LOGIN— Tatiane, feliz aniversário.Ela falou isso chorando.— Dessa vez a mamãe lembrou... come, tá...Meu pai se agachou diante do túmulo e, com um lenço na mão, ficou limpando sem parar a minha foto na lápide, com uma delicadeza quase absurda, como se tivesse medo de me acordar.— Tatiane... o papai errou...A voz saiu embargada, quase se quebrando no meio.— Eu não devia ter dito que você estava enrolando... não devia ter deixado de voltar pra te buscar... me perdoa, filha... me perdoa...Beatriz deixou um pequeno buquê de flores brancas.Enzo colocou ali o carrinho de brinquedo de que ele mais gostava.O vento atravessou o cemitério, sacudindo os ciprestes num sussurro contínuo, como se respondesse, como se lamentasse.Depois daquilo, a família do tio Afonso quase não apareceu mais lá em casa.Desde aquela briga, a relação entre as duas famílias desandou de vez.Por fora, ainda mantinham o mínimo de convivência entre parentes. Mas todo mundo sabia que aquela rachadura nunca mais ia se f
Minha foto estava bem no centro, a foto oficial da escola tirada no ano passado. Eu usava o uniforme, sorrindo timidamente para a lente, com um brilho de esperança nos olhos.Pouca gente apareceu para o velório. Quase todos eram vizinhos ou velhos conhecidos da minha avó.Eles olhavam para a minha foto, balançavam a cabeça e suspiravam:— Uma menina tão boa... como pode ter ido embora desse jeito?— Ouvi dizer que morreu congelada num posto... como é que os pais foram deixar uma coisa dessas acontecer?— Ai, meu Deus... justo em época de festa, uma tragédia dessas...Minha mãe ficou ajoelhada diante do altar, chorando como se fosse se despedaçar ali mesmo, repetindo sem parar:— Tatiane, me perdoa... a mamãe errou... me perdoa... volta pra mim, por favor...Meu pai permanecia ao lado, com os olhos inchados e vermelhos. Parecia ter envelhecido de uma vez só.Beatriz também chorava muito. Passava a mão na minha foto e sussurrava:— Tatiane... me desculpa... eu não devia ter tomado seu lu
No rosto do policial, surgiu uma expressão de puro espanto.— Vocês esqueceram uma criança num posto de estrada, passaram quase quatro horas sem buscar ela e ainda deixaram a menina esperando num frio abaixo de zero com roupa tão fina assim?— A gente achou que o tio dela fosse chegar antes... — Murmurou meu pai, cada vez mais baixo.— E tem mais. — Continuou o policial, folheando as anotações. — Pelas imagens das câmeras, o carro do seu irmão entrou no posto às sete e cinquenta e dois da noite. Ficou ali por menos de um minuto. Ele nem desceu para procurar a menina e foi embora direto.Meu tio se apressou em se defender:— Mas eu olhei e não vi ninguém! Achei que meu irmão já tinha buscado ela!— Não viu e resolveu não procurar? Era uma criança de oito anos! O mínimo era descer do carro para confirmar, ou ligar para os pais dela! — Rebateu o policial, com a raiva contida na voz.— Vocês têm noção de que, pela avaliação inicial da perícia, a morte da menina aconteceu entre sete e meia
A sala inteira mergulhou num silêncio brusco.Só a voz do apresentador na TV continuava ecoando, despejando felicitações de Ano-Novo.— Tá... tá bom... a gente vai praí agora.Quando desligou o celular, meu pai pareceu esvaziar por completo. Afundou na cadeira, como se de repente já não tivesse forças nem para se manter sentado.— O que foi? Quem era?A voz da minha mãe tremia.Meu pai ergueu a cabeça. Os olhos já estavam vermelhos, e os lábios tremiam quando ele falou:— A polícia. Disseram que um motorista encontrou o corpo de uma menina congelada no posto. E, pelo que levantaram até agora... é a Tatiane...— Não!O grito da minha mãe rasgou a sala.— Não pode ser! A minha Tatiane não...!Ela nem conseguiu terminar.O corpo cedeu de uma vez.Minha avó correu para segurá-la, e a sala virou um caos.No caminho até a delegacia, minha mãe não parou de chorar um segundo.— Minha Tatiane... minha Tatiane não morreu... isso tá errado... eles se enganaram...Meu pai mantinha as mãos cravadas
Tio Afonso só fez pouco caso e acenou com a mão:— Uma menina tão pequena vai pra onde? Vai ver pegou carona com alguém que passava por ali e foi embora de propósito, só pra deixar vocês aflitos.Não!Eu me desesperei ali do lado, rebatendo aquilo sem parar, mas nenhum som saía.Com o rosto fechado, meu pai pegou o celular e retornou para os dois números pelos quais eu tinha ligado.A primeira ligação foi para a moça que me emprestou o celular. Meu pai colocou no viva-voz, e todos nós ouvimos quando ela respondeu:— A menina só usou meu celular. Ela disse que o tio vinha buscar ela, então eu fui embora. Como assim? Ela ainda não voltou pra casa?A segunda ligação foi para o homem que me emprestou o celular depois. Ele disse:— A menina usou meu celular, sim. Mas, depois da ligação, ela continuou esperando no posto. Eu até falei pra ela entrar no meu carro e se aquecer um pouco, mas ela não quis. Como assim? Vocês ainda não encontraram ela?Quando a ligação terminou, a sala inteira merg
— Ótimo, então eu vejo se ainda consigo reservar um quarto. — Se animou meu pai.Os dois continuaram falando, cheios de empolgação, sobre os planos do Ano-Novo: quem iam visitar, pra onde iam sair, o que ainda faltava comprar.Eu rodeei os dois, feliz, querendo dizer que também queria ir.Mas, quando abri a boca, não saiu som nenhum.Claro.Eu já estava morta. Não dava mais para ir com eles.De repente, Beatriz largou o celular e correu até minha mãe:— Mãe, meu celular descarregou. Me empresta o seu um pouco.— Menina, você só pensa em mexer no celular. — Reclamou minha mãe.Mesmo assim, entregou o aparelho a ela.Enzo também correu para perto do meu pai e puxou a barra da calça dele:— Pai, me dá dinheiro. Eu quero comprar rojão!— Uma hora dessas, comprar rojão pra quê? Amanhã você vê isso. — Cortou meu pai.Mas, ainda assim, tirou vinte reais da carteira.Enzo soltou um grito de alegria, pegou o dinheiro e saiu correndo.Em nenhum momento alguém falou de mim.Era como se eu nunca t