LOGINRenata soltou uma risada sem humor.
— É mesmo? — Ela se aproximou. — Até onde eu sei, eles eram namorados de infância. Cresceram juntos por mais de quinze anos, muito antes de você sequer aparecer nas nossas vidas.
— E você diz que chegou primeiro? — Renata apontou para si mesma. — Eu estava lá. Eu lembro de tudo muito bem. — Depois olhou para Henrique. — E você também.
Henrique permaneceu em silêncio.
Enquanto a discussão continuava, a história daquele grupo começava a se revelar. Lorena, Leonardo, Henrique e Renata tinham estudado boa parte da vida juntos — pouca diferença de idade, nem sempre na mesma sala, mas praticamente dentro do mesmo círculo, já que as duas famílias eram amigas. Lorena havia sido adotada pelo avô de Leonardo quando tinha apenas cinco anos, e desde então os dois eram inseparáveis. Henrique era o melhor amigo de Leonardo; Renata, a melhor amiga de Lorena.
Renata tinha visto Lorena crescer — vira uma menina alegre, que falava pelos cotovelos, se transformar numa criança que perdeu a capacidade de falar, uma criança que passou a se esconder atrás deles, com medo de ocupar espaço. Tinha visto tudo: Lorena crescer e se apaixonar por Leonardo, e Leonardo protegê-la com unhas e dentes.
Para Renata, aquilo nunca tinha sido apenas irmandade ou amizade. Uma vez, ela chegou a acreditar de verdade que Leonardo amava Lorena. Um dia, ele até entrou no fogo para salvá-la. Leonardo faria qualquer coisa por Lorena.
Mas tudo começou a mudar quando Amanda apareceu. Foi durante o ensino médio que ela entrou definitivamente na vida deles: Lorena e Leonardo começavam uma nova fase dos estudos, Henrique e Renata já estavam terminando, e foi justamente nessa época que surgiram os rumores de que Leonardo e Amanda estavam apaixonados.
Renata nunca soube exatamente quando tudo mudou. Ou se realmente tinha mudado. Mas, de repente, o amigo que antes conversava com ela durante horas quase não falava direito, e anos de amizade viraram discussão atrás de discussão. Às vezes ela nem entendia como Henrique ainda conseguia lidar com ele porque ela já tinha desistido.
E, mesmo assim, ela ainda se lembrava daquele garoto o que passava horas ao lado de Lorena, o que entrava na frente dela quando alguém tentava machucá-la, o que parecia incapaz de deixá-la sozinha. Talvez tivesse sido Amanda. Ou talvez tudo aquilo fossem só suposições suas.
De volta ao bar, Amanda cruzou os braços.
— Lorena era órfã. E teve a sorte de ser adotada pela família de Leonardo.
Leonardo olhou para Renata.
— Pede desculpa.
Renata arregalou os olhos.
— Quem, eu? Acho bom você parar de sonhar.
Ela olhou para Leonardo.
— Você abandonou sua esposa para mimar esse tipo de pessoa. Você é realmente incrível.
Leonardo a encarou.
— Renata. — Ela não recuou. — Renata, pede desculpa. Não vou dizer uma de novo.
— Eu peço desculpas por ela — disse Henrique.
Amanda sorriu, mas não parecia satisfeita. Olhou para ele.
— Você pode pedir desculpas pela sua irmã. Mas eu preciso ver sinceridade. — Apontou para as garrafas sobre a mesa. — Beba.
Henrique esticou a mão em direção à garrafa, mas Renata a pegou primeiro.
— Beleza. Quer que eu peça desculpa? — Olhou diretamente para Amanda.
— Eu bati nela. Fui eu que fiz. — Segurou a garrafa. — Eu pago.
Ela ergueu a garrafa num gesto impulsivo, em direção à própria cabeça, como se fosse quebrá-la ali mesmo — mas antes que conseguisse, uma mão segurou seu braço.
Era Lorena.
Todos se viraram. Renata olhou para ela, surpresa.
— Lo?
Lorena soltou a mão devagar.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Leonardo.
Lorena encarou Henrique, depois olhou para Renata, fazendo um gesto que indicava que ela era sua amiga.
Ela é minha única amiga. Eu não posso assistir você fazendo a vida dela difícil.
Leonardo a observou.
— Em vez de ficar obedientemente em casa, você veio aqui ajudar a Renata?
Eu peço desculpas por ela, gesticulou Lorena.
— O que ela tá gesticulando aí, querido? — perguntou Amanda.
Leonardo traduziu.
— Ela veio pedir desculpas por Renata.
Amanda olhou para Lorena.
— É mesmo? Eu posso aceitar. — Cruzou os braços. — Mas ela precisa ser sincera. — Virou-se para Leonardo. — Eu não entendo esses gestos dela. — E de volta para Lorena: — Quero que ela peça desculpas em alto e bom som.
Lorena fez um gesto claro de desculpas em sinais. Amanda balançou a cabeça.
— Não entendi.
Ela olhou para Leonardo.
— Ela está fazendo pouco caso de mim.
Leonardo permaneceu calado. Amanda voltou-se para Lorena.
— Eu quero ouvir.
Lorena olhou para Renata, depois para Amanda. Sabia que não podia falar. Amanda sorriu.
— Você não consegue nem pedir desculpas?
— Amanda, para com isso — interveio Henrique, finalmente. — Você se sente bem fazendo bullying com alguém que tem uma deficiência?
Lorena olhou para Leonardo, que continuava sem dizer nada.
— Eu só quero um pedido de desculpas — insistiu Amanda.
Lorena baixou os olhos. Então ergueu a mão e a bateu no próprio rosto.
Todos ficaram assustados.
Renata deu um passo em sua direção — "Lorena!" —, mas Lorena a segurou, impedindo-a de interferir.
Amanda observava. Lorena ergueu a mão de novo, e, antes que conseguisse fazer outro movimento,
Leonardo bateu a mão com força sobre a mesa.
— CHEGA!
O bar inteiro pareceu silenciar ao redor deles.
Por alguns segundos, ninguém disse nada. Ele permaneceu parado no centro do salão, olhando para o lugar onde ela estivera. Dessa vez, não sentiu satisfação. Só alívio. Porque, durante anos, tudo o que quisera fora uma coisa: que ela finalmente respondesse pelo que fizera com seus pais. Mas, ao descobrir que ela continuara cometendo crimes durante todos aqueles anos, percebeu que não precisaria depender apenas de uma história de vinte anos atrás — ela mesma deixara novas provas, e dessa vez não havia mais como escondê-las.Toda a força que sustentara aquela noite pareceu desaparecer por um instante. Lorena se aproximou devagar, parou diante dele. Ele olhou para ela. Sem dizer uma palavra, ela o abraçou. Ele fechou os olhos e a envolveu com os braços, apertando-a contra o peito. Ela beijou seu rosto, depois seus lábios — um beijo breve, cheio mais de alívio do que de paixão.— Acabou.— Acabou — respirou fundo ele.Ela segurou o rosto dele entre as mãos.— Você não precisa mais ser fort
— Vocês realmente acham que isso vai me prender? — Olhou para Leonardo. — Sim. Eu mandei matar seus pais. Sim, eu troquei os bebês. — Sorriu. — Eu fiz tudo. E daí? O crime prescreveu, meu filho querido.Olhou ao redor da sala.— Eu escolhi este dia justamente por isso. O dia do seu casamento. O mesmo dia em que seus pais morreram. — Sorriu. — Poético, não acha?Leonardo deu um passo à frente.— Hoje era o último dia — continuou ela, sorrindo ainda mais. — Você perdeu.Ele a encarou.— Não. Quem perdeu foi você. — Uma pausa. — Você fez todos esses cálculos, não fez? Achou que bastava esperar o tempo passar.— Porque basta.— Você está esquecendo de uma coisa. — Ele pegou uma pasta. — Nós também fizemos as contas. Você passou anos entrando e saindo do país. Cada viagem. Cada período em que desapareceu. Cada vez que deixou o Brasil. — Colocou documentos sobre a mesa. — Nós levantamos tudo.* * *— Isso não significa nada.— Significa que a sua conta não fecha. — A expressão dela começou
Segurou o braço dela.— Por que seu filho não é essa aqui?Amanda arregalou os olhos. Leonardo olhou diretamente para a mãe.— Se eu me casasse com Amanda e tivesse um filho com ela... você manteria a criança e se livraria de mim. Depois tomaria o controle da família. — Uma pausa. — Não foi esse o seu plano desde o começo?— Não é assim, Leonardo — disse Amanda. — Eu realmente amo você.Ele a encarou, frio.— Amanda... eu prometi que daria a você o maior casamento da sua vida. — Olhou ao redor. — Um que você nunca esqueceria. — Uma pausa. — O que achou?Ela começou a chorar.— Você não pode fazer isso comigo. Você não me ama?Ele soltou uma risada curta.— Amar você? — Aproximou-se. — Você atuou por tanto tempo que eu comecei a achar que era real. Abra os olhos. E encare a verdadeira realidade. — Ela chorava. — Eu nunca amei você. Não houve um único momento em que senti alguma coisa por você que não fosse nojo. Cada vez que você encostava em mim, eu precisava tomar banho pra tirar a s
Então disse a única coisa que ainda era verdade.— Eu estava no terraço. Não queria te acordar. — Uma pausa. — Faltam dez dias, Amanda. Eu não estou conseguindo respirar.Ela ficou olhando para ele. Um segundo. Dois. Leonardo me contou depois que viu, no rosto dela, o exato momento em que ela escolheu acreditar — porque acreditar era o único caminho para o casamento que sempre quis.— Você está nervoso — disse ela, devagar.— Estou.— Eu também.Ela se levantou e o abraçou. Leonardo fechou os olhos e a envolveu com os braços. Sentiu o perfume de sabonete de hotel, o cabelo dela contra o queixo.Pela primeira vez em meses, mentir doeu de verdade.Deitado ao lado dela, olhando o teto até o sol nascer, Leonardo ainda sentia na palma da mão os dois chutes. Contou os dias. Dez. Nunca uma contagem regressiva tinha sido tão longa.* * *Faltava um dia.Naquela noite, cada um estava num canto da cidade, no seu papel. Leonardo, no jantar de ensaio, ouvindo a mãe repassar a ordem dos padrinhos.
O restaurante ficava no mezanino, com mesas separadas por painéis de vidro fosco. Leonardo escolheu a do fundo, a mais escura, e chegou vinte minutos antes só para conferir cada rosto na sala.Pela primeira vez em muito tempo, estavam sozinhos — sem mãe, sem Amanda, sem Henrique, sem Renata. Sem câmeras, sem precisar interpretar. Leonardo segurou a mão de Lorena sobre a mesa.— Eu tinha esquecido como era ficar perto de você sem precisar olhar pra trás.— Eu também.Ele olhou para a barriga dela, depois sorriu.— E eles?— Estão bem.— Eu perdi tanta coisa.Ela tirou algo do bolso do casaco: dois fones, ainda enrolados. Colocou um na orelha dele, outro na própria. Apertou um botão.Primeiro, só o chiado. Depois, dois batimentos, rápidos como asas de passarinho, ligeiramente fora de compasso, um correndo atrás do outro.Leonardo fechou os olhos. Não disse uma palavra.— Eu gravei na consulta. Achei que você merecia ouvir — disse ela, baixinho. — Ainda temos tempo pra viver tudo que per
— Não é nada, Amanda, já bati meu pé. Vai dar uma olhada em outra calça pra mim, essa está apertada.* * *Ela se aproximou mais dele, colada em seu corpo.— Tá bom, querido, já volto — respondeu Amanda, do outro lado.Salto contra o piso, cada vez mais longe. Ele virou a cabeça de Lorena para si e os dois se beijaram com urgência.— Você disse um minuto — provocou ela. — Consegue?— Não me provoca — ele murmurou, a mão no pescoço dela.— Não me atreveria. Vamos rápido, eu tô pronta.Ele ergueu a saia do vestido dela.— Eu vou acabar sendo preso antes da minha mãe.Não vou descrever o que aconteceu nos minutos seguintes. Só vou contar que Amanda voltou duas vezes com calças novas, e que duas vezes Leonardo as recebeu pela fresta da porta, com a voz de quem estava pensando em outra coisa.— Também não serve.— Querido, ninguém no mundo tem tantas calças!— Talvez o problema seja eu.Então, da recepção: atchim. Um segundo depois: atchim.Lorena abriu os olhos. Duas vezes. Perigo.— Onde







