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A música vibrava tão alto no salão de festas do campus que Dakota Miller sentia o baixo batendo no peito, quase no mesmo ritmo do coração descompassado.
Hoje.
Tem que ser hoje.
Ela alisou pela quinta vez o vestido azul-claro que a colega de quarto lhe emprestara.
Curto demais, justo demais, tudo demais para uma garota que passara a vida inteira de jeans e botas sujas de terra.
Os cabelos castanhos, sempre presos numa trança de trabalho, caíam soltos sobre os ombros.
No espelho do dormitório, ela quase não se reconheceu.
Quatro anos em Stanford, a milhares de quilômetros do rancho, e só existia um nome em seus pensamentos desde que tinha doze anos.
Caleb Walker.
O filho do dono do rancho onde seu pai era capataz.
O menino que a ensinara a nadar no riacho, que dividira com ela sorvetes derretidos nos degraus da varanda, que um dia a carregara nas costas por três quilômetros quando ela torceu o tornozelo.
O garoto que se transformara em um homem alto, de olhos verdes e sorriso fácil, e que fazia o mundo dela inteiro tremer.
Ele cursava administração.
Ela, veterinária.
Cursos diferentes, círculos diferentes, mas o mesmo campus.
E depois de quatro anos de olhares de longe e conversas curtas nos corredores, a formatura estava a apenas uma semana.
Depois disso, ele voltaria para o Texas e ela perderia a coragem para sempre.
Ela ouviu a voz do pai na memória, na manhã em que partiu para a faculdade: "Coragem não é não ter medo, filha. É ir mesmo assim."
Dakota já tinha encarado touros furiosos, já tinha ajudado uma égua a parir às três da manhã durante uma tempestade.
Dizer três palavras para um rapaz não podia ser mais assustador que isso.
Podia.
Era.
Respirou fundo e atravessou o salão, desviando de copos, risadas e casais dançando.
Alguém lhe disse que ela estava linda, e ela corou sem saber responder.
Vasculhou a multidão até que o viu pelas portas de vidro que davam para o jardim.
Caleb estava lá fora, sob as luzinhas penduradas nas árvores.
De costas.
O coração dela deu um salto.
Ensaiou mentalmente: Caleb, eu preciso te dizer uma coisa que venho guardando desde...
Parou a poucos passos da porta, escondida atrás de uma coluna coberta de hera.
Porque ele não estava sozinho.
Havia uma garota loira, de vestido vermelho, com as mãos enroscadas no pescoço dele.
E Caleb a beijava como Dakota passara anos imaginando ser beijada.
O ar fugiu dos pulmões dela.
— Eita, Walker! — gritou alguém, e uma gargalhada coletiva explodiu.
Um grupo de rapazes ao redor da mesa de bebidas assobiava e batia palmas.
— Era isso que você estava esperando a noite toda?
— A Madison finalmente conseguiu! — riu outro.
Dakota recuou um passo.
Depois outro.
Mas a voz seguinte a alcançou mesmo assim:
— Cara, e a caipira? Aquela do rancho, que faz veterinária?
Mais risadas.
— Ela te segue pelo campus desde o primeiro ano. Vive dando um jeito de esbarrar em você.
— Coitada — disse outro, com uma pena que era pior que deboche.
— Passa quatro anos tentando ser notada por você. Dá até vergonha alheia.
— Hoje ela até se arrumou, vocês viram? Parecia uma vaquinha vestida de gente!
As gargalhadas se multiplicaram.
Madison era quem mais ria.
Dakota ficou paralisada, as unhas cravadas nas palmas das mãos.
Queria gritar.
Queria enfiar cada uma daquelas palavras goela abaixo dos rapazes.
Mas o que a destruiu de verdade foi outra coisa.
Caleb se afastara da loira.
Virou o rosto.
E seus olhos verdes encontraram os dela através do jardim.
Ele a viu.
Por um segundo interminável, nenhum dos dois se moveu.
O rosto dele mudou, a surpresa, algo parecido com choque, a boca se abrindo como se fosse dizer alguma coisa.
Mas ele não disse nada.
Não defendeu.
Não riu, também.
Apenas ficou parado, deixando os amigos terminarem de zombar dela.
— Dakota... — ele finalmente murmurou, dando um passo na direção dela.
Ela não esperou para ouvir o resto.
Dakota correu.
No segundo andar do prédio, longe do barulho, Brianna Sinclair encarava o celular como se ele tivesse acabado de lhe cuspir.
— Charles, você não pode estar falando sério.
A voz do padrasto soou fria do outro lado da linha, a quatro mil quilômetros de distância.
— Estou falando muito sério, Brianna. Você volta amanhã cedo. Sua mãe já escolheu o vestido, o jantar de noivado está marcado para sexta.
— Eu vou me formar daqui a uma semana!
— Você pode se formar casada.
Houve uma pausa pesada.
— Dominic Harrington é o único homem em Nova York disposto a injetar o capital que a empresa precisa. Sem ele, perdemos tudo. A casa, os carros, a vida que você leva. Tudo. Você entende?
Brianna fechou os olhos.
Lembrava muito bem de Dominic Harrington.
Tinha-o visto uma única vez, em um jantar beneficente, e ele a olhara de cima a baixo como quem avalia um contrato.
Trinta e dois anos, bilionário, terno impecável, olhos cinzentos e gelados.
Não sorrira nem uma vez a noite toda.
Um homem que dava ordens em vez de conversas. Que possuía em vez de amar.
— Eu não vou me casar com um iceberg só para salvar o seu negócio.
— Você vai, sim. — E Charles desligou.
Brianna ficou olhando para a tela escura, com o champanhe esquecido na outra mão.
Aos vinte e dois anos, ela tinha dançado em todas as festas de Manhattan, beijado quem quis, viajado para onde teve vontade.
Casamento era a última palavra que queria associar ao seu nome.
Sentiu os olhos arderem.
Brianna Sinclair não chorava em público, e muito menos em festas.
— Banheiro — murmurou para si mesma. — Preciso de um espelho e de um batom.
O banheiro do segundo andar estava vazio, ou foi o que Brianna pensou ao empurrar a porta.
Havia alguém debruçada sobre a pia, de costas, os ombros sacudindo em soluços abafados.
Uma garota de vestido azul, cabelos castanhos soltos, a água corrente abafando o choro.
Ótimo, mais uma coitada com o coração partido.
Brianna quase deu meia-volta.
Quase.
Mas então a desconhecida ergueu o rosto e as duas se encararam através do grande espelho.
O mundo parou.
A garota no espelho tinha os mesmos olhos castanho-dourados de Brianna.
O mesmo nariz fino.
A mesma covinha discreta no queixo, o mesmo arco das sobrancelhas, a mesma boca.
Era como olhar para si mesma, só que com a maquiagem borrada e sem um fio de cabelo alisado.
— Meu Deus — sussurrou Brianna.
Dakota se virou, devagar, o rosto molhado de lágrimas.
Os olhos se arregalaram.
— Você...
A voz saiu rouca.
— Você é... Eu estou... Eu bebi alguma coisa?
— Se bebeu, eu bebi também.
Brianna deu um passo à frente, hipnotizada.
— Isso é... Isso não é possível.
— Quem é você?
— Brianna. Brianna Sinclair.
Estendeu a mão, que tremia de leve.
— E você?
— Dakota. Dakota Miller.
Hesitou antes de apertar a mão dela.
A pele era quente, calejada.
A de Brianna, macia e perfumada.
Mãos tão diferentes.
Rostos tão idênticos.
— De onde você é?
— Nova York. Você?
— Texas. Um rancho perto de...
Dakota balançou a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
— Isso é loucura. Deve ser coincidência. Existem pessoas parecidas no mundo, não existem?
— Não tão parecidas.
Brianna inclinou a cabeça, os olhos estreitando-se com uma lucidez repentina que não combinava com a festa lá embaixo.
— Posso te perguntar uma coisa meio estranha?
— Acho que não pode ficar mais estranho do que já está.
— Seus pais... estão vivos?
Dakota demorou a responder.
— Meu pai, sim. Jackson.
A garganta dela se apertou.
— A minha mãe... morreu quando eu era bebê. Ele nunca gosta de falar sobre isso.
Brianna sentiu o sangue gelar nas veias.
— A minha mãe está viva… Mas meu pai... Disseram que ele morreu antes de eu nascer. Que eu nunca cheguei a conhecê-lo.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que o barulho da festa pareceu vir de outro planeta.
Duas garotas.
Dois rostos iguais.
Duas histórias que se encaixavam como peças de um mesmo quebra-cabeça.
— Quando é o seu aniversário?
Brianna perguntou, e a voz dela mal passava de um sopro.
Dakota engoliu em seco.
— Catorze de março.
Brianna sentiu os joelhos fraquejarem.
Segurou-se na borda da pia.
— O meu também.
Pela primeira vez na noite, Dakota esqueceu Caleb, a humilhação, os risos.
Esqueceu tudo, exceto aquela garota idêntica a ela que a encarava no espelho com os olhos cheios de perguntas.
E, atrás do olhar atordoado de Brianna, algo começou a se acender: uma ideia ainda em formação, perigosa e brilhante, que ela ainda não ousava dizer em voz alta.
— Dakota…
Disse Brianna, bem baixinho.
— Acho que a gente tem muito o que conversar.
O galo cantou às cinco da manhã, e pela trigésima vez em cinco semanas Brianna Sinclair desejou ter coragem de torcer o pescoço dele.Ela puxou o travesseiro sobre a cabeça. Do outro lado da parede fina da cabana, ouviu os passos de Jackson na cozinha, o ruído da chaleira, o tilintar das xícaras. Todas as manhãs a mesma rotina silenciosa, como se o mundo fosse um relógio bem ajustado e não a prisão de madeira e feno em que ela estava confinada.Cinco semanas. Trinta e cinco dias sem uma mensagem decente, sem uma loja, sem um salão, sem um único bar com gelo de verdade. O sinal de internet só pegava sem ficar caindo, no alto da colina, perto do estábulo. A cidade mais próxima ficava a quarenta minutos de caminhonete, e tinha um supermercado, uma farmácia e uma lanchonete que servia café aguado.Isso aqui não é vida, pensava ela, todos os dias, ao abrir os olhos. É um castigo.A porta do quarto se abriu devagar.— Brianna? O café está pronto. Os cavalos já comeram, mas o Caleb dis
O barco era um pesqueiro de madeira azul, tão velho que parecia feito de remendos. Dois homens de pele curtida pelo sol o manobravam, e um deles, de barba branca e olhos miúdos, ergueu uma lanterna ao ver as fogueiras na praia.— Santo Deus! — gritou, num inglês de sotaque carregado, quase cantado. — Gente viva! Achamos que o avião tinha caído no mar!Foi assim que conheceram Seu Mateus.O vilarejo ficava do outro lado da ilha, escondido numa baía de águas verdes: umas trinta casas de pedra e telhado de palha, barcos puxados para a areia, redes secando ao sol. Não havia postes, nem antenas, nem estrada de asfalto. À noite, a luz vinha de lampiões a óleo. O único rádio, explicou Seu Mateus, quebrara em outubro, e o barco de suprimentos só passava a cada cinco semanas, quando o mar permitia.— Cinco semanas — repetiu Dominic, e Dakota viu o músculo do queixo dele saltar.— Pode ser seis, se o tempo ficar ruim — acrescentou o velho, sereno. — Mas aqui ninguém passa fome.Acomodaram
A primeira coisa que Dominic Harrington fez ao pisar na ilha foi tentar assumir o comando.Reuniu a tripulação no pé da escada, pediu o inventário de bordo e começou a distribuir tarefas em tom de reunião de diretoria. O capitão Reeves, o copiloto Marcus e a comissária Elise ouviam com a cara de quem queria acreditar que alguém sabia o que fazer.— Vamos aguardar o resgate no avião — decidiu Dominic. — O sinal de emergência será captado em poucas horas.— Senhor — arriscou o capitão —, o localizador também está mudo. Parece que o raio queimou os circuitos.— Então vamos consertá-lo.— Eu não sou eletricista, senhor.— Eu pago uma fortuna para o senhor saber de tudo.— Não para isso, senhor.Dominic abriu a boca para responder, e foi quando a voz de Dakota se ergueu atrás deles, calma como a de quem fala com um cavalo assustado.— Antes de escurecer, a gente precisa de três coisas: água, abrigo e fogo.Todos se viraram. Ela estava a alguns passos, de calça de linho enlameada até o j
— Jackson, espere!A voz de Brianna cortou a sala como um chicote. Jackson estava com a mão na maçaneta e a caminhonete esperando lá fora. Ele não se virou.— Você vai fazer o quê? — continuou ela, correndo até a porta, descalça, o pijama emprestado batendo nos tornozelos. — Atravessar o Atlântico? Ela está no meio do oceano, no meio de uma tempestade, num avião que ninguém acha. Chegar a Nova York não muda nada!— Muda que eu estarei mais perto.— Perto de quê? Da mansão do Charles? Ela deu uma risada curta, nervosa. — Então vá. Bata na porta. E diga a ele o quê, exatamente? Que a mulher dele teve gêmeas e escondeu uma?A mão de Jackson parou na maçaneta.Brianna percebeu o efeito e avançou, aproveitando a brecha.— A mamãe nunca contou a ele. Nunca. O Charles acha que ela era uma garota que teve um filho de um caso qualquer, e acha que eu sou a única. Se você aparecer lá, ele descobre tudo de uma vez, o passado, a Dakota, a troca. E sabe quem paga primeiro? A Olivia.O nome par
A suíte nupcial ocupava o último andar do hotel, e tudo nela parecia gritar a mesma palavra: esta noite.Pétalas de rosa sobre a colcha branca. Velas acesas nos criados-mudos. Uma garrafa de champanhe num balde de gelo e duas taças de cristal, alinhadas com precisão cruel. Dakota parou na soleira, ainda de vestido de noiva, e sentiu os joelhos virarem água.Dominic entrou depois dela e fechou a porta. O clique da fechadura ecoou como uma sentença.Ficaram de pé, a três metros de distância, sem se olhar. Ele afrouxou a gravata devagar, tirou o paletó e o largou numa poltrona com uma calma estudada demais. Ela, enquanto isso, torcia uma ponta do véu entre os dedos até quase rasgar a renda.— Posso ajudar com os botões — disse ele, por fim, olhando o teto.— Não! A palavra saiu alta demais. Dakota respirou. — Quer dizer... obrigada. Eu me viro.Silêncio. Lá fora, a cidade piscava.Ela reuniu toda a coragem que tinha, a mesma que usara para dizer aceito, e se virou de frente para
O salão de baile do Hotel Aurelian tinha lustres de cristal do tamanho de carros pequenos, e Dakota pensou, com um calafrio, que cada um deles valia mais do que a casa onde nascera.Mil e duzentos convidados enchiam o lugar, e todos falavam ao mesmo tempo. Joias reluziam em pescoços, taças de champanhe tilintavam, risadas perfeitas ecoavam. Ninguém parecia respirar o mesmo ar que ela. Dakota segurava uma taça que não pretendia beber, apenas para ter o que fazer com as mãos, e procurava com os olhos uma saída que não existia.— Sorria — murmurou Dominic, ao lado dela. — Estão olhando.— Estão sempre olhando.— Casamentos são assim.— Eu nunca fui a nenhum — escapou dela.Ele virou o rosto devagar. Ela percebeu o erro e apertou a taça.— Quero dizer, nunca fui a nenhum como noiva.Dominic estreitou os olhos, desconfiado, mas um homem de terno cinza se aproximou para cumprimentá-lo e a conversa mudou de rumo. Dakota respirou.As felicitações vieram em ondas. Banqueiros, herdeiras,







