria me consolar.

Sem conseguir mais suportar o vento cortante, virei de costas e fui me arrastando de volta na direção do banheiro.

Perto da entrada, ao menos ali dava para se abrigar um pouco do vento.

Dentro do banheiro, o silêncio era absoluto. Só se ouviam minha respiração fraca e o uivo do vento lá fora.

Todas as mágoas que eu passei a vida inteira engolindo vieram de uma vez, como uma maré violenta, e me afundaram por completo.

Lembrei do meu aniversário no ano passado. Todo mundo em casa esqueceu.

Minha mãe só se lembrou três dias depois, quando bateu o olho no calendário.

Sem dar importância, ela tirou da geladeira um pedaço pequeno de bolo que tinha sobrado.

— Seu aniversário atrasado. Anda, come logo.

Quando falou aquilo, nem tirou os olhos da televisão.

No aniversário de Beatriz, a família inteira foi ao parque de diversões de que ela mais gostava, e no bolo encomendado ainda estava escrito: "Nosso orgulho".

O de Enzo foi ainda mais exagerado. Chamaram a turma inteira da pré-escola, e os presentes se amontoaram como uma montanha.

Desde pequena, Beatriz sempre era elogiada por ser inteligente e bonita. Enzo era o queridinho da casa, o que arrancava sorriso de todo mundo.

E eu?

— Tatiane é muito boazinha, nunca dá trabalho.

Esse era o rótulo que me deram, como um desenho apagado no papel de parede: estava ali, mas ninguém realmente notava.

Eu já nem sabia havia quanto tempo estava sentada ali. O último fiapo de calor no meu corpo se dissipava aos poucos, enquanto o frio ia me tomando por inteiro.

Quando eu já estava quase congelando, à beira de perder a consciência, ouvi passos leves do lado de fora.

Meu coração disparou.

Na mesma hora, despertei do torpor e ergui a cabeça, os olhos cravados na porta.

Será que era a minha mãe?

Será que ela finalmente percebeu que eu não tinha entrado no carro e tinha voltado para me buscar?

A porta se abriu com um rangido baixo.

Mas quem entrou foi uma mulher desconhecida, embrulhada num casaco pesado de plumas.

O brilho nos meus olhos se apagou no mesmo instante. Um sorriso amargo curvou meus lábios.

No fim, eu tinha imaginado coisa demais outra vez.

Quando me viu ali, a mulher ficou claramente surpresa.

Talvez não esperasse encontrar uma menina sozinha no banheiro de um posto tão afastado.
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